Na óptica de Nietzsche, cada aprendiz deveria deixar a sua educação sob a tutela de um educador, um verdadeiro filósofo, que teria como finalidade principal tirar o seu discípulo da insuficiência condicionada pela miséria da sua época, para ensinar-lhe a ser de novo ele mesmo, i.e., intempestivo: querer libertar-se de tal condição empobrecedora em que a educação moderna o colocou, libertar-se das correntes que o atam ao rebanho alienado e ouvir a sua consciência dizer-lhe ‘Pára! Sê tu mesmo!’.
«Quando sentimos em nós uma incerteza semelhante, o desejo de dar os primeiros passos e a necessidade de um guia que nos sustenha, então, arte, ciência, filosofia podem encaminhar a nossa vida, conquanto, tomem a figura de uma pessoa que incuta em nós respeito e admiração. É escolhendo um mestre que começamos a tornar-nos qualquer coisa, e isto pela modéstia do acto que atenua o orgulho juvenil, e pela confiança no apoio que dá firmeza ao nosso caminhar. Esta é a experiência pessoal que Nietzsche nos conta aqui, e as palavras de que ele se serve – bem como a personalidade que delas emerge – podem precisamente tornar-se para nós no modelo para uma repetição da experiência» (Colli, 2000, p. 21).
Esses educadores são aqueles homens que foram ao mais profundo das profundezas, homens que viram mais alto e mais longe, homens que, por isso mesmo, não se contentaram com as respostas que usualmente provém dos locais habituais do pensamento,
47 Quando Nietzsche defende que a educação não se encontra, por natureza, destinada a todos, mas tão só a
raras excepções, faz-nos lembrar a posição defendida por Platão na sua famosa Alegoria da Caverna (cf. Platão, 2001, 315-359).
nem com a repetição dos mesmos gestos quotidianos; esses homens de que Nietzsche nos fala vivem verdadeiramente, não se escondem de uma maneira vergonhosa por trás de uma máscara, como fazem geralmente os homens da ciência, os eruditos. Mostram quem realmente são; falam o que realmente pensam e pensam o que realmente é. Vão à luta por aquilo em que acreditam e acreditam naquilo que realmente dizem – não fazem finta de acreditar, quando, no fundo, não percebem bem o que dizem, como o fazem a maioria dos filisteus cultos.
Segundo Nietzsche, um exemplo de um homem exemplar, que tinha as qualidades necessárias para assumir o papel de educador da humanidade era Schopenhauer. Tratava-se do educador, do filósofo que durante tanto tempo Nietzsche tinha tão arduamente procurado. Diz ele,
«Se descrever o acontecimento da minha primeira leitura das obras de Schopenhauer terei de deter- me um pouco numa ideia que assaltou, frequente e imperiosa como nenhuma, o meu espírito juvenil. Quando, noutros tempos, me abandonava eu aos meus sonhos, me dizia que o terrível esforço e imperioso dever de educar-me podiam ser-me dispensados pelo destino se me acontecesse encontrar um filósofo que fosse meu educador, um verdadeiro filósofo a quem podia obedecer sem vacilar, por ter mais confiança nele que em mim mesmo. Então, perguntei-me qual tinham sido os princípios de virtude que teriam de presidir a minha educação e reflecti no que ele pensaria de tais princípios de educação a serem usados hoje em dia. Um exige do educador que reconheça imediatamente os dotes particulares do seu discípulo e que dirija imediatamente todas as forças e todas as faculdades dele até esta única virtude, para conduzi-la ao seu verdadeiro amadurecimento e à sua fecundidade. A outra máxima, por sua vez, requer que o educador discirna e cultive todas as forças, para estabelecer entre elas uma ponderação harmoniosa» (1949, pp. 177-178).
Ao contrário do que tinha vindo a ser realizado ao longo dos séculos na educação dos jovens, Nietzsche considerava que a influência de uma verdadeira educação não deveria ser unicamente pautada pelo conhecimento teórico da obra criada por tal ou tais homens superiores. Ele considerava isso um mero exercício de reprodução, no qual os jovens se limitavam passivamente a memorizar e a repetir o que esses homens disseram ou fizeram, acabando por verem as suas qualidades criativas e os seus potenciais intelectuais a serem inutilizados e até entorpecidos. Nietzsche pensava que a educação dos jovens deveria ser fortemente marcada não tanto pelos livros que este ou aquele homem exemplar tinha
escrito, mas, isso sim, pelas vidas que eles levaram e, mais especificamente, pelo modo como se debateram nos imensos confrontos em que se encontram, assim que tomaram consciência do seu tempo e dos males que este acarretava para a cultura e, em particular, para a educação autêntica dos jovens que se encontram nos estabelecimentos de ensino alemães da época. Para ele, tratavam-se de homens que, pela vida exemplar que viveram, na experienciação das mais diversas adversidades – adversidades estas que ele, melhor do que qualquer outro homem, suportou e combateu, sem nunca se vender ao oportunismo apelativo de vir assumir um cargo socialmente apetecível e economicamente lucrável em troca do silêncio e dos conformismos tão estimados por aqueles que têm todo o interesse em que as coisas (a educação e a cultura) se conservem nestes moldes –, estariam em condições de educar a sua geração tendo em vista a árdua tarefa de mostrar aos jovens a luz do seu ser, conduzindo-os por entre o lamaçal que os impede de chegarem a serem eles mesmos. Diz Nietzsche,
«Eu não me preocupo com um filósofo senão quando é capaz de dar-me um exemplo. (…) Mas o exemplo deve ser dado pela vida, e não apenas pelos livros, quero dizer, à maneira como ensinavam os filósofos da Grécia: no rosto, na atitude, na indumentária, na alimentação, nos costumes, mais do que nas palavras ou nos livros. (…) Porém, verdadeiramente é um milagre que tenha podido chegar a ser este exemplo humano, pois estava rodeado dos mais formidáveis perigos, perigos que aniquilavam e destroçavam qualquer outra criatura humana» (idem, ibidem, pp. 185-187).