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Os argumentos e posturas nos encaminham para outro fator que é a constante crítica e denúncias de situações onde o negro é colocado como vítima e que está presentes em todos os trabalhos. E assim como o envolvimento, as denúncias ou críticas variam em cada uma das dissertações. Algumas críticas são relacionadas ao período de produção das dissertações e outras aos períodos estudados em seus conteúdos.

Dentre as consideradas, uma das maiores críticas feitas numa perspectiva histórica, está a que Lídia Cunha (1999) desenvolve sobre o movimento da Escola Nova dizendo que

(...) os escolanovistas são identificados com a preocupação de democratizar o ensino (...). Democratizar o ensino numa sociedade fortemente marcada pela hierarquia, sem considerar as diferenças étnicas dos grupos que formam a sociedade brasileira, seria não querer democratizar. Mas essa democratização que pela primeira vez se amplia para além dos estabelecimentos correcionais, é limitada e diferenciada. (CUNHA:1999. p 229)

Não negando a intenção do movimento, mas apresentando um argumento de exclusão racial presente no mesmo. A sociedade em que estava presente este movimento tendia para uma declarada exclusão racial. E muitas vezes este fato de exclusão não é nem mencionado, por democratização se entende um sentido amplo que é esquecido tinha um sentido diferente na prática daquele momento histórico da primeira metade do século XX.

Com a possibilidade de quem estuda um período mais recente, Delma Silva é mais contundente em sua análise da realidade escolar quando diz que

A escola, a despeito da multiplicidade cultural que a constitui, mantém a prática centralizadora no modelo eurocêntrico de cultura e produção de conhecimento, não tem considerado relevante o universo ontológico do alunado afordescendente, deixando-o à margem. (SILVA: 2000. p 06).

Essas duas primeiras críticas estão interligadas, porém se remetem a momentos diferentes. No entanto a situação do negro como o excluído existe nos dois momentos. E em grande parte dos trabalhos o sentido de excluído é recorrente. Seja excluído por um movimento de grande importância, seja quando sua cultura não está sendo trabalhada de forma adequada na escola.

Esta questão da escola como uma instituição eurocêntrica está presente também nos textos vistos no capítulo anterior sobre a década de 80. Conclui-se que é uma situação que se estende deste o início do século, chegando até a escola pública atual. E que se desenvolve na dificuldade do aluno em se inserir nesta escola.

Uma situação vivida por Delma Silva em sua pesquisa, já que foi desenvolvida também a base de entrevistas, é que os alunos da escola escolhida reconhecem a existência do racismo, mas nunca a presenciaram, outro elemento é perceber a situações racistas como brincadeiras, as quais ela faz a leitura como sendo um “grau sofisticado do racismo, embora aparentemente esteja apresentada de forma ingênua”69 Como grande parte das situações acabam por serem banalizadas e minimizadas diante da gravidade que autora identifica.

Sandra Urech diz que a educação seria um instrumento usado pelos profissionais da época para promover valores e práticas eugênicas que faziam parte de uma política

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maior de nação. Em que os negros, como atesta também Lídia Cunha, eram alvo dessa política eugenista e a educação era usada como um instrumento de controle.

Sandra Urech ainda propõe uma crítica à imagem que os livros criam da ciência como se essa fosse sempre ascendente e caminhasse para o benefício da sociedade. Para ela a pesquisa científica deveria ser apresentada também como um instrumento ideológico que pode trazer prejuízos para alguns setores da sociedade. A ciência não tão neutra como algumas vezes é apresentada nos livros.

Ainda sobre livro didático, Raynette Branco amplia o argumento de Sandra Urech para toda sociedade quando afirma que

(...) contradições inerentes à sociedade não aparecem na maioria dos livros didáticos de História do Brasil, uma vez que eles camuflam as diferenças e dissimulam as discriminações, impedindo a construção do senso crítico. (BRANCO: 2005. p 13)

Não apenas nos livros de biologia, mas nos de História pode-se perceber a necessidade de um livro mais crítico e que dê subsídio aos alunos e mesmo os professores sejam capazes de refletir sobre a realidade.

Na seleção de dados que venham a corroborar aos argumentos de denúncia, por exemplo, Fabiana da Silva lista que

Segundo o IBGE, a taxa média de analfabetos no país é de 13,8%, sendo que entre os negros é de 21,6% e entre os brancos, de 8,4%. Entre as crianças, a taxa é de 9,9% entre as negras e 3% entre as brancas. Continuando a disparidade, a média de escolaridade dos negros é dois anos a menos que a média nacional. A sua participação entre os concluintes do ensino superior representa um quarto da registrada na 4ª série do ensino fundamental. De acordo com os números do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica (SAEB), dos alunos da 4ª série do ensino fundamental, 12% declaram-se negros. No ensino superior esse índice é de apenas 3,1%. Além disso, 18% dos negros têm possibilidade de ingressar na universidade, enquanto essa possibilidade entre os brancos é de 43%. (SILVA: 2005. PP 14 e 15)

A seleção destes dados percentuais foi feito a partir dos questionários socioeconômicos do Exame Nacional de Cursos e demonstram o posicionamento da pesquisadora numa tendência em denunciar uma realidade que precisa ser refletida e modificada.

Segundo Luiz Gonçalves e Petronilha Silva “Todas as vezes que se inicia qualquer reflexão sobre a escolarização dos negros no Brasil, o ponto de partida é o irremediável lugar-comum da denúncia”70. E não diferente do que eles comentam, de fato, todos estes trabalhos dissertativos têm em seu conteúdo um sentido de denúncia diante da dificuldade e déficit histórico que os negros vêm sofrendo ao longo da História do Brasil e que é refletido nos resultados do sistema educacional. Tanto o presente quanto o passado podem ser usados como meio de se atestar a realidade difícil que o negro está inserido. (GONÇALVES E SILVA:2000).

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