De acordo com a metodologia utilizada anteriormente na análise dos resultados, decidimos também na frequência cardíaca analisar cada protocolo de forma detalhada e isoladamente.
De acordo com Janssen (2001) existe uma proporção directa entre a intensidade de treino e a frequência cardíaca, logo esta é um bom indicador da intensidade de treino. Segundo Billat (2002), no início do exercício há um aumento rápido da frequência cardíaca e do volume de sistólico e do débito cardíaco.
No protocolo nº1 não foram efectuadas as medições de frequência cardíaca.
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No protocolo nº2, os valores de frequência cardíaca apresentados pelos sujeitos foram bastante estáveis, não havendo grandes variações entre as medições. Na primeira medição, o valor da frequência cardíaca média foi de 115 batimentos/minuto. Nas restantes medições, a frequência cardíaca manteve-se estável em torno dos 130 batimentos/minuto. Neste dia de testes verificou-se a afirmação de Billat, tendo os sujeitos aumentado a frequência cardíaca acima dos 100 batimentos/minuto, tendo este aumento seguimento nas medições seguintes. No entanto, Achten & Jeukendrup (2003) defendem que as consequências do treino na frequência cardíaca apenas se verificam após 3 a 5 minutos. Da mesma maneira, a frequência cradíaca mantem-se alta, demorando algum tempo e, de forma gradual a regressar aos valores observados durante o treino realizado no steady-state. Perante estes dois argumentos, um pouco contraditórios pensamos que os resultados da nossa amostra nos encaminham para a perspectiva de Billat.
No protocolo nº3, apesar de a tendência de manutenção de uma frequência cardíaca estável ao longo de todas as medições, o valor médio da mesma aumentou. A última medição, foi aquela em que os valores se apresentaram mais altos. Neste protocolo a frequência cardíaca média final aumentou 7 batimentos/minuto para 141 batimentos/minuto.
No protocolo nº4, a frequência cardíaca foi gradualmente aumentando desde a primeira medição até à última medição, tendo atingido o pico com 141 batimentos/minuto, valor idêntico à última medição do dia anterior de testes. Neste protocolo os valores finais médios de frequência cardíaca mantiveram-se idênticos aos do protcolo anterior, 141 batimentos/minuto.
Ao longo de todos os dias de testes a manutenção de frequências cardíacas muito semelhantes leva-nos a crer que os sujeitos, quando no primeiro dia de testes definiram a sua intensidade, o fizeram de acordo com a frequência cardíaca. Estes sujeitos nunca tinham feito qualquer tipo de controlo de treino, por isso, a única forma de conseguirem calcular a possível intensidade de treino era através da frequência cardíaca.
Desta forma, os sujeitos estavam a treinar de acordo com uma proposta de Billat (2001) que, implementou um treino tendo como única referência a frequência cardíaca de 125 + 5 batimentos por minuto o que corresponderá a
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60% VO2máx e em que o único instrumento de controlo do treino era um
frequencímetro.
De acordo com os resultados obtidos neste estudo, inferimos que a frequência cardíaca e a lactatémia sanguínea não se comportam nos sujeitos de igual forma, pois apresentando a frequência cardíaca com valores semelhantes, a concentração de lactatémia sanguínea aumenta. Assim, para uma mesma frequência cardíaca verificaram-se concentrações diferentes de lactato sanguíneo. Parece que em sujeitos com muitos anos de treino aeróbio de corrida, a frequência cardíaca é mais estável que a lactatémia no decurso de um treino por intervalos, mantendo-se a intensidade de esforço.
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7. Conclusão
As principais conclusões que podemos retirar após a análise e discussão dos resultados sugerem que:
(i) num protocolo de treino intervalado, quanto menor for o intervalo entre repetições, maior será a acumulação do lactato sanguíneo.
(ii) a frequência cardíaca aumenta com a diminuição do tempo de intervalo entre repetições.
(iii) a frequência cardíaca, em atletas com um trabalho aeróbio muito elevado, apresenta uma grande estabilidade nos valores obtidos ao longo dos testes.
(iv) existem algumas excepções a este aumento de concentração de lactato sanguíneo com a diminuição do tempo de intervalo.
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