O processo de avaliação mostra-se importante para que haja uma movimentação de reflexão sobre os atuais processos formativos. Como afirmam Cavalcante e Mello (2015), a avaliação serve como estratégia de verificação da qualidade do ensino e da formação profissional.
É esta atividade de ponderação sobre a prática que fomenta momentos de planejamento do ensino, orientação da gestão pedagógica, desenvolvimento institucional, diagnóstico das deficiências do ensino e o seu reflexo sobre o processo de ensino- aprendizagem (CAVALCANTE; MELLO, 2015).
Deste modo, os processos de avaliação, sejam eles formais ou não, influenciam na construção ou reformulação dos PP, matrizes curriculares e práticas pedagógicas. Fundamentados nisso, objetivou-se captar dos professores suas percepções quanto ao atual cenário de formação para a SC em seus cursos, num processo de reflexão e crítica sobre o que vem sendo ofertado em tais ambientes.
Como resultado, houve docentes que avaliaram a formação ofertada como ainda insuficiente no que se refere à abordagem da SC. Contudo, também apareceram nas declarações apontamentos de cenários onde tais temáticas até são trabalhadas, mas que necessitam de melhorias. Do mesmo modo, também surgiram avaliações que classificaram a atual formação como suficiente, sendo capaz de prover nos discentes os conhecimentos e capacitações adequadas para se intervir em saúde.
Vemos o reflexo de boa parte das universidades brasileiras quando pensamos nas realidades em que esta formação ainda se mostra fragilizada, pois, como evidenciado por diversos autores ao longo deste trabalho (ANJOS; DUARTE, 2009; COSTA et al., 2012; OLIVEIRA, 2018; OLIVEIRA; GOMES, 2017; PALACIO et al., 2018), o atual cenário formativo nacional é de cursos de EF nos quais a SC se apresenta como uma área negligenciada.
Péssima. Péssima. Nós sabemos disso, isso é colocado até pros alunos, que isso é uma crítica que nós fazemos. Infelizmente o projeto que tá aí é um projeto antigo, se não me engano de antes de 2004 [...]. Então isso é de consciência não minha, professor “X”, mas de consciência de todos os professores do colegiado, consciência dos alunos. Mas é muito pobre a relação aqui, a formação no que se refere a isso, na “Universidade X” é muito pobre (Entrevista 1).
Nascimento e Oliveira (2016) reforçam o fato de que, apesar de o P/PEF ter espaço reconhecido nas principais políticas públicas de saúde, historicamente a sua formação
132
inicial não é voltada para atender esta área de atuação/discussão. O que vemos atualmente são movimentos iniciais de mudança desse perfil formativo, mas ainda sem grandes sinalizações de mudanças generalizadas na categoria profissional.
Percebemos então que já existe uma movimentação de despertar para a área, como lembrado pelos entrevistados e por autores que trabalham com a temática.
A gente tem hoje, eu diria para ti com muita tranquilidade, que mesmo sem ter o novo projeto pedagógico aprovado, há uma confluência para isso. Todos nós temos esse discurso, sem exceção. Até aqueles que não acreditavam, estão começando a entender que estão ficando sozinhos. [...] A gente vem para a escola, mas a gente traz uma bagagem da Saúde e a gente vai influenciando o pessoal que vai entrando. Dizendo "Ei cara tu tá lidando com o quê?" nas entrevistas que a gente faz, vai vendo se tem alguma aproximação. E isso com os professores que são substitutos também (Entrevista 2).
Essa movimentação vem ocorrendo desde a reformulação da compreensão do conceito de saúde, onde esta passa a ser compreendida e estruturada por uma concepção ampliada, considerando, assim, os múltiplos aspectos que se referem aos estados de saúde- doença. Entende-se que, apesar de ainda serem poucos os cursos que trabalham a formação em SC, estes estão se constituindo por uma lógica minimamente condizente com as atuais discussões em saúde (NASCIMENTO; OLIVEIRA, 2016).
Os docentes afirmam que em algumas IES analisadas, mais do que apenas reconhecer, estas já fomentam em momentos pontuais a discussão sobre a SC. Batista (2013) salienta que, mesmo sendo ações pontuais, estas se mostram como eficientes na reconfiguração da abordagem em saúde em cursos de graduação, levando docentes e discentes questionarem o modelo reducionista-biologizante que ainda se apresenta em algumas IES e passarem a enxergar a saúde sob o prisma também das questões sociais.
[...] eu acho que tem essa preocupação do colegiado de falar sobre saúde nas disciplinas. Então eu acho que isso é pensar a Saúde Coletiva. Então a preocupação das pessoas em trazer as datas comemorativas da saúde para a Educação Física [...], quando tem um evento, um momento importante de discussão, a gente tenta pautar a saúde, tem que ficar lembrando que a Educação Física precisa trazer a saúde para perto, essa discussão de saúde para perto. Mas acho que ainda não é suficiente para aprender, para estudar o que é Saúde Coletiva, acho que precisa ter mais. [...] precisa ter de fato um olhar para esse conteúdo e incorporar na nossa matriz curricular (Entrevista 5).
Contudo, tem-se consciência de que se precisam aprofundar as discussões sobre a temática, promovendo esta articulação por meio de recursos formativos que sejam previstos pela própria matriz curricular do curso de EF.
Apesar de todas estas configurações de formação, também foi possível visualizar realidades nas quais a SC já é área reconhecida e fortificada dentro dos cursos de EF.
133
A “Universidade Y” é um grande polo da Saúde Coletiva, é um dos grandes investimentos que vem tendo para possibilitar essa difusão pela atenção primária como um todo. [...] ela vem investindo muito na capacitação dos profissionais. Então é uma questão da direção e vem descendo muito para os cursos. Eu penso que há um trabalho multiprofissional, a gente tem aqui. Então eles buscam muito isso [...]. São 1 ano praticamente, são 3 semestre que ele fica em cima dessa difusão do que é a Saúde Coletiva. Então eu penso que a “Universidade Y” ela vem ganhando muito terreno nesse aspecto. Ela gosta de difundir isso. A gente tem aqui uma pós- graduação em Saúde Coletiva (Entrevista 15).
Realidades como esta e como aquelas trazidas por Câmara et al. (2016) e Oliveira (2018), nas quais os cursos de EF já preveem em sua matriz curricular obrigatória momentos de discussão teórica e atividades práticas que envolvam a SC mediante diversos recursos formativos, devem ser tomadas como cenários almejados, promovendo uma formação para a área da EF em que a SC seja componente consolidado no processo de graduação.
Baseados nisso, observamos existirem, em Fortaleza, diferentes conjunturas no que se refere à formação em SC nos cursos de graduação em EF. Infelizmente, ainda prevalece a realidade de a SC nem sequer ser mencionada como componente curricular, deixando a formação do P/PEF deficitária no que a ela compete.
Todavia, já é possível entrever o despertar para a abordagem desta área. Torna-se comum o discurso de esforços no que diz respeito à maior atenção para a SC, nem que esta seja contemplada por meio de ações pontuais. Reconhece-se que, da forma como estão postos hoje, os cursos de EF são insuficientes para uma formação adequada em saúde, levando a uma movimentação de reflexão e mudanças nas diferentes IES. Apesar destas problemáticas, é possível ter perspectivas de melhora, principalmente quando encontramos cursos que já articulam a SC de forma sólida, estimulando seus discentes desde os anos iniciais para a intervenção na e com a área da saúde. Como já mencionado, iniciativas como esta devem ser tomadas como espécimes de protótipos, procurando seguir as ações positivas, reajustar os pontos falhos e adequá-las à realidade dos diferentes cursos, propagando tais feitos nos demais ambientes de formação.