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O paradigma da racionalidade dominou por muitos anos a forma de se analisar, pesquisar e gerenciar as organizações. Esse modelo foi útil em um outro contexto, onde o mercado era entendido como estável e onde havia uma lógica racional nas tomadas de decisões em níveis organizacionais e políticos. Entretanto, esse modelo que foi defendido por alguns autores e questionado por outros não consegue mais espaço na atual conjuntura

formada por complexidades e incertezas. Assim, as teorias organizacionais e econômicas são mutáveis, bem como os paradigmas que as embasam. A lógica ainda tem seu espaço, mas os fatores mais importantes são as pessoas, com suas necessidades e complexidades, pois constroem e comandam empreendimentos e elaboram diretrizes políticas para as demais pessoas. Esta visão sistêmica dos fatos e fenômenos, sejam políticos, econômicos, sociais, culturais e históricos, forma a base de entendimento e gerenciamento das organizações modernas. Isso leva a uma mudança na forma como as organizações articulam suas relações com seu entorno e como constroem suas estratégias para serem bem-sucedidas. Uma alternativa nesse sentido foi encontrada e proposta pelas próprias empresas, qual seja a formação e atuação de um novo arranjo e/ou arquitetura organizacional na forma de redes interempresariais.

Alguns estudos de casos de formação de redes interempresariais tanto em redes de abastecimento, quanto em redes de cooperação comprovam as inúmeras vantagens da atuação em redes, desde a conquista de maiores vantagens competitivas, aperfeiçoamentos tecnológicos, aumento na participação de mercado, aprendizagem entre outros.

Para ilustrar tais vantagens, toma-se o exemplo de cadeias logísticas integradas no setor de supermercados, que não se caracteriza como uma rede interfirma, mas em redes intrafirmas. Um estudo realizado por Poirier e Reiter (1997) em cadeias de reabastecimento indica algumas vantagens na atuação de redes de parceria e cooperação:

• reduções de estoque através da utilização de sistemas de comunicação e de entregas just in time;

• aumento das rotações de estoques, resultado de encomendas diretas dos consumidores com níveis de estoques mínimos e sem rupturas;

• aperfeiçoamento dos ciclos, desde a criação de novas idéias até a comercialização;

• aumento nas vendas e na participação no mercado através de atendimento mais ágil, induzindo o consumidor a comprar na rede;

• incremento nos lucros resultantes da eliminação de desperdícios e diminuição dos custos;

• melhoria no relacionamento com os clientes em função de respostas mais rápidas e adequadas.

As empresas estão sofrendo pressões do mercado com relação à racionalização de fornecedores, diminuição dos ciclos de produção e distribuição, qualidade de produtos e serviços, exigindo maiores investimentos em inovações tecnológicas em seus processos, produtos, serviços e na distribuição, isto é, na cadeia logística como um todo. Tais exigências estão impulsionando empresas de classe mundial à formação de parceria e/ou redes de cooperação no sentido de, em conjunto, dividirem recursos, tempo, experiências, conhecimentos para poderem competir neste cenário de tantas exigências.

Com base nisso, Ching (1999) apresenta resultados do estudo de competitividade mundial de manufatura e exame do impacto de supply chain nas empresas de autopeças de alta performance em nove países. Neste estudo, foram escolhidos três produtos a serem analisados: bancos, escapamentos e freios. O destaque está em termos de altos níveis de produtividade e qualidade, resultando o Japão como o melhor país posicionado, sendo que tamanho e desempenho podem ser explicados pela atuação das redes de cooperação entre as grandes montadoras e os pequenos e médios fornecedores, no setor em estudo.

Cassiolato e Latres (1999) destacam que as características específicas desses tipos de arranjos organizacionais (redes interempresariais) estão relacionadas com o contexto sócio- econômico e histórico no qual emergem e da identidade territorial criada. São resultados das estratégias construídas por seus atores e do processo de aprendizagem coletiva, da formação de vínculos e das respectivas interações. Os autores classificam duas linhas na literatura, uma

que entende a formação de redes, sobretudo de distritos industriais, tendo se sobressaído em função de um desalinho das grandes empresas diante da mudança do novo paradigma de produção flexível e ágil, em substituição da produção em massa. Como os novos arranjos aproveitaram-se desta situação de transição quando da reorganização das grandes empresas, os distritos industriais são temporários. Uma outra linha seria de autores que acreditam na formação de uma nova arquitetura de redes entre pequenas empresas e entre grandes e pequenas empresas como uma estratégia de cooperação para compartilhar recursos, experiências, resultados e aprendizagem com vistas a atender o consumidor. O enfoque são as especificidades do ambiente onde estão inseridos. E baseando-se nesta última classificação da literatura é que está alicerçado este trabalho de pesquisa.

Um aspecto fundamental que colabora na formação de redes interorganizacionais é a tecnologia da informação através de sistemas de informação interligando toda a empresa e estes aos demais atores da rede, permitindo um gerenciamento e um compartilhamento de informações, estoques, recursos, ciclos, conhecimento, vendas, etc., na cadeia produtiva em seu todo.

Um outro tipo de rede interempresarial é a rede de inovação tecnológica em que existe a cooperação interfirma com propósito de cooperação tecnológica em termos de pesquisa e desenvolvimento, compartilhamento de competências e laboratórios entre outras parcerias.

Lastres (1996) destaca as principais vantagens e desvantagens da participação em arranjos de colaboração tecnológica. Eis as vantagens:

• reduzir significativamente os custos e os riscos envolvidos nos novos programas de pesquisa e desenvolvimento, através da redução, da minimização e do compartilhamento de incertezas em novas áreas de pesquisa e desenvolvimento;

• maior possibilidade de produzir efeitos sinergéticos devido à multidisciplinaridade de competências reunidas dentro da cadeia produtiva e às demais empresas e instituições integrantes da rede, inclusive os concorrentes;

• diminuir o período entre a invenção e a inovação, isto é, o ciclo de introdução de novos produtos no mercado;

explorar ao máximo a flexibilidade conferida pelo caráter de network, sendo, para tanto, indispensáveis investimentos contínuos em pesquisadores e laboratórios próprios em áreas exploratórias onde as incertezas são enormes;

• monitorar mudanças e oportunidades tecnológicas e capacitar-se para aproveitar novas possibilidades;

• realizar treinamento especializado de recursos humanos em áreas pioneiras. Já as desvantagens levantadas pela autora são:

• desconfianças e receios mútuos por parte dos parceiros podem transformar a cooperação num processo de soma negativa. É necessária uma mudança de gerenciamento baseada na neutralidade e na confiança entre as partes;

• tentativas de maximizar o conhecimento adquirido e minimizar o compartilhamento do mesmo;

• problemas com a transferência de conhecimentos para os parceiros, referindo-se às formas e às possibilidades reais de as empresas internalizarem e absorverem de fato os conhecimentos gerados nos arranjos cooperativos;

• dificuldades com a propriedade intelectual. Pode-se evitar esse tipo de problema com detalhamento prévio dos acertos quanto à utilização dos resultados gerados na parceria.

Ferraz, Kupfer e Haguenauer(1997) salientam que as empresas dos setores industriais brasileiros adotaram várias estratégias para conquistar vantagens competitivas diante de um

cenário de muitas diversidades macroeconômicas nacionais e internacionais. As empresas modificaram os layouts, utilizaram técnicas de just in time, reduziram os estoques, adotaram sofisticados sistemas de informação tais como EDI (Eletronic Data Interchange) e co- gerenciamento, utilizando-se de processos de networking para trás e para frente, envolvendo fornecedores e distribuidores, diminuindo custos, estoques e agilizando a resposta de novos produtos.

Analisando-se a literatura, conclui-se que a formação e a atuação em redes interorganizacionais proporcionam vantagens competitivas e avanços em processos gerenciais, informacionais e tecnológicos. Dessa forma, rompe-se com o tradicional modelo racional de gestão. Pode-se dizer, ainda, que se trata de um redesenho em termos microeconômicos do sistema capitalista.

Um outro benefício da formação de redes interempresariais apontado por alguns autores é a eficiência coletiva. Todos ganham nas relações interfirmas, especialmente nas redes de especialização flexível (AMORIM, 1999; DENK, 2000; HUMPHERY; SCHMITZ, 1996; ZALESKI NETO, 2000; ORSSATTO, 2002). A eficiência coletiva gera a competitividade sistêmica e contribui para o desenvolvimento local, uma vez que se aproveita das experiências, recursos, enfim potencialidades locais para gerar as competências locais e, unindo-se processos de inovação, dá-se continuidade a esse circuito de desenvolvimento.

Humphery e Schmitz (1996) indicam que a experiência de países desenvolvidos no tocante a redes, pólos e políticas públicas na busca de vantagens competitivas deve ser considerada nos países menos desenvolvidos, especialmente na formação de redes de micro e pequenas empresas independentes com um ambiente concentrado, com intervenções eficazes na busca do cliente, da eficiência coletiva e da vantagem cumulativa.

• Propriedades associadas com cooperação técnico-produtiva: a) eficiência operacional: ganhos técnico-econômicos associados a economias de escala e de escopo, ganhos de especialização, produtividade, qualidade e estandardização. b) flexibilidade produtiva: ganhos em termos de capacidade de ajustamento da logística interna, grau de difusão de práticas de just-in-time, integração de sistemas, modularidade e customização.

• Propriedades associadas à coordenação interorganizacional: a) eficiência da coordenação: ganhos com as ações coletivas para diminuir a turbulência e as incertezas. Associadas ao grau de centralização da rede, hierarquização interna da rede, sofisticação dos mecanismos de incentivo, formas de ações coletivas, sistemas de códigos e valores. b) Flexibilidade interorganizacional: capacidade de adaptação da estrutura da rede em função de estímulos do ambiente. Associada à base contratual das ligações intra-rede, regras de entrada e saída na rede, horizonte temporal das relações inter-rede, “retratibilidade” da estrutura da rede.

• Propriedades associadas à condenação tecnológica: a) capacidade de processar informações: coordenação do intercâmbio de informações entre membros da rede. Associada a complexidade das informações transmitidas, códigos de linguagem e canais de comunicação, sistemas de informação, intensidade da circulação de conhecimento, interatividade da circulação de conhecimento. b) Integração de capacitações inovativas: esforços tecnológicos em conjunto. Associada a esforços de co-desenvolvimento de produtos e sistemas, especialização de agentes em estágios do ciclo de P&D, grau de complementaridade entre competências tecnológicas entre agentes.

Britto (1999) preconiza que, a partir da caracterização das redes através da identificação dos “elementos morfológicos”, se pode apontar as forças responsáveis pela

“coesão interna da estrutura”, os estímulos externos e internos, pela produção e transformação destas redes. Com isso se estará analisando o modus operandi das redes de firmas. O quadro abaixo classifica os autores por tipo de estudo.

IMPORTÂNCIA DAS REDES INTEREMPRESARIAIS

Autor Objeto de Estudo

Lastres (1996) Vantagens e desvantagens da participação

em arranjos de colaboração tecnológica Humphery e Scmitz (1996) Eficiência coletiva e as redes de

especialização flexível, experiências de países desenvolvidos e desenvolvimento local.

Poirier e Reiter (1997) Vantagens de formação de redes de parceria e cooperação nas redes de reabastecimento Ferraz, Kupfer e Haguenauer (1997) Estratégias competitivas da indústria

brasileira diante do cenário macroeconômico nacional e internacional

Ching (1999) Impacto da supply chain sobre a

produtividade e a qualidade

Cassiolatto e Lastres (1999) Redes interempresariais e contexto sócio- econômico, identidade territorial e aprendizagem coletiva

Amorim (1999) Eficiência coletiva e as redes de

especialização flexível

Britto (1999) A importância de se identificar o modus-

operandi das redes de firmas para sua solidificação

Denk (2000) Eficiência coletiva e as instituições de apoio

Zaleski Neto (2000) Eficiência coletiva e as redes de

especialização flexível e experiências de países desenvolvidos

Orssatto (2002) Eficiência coletiva e as redes de

especialização flexível e experiências de países desenvolvidos

Quadro 7 – Quadro resumo dos autores estudados no capítulo Fonte: Elaborado pela autora a partir do referencial teórico

A literatura tem destacado a importância das redes interempresariais, de toda ordem, para os países e regiões, especialmente em termos de eficiência coletiva e competitividade sistêmica alcançadas por esses tipos de arranjos produtivos. Nessa linha, os estudos mais afinados com este trabalho são Humphery e Scmitz, Amorim e Cassiolatto e Lastres, por seus

trabalhos reconhecidos na defesa de políticas públicas de incentivo e fortalecimento das redes interfirmas como forma de melhoria do padrão de vida das pessoas que vivem em torno de tais arquiteturas organizacionais, bem como melhoria geral do sistema econômico.

Destacam-se, a seguir, os principais tipos de redes interfirmas, identificados por alguns dos principais autores que estudam o tema.