O conceito de habitus contribui para uma maior compreensão sobre as razões pelas quais os agentes tomam decisões e agem dentro do campo. Essa noção não é uniforme e varia, dentro desse espaço, de acordo com a história e a posição social ocupada pelo sujeito.
As diferentes posições sociais exercem papéis distintos. Enquanto as mais privilegiadas buscam manter a estrutura de distribuição de bens, as menos privilegiadas buscam o acesso ao capital específico através de vias consideradas legítimas, ou de mudanças na conformação do campo. A essas diferentes posições, que funcionam como sistemas simbólicos, que não derivam por questões biológicas, mas sim pelo habitus de seus membros, Bourdieu (1996a) dá o nome de classes (que também podem ser chamadas de grupos sociais).
Mora nesse aspecto um ponto de diferença conceitual entre a obra de Bourdieu e a de Karl Marx, outro importante autor que se utiliza do conceito de classes. Enquanto as classes de Marx são baseadas apenas no acesso ao capital econômico e na relação com a força de trabalho, Bourdieu considera, em suas diferenciações, critérios mais amplos, que se utilizam de outras formas de capital (MARQUES; GUTIERREZ, 2009).
Alguns autores brasileiros optam pela utilização do termo “grupos sociais”, ao invés de “classes sociais” ao reportarem-se à obra de Pierre Bourdieu, num exercício de diferenciação em relação ao conceito de Karl Marx. Porém, tem-se que Bourdieu (1994), entre outros exemplos de sua obra, na versão original, em francês, do livro “Raisons pratiques: sur la théorie de l'action”, no capítulo “Espace social et espace symbolique” utiliza o termo “classe”, com mesmo significado em português. Isso acontece em inúmeros outros exemplos de sua obra. Deste modo,
ao abordar a obra de Bourdieu, é possível apropriar-se do termo “classe”, numa tradução direta em relação a seu escrito original, ou do terno “grupo”, para a realização de uma diferenciação útil e, por vezes, necessária à categoria de Karl Marx.
Neste trabalho, por questão de opção, numa tentativa de aproximar-se da versão original deste autor, foi utilizado o termo “classe”. Porém, cabe reforçar a necessidade de compreendê-lo de forma distinta à utilização desta palavra por Karl Marx.
Classes, para Pierre Bourdieu (1989b), podem ser definidas como conjuntos de agentes que ocupam posições semelhantes e que, colocados em condições e com sujeitos semelhantes, têm maior probabilidade de tomadas de posição semelhantes. Um conjunto de agentes é tanto maior quanto for sua proximidade no espaço social, e quanto mais restrita e homogênea a classe a qual pertence.
Além disso, as classes são consideradas a partir de suas relações simbólicas, como sistema de diferenças percebidas e apreciadas pelos sujeitos sociais, como estruturas de distinções cotidianas de classificação significantes (BOURDIEU, 1983d).
O conceito de classe, para Bourdieu, advém da aproximação de agentes por causa de seu
habitus. Embora nem todos os membros de uma classe têm ou tiveram as mesmas experiências
geradoras de um habitus, eles têm uma maior probabilidade de experimentá-lo de forma parecida, do que em relação a membros de outras classes (BOURDIEU, 1983e e 1996a).
A simples aproximação no espaço social não garante a formação de um grupo, uma unidade com interesses comuns, como na perspectiva marxista. O que garante a formação de uma classe na lógica bourdiana é essa aproximação somada à similaridade do conceito de habitus. Embora próximos num espaço geográfico, ou até social, os sujeitos podem pertencer a classes sociais diferentes (BOURDIEU, 1996a). Outra alternativa para a diferenciação semântica entre o conceito de “classe” de Bourdieu, com o utilizado por Marx é denominar o objeto do primeiro como “grupo social”, visto que implica na reunião de sujeitos com mesmas características sociais, com variações mais amplas entre elas.
Os papéis sociais, oriundos das posições sociais, acabam se colocando como referenciais para a percepção do outro, ao mesmo tempo em que o são para o próprio comportamento. Quando se aprende o significado de um papel social, aprende-se também o do papel do outro (CIDADE, 2006).
A posição de determinado agente no macrocosmo do espaço social é definida pela posição que ele ocupa nos diferentes campos, quer dizer, na distribuição e possibilidade de acesso aos poderes que atuam em cada um deles (BOURDIEU, 1989b). Ou seja, o conceito de classes extrapola o de campo. O agente pertence a determinada classe e atua nos diferentes campos de acordo com o habitus próprio desta. Porém, a mesma classe pode ocupar posições diferentes em campos distintos.
As classes no espaço social não existem como grupos reais, embora existam grupos práticos (família, clubes, associações). O que existe é um espaço de relações real, delimitado objetivamente, com mudanças de lugar entre os agentes. Tais sujeitos podem ser reagrupados em diferentes classes no espaço social de acordo com o critério e princípio de divisão dos grupos. Isso rompe com a lógica marxista, pois faz das classes um corpo criado teoricamente (BOURDIEU, 1989b).
O conceito de classe é resolvido através do conceito de espaço social. Ou seja, pode-se negar a existência de classes sem negar a diferenciação social, que pode gerar antagonismos individuais e, às vezes, enfrentamentos coletivos entre os agentes situados em posições diferentes do espaço social. Por isso, a ciência social deve construir espaços sociais ao invés de classes, no interior dos quais tais grupos de sujeitos possam ser separados e recortados metodologicamente (BOURDIEU, 1996b).
No espaço social, as classes se relacionam de forma antagônica, podendo os sujeitos migrar entre elas. A dominação existente de uma classe sobre outra é mantida pela violência simbólica.
Devido ao fato de variarem de acordo com os habitus dos sujeitos, as diferentes classes sociais apresentam tendências próprias relacionadas a ações, gostos e estilos de vida de seus membros, visto que isso depende, de certa forma, das condições de percepção e ação do espaço que o grupo proporciona aos mesmos. Nas palavras de Bourdieu (1983f), tais diferenças e especificidades são uma retradução simbólica de traços diversos inscritos objetivamente (condição econômica e social) nas condições de existência.
As preferências inseridas no estilo de vida derivam e variam de acordo com os graus de acesso e urgência que as diferentes posições sociais têm em relação à apropriação material e simbólica. Quando o acesso ou consumo urgente, básico, de sobrevivência é garantido, pode existir a preocupação com outras formas de apropriação mais sofisticadas (BOURDIEU, 1983f).
As práticas e propriedades, ou seja, os estilos de vida, objetivos quanto ao grupo social, são produtos do habitus sob a forma de preferências sistemáticas, determinadas principalmente pelo gosto, fator este muitas vezes autônomo em situações de mudança de posição social, nas quais o habitus foi produzido em situações diferentes da que ele se exprime (BOURDIEU, 1983f).
O estilo de vida dos sujeitos deriva de sua posição social, mais que isso, do seu acesso a bens básicos de sobrevivência. Por isso, num primeiro momento, derivam de percepções objetivas. Quando o agente se encontra numa situação de maior conforto em relação ao acesso a tais bens, o estilo de vida pode tomar um caráter mais subjetivo, visto que a garantia das necessidades básicas está garantida e é possível escolher outras formas de consumo de acordo com o desejo unicamente (MARQUES, 2007).
Desse modo, o gosto, uma propensão e aptidão por escolha de determinada categoria de bens, se faz como a fórmula geradora dos estilos de vida. Quanto mais elevado na escala social, mais os gostos de necessidade do sujeito estão garantidos, e maiores são as possibilidades de acesso aos gostos de liberdade (BOURDIEU, 1983f).
Sendo o gosto uma resultante entre o que é oferecido pelo produto e o que é desejado pelo consumidor, compreendê-los exige explorar a relação entre como o bem é feito e quem o consome. Os gostos mudam muito em relação à produção de oferta e a uma demanda (BOURDIEU, 1983b).
Normalmente, como é a classe dominante quem estabelece os parâmetros do valor e poder simbólico, é a demanda produzida por ela que aponta quais os objetos legítimos de valorização. Isso leva à determinação do que são coisas boas e ruins. Essa hierarquia dos bens é o que orienta os investimentos pelas oportunidades de lucro material e simbólico (BOURDIEU, 1998a).
As classes sociais têm, nos seus gostos preferidos e, em conseqüência, em seu estilo de vida, uma amostra de seus valores culturais, adquiridos pela sua história e acesso a educação. Por isso, essa categoria se faz como um seguro fator de observação e constatação de diferenças entre grupos ou posições sociais.
Outra categoria importante para a análise metodológica dessa diferenciação se encontra nas estruturas sociais. As classes sociais são partes constitutivas da estrutura social em que se encontram. Expressam um grau de dependência da totalidade e possuem propriedades de posição de acordo com essa estrutura. Nesse sentido, um único sistema de critérios utilizado para definir
determinada classe numa pequena sociedade, uma vez aplicado a uma sociedade global, determinará uma categoria estruturalmente diferente. Isso acaba por impedir a transferência direta e indevida de esquemas descritivos e explicativos de uma sociedade à outra, ou a uma época à outra da mesma sociedade. Da mesma forma, a posição de um indivíduo jamais deve ser tomada como estática, como relativa a uma dada estrutura. É preciso considerar que a posição atual do sujeito é um ponto em sua trajetória histórica (BOURDIEU, 2003).
Ou seja, é um cuidado metodológico no trabalho com a obra de Bourdieu, que haja a contextualização e o respeito às características sociais da estrutura e espaço com que se está lidando, na tentativa de impedir equívocos de conclusão científica.
Desse modo, para comparar duas classes sociais não se deve proceder de forma direta. Deve-se, primeiro, comparar e equivaler suas estruturas. A comparação entre classes só pode ocorrer em estruturas semelhantes, pois as características das diferentes classes dependem de seu peso funcional na estrutura, proporcional à sua contribuição para a constituição da mesma (BOURDIEU, 2003). Como exemplo simples, não se pode comparar atletas da Grécia antiga (com práticas pautadas no culto aos deuses e na transformação dos vencedores em semi-deuses), com atletas profissionais da NBA (Liga norte-americana de basquetebol profissional) nos dias atuais, com práticas pautadas no profissionalismo e lucro financeiro, pois ambos atuam em sociedades e estruturas diferentes, nas quais, como cita Allen Guttmann (1978), o primeiro não apresentava regras escritas, burocratizadas e com resultados quantificados, enquanto que nos tempos atuais isso ocorre e direciona a lógica de atuação dos agentes.