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NM10A ON-BOARD DIAGNOSTICS

TL ____________________________________________ J~BAR+BCR.2

5.2 NM10A ON-BOARD DIAGNOSTICS

4.4.1 A tradição nativa timorense esquematiza o mundo em pares diametralmente

opostos que se manifestam através de contrastes geracionais (pais-filhos), espaciais (dentro-fora), de estatuto (superior/inferior), etários (velho/novo) ou de género (masculino/ feminino). Não obstante, existe a possibilidade de união entre os mundos polarizados. Os contos orais nativos dão conta da ligação entre universos dicotómicos (cf. Gomes, 2008; Pascoal, 1967; Paulino, 2013). Nos relatos orais, o Céu e a Terra estavam unidos por meio de uma escada ou de uma trepadeira. A materialização do elo invisível entre mundos torna inteligível a possibilidade de interligação.

4.4.2 A cosmogonia nativa vê o tais como um elemento de ligação. O pano é a pele

“dos antepassados que continuamente se tece para cobrir os vivos, para os ligar em aliança, e até, para fazer a vez deles” (Seixas, 2008:15). Apesar de o tais não ser um ornamento bastante presente nas narrativas cardosianas, é possível destacar dois episódios nos quais o tecido surge com as propriedades referenciadas:

De início mostrou alguma relutância em ter uma mulher estrangeira e jovem como sócia (…) Antes de me devolver à procedência, fez-me a oferta de dois tais. Com um cobriu-se a ele próprio pela cintura e pediu-me que fizesse o mesmo com o outro. Sentei-me ao seu lado enquanto víamos o sol nascer, em todo o seu esplendor (Cardoso, 2007:65-68).

O episódio remete para a ideia de aliança e, simultaneamente, para a ligação com os antepassados. Antecedendo a oferta dos dois tecidos, leia-se o relato de Catarina, que permite perceber a interseção com a simbologia do tais, ou seja, uma relação com as gentes da terra e com os antecessores:

Fui apresentada aos maiorais como a noiva do Reino de Manumera. (…) Levou-me até aos cumes do monte numa visita histórica. Mostrou-me os esconderijos dos sublevados e o buraco onde se despediu da sua mãe, estendida numa laje de pedra, sacrificada para não ser apanhada viva (idem:68).

Mais adiante, Catarina sintetiza o pragmatismo e o interesse da relação: “não lhe

interessava o casamento. Apenas uma parceria. Uma aliança. Um termo que lhe era muito grato” (idem).

O segundo episódio, relacionado com o tais, relata o momento em que Catarina

oferece o pano tradicional a Alan Gerbault, sugerindo uma possível relação entre ambos (idem:169-181). Curiosamente, depois de se enrolar no tecido, o francês permite o diálogo entre outros pares opostos. Desde logo, e por contraste, faz notar a sua consciência europeia quando critica a idade do casamento de Catarina: “-Aos dezassete anos?! Sublinhou bem o seu espanto” (p.173). Posteriormente, Gerbault problematiza a relação entre colonizador e colonizado ao evidenciar uma opinião diferente de Catarina que, de certa forma, desvalorizava o ritual da masca. O navegador “fazia questão de fazer tudo segundo os hábitos e os costumes dos naturais das ilhas” (p. 170). E, mais adiante, defende o respeito pelos povos e pela manutenção da sua cultura e dos seus ritos (p. 174-175).

O navegador francês consubstancia, ele próprio, um diálogo entre imagens e

acontecimentos dicotómicos. Desde logo, ainda que as personagens não concordem quanto à nomenclatura a aplicar ao francês (alternando entre náufrago, navegador ou refugiado), a sua chegada logra encerrar os pares opostos presentes na temática da viagem: o início e o fim. Apesar de ter cumprido a sua viagem e de ter chegado a Díli, o navegador defraudará a expectativa - criada em redor da sua figura - de vir a tornar-se o príncipe encantado de Catarina. Apesar das intenções de Catarina, o francês arruinará o possível romance entre

ambos. A chinesa “esperava por alguém mais vigoroso. Um lobo-do-mar. Em seu lugar aparecera uma pessoa que mais parecia um fantasma” (p.177). E como os dois haviam de concluir, nem o navegador solitário era o que Catarina esperava (idem) nem Catarina era a mesma mulher do início da narrativa: “Eu nunca teria vocação para marinheiro solitário. Precisaria sempre de uma barcaça para levar os gatos, a Esmeralda e o Diogo. Tinha herdado muita coisa e construído outro tanto” (ibidem).

4.4.3 A ligação entre universos distintos não se restringe às propriedades místicas do

tais. Se o casamento e o baptizado são algumas das faces visíveis do acerto entre fações,

importa convocar, sem perder as narrativas de Luís Cardoso do horizonte, quem permite que as negociações tenham tal desfecho.

Nos romances, o perfil do negociador das “lutas de galos”, isto é, das querelas entre

grupos, é descrito da seguinte forma: “Tantas eram as tricas entre reinos. Nos intervalos das lutas de galos. Tinha de ser muito hábil e astuto. Apertar a mão do mais forte e fazer-se aliado do mais fraco “ (Cardoso, 2013:144). Josefina cumpria de forma exímia o papel de

lia folin . Conhecedora dos “meandros e disputas entre liurais prontificava-se a levar 130

recados e ameaças entre rivais. Aumenta[ndo] a sua fortuna pessoal na cobrança dos seus préstimos como intermediadora” (p.145).

É precisamente a mediação de conflitos que é exigida a personagens como Beatriz ou

Lucas Santiago. O filho do coronel pertence a uma família acantonada em diferentes fações cujos elementos concretizam, ao longo do tempo, várias desforras entre si. A esfera familiar mais próxima - na figura tutelar do pai - ajustava-se à influência portuguesa e, sob esse pretexto, Pedro Santiago será executado por Pedro Raimundo. Este episódio revela uma atitude bastante peculiar. Ao contrário de alguns familiares, que são movidos pelo desejo de vingança, Lucas Santiago mostra-se conciliador. Se não, leia-se: “nunca pronunciou qualquer palavra amarga contra Pedro Raimundo que fuzilou o velho coronel quando já estava quase sem vistas” (2003:43). Quanto a Beatriz, é-lhe pedido que estabeleça vínculos com uma das fações opostas e, assim, anule ou minimize a rivalidade entre diferentes eixos de poder. O Padre Santa impõe-lhe o alinhamento com o regime português, enquanto a avó Beatriz busca concretizar a sua vingança com a ajuda da neta.

A tradução literal devolve “língua com preço/palavra com preço”. A ideia tem que ver, sobretudo, com o facto 130

Os argumentos anteriores tornam legítimo supor que os humanos também possuem a

capacidade de ligação entre mundos. Veja-se, a este respeito, a figura do clandestino. O momento em que é descoberto por Carolina traz a cena a história da personagem (p.181). O rebelde, na época do Ai-Dick Funan , conseguia atravessar a fronteira para frequentar 131

as festas em Atambua e encontrar-se com a sua namorada. A situação ilustra que, embora o timorense trabalhasse debaixo da esfera política portuguesa, ele conseguia relacionar-se com os “inimigos” bapaks e garantir a sua passagem para outro lado da ilha. Num outro momento da narrativa, pode ler-se o ardil do rebelde que se movimenta com astúcia em situações antagónicas:

A ele interessava-lhe apenas manter as coisas como estavam. Nalguns casos chegou a utilizar os bons ofícios dos vizinhos para sanar diferendos entre liurais que não se entendiam por causa da posse de terras e entre ladrões que disputavam o gado que andava disperso pelas ribeiras (Cardoso, 2013:182).

Ao prestar-se atenção a outra figura cardosiana, também Lucas Santiago cumpre, em

termos espaciais, um interessante jogo. Note-se que a necessidade de adaptação a diferentes lugares foi aguçada logo na sua infância quando se mudaram para Ataúro - local para onde Pedro Santiago “foi mandado para se calar” (Cardoso, 2003:66). Posteriormente, a narrativa insere-o num contexto de exílio. Ainda que existam algumas afinidades com a terra que o acolheu, é tangível perceber que a felicidade idílica só será atingida com o regresso permanente a Timor e após um determinado acerto com o passado. O timorense vive, assim, entre lugares e entre tempos. Não se sente inteiramente feliz em Portugal, mas também não reúne as condições ideais para regressar à Pátria. Apenas pela viagem e pela substituição de pólos, isto é, pela troca de Portugal por Timor, será permitido o apaziguamento interno. É de salientar que o tópico da viagem é de tal maneira importante, que o romance enfocado se encerra com a frase: “O fim da travessia”.

Não menos importante é a curiosa relação estabelecida por Pigafetta entre História e

história. O interstício entre ambos os pólos é criado pela subversão de um episódio histórico: a passagem de Antonio Pigafetta, cronista italiano, pela ilha de Timor. O padre Albino quando recolhe o Pigafetta timorense, uma criança albina que canta fervorosamente o hino português, forja uma história para os seus registos e aceita-o como filho de malae (Cf. Cardoso, 2013: 57). Volvidos vários anos, o sacristão continua a acreditar na semente ficcional criada pelo padre Albino: “Acreditas na tua história? - Acredito, Atói” (p. 65).

Período temporal entre invasões: a japonesa e a indonésia. 131

Motivado por uma suposta ligação ao cronista italiano, que o faz “sofrer de escorbuto” (p. 59), Pigafetta busca por uma prova que legitime o relato ficcional que dá conta de que o cronista nunca teria embarcado de volta à Europa.

A viagem de Pigafetta em busca de uma evidência que fundamente a sua crença põe

o timorense a movimentar-se entre Este e Oeste, entre integracionistas e rebeldes, entre a História de Timor escrita nos bastidores políticos e uma outra história à qual pertencem os atores secundários e anónimos que não escaparam ao flagelo da guerra. Conforme quis Cardoso, a difícil viagem de circum-navegação de Fernão Magalhães estabelece um paralelismo com a difícil luta pela liberdade timorense. No final da narrativa, Pigafetta ilustra o estado de Timor: encontra-se sem língua e sem possibilidade de expressão. Contudo, possui memória e encontra-se livre dos seus opressores.

4.4.4 Concluindo, a cosmogonia nativa prevê entidades de ligação que tanto podem

ser ornamentos com carácter mítico ou entidades humanas com excecionais capacidades de mediação - como os lia-folin e algumas personagens. São, no entanto, Lucas Santiago, Beatriz e Pigafetta as figuras que mais evidenciam as potencialidades de conciliar diferentes mundos. Herdeiros de percursos de vida peculiares, as personagens vivem nos interstícios de poderes convergentes que lhes forçam uma maior hibridez e um diálogo constante entre universos. A instabilidade conjuntural força-lhes a movimentação e o percurso probatório. A Pigafetta cumpre fazer o diálogo entre a História e a história. A Lucas Santiago, a narrativa incumbe-o de ajustar o espaço-tempo e de concluir as três primeiras narrativas cardosianas. Beatriz herda as clivagens familiares e a obrigatoriedade de dar um desfecho a diferentes destinos.

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