3. Réussir les transitions en matière charbonnière en France et au niveau international
3.3. Prendre toute la mesure des nécessaires évolutions du secteur charbonnier
3.3.2. Au niveau européen, accompagner le passage d’une tradition de production à une logique de
O cenário da música sertaneja descrito no capítulo anterior é um exemplo concreto de como a música sertaneja, além de gênero musical, é também um campo social no qual vários discursos paralelos e, em diversos pontos, concorrentes entre si, ocupam posições específicas. Cada uma destas posições dentro do campo está
relacionada a diferentes públicos e a diferentes critérios de competência e legitimidade. No subcircuito do sertanejo-country, ligado ao universo da dança e do entretenimento e em avançado estágio de especialização, o principal critério é dado pela capacidade dos agentes de participar deste universo: às duplas cabe fazer o público dançar. A dança, neste caso, aparece como a principal lente pela qual os membros deste subcircuito (músicos, freqüentadores) observam sua própria prática. É a partir daí que hibridismos descritos no capítulo anterior, tal como aquele entre a música sertaneja, a música
country, o axé music e o pagode, podem ser observados. A partir da idéia de dança, tal
hibridismo, estranho aos ouvidos dos praticantes dos outros subcircuitos, é naturalizado. Da mesma forma, é a partir da dança que os membros deste subcircuito desprezam a música sertaneja produzida em outros subcircuitos. Mas não é somente a dança que media esta relação. Para os critérios estéticos das casas noturnas do sertanejo-country em Curitiba, as duplas que cantam no Canja de Viola, por exemplo, são “ruins”, seja pelo seu repertório, seja pela sua interpretação.
No subcircuito do sertanejo-raiz, representado pelo CMPB, por sua vez, o critério não é mais a dança, mas sim a excelência técnica na interpretação e a referência a elementos valorizados como tradicionais: uso da viola, por exemplo. Em nome deste critério, as duplas do sertanejo-country são criticadas, mesmo que sejam formadas por bons instrumentistas. Por outro lado, as duplas que cantam no subcircuito sertanejo são criticadas pelo signo de uma “pobreza” estética e técnica. Neste subcircuito, o termo
raiz, entendido a partir de uma visão bastante essencialista da cultura caipira (pensada a
partir de elementos como pureza), aparece como o diferenciador com relação às práticas de outros subcircuitos.
Por sua vez, no subcircuito sertanejo (que descrevi representado pela Churrascaria 3 Fazendas e pelo evento Canja de Viola), uma outra idéia de tradição é
acionada, ligada não mais à uma concepção essencialista da cultura caipira, mas sim à tradição chancelada pelo tempo. Desta forma, dupla como Milionário e José Rico que, para os alunos do CMPB, não aparece como tradicional, recebe em locais como o Canja de Viola ou a Churrascaria 3 Fazendas o epíteto de raiz – é uma dupla com mais de 30 anos de carreira, e este é o elemento enfatizado134. Em suma, a partir de critérios
específicos a cada subcircuito, há uma relação conflituosa entre eles: de negação, de crítica, de desprezo.
Em suma, três posições diferentes em torno do mesmo objeto – música sertaneja – concebido de forma distinta por cada uma das posições, que travam entre si jogos de conflito e concorrência. Escrevo “jogos” porque dependendo dos critérios observados, pode haver a conjunção de duas posições no campo contra uma terceira. O quesito competência, citado acima, é um exemplo disto: seja da forma como ela é vista nas casas noturnas da música sertaneja-country, seja da forma como é pensada no Conservatório de Música Popular Brasileira, de ambas formas a Churrascaria 3 Fazendas e, mais ainda, o Canja de Viola, são negados enquanto espaços possíveis. Porém as duas posições – sertanejo-country e CMPB – se confrontam em torno da competência. Por isto, jogos de conflito.
No entanto, o que foi descrito no capítulo anterior tem uma estrutura distinta daquela apresentada na análise do campo artístico feita por Bourdieu. O principal ponto da diferença, uma vez mais, é o grau de institucionalização – entendida como instâncias estatais – deste universo. Há, de fato, uma instituição estatal no caso de Curitiba, o CMPB. Porém, ele não ocupa uma posição centralizada no campo da música popular em Curitiba, não havendo termos de comparação entre ele e a Academia Nacional de Belas Artes, na França – esta sim, uma instância central dentro do campo artístico
134 Por isso, uma dupla Chitãozinho e Xororó, negada no CMPB, é aceita entre os freqüentadores
do 3 Fazendas ou do Canja de Viola. Ela não aparece nas preferências do público destes lugares, mas é respeitada como dupla tradicional.
francês e em relação ao qual os agentes que ocupam outras posições dentro do campo, se desejam ter ganhos simbólicos dentro do universo artístico, precisar orientar suas ações. Este não é o caso do CMPB. Uma dupla sertaneja em Curitiba pode orientar suas ações ao largo do CMPB – ela pode ser altamente considerada dentro no universo sertanejo-country ou pode ser uma celebridade regional, tocando nas rádios AM da cidade e na churrascaria 3 Fazendas às terças e sextas. Porém, suas chances de aparecer no programa de Inezita Barroso, na TV Cultura, são bastante reduzidas.
Esta diferença na estrutura dos dois campos – o artístico segundo Bourdieu e o da música sertaneja – no qual um aparece altamente institucionalizado e centralizado, conquanto o outro possui posições mais independentes uma das outras, está prevista também nos textos de Bourdieu. Basta observar que a música sertaneja aparece exatamente naquilo que ele chama de “artes médias” (Bourdieu 2005b), aquelas relacionadas à indústria e à tecnologia e cujas regras mercadológicas são diferentes das que regem as Belas Artes. Ou seja, no mercado dos bens simbólicos, no qual a arte ocupa uma posição de destaque, a música popular é um caso à parte, organizando o seu próprio mercado, ao largo, em certa medida, daquilo que é considerado a “grande arte”.
Desta forma, é necessário olhar para a gênese histórica do campo da música sertaneja, para compreender vários dos discursos apresentados aqui. Por que o CMPB se apresenta tão pouco maleável aos outros discursos? Como dois lugares diferentes no campo se apresentam como “sertanejo-raiz”? Que “raiz” é esta? Qual é a fonte da legitimidade do uso da palavra sertanejo em um universo marcado pela forte presença de elementos tão díspares como a cultura country e a música do reggae? Em suma, identificado o caráter de campo da música sertaneja – um universo social marcado por disputas de legitimidade – a compreensão dos diferentes critérios utilizados para a afirmação de cada um dos seus subcircuitos, ainda seguindo a sugestão de Bourdieu,
passa pela observação da gênese histórica do campo. E não basta observar sua gênese em Curitiba, pois se trata aqui, como afirmei na introdução, de uma prática multi- situada. O que ocorre em Curitiba exige a observação do que ocorre e ocorreu em outros lugares. Assim, é necessário observar a gênese histórica do campo da música sertaneja como um gênero musical amplo, para além da cidade de Curitiba. E é a este ponto que passo agora.