A fase exploratória, diz Minayo (1996), inicia o processo de estudo onde o foco central é a construção do projeto de investigação. Dessa fase, fizeram parte as seguintes atividades: a busca de fundamentação teórica, o desenvolvimento do método “Conheça-te a ti mesmo” e o planejamento da ida à campo.
Segundo Fourez (1995), os processos de construção do saber começam com um olhar para o mundo carregado de idéias na cabeça: idéias preconcebidas, representações, modelos ─ científicos, pré-científicos, ou míticos.
O olhar em busca de fundamentação teórica não foi diferente. E mais, somou-se, às muitas idéias, o amor intelectual pelos objetos da pesquisa que Einstein, citado por Alves (1996), definiu. Emoção, intenção e objetividade impulsionaram a busca do seguinte referencial: a) identificação da imagem de ser humano que este estudo privilegia e dos modelos de organização e liderança que potencializam e são potencializados pela prática da maestria intrapessoal (capítulo 2); b) entendimento de maestria intrapessoal como ampliação da percepção de maestria pessoal, sob o olhar da jornada do herói (capítulo 3) e c) embasamento em mitologia, contação de histórias e aprendizagem vivencial para fundamentar a criação do método para o desenvolvimento da maestria intrapessoal de líderes (capítulo 4).
As escolhas feitas sobre a fundamentação teórica inspiraram o desenvolvimento do método “Conheça-te a ti mesmo”, mas não foram suficientes para a sua concepção. O movimento relacional entre estudo e fatos da vida cotidiana gerou reflexão que trouxe, por exemplo, a lembrança dos doze trabalhos de Hércules, relacionando-os à noção recém-aprendida de maestria intrapessoal. Portanto, segundo relato da pesquisadora no diário de campo, a concepção do método ocorreu em movimentos de ir e vir entre o mundo das idéias e o mundo vivenciado.
A idéia de busca por maestria intrapessoal mostrava-se mais fidedigna à experiência que eu estava vivendo. Logo me veio à lembrança, um livro que li na casa de uma amiga sobre os 12 trabalhos de Hércules. Ao lembrar que o livro relacionava os 12 trabalhos com o processo de autodesenvolvimento dos seres
humanos, de imediato relacionei com maestria intrapessoal. Ao relacionar maestria intrapessoal com os doze trabalhos de Hércules, um novo processo de busca bibliográfica foi necessário. Encontraram-se versões diferentes de contação dos doze trabalhos; enfoques diferentes (pedagógico, psicológico) e estudos diferentes ligados à astrologia e ao esoterismo.
Por fim, a formação em dinâmica de grupos e a experiência em aprendizagem vivencial da pesquisadora contribuíram para a criação do método vivencial “Conheça-te a ti mesmo” voltado para o desenvolvimento da maestria intrapessoal de líderes, disponível no Capítulo 6.
A última etapa da fase exploratória é o planejamento da ida à campo. Essa etapa foi composta pelas seguintes atividades: 1) a escolha das técnicas de levantamento de dados, 2) a construção de instrumentos para a pesquisa de campo, 3) a definição pela participação de outras observadoras nos encontros, 4) a definição do campo de aplicação, 5) a definição do local dos encontros, 6) o planejamento didático de cada encontro.
Seguindo os pressupostos definidos na perspectiva do estudo que apontam para métodos qualitativos de pesquisa, a escolha das técnicas de levantamento de dados definiu-se pela observação participante e entrevista coletiva semi-estruturada.
A técnica de observação participante acontece no encontro direto do pesquisador com o fenômeno observado, pontua Cruz Neto em Minayo (1996). Sua importância reside no fato de poder-se captar uma gama de situações que não são obtidas por meio de perguntas, por exemplo.
Fourez (1995) coloca que a observação não é totalmente passiva, traz em si certa organização da visão. É um processo onde se estrutura aquilo que se quer observar. Nesse sentido, o que se buscou observar, em primeiro lugar, foi a aplicação do Método “Conheça-te a ti mesmo” no espaço dos encontros vivenciais com líderes, com o intuito de validá-lo.
Em conjunto com a observação participante, esta pesquisa optou pela entrevista coletiva semi-estruturada fundamentada em Bogdan e Biklen (1994). Os autores afirmam que a utilidade da entrevista está no recolhimento de
dados descritivos na linguagem dos próprios sujeitos, permitindo ao pesquisador a visualização da maneira como estes interpretam aspectos da realidade. E complementam, a entrevista, quando semi-estruturada, oferece dados comparáveis entre os vários sujeitos por meio de questões abertas e, quando feitas em grupo, levam os sujeitos entrevistados a estimular uns aos outros, sentindo-se encorajados a refletir e falar sobre um tema. Com esse tipo de entrevista, buscou-se avaliar o método “Conheça-te a ti mesmo” com os líderes participantes dos encontros vivenciais.
Em seguida, foram elaborados os instrumentos para a pesquisa de campo: o diário de campo e o roteiro com questões gerais para a entrevista coletiva semi-estruturada.
O diário de campo é um instrumento ao qual se recorre em qualquer momento do trabalho. Normalmente, seu uso acontece em todas as fases do ciclo de pesquisa. Cruz Neto em Minayo (1996) o define como um instrumento pessoal e intransferível que, quando bem utilizado, oferece rico auxílio à descrição e análise do objeto estudado. No diário de campo foram registradas notas de campo (descrição das pessoas, lugares, acontecimentos, atividades, falas) e notas da pesquisadora (reflexões, notas teóricas, metodológicas e questões a serem exploradas com maior profundidade).
Entrevistas qualitativas com certo grau de estruturação centram-se em tópicos determinados ou são guiadas por questões gerais, afirmam Bogdan e Biklen (1994). A criação de um “roteiro com questões gerais para a entrevista coletiva semi-estruturada” teve essa intenção.
Além dos instrumentos citados, fez-se necessário providenciar “ficha com dados demográficos para a descrição do grupo dos participantes” (idade, profissão, formação, cargos de liderança já ocupados, organização em que trabalha) e “ficha com autorização dos participantes para uso dos dados pesquisados” (descrição da proposta de estudo, com definição do âmbito do sigilo – uso ou não de nomes, de imagens fotográficas, de falas gravadas).
facilitadora24 dos encontros vivenciais, o que sinalizava comprometimento para a função de observação. Segundo Laville e Dionne (1999), quando o pesquisador integra-se ao grupo com um papel a desempenhar, limita sua disponibilidade como observador. Um exemplo disso é que nem sempre o pesquisador pode fazer anotações durante sua observação e ao ter de depender de sua memória, pode tornar o quadro de observação mais impreciso. Assim a definição pela participação de outras observadoras nos encontros foi imprescindível. Em encontros alternados, duas colaboradoras, com formação em Dinâmica dos Grupos e prática em observação, atuaram nessa função.
A atividade seguinte envolvia a definição do campo de aplicação. A atuação da pesquisadora, nos últimos anos, como voluntária em organizações do terceiro setor, influenciou a busca pelo campo de aplicação. Somados a isso, dois pontos importantes delinearam a decisão: a preocupação com o público e o acesso a ele. Em função das intenções do estudo, definiu-se que o público seria constituído por indivíduos interessados em liderança e maestria intrapessoal, e que estivessem trabalhando em organizações. A escolha por líderes comunitários envolvidos com o Fórum do Maciço do Morro da Cruz ocorreu por meio do acesso facilitado pelo coordenador do fórum, Padre Vilson Groh25.
Para a definição do lugar de encontros, alguns pré-requisitos foram observados: 1) sala grande e vazia o suficiente para se poder sentar ao chão e fazer exercícios de dinâmica de grupos, 2) sala com estrutura para servir coffee-break, 3) sala no centro da cidade para facilitar o acesso aos líderes participantes, em sua maioria, moradores do Maciço do Morro da Cruz. Muitas buscas foram implementadas. Por fim, conseguiu-se uma sala que atendesse a esses requisitos no SAESC (Sindicato dos Administradores de Santa Catarina).
A aplicação do método “Conheça-te a ti mesmo” no campo de pesquisa 24
A palavra facilitadora será utilizada para identificar a autora deste trabalho, no contexto de facilitação do grupo de líderes nos encontros vivenciais.
25 Padre católico, educador e pesquisador. Graduado em Filosofia e Teologia e mestre em
Educação. Coordena ONGs que atuam com Educação Popular para crianças e jovens na grande Florianópolis. Articula e desenvolve redes locais e internacionais para o desenvolvimento social sustentável.
demandou planejamento para quatorze encontros. Doze deles sobre os trabalhos de Hércules e os dois outros para introduzir e finalizar a proposta de desenvolvimento de maestria intrapessoal de líderes. Associado ao último encontro, ainda, previa-se a avaliação do método por parte dos líderes participantes.
Um planejamento didático foi necessário para cada encontro, envolvendo os seguintes aspectos: objetivos, conteúdos, estratégias de ensino- aprendizagem, recursos didáticos, tempo, infra-estrutura necessária, como sala, recursos materiais e coffee-break.
Com o planejamento da ida à campo, encerrou-se a fase exploratória da pesquisa. Nesse momento, configura-se, como possibilidade objetiva, a criação de conhecimento, partindo da realidade presente no campo de pesquisa.