Desde o século XVII, o mundo assistiu a grandes modificações institucionais, epistemológicas, culturais, sociais, econômicas, políticas, entre tantas outras, que trouxeram consigo a emergência da modernidade, com a pretensão de total descontinuidade da tradição e sua ordem. Tais transformações, principalmente as de caráter institucional, chamaram a atenção de Giddens (1991), que conceituou a modernidade como um período histórico que emergiu na Europa, em decorrência das descontinuidades das ordens sociais tradicionais e pré-modernas.
Ao representar uma tendência de substituição das ordens tradicionais por organizações maiores e impessoais e transformar as relações sociais e percepção de coletividade, a modernidade é considerada por Giddens (1991, p. 11) um “[...] estilo, costume de vida ou organização social [...] que ulteriormente se tornaram mais ou menos mundiais em sua influência”. Assim, distanciada da tradição, essa nova forma de viver se pauta nas expressões de liberdade e emancipação.
Mas será que essas mudanças e esse novo estilo de vida são suficientes para esgotar as possibilidades da tradição e subsidiar o início de uma nova era, de um novo período histórico?
Para o autor, encontramos-nos numa fase de transição que nos conduz para além da modernidade, quando um novo tipo de sistema e organização social será inaugurado.
Este, exemplificado por ele pela “sociedade de consumo” e “sociedade da informação”, que nos deslocam “[...] de um sistema baseado na manufatura de bens materiais para outro relacionado mais centralmente com informação” (GIDDENS, 1991, p.12), a partir de grandes avanços tecnológicos e midiáticos.
Ao acreditar que, para compreendermos o período e o contexto histórico atual, é preciso analisar e entender a natureza da modernidade e seus desdobramentos, o autor discorda que a pós-modernidade já tenha sido inaugurada. Diante disso, traz o seguinte argumento: “Em vez de estarmos entrando num período de pós- modernidade, estamos alcançando um período em que as conseqüências da modernidade estão se tornando mais radicalizadas e universalizadas do que antes” (GIDDENS, 1991, p. 12-13).
Diante dessa argumentação, o autor aponta que a modernidade desencadeou e instaurou mudanças na ordem social tradicional, a partir de descontinuidades promovidas pelas instituições modernas. Sendo assim, a modernidade surge por meio de transformações drásticas decorrentes na ordem social tradicional.
Nesse sentido, Giddens (1991) busca a compreensão das consequências da modernidade na atualidade, reforçando o esclarecimento de que essa nova ordem, com uma configuração acentuada das características da modernidade não pode ser considerada “pós-modernidade”. O autor supõe que, “[...] se estamos nos encaminhando para uma fase de pós-modernidade, isto significa que a trajetória do desenvolvimento social está nos tirando das instituições modernas rumo a um novo e diferente tipo de ordem social” (GIDDENS, 1991, p. 52). Assim, acredita que estamos vivendo um período em que há uma intensificação da modernidade, com suas características mais acentuadas, definido por ele como “alta modernidade”.
Nesse ínterim “[...] nós não nos deslocamos para além da modernidade, porém estamos vivendo precisamente através de uma fase de sua radicalização” (GIDDENS, 1991, p. 57), com as suas características cada vez mais aparentes, que distanciam progressivamente a alta modernidade da tradição.
Para Giddens (1991), a principal característica da “alta modernidade” é a reflexividade, que torna as práticas sociais organizadas e transformadas por meio de
um conhecimento constantemente renovado. O dinamismo cada vez mais acentuado nos acontecimentos, nas relações, na identidade e na família cria instabilidades e efemeridades que marcam esse período.
Em concordância com Giddens (1991) acerca da não finalização da modernidade em face da pós-modernidade, Augé (1994) também entende o período atual como transitório, não podendo ser compreendido como oposição a uma modernidade perdida e superada. Ambos os autores acreditam na ideia de continuidade linear, presente entre um período histórico e outro, uma vez que não é possível compreender a atualidade sem tomar como referência períodos anteriores.
Em Augé (1994), a investigação antropológica deixa de procurar estritamente o distante, o exótico e passa a acontecer sob a égide da Antropologia do Próximo, que busca a compreensão da contemporaneidade, suas contradições, assim como a sua complexidade. Nesse sentido, o autor analisa as transformações aceleradas em relação ao espaço, considerando e definindo a ordem social contemporânea como “supermodernidade”, caracterizada pela abundância e figuras de excesso em relação ao tempo e ao espaço.
Para o autor, essas mudanças geram um encolhimento global e resultam na multiplicação do que denomina de “não-lugares”,20
caracterizados por não serem relacionais, identitários e históricos, uma vez que pertencem a todos e ao mesmo tempo a ninguém. São espaços esvaziados simbolicamente, em que há intensa circulação de pessoas, mas sem o estabelecimento de relações sociais e sem qualquer vínculo com esses espaços. Por meio dos “não-lugares”, enxergamos um mundo provisório e efêmero, individual e comprometido com o transitório e com a solidão.
Os “não-lugares” são considerados uma nova configuração social, característica da “supermodernidade”, que se define e é caracterizada pelo excesso de acontecimentos, pela abundância espacial e pela individualização das referências,
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O “não-lugar” é exemplificado por Augé (1994) como rodoviárias, aeroportos, supermercados, centros comerciais, entre outros que se configuram como espaços de passagem incapazes de dar forma a qualquer tipo de identidade. Como produto do contemporâneo, o “não-lugar” é o oposto do lugar antropológico designado desde Marcel Mauss e da ideia de totalidade, que o define como identitário, relacional e histórico.
correspondendo a transformações das categorias tempo, espaço e indivíduo. Apesar de considerar todas essas transformações e seus efeitos na ordem social contemporânea, Augé (1994) não vê essa “supermodernidade” como uma ruptura e superação da modernidade.
Dessa forma, notamos que tanto Giddens (1991) quanto Augé (1994) conceituam o período contemporâneo como desdobramentos da própria modernidade. Esses desdobramentos surgem como ordem social, caracterizada por muitas mudanças e transformações, mas longe da compreensão de inauguração de um novo período histórico.
A partir da leitura desses dois autores, apreendemos que o advento da modernidade trouxe consigo o “esvaziamento do tempo” e com ele seguiu, subsequentemente, o “esvaziamento do espaço” e, diante disso, distâncias foram incrivelmente encurtadas.21 A concepção de “espaço vazio” e de “não-lugar” nos remete à separação e diferenciação entre espaço e lugar que, apesar de parecerem sinônimos, possuem suas singularidades.
Para Giddens (1991, p. 27),
[...] a modernidade arranca crescentemente o espaço fomentando relações entre outros ‘ausentes’, localmente distantes de qualquer situação dada ou interação face a face. [...] o lugar se torna cada vez mais fantasmagórico [...] os locais são completamente penetrados e moldados.
Nesse sentido, lugar está intimamente relacionado com a concepção de espaço, no entanto pressupõe que haja relações socioafetivas decorrentes de experiências sociais e culturais. Já o espaço refere-se a uma área impessoal e indiferente, mas que pode vir a se tornar um lugar dotado de valor e significado, na medida em que os indivíduos podem imprimir, nesses espaços, algo de si, tornando-os cenários de relações sociais e de sentimentos partilhados. Só assim, o lugar deixa de ser um espaço abstrato e adquire uma linguagem e um meio de expressão entre os indivíduos.
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Giddens (1991, 2010) aponta que os avanços tecnológicos e a mídia foram fatores que acentuaram os aspectos de deslocamento, enfatizando a presença instantânea e a distância.
4.2.1 O Jogos dos Povos Indígenas: um “lugar antropológico”
Os Jogos parecem se constituir como um “lugar antropológico”, que surge de uma construção concreta e simbólica do espaço físico. De acordo com Pinto e Grando (2009) e a partir do documentário “IX Jogos dos Povos Indígenas”, é possível perceber o evento dotado de significados por seus idealizadores, organizadores e participantes. O evento pressupõe um intercâmbio, como vimos em Almeida (2008), e possibilita as relações sociais, além de manifestações culturais e a legitimação de identidades.
Apesar da impressão dos Jogos como um lugar relacional e identitário, é preciso pontuar que o evento não é vinculado a um espaço fixo de referência, pois desde a sua primeira edição, tem sido realizado em diferentes cidades brasileiras. Nesse sentido, compreendemos os Jogos como um lugar simbólico e flutuante, que, apesar de depender de um espaço físico para sua realização, não está íntima ou necessariamente vinculado ao “lugar”, como ele parece se constituir simbolicamente por seus participantes.
O espaço dos Jogos é simbólico e reside no imaginário dos idealizadores, dos organizadores e, principalmente, dos participantes indígenas do evento. Estes se deslocam de suas aldeias para encontrar nos Jogos dos Povos Indígenas um espaço configurado para promover relações interétnicas e oportunizar a celebração de tradições e identidades, por meio de rituais, de cantos, danças, lutas, jogos tradicionais, pinturas e adornos.
A nona edição do evento teve vários de seus momentos registrados no documentário “IX Jogos dos Povos Indígenas”, que demonstra o evento construído entre as cidades pernambucanas de Recife e de Olinda. As imagens desse documentário nos permitem interpretar os Jogos como um lugar constituído num espaço físico abstrato, em que “[...] os lugares e os não-lugares misturam-se e interpenetram-se” (AUGÉ, 1994, p. 98).
A compreensão dos Jogos como um lugar simbólico e flutuante se dá em decorrência da diversidade de cidades que sediaram o evento, desde a sua primeira edição,
revelando que não houve uma relação direta e simbólica com o espaço físico e geográfico especificamente. Dessa forma, o espaço físico foi utilizado como um meio para a instalação provisória de um “lugar”, para a concretização dos Jogos dos Povos Indígenas e suas manifestações.