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OLÍTICOS E PADRES NOS TEMPOS DA“
HARMONIA”
“Nunca imaginei que o homem fosse tão pobre de espírito e tão agressivo diante de sua própria espécie. Indignado, um dia perguntei, como um homem conciliava os seus rotineiros atos religiosos à suas constantes agressões políticas. A informação veio de um interlocutor: religião é fora; política é política, vale tudo1”.
Tempo Pilla
“Como cada um é dono das coisas de Riachão. Todo mundo tem as coisa por nome no Riachão. Você não vê nada aqui que seja público, tudo tem nome. Isso aqui é de fulano, isso aqui é de sicrano, isso aqui é de fulano. E a gente sabe que não é de ninguém né, mais deixa quieto2”.
Ana Neta
Assim como acidente grave, crime e doença ruim, política é um assunto fecundo entre os jacuipenses – comentários, fuxicos, bate-bocas e brigas de rua são alguns exemplos dos modos de viver a política da gente do Riachão. Nesse campo de tensões, acordos e disputas, há os que afirmam que “Política é coisa do num sê que diga3”. Para grande parte dos
1 Jornal Folha Regional, Ano 1, nº 2 – Junho 1989. “Tempo Pilla” é o pseudônimo usado por Evandro Matos, um
jornalista da cidade e irmão de Valfredo Matos – prefeito na época.
2 Entrevista a Ana Neta Ribeiro, professora, 49 anos de idade, em 30/06/2004 - Riachão do Jacuípe. 3
Fala costumeira de D. Mariete de Oliveira Sousa da Silva, 49 anos de idade, costureira, dizendo que política é coisa do diabo. E o diabo, no seu entendimento “é coisa que não se deve pronunciar o nome”.
moradores, a política estava associada a uma coisa ruim, com a qual gente que se respeita não deveria se envolver. Em comentários do cotidiano, jacuipenses demonstram de diversas formas, sua descrença em relação aos políticos e às suas propostas de soluções para os problemas da cidade; dessa forma, é considerável o número dos que afirmam que têm raiva de política e que não são políticos. Nessa perspectiva, a atividade política é encarada como sinônimo de sujeira e corrupção.
Para compreender as concepções de política dos jacuipenses, entrevistei 60 pessoas - metade tem mais de 50 anos de idade e metade têm idade inferior. Entrevistei homens e mulheres, de diferentes categorias sociais, moradores da zona urbana e da zona rural do município, de diversas opções religiosas. A maioria dos entrevistados é composta por católicos que conviveram com padre Silvino ou que se afastaram da Igreja insatisfeitos com seu trabalho O comentário de que ele era um “padre que se metia em política” se disseminou pela comunidade, e esta frase foi repetida por pessoas de várias religiões. Os católicos sentiram também as mudanças litúrgicas implementadas pelo pároco que serão discutidas no capítulo seguinte. Em que “política” padres não deveriam se meter? Outros sacerdotes que passaram pela paróquia não se envolviam na política? Escolhi este caminho para analisar os costumes políticos jacuipenses, perguntando a opinião dos depoentes sobre padre Silvino e sobre outros que lhe antecederam na paróquia.
Nas entrevistas, os depoentes trataram de dois tempos da memória que foram selecionados para dar continuidade à tessitura desse trabalho: o tempo da harmonia, quando vigoravam os costumes e as “boas” relações dos cidadãos com os párocos, será trabalhado neste capítulo. O tempo do conflito será discutido no próximo capítulo, e o foco serão as discussões sobre padre José Silvino dos Santos. Privilegiei, nas entrevistas, as leituras que os moradores fazem dos políticos de Riachão do Jacuípe, observando a atuação do clero católico na teia política da cidade, visto que grande parte dos entrevistados afirmou que, antes de padre Silvino, “padres e políticos eram amigos” e que os políticos participavam ativamente das “coisas da Igreja”.
Sr. Evaldo Carneiro, 60 anos de idade, mecânico e proprietário de terras, católico, avaliou a história política jacuipense, num tom provocativo, em entrevista realizada em maio de 2004:
“Lá em minha oficina, um rebanho de besta (estava) discutindo política. Aí um disse: ‘Esse ano eu quero ver ter roubo aqui’. Um caminhoneiro gaúcho disse: ‘Agora é que tem roubo, porque é por computador, agora é que é mais fácil roubar’. É que toda vida teve roubo em eleição aqui, toda vida, da primeira até a (risos). Toda
vida tinha. Meu pai contava muito isso. Eu não sabia, mais acabei sabendo disso, que há pouco tempo Izauro acabou descobrindo. Meu pai contava que Aurélio era coronel cheio de dinheiro e perdeu a eleição para Luciano, que era um coletor né, um coletor aqui de Riachão. Só tem que lá, Aurélio era Coronel, chegou em Feira comprou o Juiz e, nove dias depois, Aurélio chegou aqui na praça tocando fogos e tomou conta da prefeitura e, naquele tempo, ganhava hoje, tomava conta amanhã. Então o primeiro prefeito eleito pelo povo em Riachão foi Luciano, só tem que só governou nove dias, com nove dias Aurélio veio e tomou conta. Comprou ali o juiz em Feira e o juiz deu a ele: tinha perdido por doze votos, ganhou por nove. (...) Então, em nossa cidade, a primeira eleição que houve aqui já foi trambicada. Isso ninguém pode negar e ninguém confie em político de Riachão, porque o que começa errado não termina certo 4”.
A trama descrita pelo depoente, suscitada com a emergência da instalação das urnas eletrônicas nas eleições municipais de 1999, girou em torno do questionamento da veracidade dos resultados eleitorais, o que se estendia em toda memória política de Riachão. Ao contar o caso, Sr. Evaldo duvidou do caráter dos políticos e da autoridade judiciária; encarados como cúmplices das farsas que visavam ludibriar a comunidade. Numa análise cuidadosa de depoimentos da população jacuipense sobre política, predominam alocuções sobre a atuação dos políticos e querelas concernentes aos períodos eleitorais. Os entrevistados lembraram de comentários e fuxicos que outrora só eram contados em surdina. O trecho acima, provavelmente, foi um desses, assim como o caso do envenenamento tratado no capítulo anterior. Na fala de Sr. Evaldo5, a lembrança do caso do tempo de Coronel Aurélio Rodrigues Mascarenhas apregoa a idéia da perpetuação de práticas políticas “antigas": fraudes eleitorais, acordos escusos entre poderosos e irresponsabilidade com a coisa pública, situações que vêm se repetindo de forma contínua. Nestas circunstâncias, para o depoente todos os políticos de Riachão do passado, do presente e do futuro estariam fadados ao fracasso moral por herdarem, vivenciarem e reproduzirem tais costumes. Quando ele afirma que “o que começa errado não termina certo”, imprime um tom fatalista ao destino político da cidade e expressa uma concepção cíclica na qual política, fraude eleitoral e corrupção se complementam sucessivamente. Por outro lado, reduz a política aos acertos e erros dos poderosos. Nesse
4 Entrevista com Evaldo Carneiro, 60 anos de idade, mecânico, em 12/06/2004 – Riachão do Jacuípe.
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Evaldo Carneiro (Op. cit.) tem muito orgulho de ser um dos descendentes da família Carneiro, fala com eloqüência de seus antepassados e da participação destes na formação do arraial que dera origem à cidade de Riachão do Jacuípe. No capítulo anterior tratei de sua memória quando relatou que Riachão teria nascido na Fazenda Bom Sucesso, de propriedade da família Carneiro, que desde a década de 80 alimenta, um projeto de reconstrução do antigo templo sob as ruínas. Parece-me que Sr. Evaldo e outros descendentes da família Carneiro têm o objetivo de resgatar a participação de sua estirpe na origem da cidade em contraposição à predominância dos Mascarenhas. Da linhagem dos Mascarenhas, vieram os coronéis mais falados da cidade até hoje: Marcolino e seus filhos, Aurélio e Teodomiro, este último mencionado no capítulo anterior. Inclusive a construção do templo católico da cidade é tributado ao Coronel Marcolino do Riachão. Sr Evaldo é católico, participa ativamente das atividades da Igreja, é agente de pastoral, é uma pessoa respeitada na comunidade. É considerado por muitos um conhecedor da história da cidade, por guardar documentos e livros antigos.
trecho do depoimento, os eleitores são encarados como “um rebanho de besta” – peças absortas, facilmente manipuladas pelos “donos do poder”.
A memória partilhada6 pelos diversos membros da comunidade guarda casos interessantes. Esses lembram-se dos nomes dos candidatos, das músicas e das piadinhas de campanhas eleitorais da década de 1960. Tais detalhes, aparentemente insignificantes são considerados aqui como vivências da cultura política da cidade. D. Maria da Conceição C. Silva, 65 anos de idade, dona de casa e vendedora ambulante, contou que, há muitos anos atrás, o nome de um dos candidatos do pleito era Wilson7 e que: “O povo vinha da Chapada em cima do pau-de-arara gritando: Tô com Viço, tô com Viço, tô com Viço. O povo daqui chiava, fazia piada dizendo que eles tavam com vícios8”. No decorrer do relato, D. Maria da Conceição destaca a pobreza e a ignorância do povo que não sabia pronunciar o nome do candidato. A depoente riu muito enquanto narrava o fato. Através do riso, D. Cecinha zomba e critica o “povo da Chapada”, posicionado-se num patamar acima dele, ‘o povo’, mesmo que, em outros momentos de sua fala tenha se colocado como alguém pobre que precisa de ajuda, que é parte deste mesmo povo.
As considerações de Sr. Evaldo e de D. Maria da Conceição estão muito próximas de uma tese recorrente na mídia9 e que durante muito tempo imperou em círculos intelectuais brasileiros, na qual cidades pequenas do nordeste são lócus do atraso político10. Tal visão baseava-se no fato de, na região, especialmente, conservarem-se práticas coronelistas o que, ao lado das secas, nutriam explicações sobre seu atavismo (discutido no capítulo anterior). Rejane Carvalho11 mostra as condições históricas em que o coronelismo deixa de ser considerado marca política nacional para localizar-se apenas em uma região periférica, o Nordeste. O coronel e o padre são figuras garantidas em produções artísticas sobre cidades do sertão nordestino; geralmente, estão mancomunados no exercício do poder dos pequenos
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Sobre o conceito de memória partilhada ver PORTELLI, 1996. Op. cit. Ele argumenta que os membros de um determinado grupo social compartilham de maneira particular as lembranças de um determinado fato. Posto que o ato de rememorar, é, sobretudo um ato de cria. E cada um cria fazendo uso de seu repertório de vida adquirido através da vivência cotidiana, seu conjunto de crenças valores e interesses certamente irão incrementar a narração.
7 Conforme informações de Sr. Izauro de Souza Ferreira, 85 anos de idade, secretário e corregedor da Câmara de
Vereadores do município em 04/04/05, Sr Wilson foi candidato a prefeito nas eleições municipais de 1962, contra Dr. Manoel Mascarenhas (Dr. Neco) e Dr. João de Oliveira Campos. A eleição foi vencida por Dr. João de Oliveira Campos.
8 Entrevista com D. Maria da Conceição Silva dos Santos (conhecida como D. Cecinha) 65 anos de idade,
vendedora ambulante, em 23 de março de 2005 – Riachão do Jacuípe.
9 ALBUQUERQUE JUNIOR. 2001. Op. cit. 10
Ver MARTINS, José de S. O poder do atraso: Ensaios de sociologia da História Lenta. 2ed. São Paulo: Hucitec, 1999.
11
CARVALHO, Rejane V. A. Coronelismo e Neocoronelismo: eternização do quadro de análise política do nordeste. In. Caderno de Estudos Sociais, vol. 3, nº. 3, julho/dezembro 1987. Recife. pg. 195 a 199.
lugarejos. As novelas e os filmes que têm este cenário reproduzem com maestria as falcatruas e o abuso de autoridade dos grandes. O povo é construído como vítima apática, indefesa, no máximo portadora de alguma esperteza que lhe garanta o mísero alimento. Destarte, a população pobre, impossibilitada de reverter o quadro, alimenta as condições que perpetuam os mandões no poder, sem questionar ou reagir. Povo e donos do poder entrelaçados seja pela dependência, seja pelo compadrio, a despeito da desigualdade na relação, conviviam de forma harmônica respeitando regras costumeiras, nas quais cada qual conhecia seu lugar e sua obrigação.
Inicialmente, o contexto de Riachão se enquadraria perfeitamente nesta forma de análise estereotipada, salvo ajustes irrelevantes. Tratar da política jacuipense, do que o povo e os políticos falaram e fizeram é, em certa medida, abordar assuntos presentes no senso comum12. Porém, a partir do estudo do costume, examinando as especificidades, observei a seara política jacuipense como um campo de conflitos e disputas muito mais complexo do que este tipo de visão caricatural. Tais conflitos se dão não só entre os “políticos”, mas também, no cotidiano dos moradores da cidade. Pude, assim, questionar e problematizar as idéias presentes e tão difundidas nos estereótipos sobre o atraso político do nordeste brasileiro, em geral, e de Riachão em particular.
Considero os discursos sobre política uma esfera privilegiada para o entendimento das múltiplas significações dos conflitos presentes no cotidiano da cidade. A depender do sujeito e situação, ela tende a ganhar novas nuanças num movimento ininterrupto onde quem fala e quem ouve partilham de significados aproximados. Considero que tais significados estiveram atrelados aos lugares sociais ocupados pelos indivíduos no momento da fala, do mesmo modo que estarão de acordo com os interesses e estratégias que desejam comunicar. Como afirma a antropóloga Nara Magalhães: “Se todos temos uma idéia do significado de política, não precisando de tradução, é porque estamos mergulhados numa abstração comum que faz parte de nosso universo simbólico13”. Daí conceber política como um elemento que compõe a cultura - uma noção compartilhada entre membros desse grupo - que influencia na maneira como os diversos componentes pensam, se comportam, organizam e atribuem juízo de valor às suas lembranças e selecionam as imagens que querem deixar registradas.
12 Especialmente, se for levado em consideração que, ainda hoje, no Brasil, se depositam nas decisões políticas
esperanças de mudanças sociais e econômicas - haja vista a euforia dos períodos eleitorais. Há que se repensar a relevância de se construir uma história política e de se compreender os sentidos de política para os sujeitos sociais em questão.
Daqui por diante, irei tratar dos personagens selecionados pelos depoentes para compor o tempo da harmonia político-religiosa jacuipense; combinado de vagas referências ao período anterior a 1960 que vão se intensificando, sobretudo no período que corresponde aos anos 1965 e 1990, donde sobressaem relatos sobre Dr. Eliel Martins, Dr. João Campos, padre Hélio Rocha, José Aloir, padre Severino, entre outros.
Pode-se marcar a década de 1960 como o início da decadência política dos coronéis na cidade, já que, desde então, nenhum descendente direto dos Mascarenhas (tradicional família de coronéis) chegara ao poder executivo municipal. Nos idos da década de 1980, Ribeiro Tavares, com os votos da redondeza, ocupou vagas nas Câmaras de Deputados Estadual e Federal. Neto do Coronel José Rufino Ribeiro de Lima, do Candeal14, ainda colhia os frutos do “prestígio” do avô coronel, espalhados pela região. Entre os anos de 1962 e 1996, componentes do grupo político do advogado Dr. Eliel Martins e do médico Dr. João de Oliveira Campos ocuparam o executivo municipal em Riachão. O último governou a cidade em três mandatos15.
O advogado Eliel Martins, “herdeiro político e dos moneys de Aurélio Mascarenhas16”, eleito prefeito em 1966 administrou Riachão do Jacuípe nos quatro anos subseqüentes, período em que a cidade “conheceu o progresso”, como se costuma afirmar por aqui. A memória popular lembra que “foi no tempo dele que chegou a energia e o asfalto”. O ano de 1966 foi um marco na trajetória da cidade – inaugurava-se um novo tempo com a implantação da energia elétrica, da água encanada e da pavimentação da rodovia que ligava Feira de Santana a Juazeiro, no governo de Lomanto Júnior. O governo de Eliel Martins, no afã de promover o desenvolvimento da pequena urbe e de possivelmente transformá-la numa cidade moderna, construiu praças, calçou ruas, fez estradas no interior do município, mercados nos povoados mais populosos, edificou o prédio da agência de Banco do Brasil. Baseados em tais feitos, parte dos entrevistados vê o ex-prefeito Eliel como o prospector do desenvolvimento local.
Os relatos sobre o tempo da harmonia foram, sobretudo, expressões da saudade do passado e da crença de que naquele passado existia progresso. Decerto, as associações entre passado/progresso no presente decorrem das questões discutidas no capítulo anterior, quando
14 Candeal era um povoado que pertencia ao município de Riachão do Jacuípe.
15 João Campos governou entre os 1962-1966, 1970-1972 e 1982-1988. Além do médico João Campos, o
advogado Gildásio Oliveira Souza governou entre 1972 e 1976 e o proprietário de terras José Aloir Carneiro de Araújo, entre 1976 e 1982. O ex-gerente do Banco do Estado da Bahia (BANEB), Valfredo Carneiro de Matos governou no período de 1989 a 1992 e elegeu seu colega de banco, José Raimundo Carneiro Martins que exerceu mandato entre 1992 e 1996.
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Informações de Sr. Izauro Ferreira Souza, 75 anos de idade, secretário e corregedor da Câmara de Vereadores de Riachão do Jacuípe em 20 de abril de 2005.
se tratou do apogeu da cultura do sisal na região. A despeito do que se poderia prever, o discurso sobre o tempo da harmonia é composto de reivindicações e tensões. Sobre as obras de melhoramento da aparência da cidade implementadas pelo “genro do coronel”, alguns depoentes protestaram, dizendo que em frente à Matriz de Nossa Senhora da Conceição “existia um coreto muito bonito, lindo mesmo, todo assim... onde as crianças brincavam, a Filarmônica tocava ... Ah, era muito bonito mesmo. Ele destruiu. E construiu aquela esplanada ridícula17”. A saudade do coreto é recorrente nos depoimentos dos jacuipenses maiores de cinqüenta anos. Ao que parece, a mudança visual no centro da cidade contrariou muitos jacuipenses, que falam do monumento de forma muito envolvente e emocional. O coreto, que pode ter sido um ícone do poder e da opulência dos coronéis, foi substituído pelos símbolos do progresso (ruas e praças); a nova era política se instaurava, o tempo dos doutores – conhecedores das “mudernagens”, como dizem os mais velhos.
A Igreja Matriz e o Coreto (década de 1960). Foto cedida por Vicente Oliveira.
Entre 1987 e 1998, o advogado e articulador político Dr. Eliel Martins exerceu três mandatos consecutivos de Deputado Estadual. Neste ínterim, ocupou a Secretaria de Justiça e Direitos Humanos do Estado e presidiu a Assembléia Legislativa Estadual. Para parte dos depoentes, o ponto alto da carreira do ilustre político se deu durante os dez dias que governou
o Estado da Bahia substituindo Antonio Carlos Magalhães - “o homem grande” da política estadual e nacional para alguns entrevistados. Alguns depoentes se emocionaram ao narrar este episódio e enfatizaram o orgulho que sentem por terem sido conterrâneos e eleitores de Dr. Eliel. A partir da análise desta parte das falas sobre o deputado, é possível apontá-lo como uma das figuras mais representativas da associação harmonia/progresso, uma vez que transitou com maestria entre as searas política e religiosa da cidade e pela elite política estadual. A partir da valorização destas farpas de memória, os egressos do grupo político que ele chefiava tentam reconstruí-lo como um personagem lendário da política local18.
Esta visão compete com outra bem diversa. Alguns entrevistados afirmaram que Eliel Martins foi “o câncer do Riachão”, por ter praticado uma política perversa, calcada nas fraudes e barganhas com a coisa pública, o que teria corroído o potencial econômico da cidade durante as três décadas em que esteve à frente do grupo político, vencedor de oito eleições consecutivas. Este grupo aparece na fala dos depoentes (da oposição) como o fomentador da prática política que se tornou comum na cidade entre as décadas de 1980 e 1990 - pessoas dependentes de favores do gestor público, para sobreviver. Solicitavam desde