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Após a determinação de BS, foi possível estimar a energia de ativação global da transformação
bainítica, como descrito no item 4.2.2.2.3, utilizando as curvas resultantes dos ensaios de dilatometria para as temperaturas de transformação isotérmicas iguais a 300°C, 350°C, 400°C e 450°C na análise. Conforme descrito por Caballero et al. (2004), a cinética de formação isotérmica da bainita superior e inferior é semelhante, com valores de energia de ativação quase iguais. Com base nessas informações, o presente trabalho propôs o cálculo de uma energia de ativação global. A Figura 5.7 mostra as regressões lineares, com uma boa correlação, para a determinação de Q*0,5 das amostras austenitizadas a 900°C e 1300°C, respectivamente. A
Tabela V.4 mostra os valores encontrados para Q*0,5 para ambas as situações.
Valores de energia de ativação da transformação bainítica em aços de aplicaçao em trilhos ferroviários foram obtidos também por Rodrigues (2019). Os valores encontrados para Q*0,5
foram de 78kJ.mol-1, 86kJ.mol-1 e 57kJ.mol-1 para dois aços do tipo premium e um aço do tipo
standard, respectivamente. Valores coerentes com os encontrados nesse trabalho. É
consolidado na literatura que a composição química influencia fortemente na energia de ativação para transformação de fases no aço; quanto maior o teor de elementos de liga no aço, maior será a "barreira de energia" a ser vencida para que a transformação de fases ocorra.
(a) (b)
Figura 5. 7 - Regressão linear de (ln t0,5) versus (1/T) e a determinação do valor angular do
coeficiente (B) para o Aço Nb-V austenitizado a (a) 900°C e (b) 1300°C.
Tabela V. 4 – Valores de energia de ativação global da transformação bainítica para o Aço Nb-V austenitizado a 900°C e a 1300°C.
Temperatura de austenitização 900°C 1300°C
Q*0,5 79kJ.mol-1 57kJ.mol-1
Para um mesmo aço, a energia de ativação da transformação bainítica é função das características microestruturais da austenita (tamanho de grão e densidade de discordâncias) que afetam tanto a difusão atômica, mecanismo atuantes na etapa de nucleação, quanto a deformação, responsável pelo crescimento da bainita. A energia de ativação da transformação bainítica também é função da composição química da austenita instantes antes da transformação (concentração de C e microligantes como Nb e V em solução sólida na mesma) que altera a termodinâmica e a distorção da rede.
As energias de ativação (Q*0,5) calculadas nesse trabalho podem ser relacionadas ao tamanho
dos grãos austeníticos medidos (d) e a discussão dessa relação pode ser explorada por meio dos dados apresentados na literatura. O efeito do tamanho de grão da austenita na transformação em bainita ainda não é bem estabelecido, apesar de muitas investigações apresentadas em trabalhos clássicos. Há autores (BARFORD e OWEN, 1961) que relataram que a taxa da transformação é acelerada pela diminuição do tamanho de grão, devido a um aumento na densidade numérica dos locais de nucleação nos contornos de grão. Outros autores (DAVENPORT et al., 1959) argumentaram que o tamanho do grão austenítico não teve efeito apreciável sobre a cinética da transformação da austenita em bainita. Por outro lado, foi discutido (MATSUZAKI E BHADESHIA, 1999) que um refinamento da microestrutura
austenítica leva a uma aceleração da taxa de nucleação (𝑁̇). Do ponto de vista energético, quanto maior a densidade de contornos de grão austenítico (para um menor d), maior a taxa de nucleação, porque se espera que o número de sítios adequados para nucleação seja proporcional ao número de regiões de mais alta energia, os contornos de grãos. Sabe-se, ainda que a energia de ativação para a nucleação da bainita é diretamente proporcional à força motriz da transformação (g), em oposição à relação do quadrado inverso previsto pela teoria clássica. A energia de ativação da nucleação da bainita vem da resistência da rede ao movimento das discordâncias (BHADESHIA,1992; REES, 1992).
A teoria clássica explica que um dos possíveis mecanismos de nucleação de fases ocorre pelas flutuações de composição que se dão como eventos aleatórios devido à vibração térmica dos átomos. Uma flutuação individual pode ou não estar associada a uma redução na energia livre, mas a nucleação de uma nova fase só pode ser viável e crescer se houver uma redução. Existe um balanço de energia associado à criação de uma nova fase, para um núcleo ser viável, o incremento de energia de interface tem que ser compensado pela diminuição de energia de volume. Em um sistema metaestável, isso leva a um tamanho crítico e uma energia de ativação necessária, além dos quais o crescimento de uma partícula é favorecido. A energia de ativação
Q* é dada pela Equação 5.1, em função da energia interfacial (), e da relação do quadrado
inverso com a energia livre de Gibbs por unidade de volume da fase (GG) e com a energia
de deformação por unidade de volume de (GD) (BHADESHIA, 2002).
𝑄∗= 16𝜋𝜎𝛼𝛾
3
3(∆𝐺𝐺+ ∆𝐺𝐷)2 (5.1)
Segundo Bhadeshia (2002), para a nucleação da bainita, existe uma relação linear entre a força motriz mínima necessária para atingir uma taxa de nucleação para a bainita (𝑄𝑁∗) e a temperatura mais alta na qual a bainita pode se formar por transformação por deformação (Th). Essa relação
pode ser usada para deduzir se a nucleação da bainita envolve movimentos de discordâncias ou flutuações de composição química. Nesse caso, a taxa de nucleação (IV) terá uma dependência
com a temperatura devido à energia de ativação, dada pela Equação 5.2.
𝐼𝑉 ∝ 𝜈. 𝑒−𝑄
∗
𝑅𝑇 (5.2)
onde é a frequência de tentativas. Essa relação leva a Equação 5.3 −𝑄∗ ∝ 𝛽. 𝑇, onde 𝛽 = 𝑅. 𝑙𝑛𝐼𝑉
Assume-se, então, que existe uma taxa de nucleação específica em Th, independentemente do
tipo de aço, onde β é um valor constante e negativo, uma vez que a frequência de tentativa deve ser maior que a taxa real de nucleação. Isso leva ao interessante resultado que a nucleação da bainita se dá por movimento de discordâncias e apresenta energia de ativação proporcional à força motriz, como mostrado na Equação 5.4, e como observado nesse trabalho.
𝑄𝑁∗ ∝ 𝛽𝑇 (5.4)
Em termos de composição química da austenita, torna-se necessário levar em consideração a diminuição da força motriz (g) devido ao enriquecimento de carbono (e outros microligantes) na austenita quando carbonetos presentes na estrutura são dissolvidos, em temperatura de austenitização mais alta (REES,1992). Ravi et al. (2017) confirmam que a energia de ativação para nucleação da bainita (tanto no crescimento do grão da austenita quanto a nucleação auto catalítica) diminui com o aumento do grau de enriquecimento de carbono na austenita. Rees et
al. (1995) explicam que quando a quantidade de nióbio em solução na austenita é maior, há
também maior dissolução de partículas de carboneto presentes na austenita antes da transformação ex é então possível que essas partículas não dissolvidas atuem como locais de nucleação para transformação. Ainda, em relação ao tamanho das placas de bainita, para uma maior força motriz, o tamanho de raio critico (r*) se torna menor, permitindo um maior número de sítios de nucleação, levando, assim, a um refinamento da microestrutura bainítca resultante. Essas relações foram observadas nesse trabalho, como resumido na Tabela V.5.
Tabela V. 5 – Relação entre energia de ativação da transformação bainítica, tamanho de grão austenítico, tamanho das placas de bainita, taxa de nucleação, força motriz e raio crítico.
Temperatura de austenitização Q*0,5 (kJ.mol-1) d 𝑁̇ g r*
900°C 1300°C
onde, é a espessura da placa de bainita, 𝑁̇ é a taxa de nucleação, g é a forma motriz e r* é o raio crítico.