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Tomando como ponto de partida a última reflexão do item anterior, procuraremos transpor o conceito de centros de cálculo para a concepção de biblioteca, considerando que esta permite reunir uma diversidade de artefatos os quais possibilitam um movimento de

mobilização para compreensão do mundo.

O que faz com que um lugar se transforme em centro? Na concepção de Latour, antes de mais nada, é importante ter em mente o movimento que faz com que diferentes domínios conspirem em prol de um mesmo objetivo, produzindo “um ciclo de acumulação graças ao qual um ponto se transforma em centro, agindo à distância sobre muitos outros pontos”.161

Um ciclo de acumulação se processa no momento em que se traz de lugares distantes eventos, lugares, acontecimentos e pessoas pouco conhecidos que precisam ser móveis, estáveis e combináveis para permitirem o poder de agir a distância sobre eles.

Nesse sentido, a biblioteca pode ser um centro, pois cada item do acervo que acumula é produto de um, dois, três, vários ciclos de acumulação.

Mas esse não é o único sentido que queremos atribuir à relação biblioteca X centros de cálculo. Podemos perceber também nas atividades bibliotecárias muitos dos fenômenos que Latour reflete na sua conceituação, fazendo com que cada operação seja pensada como mini-centros dentro do grande centro de cálculo biblioteca.

Quando Latour fala da produção das inscrições as quais possibilitam ao mundo ser mobilizado no interior dos centros de cálculo, ele também reconhece, ser esse, um primeiro movimento que faz com que um “dilúvio de inscrições e espécimes”162 cheguem aos centros e possa ser sucedido por um outro - ou outros – que consiste em transformá-las, simplificá-las, estabelecendo redes mais longas que fazem aparecer “centros dentro dos centros”163.

161 LATOUR, 2000, p.361 162 LATOUR, 1996b 163 LATOUR, 1987

Assim, passar do empírico ao teórico, diferentemente da passagem de material ao intelectual ou do acessível ao inacessível, é fazer com que “móveis imutáveis” sejam transformados em outros ainda mais móveis, mais combináveis e cada vez mais mutáveis164.

Tomando como primeiro exemplo o catálogo, atividade que marcou o início das operações técnicas nas bibliotecas, a primeira idéia que nos ocorre é o movimento de redução. Não podemos ter o livro no fichário ou na base de dados, nem seria pertinente. Mas é pertinente extrair seus elementos principais para permitir a sua representação.

No caso das bases de dados de texto completo, ainda assim, estas são acompanhadas das respectivas representações diminuídas do livro.

A palavra representação nos permite introduzir um segundo operador da metodologia de Latour, a metrologia, uma espécie de “régua e compasso”165 para permitir a padronização que confere coerência ótica aos registros de ciência. No caso da ciência biblioteconômica, os registros – fichas de catalogação/descrição dos documentos – são rigorosamente alinhados um após outro no catálogo, e dentro de um padrão internacional que em muito facilita a observação do leitor-usuário-pesquisador, ligando, consequentemente, o centro (os catálogos) à periferia (as estantes). Esse movimento também ilustra a relação de redução (livros sobre o mesmo tema que se encontram dispersos nas estantes) e amplificação (fichas de todos os livros sobre um mesmo assunto reunidas sob um único olhar no catálogo). O movimento de

164 LOUREIRO, 1998, p.46

165 Expressão comumente usada pela professora Maria de Nazaré Freitas Pereira ao se

amplificação ilustra o poder de comensurabilidade com todos os outros traços que recombinam o mundo diante do olhar atento do pesquisador, fazendo com que ele aja à distância sobre realidades dispersas nas suas grandezas.

Todos esses fenômenos não seriam possíveis sem o trabalho dos outros centros de cálculo da biblioteca e das redes que os religam:

- a classificação: que reúne todos os assuntos segundo suas similaridades;

- o código de autor: que classifica grupos segundo as letras de seus nomes;

- a aquisição: que seleciona itens de acordo com as necessidades dos usuários, reúne catálogos de editores, livrarias;

- a referência: que congrega todas as outras atividades por que, por meio do contato com as necessidades dos usuários, reúne subsídios que vão alimentar a catalogação, a classificação, a aquisição e o auxílio ao usuário e disseminação que ela mesmo processa como função e como retroalimentação.

Cada uma dessas operações e outras que poderíamos citar, aliam constantemente outros elementos trazidos da periferia para o trabalho dos centros.

E é essa combinação de elementos, que não dizem respeito apenas aos humanos nem às coisas, que fazem da teoria ator-rede, um agente que privilegia as alianças, sustentando as redes com seus fatos sendo transportados de mãos em mãos. O mesmo vale para a eficiência e lucratividade dos artefatos.166

Com essa reflexão, percebemos que ainda não nos preocupamos até agora em implicar objetivamente na nossa narrativa a teoria ator-rede, um dos fios condutores desta dissertação, apesar de sabermos exatamente onde seus princípios estão envolvidos.

E por isso mesmo, talvez possamos nos sentir a vontade para considerarmos o nosso artefato “dissertação” um centro de cálculo em pleno movimento de inscrever aliados na sua rede de construção teórica, nos permitindo bifurcar.

Bifurcar, no sentido de Serres167, é construir um transversal. É aprender lançando a errância numa direção dita natural, e lançar-se a lugares ignorados.

“Nenhum gesto da mão que segura uma raquete obedece a uma atitude que o corpo tomaria espontaneamente, nenhuma palavra em inglês emana de uma forma em que a boca francesa esboçaria com facilidade, olhos bem abertos não garantem a idéia da geometria, nem o vento e os pássaros nos ensinam a música...só nos resta tomar o corpo, a língua ou a alma a contrapelo. Bifurcar quer dizer obrigatoriamente decidir-se por um caminho transversal que conduz a um lugar ignorado. Sobretudo: jamais tomar a estrada fácil, melhor atravessar o rio a nado.”168

Assim como em Fernandes169, nossa escolha de bifurcar também pretende levar em conta arrolamentos tecnológicos para poder descortinar graus de mobilização que permitam gerar um construtivismo conseqüente a todas as alianças possíveis no caminho.

Abrindo essas possibilidades, nos lançamos a campo: rumo a grande rede digital – a Internet - em busca de aliados que possam ser traduzidos nos conceitos e nas operações de biblioteca numa sociedade da informação da Era do Conhecimento.

167 SERRES, 1993, p.14-17 168 Idem Ibdem, p.15 169 FERNANDES, 1998, p.15

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