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CAPÍTULO 4 

Culturas Híbridas: entre a Agroecologia e o Big Brother Brasil 

 

Neste  último  capítulo  estão  as  análises  dos  dados  coletados  durante  a  pesquisa  voltados  aos  valores  e  posturas  sociais  que  circulam  entre  a  Agroecologia  e  a  cultura  massiva  (no  caso,  o  Big  Brother  Brasil)  nas  comunidades rurais do município de Lagoa de Itaenga. A análise engloba tanto  as  entrevistas  quanto  a  dinâmica  em  grupo  desenvolvido  com  os  jovens  da  agricultura  familiar.  Vamos  começar  descrevendo  como  se  dá  o  processo  de  hibridização entre a cultura local e a massiva em âmbitos gerais até chegarmos  à  cultura  do  Big  Brother  Brasil.  Em  seguida,  evidenciamos  e  analisamos  como  estão sendo construídas as identidades dos jovens rurais entre a Agroecologia e  o Big Brother Brasil, referência de produto simbólico contemporâneo para esta  análise.  As  análises  foram  feitas  a  partir  das  categorias  definidas  na  metodologia,  que  neste  capítulo,  retomamos  e  evidenciamos  os  resultados.  É  importante  lembrar  que  não  realizamos  um  estudo  de  recepção,  porém  “identitário” a partir de um estudo de caso, com entrevistas semi‐estruturadas  e  uma  dinâmica  de  grupo  como  complemento  dos  dados  coletados.  As  informações deste capítulo foram cruciais para a finalização deste estudo, que  apresenta  no  final  do  texto  um  espaço  dedicado  à  conclusão  e  sugestões  do  pesquisador  sobre  novos  enfoques  pertinentes  para  a  realização  de  outras  pesquisas. 

 

4.1. O local e o massivo: o rural híbrido em Lagoa de Itaenga 

 

  A idéia de atraso que se tem há séculos dos territórios rurais ainda não  chegou  ao  fim  e  talvez  não  seja  apenas  uma  “idéia”.  Na  maioria  das  regiões  rurais,  o  que  se  observa  é  pobreza,  falta  de  infra‐estrutura  sanitária,  educacional, de saúde, de políticas públicas e privadas para o desenvolvimento  local  e  por  fim,  um  desmantelamento  do  laço  de  comunidade  que  envolvia  a  população campesina. Ainda que sobreviva a custos muito altos (com a exclusão 

 

social),  a  articulação  comunitária  no  campo  se  vê  diante  de  um  processo  que  não tem volta: a hibridização cultural.  

Como  Canclini  (2006)  constata,  hoje  não  há  mais  nada  tão  puro,  tradicional,  isolado.  E  isso  se  deve  a  vários  acontecimentos  mundiais:  desenvolvimento  econômico,  expansão  do  crescimento  urbano,  ampliação  do  mercado  de  bens  culturais,  introdução  de  novas  tecnologias  comunicacionais  (em  especial  a  TV)  e  o  avanço  de  movimentos  políticos  radicais.  Segundo  o  autor, ainda que esses cinco processos não tenham sido fáceis, “hoje se torna  evidente  que  transformaram  as  relações  entre  modernismo  cultural  e  modernização  social,  a  autonomia  e  dependência  das  práticas  simbólicas”  (2006, p.85). 

Pelo simples fato de que as comunidades rurais de Lagoa de Itaenga não  estão  isoladas  já  nos  indica  que  há  um  processo  de  entrelaçamento  entre  culturas,  povos  e  conhecimentos.  Esse  envolvimento  é  o  que  Canclini  (2006)  chama  de  hibridização.  Em  que  nível  ele  está  se  estabelecendo  e  se  configurando  no  cenário  atual,  diante  de  ações  locais  com  forte  influência  de  ações externas, é o que se propôs verificar também este estudo. 

Isso porque para sabermos como estão sendo construídas as identidades  culturais  dos  jovens  rurais,  estabelecemos  indicadores  que  pudessem  revelar  essas  transformações  no  local  da  pesquisa.  Mesmo  que  estejamos  inseridos  num  espaço  de  extensão  rural  para  o  desenvolvimento  local,  é  no  campo  da  cultura que se alicerça este estudo.  

Podemos afirmar que o meio rural de Lagoa de Itaenga é híbrido não só  pelas questões simples do urbano inserido no rural com a moto fazendo o papel  do cavalo ou burro de carga; ou pela mistura de mobílias dentro das casas dos  moradores;  pela  maneira  como  se  prepara  uma  comida  (de  acordo  com  a  receita  posta  por  Ana  Maria  Braga);  ou  mesmo  por  uma  expressão  de  um  personagem  da  novela  que  foi  incorporada  por  um  morador.  Essas  práticas  híbridas, como bem lembram Burke (2003), vêm acontecendo há séculos. 

Agora, o processo percorre um caminho mais complexo a começar pelo  desmantelamento  de  uma  dicotomia  antiga  entre  urbano  e  rural.  A  partir  da  observação,  da  coleta  de  dados  e  entrevistas  é  possível  afirmar  existir  “comunidades  híbridas”.  E  isso  está  bem  explícito  nas  comunidades 

 

denominadas “rurais” estudas em Lagoa de Itaenga. Se o ambiente é híbrido, os  processos  dentro  dele  tendem  a  se  hibridizarem,  buscarem  novas  formas  de  atuação no novo cenário. Isso acontece com a “mistura” do turismo rural; com  o “turismo de pesquisa universitária”; com a inserção de telecentro e conexão  online via internet para o mundo; do entrelaçamento entre o agronegócio e as  feiras  orgânicas  por  algum  item  de  atuação;  com  a  agricultura  de  base  agroecológica  e  a  tradicional;  com  a  Economia  Solidária  dentro  da  “economia  predatória”; mas também, com uma política de Assistência Técnica e Extensão  Rural  pregando  a  filosofia  da  Agroecologia  em  meio  ao  pragmatismo  da  economia capitalista mundial. 

Nada  mais  híbrido  que  tudo  isso  num  único  ambiente,  entre  conflitos  diários, entre acertos e erros, entre o local e a globalização, entre valores sociais  opostos ou em processo de hibridização. Mas como reagem as identidades dos  indivíduos  nesse  ambiente  turbulento?  Como  já  afirma  Bauman  (2003),  as  identidades  procuram  uma  saída,  uma  solução  de  conforto  e  segurança  em  meio  a  tantas  incertezas.  E  a  única  solução  é  ser  “flexível”,  é  “adaptar‐se”  à  turbulência,  “agarrar‐se”  a  algo  que  lhe  proporcione,  pelo  menos,  um  “sentimento  de  pertença”  a  uma  certeza  momentânea.  Portanto,  é  aí  onde  entra o mundo do entretenimento, a tal “dependência simbólica” da qual fala  Canclini  (2006).  A  seguir,  veremos  como  essas  novas  posturas  se  expressam  e  como os jovens se apropriam delas. 

 

4.2. Posturas e valores 

 

  As  posturas  e  os  valores  que  circulam  na  contemporaneidade  estão  intimamente  ligados  à  dependência  simbólica  humana.  Autores  como  Dufour  (2007)  acreditam  que  o  capitalismo  atual  aposta  cada  vez  mais  na  desinstitucionalização,  “ele  busca  destruir  a  dependência  simbólica  indispensável  à  formação  humana  e  à  vida  em  sociedade.  Sobram  apenas  as  relações  de  força  e  a  hiperviolência.  É  o  darwinismo  social,  no  qual  só  o  mais  forte  sobrevive”  (p.1).  Entretanto,  defendemos  que  a  hibridização  cultural  faz  da  dependência  simbólica  ainda  mais  forte  entre  os  indivíduos  na  atualidade  pelo  simples  fato  de  que  para  esse  processo  híbrido  acontecer,  o  ambiente 

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