Uma vez catalogadas convencionalmente nas fichas, inicia-se a organização das “UEs” e “Interfaces” com vistas ao sequenciamento em um tempo relativo. Por sequência relativa entende-se a relação de anterioridade, posterioridade e contemporaneidade entre os estratos que compõem o objeto em questão, independente de datações absolutas. Essas relações temporais definem a “posição estratigráfica” das unidades.
Todas as unidades da estratificação terão uma posição na seqüência estratigráfica de um sítio, que é única para cada unidade. Esta é a posição sequencial relativa de uma determinada unidade em relação a outras unidades. Ela é determinada pela interpretação da estratificação, de acordo com as leis da estratigrafia arqueológica.
(HARRIS, 1989, p.51, tradução nossa)128
A posição dos estratos é dada sobre um diagrama composto por uma série de quadrículas, formulado por Edward Harris, intitulado Matriz de Harris, que “é a
representação diagramática fundamental do tempo arqueológico” (TRAXLER;
NEUBAUER, 2008, p.13, tradução nossa)129.
A montagem da matriz de Harris parece bastante simples quando se lida com poucos estratos. Todavia, em situações onde há muitas fases construtivas, elas são bastante complexas e requerem a análise das relações estratigráficas primeiramente entre os pares de “UEs” para que depois seja possível o sequenciamento de todo conjunto, como mostra a Figura 47.
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“All units of stratigraphy will have a position in the stratigraphic sequence of a site, which is unique to each unit. This is the relative
sequential position of a given unit in relation to the other units. It is determined by the interpretation of the stratification, according to the laws of archaeological stratigraphy” (HARRIS, 1989, p.51).
129 “The Harris Matrix is the fundamental diagrammatic representation of time for an archaeological site” (TRAXLER; NEUBAUER,
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FIGURA 47 Combinação de “UEs” segundo relações estratigráficas entre pares com o objetivo de situa-las na matriz de Harris. Fonte: BIBBY In: HARRIS et al, 1993.
Mas como a sistematização de dados por meio da Matriz de Harris beneficia o
reconhecimento cronológico de edifícios históricos? Brogiolo ilustrou essas possibilidades
como apresenta a Figura 48.
A matriz é resultado do sequenciamento de quadrículas que representam as atividades construtivas implementadas sobre a construção original. As “atividades” mais antigas são posicionadas na parte inferior. Elas indicam o corpo arquitetônico original. À medida que o diagrama vai sendo preenchido inserem-se as “atividades” posteriores. Toda quadrícula acima de outra, pelo princípio da superposição, enunciado por Harris, é mais recente do que aquelas situadas abaixo.
A Matriz de Harris não contempla nenhum outro aspecto a não ser a sequência numérica de fases e atividades construtivas. Ela se limita a uma sistematização de dados que requerem outros suportes informativos para serem compreendidos, que em geral são os mapas cromáticos - bases gráficas bidimensionais.
No caso de estratificações arqueológicas, o estudo estratigráfico tem como objetivo o sequenciamento relativo de “UEs”. Em Arquitetura, considerar apenas esse aspecto é insuficiente. Esse é apenas o primeiro passo de um estudo mais complexo que envolve a interpretação de significados de formas e materiais, ambiências, mudanças programáticas, intenções subjetivas, estilos, tipologias. A compreensão das “leis” de Harris, para estudos estratigráficos aplicados a arquiteturas históricas é a base para se entender as relações de temporalidade (anterioridade, posterioridade e contemporaneidade) existentes entre as “UEs”.
FIGURA 48As relações estratigráficas segundo Brogiolo. Fonte: BROGIOLO, CAGNANA, 2012.
Apesar de muito se ressaltar sobre a tridimensionalidade inerente às estratificações arquitetônicas, desde as primeiras publicações em “AA”, ainda é escassa a bibliografia que se dedica às necessárias revisões e críticas do método proposto por Harris, sendo, por isso, ainda muito utilizado. Trata-se de um método de caráter nitidamente esquemático e que, justamente por isso, auxilia no sequenciamento cronológico do objeto arquitetônico, mas que não pode ser considerado um resultado ou um objetivo das pesquisas em Arqueologia da Arquitetura.
Não se nega o valor que a Matriz de Harris teve e ainda tem para pesquisas em “AA”. Ainda que se trate de uma simplificação esquemática de um processo de pesquisa complexo, “o diagrama não tinha como objetivo ‘representar’ a realidade, mas
sim ‘simboliza-la’” (GARAI-OLAUN; BUSTINZA, 2013, p.77).
Assim, o que se propõe com esta discussão é levantar as possibilidades
de utilização dos modelos gráficos e da Matriz de Harris como sínteses histórico- informativas de um conjunto de dados complexos de ordem estrutural, compositiva e ornamental próprias do artefato arquitetônico. Mais do que ilustrativos e didáticos, acredita-se a os modelos gráficos e de datação em “AA” podem ser melhor explorados no sentido de contemplar aspectos que superam o mero sequenciamento de fases e unidades construtivas.
Na verdade, a necessidade de revisão deste método emergiu mediante situações operacionais próprias de construções não tão frequentes quanto aquelas contempladas nos estudos de campo da Arqueologia da Arquitetura europeia. Ainda que falemos de um contexto europeu onde a disciplina parece estar mais amadurecida, a base sobre a qual se firmou era estritamente arqueológica. Até hoje, a principal referência bilbiográfica do
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ramo é a teoria de Gian Pietro Brogiolo, cuja contribuição é inestimável, mas que guarda uma linguagem característica do olhar do arqueólogo sobre o edifício histórico.
Justamente por isso, os edifícios estudados sob a perspectiva da “AA”, sobretudo na Itália e na Espanha, são exemplares da arquitetura medieval. Edificações em alvenaria de pedras (Figura 49A), com materiais aparentes e que muito se assemelham à imagem que se tem das estratificações arqueológicas. Tais tipologias, além de terem suas diferenciações materiais e texturais mais evidentes, atestam técnicas construtivas cujo conhecimento já está consolidado. Inclusive os primeiros estudos em “AA”, conduzidos por Tiziano Mannoni, estavam direcionados à investigação de técnicas medievais. Portanto, a leitura estratigráfica restrita, ou predominante, de fachadas é resultado do próprio cerne arqueológico da disciplina na Europa, bem como um sólido conhecimento de sua História da Arquitetura.
No Brasil, estudam-se edificações de períodos históricos bem mais recentes. Não se dispõe ainda de uma historiografia consolidada sobre construções e técnicas tradicionais. Além disso, à exceção das cidades coloniais onde a alvenaria de pedra foi difundida, nas demais cidades, a arquitetura histórica é composta por edifícios de tijolos, predominantemente, rebocados e pintados (Figura 49B).
Seria então inviável a aplicação da Estratigrafia, tal como vem sendo difundida em Arqueologia da Arquitetura?
FIGURA 49A Exemplo de “estrutura estraficada arquitetônica”: alvenaria de pedras. Ainda que não se trate de uma construção medieval, as diferenças de dimensão, textura e técnica de assentamento são evidentes, pois se tratam de materiais aparentes. As diferenças entre a alvenaria original (aparelhada, com peças de dimensão aproximada de 40 cm de comprimento e 20 cm de altura, dispostas predominantemente em sentido horizontal, sendo que nas ombreiras as pedras são assentadas em posição vertical e as juntas são pouco espessas) e a alvenaria empregada no fechamento do vão (pequenas, irregulares, acinzentadas) é nítida. Foto da autora, 2013. FIGURA 49B
Exemplo de estratificação arquitetônica em uma superfície murária composta por quatro camadas de pintura. Os estratos não ficam completamente aparentes e requerem prospecções e sondagens para que possam ser diferenciados. Os motivos ornamentais se prestam à datações indicativas uma vez correspondidos a estilos históicos. Fonte: Arquivo Regina Tirello / G-COR Arquitetura, 2005.
NÃO. A “Estratigrafia” é sim importante fonte informativa em Arqueologia da
Arquitetura, mas ela não pode ser limitada à “análise de fachadas”. A “AA” preza o
conhecimento pleno do edifício com base em seus componentes tridimensionais, cujos estudos requerem também análises de ambiências, baseadas no cruzamento de dados referentes a arranjos espaciais, funcionais e decorativos. A Matriz de Harris precisa sim ser revista de modo que o estudo arqueológico dos edifícios proporcione a plena leitura do objeto arquitetônico de acordo com suas diferentes escalas:
A leitura cronológica: As relações de anterioridade e posterioridade entre os estratos originais permitem ordena-los em seuqência temporal a partir do qual sabemos qual foi o mais antigo e qual é o mais recente. As relações tipológicas outorgam um valor cronológico absoluto às relações temporais relativas dos estratos. (...)
A leitura funcional: As relações entre as partes originais permitem compreender suas funções e como elas foram se modificando e transformando progressivamente o edifício original.
A leitura estrutural: Ainda que a estrutura mais clara seja a última conservada, no entanto, por suas relações de dependência com as partes originais mais antigas, podemos compreender quais foram as estruturas suprimidas ou remanescentes e como se deu o processo de alteração estrutural.
A leitura produtiva: O edifício apresenta como um processo de produção, de produtos construtivos que tem evoluído ao longo do tempo. (...)
A leitura cultural: As leituras anteriores são imeditas. Interpretam o edifícío como um conjunto constantemente transformado material, estrutural, funcional e artisticamente. Porém, a principal leitura que se pode fazer do imóvel é a cultural. Cada um dos contextos sincrônicos que o configuram e suas interrelações informam (...) sobre modos de vida, rituais de passagem, organização familiar, formas de relação social ou ideologia das diversas culturas que o habitaram.
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