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7.2 C ONTRAINTES

7.2.1 Niveau d'authentification :

“Lynxfilm – Uma época em que todos nós éramos professores e alunos ao mesmo tempo.”

(Tassara, Marcello)1

A Lynxfilm nasceu em uma pequena sala na Avenida Ipiranga em São Paulo, numa sociedade em que César Mêmolo Jr. detinha 90% do capital e seu tio, Amadeu Mêmolo Jr., uma participação de 10%. Este capital inicial era mínimo, e a produtora não tinha, praticamente, nenhuma infra-estrutura, quando foi criada oficialmente no dia 03 de maio de 1957, iniciando suas atividades no dia 08 de junho de 1957. (Paes, 2002)

As motivações que levaram César Mêmolo Jr. à criação da produtora vinham de uma situação extremamente difícil que ele e outros profissionais do cinema brasileiro viveram, a partir do fim do sonho de se ter no país um cinema produzido industrialmente, conforme demonstrado na Parte I. Sem emprego no cinema, opta pela abertura da empresa com o nome inicial de Lynce Filmes Ltda., nome que procurava perpetuar a tradição dos negócios do pai, do setor hoteleiro, cuja empresa chamava-se Lynce Ltda.

Se era difícil viver de cinema naqueles anos, por outro lado o ambiente no Brasil da metade dos anos 1950 era muito propício ao seu projeto: o filme publicitário era a nova mídia, o que havia de mais eficiente e moderno em se tratando de publicidade. Se o momento não era o melhor para investir em longa-metragem, era o mais acertado para o filme publicitário e para as produtoras que lhes dava vida.

Foi na Vera Cruz que César Mêmolo Jr. iniciou sua carreira em cinema,

em 1952, como assistente de direção de Abílio Pereira de Almeida em um filme com Mazzaropi - Candinho - lançado em 1954. Mas seu percurso na Vera Cruz foi

desviado por uma estadia na Itália, para um curso de direção de cinema no Centro

Sperimentale di Cinematografia de Roma, com duração de dois anos, propiciado por

uma bolsa de estudos através do Consulado Italiano de São Paulo. Superado o concurso para a disputa das duas bolsas que eram oferecidas, foram aprovados César Mêmolo Jr. e Trigueirinho Neto, este também assistente de direção na Vera Cruz e amigo de Alberto Cavalcanti.

Concluído o curso e com o diploma em mãos, César Mêmolo Jr. recebeu uma proposta para atuar na Itália como assistente de direção de Dino Risi, em seu primeiro longa-metragem, mas essa proposta foi preterida por uma outra, vinda do Brasil, através de uma carta de Abílio Pereira de Almeida, o mesmo diretor com quem já tinha trabalhado anteriormente na Vera Cruz. Nesta carta, Abílio o convidava a voltar ao país e, aqui, co-dirigir - na sua recém-criada produtora, a Cinematográfica Brasil Filmes - o seu próprio filme de longa-metragem, com Carlos Alberto de Souza Barros. Dividido entre as duas opções, decide voltar ao seu país de origem, trazendo na bagagem a experiência de ter vivido em uma Itália que havia apostado no Neo-Realismo, logo reconhecido como uma das maiores e mais significativas “escolas cinematográficas” da história do cinema.

De volta ao Brasil, César Mêmolo Jr. realiza seu primeiro longa-metragem

Osso, amor e papagaios (1957) que contou com a fotografia de Chick Fowle,

produção de Abílio Pereira de Almeida e gerência de Galileu Garcia. Baseado no conto A Nova Califórnia, do escritor Lima Barreto, o filme ganhou os prêmios Saci e Governador do Estado e também foi premiado pela Prefeitura de São Paulo, porém, foi um fracasso de público, segundo o depoimento do seu próprio diretor:

“Vim embora e dirigi o filme de longa metragem, Osso, amor e papagaios, que ganhou dois prêmios Saci, o prêmio Governador do Estado e o Prêmio da Prefeitura, e foi um terrível fracasso de público. O filme era baseado num conto do escritor Lima Barreto, A Nova Califórnia. O filme era uma comédia e abordava, de maneira cômica, um tema que era a história de um vilarejo em que de repente as pessoas começavam a morrer misteriosamente e um cientista meio maluco que chega à cidade começa a fazer umas experiências com ossos humanos e descobre uma fórmula de transformar ossos humanos em ouro. Isso provoca na cidade um escândalo, porque as pessoas passam a se interessar por ossos humanos e então há uma

corrida ao cemitério para abrir as sepulturas, recolher os ossos e todos vão para a prefeitura vender os ossos e o prefeito queria comprar esses ossos. Porque só o prefeito é que tinha conseguido, do cientista, a fórmula para transformar os ossos em ouro. Esse fato de tratar de ossos humanos e tratar com total desrespeito o cemitério, as pessoas abrindo as sepulturas para retirar os ossos, chocou o público espectador. Na época, o cemitério era considerado um campo santo, havia um respeito muito grande. Era 1957 e as regras morais eram diferentes. O filme foi um fracasso, mas ganhou esses prêmios todos, principalmente uma crítica na revista Anhembi, do Benedito J. Duarte, que achou o filme genial.” 2

Mas não se deve creditar apenas a este aspecto o fracasso do filme. Lançado em 1957, muito provavelmente Osso, amor e papagaios sofreu, também, as consequências de fazer parte de um cenário de crise do cinema brasileiro, em especial, o paulista. No ano de 1958 o cinema paulista produziu apenas três filmes importantes: Cara de Fogo, com roteiro e direção de Galileu Garcia; O Grande

Momento, dirigido e escrito por Roberto Santos e Estranho Encontro, o primeiro filme

de Walter Hugo Khoury, escrito e dirigido por ele.

Galileu Garcia, diretor de filmes publicitários, começou a trabalhar na Vera Cruz como redator publicitário no departamento de propaganda, o que garantiu, como desdobramentos, o ingresso no mundo do cinema através da prática, fazendo assistência de direção para Abílio Pereira de Almeida. Aqui, ele tece um argumento para a crise em que se encontrava o cinema brasileiro naquele período:

“Mas, por que o cinema brasileiro morreu, mais ou menos, em 1960? Porque o cinema brasileiro não era dono do seu mercado, os donos do mercado eram as distribuidoras estrangeiras, especialmente as americanas e eles tinham um trunfo pra acabar com a gente. Vinha um filme com o Gary Cooper e nós tínhamos um Anselmo Duarte, nós não tínhamos um Gary Cooper. Os grandes atores americanos puxavam uma bilheteria enorme. E a gente estava lançando os atores brasileiros, que não tinham a popularidade que tinha um Gary Cooper.” 3

O esvaziamento, portanto, das perspectivas no cinema, não impediu César Mêmolo Jr. de constatar que havia em São Paulo apenas algumas pessoas que filmavam comerciais para televisão, mas não havia o modelo de empresa produtora estruturada. Grande parte dos comerciais eram realizados ao vivo, quase

sempre protagonizados pelas garotas-propaganda que faziam demonstração de produtos. Ou então se recorria às simples exibições na tela da televisão de cartazes e letreiros fixos dos produtos anunciados. Nesse início, a criação no Brasil ainda estava ligada somente à tradição dos suportes gráficos, produzindo meramente anúncios filmados para a televisão. Com esta percepção, César Mêmolo Jr. se viu, outra vez, diante de uma nova escolha: entre voltar para os negócios de seu pai em Atibaia ou criar sua própria empresa e permanecer em São Paulo: acabou decidindo por esta segunda opção.

Sua aposta na publicidade revelou-se, logo, muito mais ampla e produtiva do que imaginava.

2. Crescimento e qualificação da produtora: ampliando o território

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