O MM representa em torno de 1% de todos os cânceres e pouco mais de 10% das doenças malignas hematológicas nos EUA. A incidência anual, neste país, é de aproximadamente 4 a 5 casos por cada 100.000 pessoas (3-5). Em todo o mundo, há cerca de 154.000 casos e 101.000 mortes por ano(152).
Neste contexto, o MM ocorre em todas as raças e em todas as localizações geográficas, porém a incidência varia de acordo com a etnia. Assim, em afro-americanos e negros da África, incide de 02 a 03 vezes mais do que em brancos (153).
Em contraste, o risco é menor nos asiáticos do Japão e nos mexicanos. Também, é um pouco mais frequente em homens do que em mulheres (aproximadamente 1,4:1), e o risco de desenvolvê-lo aumenta com o índice de massa corporal (154–157). Inclusive, trata-se de uma doença de adultos mais
velhos, uma vez que a idade média no diagnóstico é de 66 anos. Apenas 10% e 2% dos pacientes são menores de 50 e 40 anos, respectivamente(158,159).
A maioria dos pacientes com MM apresenta sinais ou sintomas relacionados à infiltração de células plasmáticas no osso ou outros órgãos, ou ao dano renal causado por excesso de cadeias leves. Como exemplo, uma análise retrospectiva de 1.027 pacientes sequenciais diagnosticados com MM em uma única instituição encontrou os seguintes sintomas e sinais na apresentação: anemia, dor óssea, creatinina elevada, fadiiga, hipercalcemia e perda de peso (154).
A grande maioria (97%) dos pacientes possui uma proteína monoclonal (M) produzida e secretada pelas células plasmáticas malignas, que pode ser detectada por eletroforese protéica do soro e/ou urina (154).
Desta forma, a imunofixação do soro confirma a presença de uma proteína M e determina seu tipo, a qual se apresenta como um único pico estreito na região gama, beta ou alfa-2 (154).
As células plasmáticas malignas podem produzir cadeias pesadas de imunoglobulina e cadeias leves isoladas. Apresentam as seguintes frequências de imunofixação no soro: IgG - 52%; IgA - 21%; Cadeia leve Kappa ou lambda apenas (Bence Jones) - 16%; IgD - 2%; Biclonal - 2%; IgM - 0,5%; Negativo - 6,5%. Kappa é o isotipo de cadeia leve predominante em comparação com a
lambda, por um fator de 2 a 1 (154).
No que diz respeito aos achados mais frequentes no esfregaço do SP, aparecem a formação de "rouleaux" (> 50%) ("forma de pilha de moedas"), leucopenia (20%) e trombocitopenia (5%) (152).
Células plasmáticas monoclonais, raramente, são observadas no esfregaço do SP dos pacientes. Uma contagem absoluta dessas células, que detecta ≥ 100 células/microL (≥ 0,1 x 10 9/L), é encontrada em aproximadamente
10% dos casos de MM (160).
A Leucemia de Células Plasmáticas (LCP), uma forma rara e agressiva de MM, caracterizada por níveis elevados de células plasmáticas que circulam no SP, deve ser considerada sempre que as células plasmáticas circulantes
forem prontamente detectadas na avaliação convencional de contagem sanguínea completa(152).
Neste contexto, as células plasmáticas monoclonais circulantes podem ser detectadas usando um ensaio de imunofluorescência baseado em slide, uma técnica de imunoensaio em duas cores (ELISPOT) ou citometria de fluxo por "gating" em células CD38+ (161).
Aspirado de MO e biópsia são componentes-chave para o diagnóstico de MM. A percentagem de células plasmáticas da MO deve ser estimada a partir de uma amostra da biópsia central, quando possível. No entanto, se a porcentagem de células plasmáticas diferir na aspiração e na biópsia, o valor mais alto deve ser usado (161).
A CF não é usada para determinar a porcentagem de células plasmáticas da MO para fins de diagnóstico. Logo, a clonalidade pode ser estabelecida demonstrando a restrição da cadeia leve kappa/lambda na citometria de fluxo, imuno-histoquímica ou imunofluorescência (161).
A MO da grande maioria dos pacientes contém 10% ou mais de células plasmáticas clonais. No entanto, devido ao envolvimento irregular da MO, a aspiração e a biópsia podem apresentar menos de 10% de células plasmáticas numa média de 4% dos pacientes (153,161).
Um diagnóstico de MM pode ser feito em pacientes com menos de 10% de células plasmáticas clonais presentes em biópsia de MO se outros critérios diagnósticos forem cumpridos após a confirmação histopatológica de um tecido mole ou plasmocitoma ósseo (162).
Vale destacar que as características morfológicas das células plasmáticas podem variar dependendo da sua maturidade e, às vezes, podem ser morfologicamente indistinguíveis dos mieloblastos (163).
As células plasmáticas maduras são ovaladas com abundante citoplasma basofílico. O núcleo é redondo e localizado em posição excêntrica, com um halo perinuclear marcado ou clareamento citoplasmático. A cromatina apresenta-se como vidro fosco, sem nucléolos, enquanto as células plasmáticas apresentam cromatina nuclear dispersa, nucléolos proeminentes e uma alta relação núcleo- citoplasma (164).
Muito parecidas com as células plasmáticas normais, as células de mieloma expressam CD79a, VS38c, CD138 e CD38. No entanto, em contraste, frequentemente, expressam CD19. A expressão do CD45 é variável com a maioria das células de mieloma, sendo tipicamente CD45 negativas. Em média, 70% das células de mieloma irão expressar CD56, tipicamente negativo em células plasmáticas normais e na Leucemia de Células Plasmáticas (159).
Não existe uma única anormalidade citogenética que seja típica ou diagnóstica de MM, uma vez que a maioria dos tumores de mieloma apresenta anormalidades genéticas que podem ser detectadas com técnicas genéticas moleculares sensíveis, como a hibridização in situ por fluorescência (FISH) (165).
O ensaio da cadeia leve livre (FLC) mede as cadeias de imunoglobulina
kappa e lambda, as quais não estão ligadas a cadeias pesadas no soro. A
relação FAP normal de kappa/lambda é de 0,26 a 1,65; já as razões anormais de FLC são observadas em distúrbios de células plasmáticas clonais quando há produção em excesso de um tipo de cadeia leve (kappa ou lambda) e identificadas em aproximadamente 90% dos pacientes com MM (182).
Há pouco conhecimento sobre a incidência e os aspectos clínicos do MM na América Latina. No Brasil, por exemplo, a incidência é praticamente desconhecida, uma vez que a doença não aparece nas estimativas anuais fornecidas pelo Instituto Nacional do Câncer-INCA (168).
Em estudo recente, foi observado o perfil do mieloma em 16 instituições brasileiras. Dos 1.112 pacientes avaliados, no período de 1998 a 2004, 49,7% dos casos eram referentes ao sexo feminino e 50,3%, ao sexo masculino, com idade mediana de 60,5 anos, sendo que a maioria dos pacientes apresentava doença avançada (169).