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Num outro extremo está o epitexto que, segundo Genette (1987, p.316), se distingue do peritexto por um princípio puramente espacial. Como ressalta o autor, “é epitexto todo elemento paratextual que não se encontra materialmente anexado ao texto no mesmo volume, mas que circula livremente em um espaço físico e social virtualmente ilimitado”125.

O prefixo peri refere-se àquilo que está na superfície, de modo a recobrir algo (BAILLY, 1901, p. 326-328). É empregado para marcar o ponto de apoio, o ponto por meio do qual uma coisa se liga a uma outra. Designa continuidade, com a idéia de sucessão. Marca estabilidade e permanência. É usado ainda para sinalizar uma idéia de dependência, em vista de algo. A continuidade prevista por este prefixo refere-se tanto à unicidade do pensamento, quanto à manutenção de um mesmo tópico sem, contudo, estar materialmente unido ao objeto em questão, o que dá abertura para a descontinuidade.

A idéia de descontinuidade presente no epitexto está baseada na ligação com a obra, sem necessariamente estar anexada a ela. O epitexto faz parte de uma obra sem ser a obra. Espacialmente, não interessa onde fora do livro, como em jornais ou revistas, emissão de rádio ou televisão, enfim, a dimensão pública do epitexto. Como ressalta o autor (GENETTE, 1987, p.318), a realidade do epitexto nos faz confrontar com a ausência de limites externos,

125 “Est épitexte tout élement paratextuel qui ne se trouve pas matériellement annexé au texte dans le même vo- lume, mais qui circule en quelque sorte à l’air libre, dans un space physique et social virtuellement illimité”.

fazendo dele a franja da franja126, que o põe em contato com outros elementos discursivos sobre um referido tópico.

O epitexto público está endereçado ao público em geral e, por meio do suporte midiático, pode atingir uma parcela significativa do público em questão (GENETTE, 1987, p.323). Por meio da ação da mídia, a obra é posicionada no mercado. Antes do produto, o que chega aos leitores são fragmentos de um paratexto na condição de elementos epitextuais. As resenhas e críticas, entrevistas, declarações, por exemplo, criam um nível de discussão além da obra e que, num futuro, podem passar a fazer parte da obra, como numa reedição ampliada. Num outro extremo está o epitexto privado (p.341), que diz respeito às correspondências e anotações íntimas de um autor. Esta modalidade de epitexto também pode passar a compor a obra, numa nova edição, ou resultar numa compilação que ajude a entender tanto uma obra quanto o próprio autor. O interessante é a mobilidade de tais conceitos, que não se colocam de forma estanque. Um epitexto pode passar de privado a público, e de epitexto a peritexto. A textualidade, segundo a lógica paratextual, é marcada pela transitoriedade de seus elementos. Essa textualidade fluida que circunda um texto tradicional atua reforçando a identidade da obra e colabora com sua difusão.

Considerando-se as possibilidades de produção, armazenamento e distribuição de informações, por exemplo, no contexto das novas mídias, os elementos paratextuais assumem papel relevante para a divulgação de Webjornais. O binômio apresentar e tornar presente desempenha uma ação pressupondo não apenas o papel da crítica especializada, mas também dando lugar ao leitor comum que, na condição de usuário, pode interagir com outros leitores, divulgar o material, a partir da discussão em torno do mesmo. Essa questão será abordada no tópico seguinte.

3.2 AS POSSIBILIDADES DE PRODUÇÃO A PARTIR DA CARACTERÍSTICA MEMÓRIA

126 Ou margem da margem, no sentido de um discurso que vai além de um tópico. É o conjunto de sentidos pos- síveis que circundam um elemento e que podem se mesclar a outras realidades.

Todos os produtos “situados” na Web podem ser classificados como virtuais, conforme o conceito trabalhado por Deleuze (1968), Deleuze e GUATTARI (2004) e Lévy (2001). Para Lévy (p. 15-16), o virtual não se opõe ao real; é uma realidade latente, faltando- lhe apenas a existência. A existência pode ser entendida como a materialização de uma página da rede, que existia antes mesmo do acesso, mas que depende desta ação para se aproximar de quem executa o acesso. A figura metafórica proposta por Lévy (2001) exemplifica essa questão: “a árvore está virtualmente presente na semente” (p. 15).

É nesse sentido que o Webjornalismo deve ser entendido: em sua existência virtual, real, mas que, para tomar forma, deve ser acessado. Páginas, cadernos, editorias, esses conceitos oriundos da tradição do jornalismo impresso, na Web tomam forma à medida que o leitor navega por espaços que vão sendo construídos interativamente, com base nas possibilidades oferecidas pelo veículo em questão.

Torna-se essencial entender o Webjornalismo dentro da lógica de um mercado que se organiza segundo os ditames da concorrência. A questão não se resume ao fato de o Webjornal estar aberto ao internauta ou fechado, podendo ser acessado apenas por usuários pagantes. No geral, a questão principal é o número de acesso e tempo de permanência, critérios similares aos que priorizam a tiragem, número de assinante e circulação de um jornal impresso.

É interessante notar que, embora os Webjornais estejam comumente divididos em abertos, acesso gratuito, e fechados, acesso pago, o acesso a qualquer um dos dois, no geral, exige um cadastramento. Essa exigência faz pensar no sentido de comunidade de leitores que o veículo quer formar. O cadastro também é usado dentro das estratégias de marketing e, como na tradição do impresso, a identidade do leitor é de suma importância para o posicionamento do Webjornal no mercado.

Passada a fase inicial do Webjornalismo, em que se exaltavam as potencialidades libertárias da Web – definido por Manovich (2005) como tropos ideológicos – e o livre fluxo da informação, o que se observa hoje é um momento de maior ponderação quanto às possibilidades reais do produto Webjornalístico se posicionar no novo ambiente. A Web representa, de fato, um novo ambiente informacional (PALACIOS, 2003), mas que deve ser avaliado segundo critérios econômicos. Como lembram Shapiro e Varian (2003, p. 13), “a tecnologia muda. As leis da economia não”.

Os produtos disponibilizados na Web, dentre eles o Webjornalismo, são os chamados bens informacionais, que têm no processo de digitalização a sua principal característica.

Empregamos o termo informação de modo bem amplo. Em essência, qualquer coisa que puder ser digitalizada – codificada como um fluxo de bits – é informação. Para nossos objetivos, resultados de jogos de beisebol, livros, bancos de dados, revistas, filmes, música, cotações de ações e páginas da Web são todos bens da informação (SHAPIRO; VARIAN, 2003, p.15, grifos do autor).

Uma reviravolta do bem informacional, sob o ponto de vista econômico, está no cerne do produto que, ao ser produzido digitalmente, pode ser distribuído por distintas plataformas. É a sutileza desse produto que possibilita uma nova organização dos mercados informacionais, o que torna possível a criação de versões de um mesmo conteúdo.

Sob a perspectiva econômica, o custo mais elevado está no desenvolvimento do protótipo de um bem informacional, ao passo que o custo da reprodução, ou cópia, é próximo a zero (VARIAN, 1997, 1998). “A informação é cara de produzir, mas barata para reproduzir” (SHAPIRO; VARIAN, 2003, p. 15, grifos dos autores). O bem informacional, produzido digitalmente, pode ser formatado de várias maneiras. A um mesmo conteúdo, uma vez digitalizado, é possível agregar elementos ou suprimir outros, para que seja distribuído, por meio de distintas plataformas, a vários consumidores ou grupos de consumidores.

A facilidade de reprodução das informações se dá graças ao sistema de organização das bases de dados. Por meio da agilidade conferida ao processo de elaboração de versões de um mesmo produto, atualmente se observa a modalidade de mídia cruzada – cross media, ou a distribuição de versões de um mesmo conteúdo a distintas plataformas.

Sobre essa nova realidade, diz Barbosa (2007):

Como forma de jornalismo mais recente, o jornalismo digital – feito no âmbito da Internet e que pressupõe a coleta, produção, publicação e disseminação de conteúdos através da web e também de dispositivos móveis como celulares, computadores de mão, iPods, etc. – é a modalidade na qual o computador, as bases de dados, entre outras tecnologias, já não são

consideradas apenas ferramentas, mas, sim, constitutivas de uma prática jornalística. (p.142)

Dessa forma, a reprodutibilidade do material informacional abre uma outra questão: a criação de versões − versioning − de um mesmo produto. Essa é uma estratégia amplamente usada pelos grupos de mídia, que passam a operar em distintas plataformas. O atual perfil do profissional da área de comunicação exige que ele seja capaz de produzir e direcionar um mesmo conteúdo para distintas mídias, o que pressupõe distintos leitores e contratos de comunicação e leitura. Como exemplo, pode-se tomar os jornais capixabas A Gazeta e Notícia Agora, de uma mesma empresa127. O primeiro, mais tradicional, posiciona-se no mercado dirigindo-se a um público “especializado”, ao passo que Notícia Agora, vendido a um terço do valor do outro, é de caráter popular. No dia 8 de julho de 2006, o jornal A Gazeta teve como chamada principal Cariacica supera Serra no número de homicídios e, numa estrutura menor, Universitária assassinada. Em Notícia Agora: Universitária é morta com 4 tiros. Embora jornalistas distintos assinem as matérias, as fontes e as fotos são as mesmas. No geral, as matérias comuns aos dois jornais são assinadas pelo mesmo repórter, apresentando apenas alguma diferença no texto.

A criação de versões de um conteúdo noticioso possibilita a exploração do mercado de forma mais especializada. Os conteúdos são elaborados considerando-se as características do público e para ele são direcionados tais conteúdos. Um bom exemplo desse trabalho é oferecido pela Reuters, que opera com o “empacotamento” de conteúdos.

Apesar da natureza de mercadoria do produto noticioso, a Reuters tem conseguido sair-se bem nesse ramo de negócios. Uma das razões é que ela tem conseguido empacotar itens noticiosos que são do interesse de determinados setores. Esse pacote acrescenta valor ao produto mediante o fornecimento de serviços de filtragem e classificação – serviços que são altamente valiosos para clientes que sofrem com sobrecarga de informação. (SHAPIRO; VARIAN, 2003, p. 45).

Destaca-se, dessa forma, o papel relevante das agências de notícias para a organização do mercado jornalístico mundial, conforme ressalta Silva Júnior (2006, p.66).

Pela agilidade das redes, as várias versões de um mesmo conteúdo cruzam distâncias, que passam a ser meramente geográficas, visto que possibilitam criar junto ao leitor a “ilusão” de acompanhar o desenvolvimento dos fatos em tempo real.

Sob o ponto de vista mercadológico, a criação de versões de conteúdos pode viabilizar a venda do produto informacional a um número maior de consumidores, dispostos a pagar valores diferenciados pela informação.

A informação é agora comumente vendida em pacotes: as revistas são pacotes de artigos e as assinaturas são pacotes de revistas. Isto faz sentido: há com freqüência variação considerável sobre quanto os usuários estariam dispostos a pagar pelos diferentes artigos de uma revista (SHAPIRO; VARIAN, 2003, p. 97-98).

Trazendo a possibilidade de adaptação dos conteúdos para o âmbito das empresas Webjornalísticas e na forma de organização de suas matérias significantes, percebe-se a relevância da produção a partir do formato de bases de dados. Desde essa realidade, as empresas Webjornalísticas estão capacitadas a travar um diálogo mais estreito com seus leitores. É possível, por exemplo, como estratégia de aproximação entre as instâncias, a fusão das características do Webjornalismo Memória128, Personalização129 e Interação130.

A partir dessa premissa, podem ser localizadas estratégias discursivas tais como o envio de material por e-mail para leitores, informando sobre atualização de conteúdo ou sobre um conteúdo específico, conforme interesse manifesto pelo leitor. O uso dessa estratégia é exemplificado pelo www.lemonde.fr, que envia mensagem sempre que é feita uma atualização total da publicação, com a chamada “Titres du jour”131 (Fig. 18). A mensagem pode remeter tanto à página inicial do site (Fig. 19) como diretamente a um título escolhido pelo internauta.

128 A MEMÓRIA refere-se ao uso das bases de dados pra a produção e distribuição do material informacional. 129 A PERSONALIZAÇÃO refere-se à possibilidade que alguns sites oferecem a seus leitores de tornar tanto o ambiente quanto o acesso à informação moldado por escolhas pessoais.

130 Por INTERAÇÃO entendem-se as várias possibilidades de interação: entre as instâncias de produção e de reconhecimento; entre os leitores; entre os leitores e o produto.

Como resultado, tem-se a proposta de estabelecimento de um contrato de comunicação entre um produto que emprega os recursos atuais de contato com seus leitores. Por meio desta estratégia, o Webjornal se coloca na ordem do dia. É interessante notar que o leitor tem o poder de decidir se vai acessar o jornal e quando o fará; da mesma forma, é interessante notar os estratagemas empregados pela instância produtora para a divulgação de seu produto, que também podem ser enviadas por mensagens de celular, tipo SMS.