5. Definitions - parameters
5.1 Network Prefix
CAPÍTULO 4
Culturas Híbridas: entre a Agroecologia e o Big Brother Brasil
Neste último capítulo estão as análises dos dados coletados durante a pesquisa voltados aos valores e posturas sociais que circulam entre a Agroecologia e a cultura massiva (no caso, o Big Brother Brasil) nas comunidades rurais do município de Lagoa de Itaenga. A análise engloba tanto as entrevistas quanto a dinâmica em grupo desenvolvido com os jovens da agricultura familiar. Vamos começar descrevendo como se dá o processo de hibridização entre a cultura local e a massiva em âmbitos gerais até chegarmos à cultura do Big Brother Brasil. Em seguida, evidenciamos e analisamos como estão sendo construídas as identidades dos jovens rurais entre a Agroecologia e o Big Brother Brasil, referência de produto simbólico contemporâneo para esta análise. As análises foram feitas a partir das categorias definidas na metodologia, que neste capítulo, retomamos e evidenciamos os resultados. É importante lembrar que não realizamos um estudo de recepção, porém “identitário” a partir de um estudo de caso, com entrevistas semi‐estruturadas e uma dinâmica de grupo como complemento dos dados coletados. As informações deste capítulo foram cruciais para a finalização deste estudo, que apresenta no final do texto um espaço dedicado à conclusão e sugestões do pesquisador sobre novos enfoques pertinentes para a realização de outras pesquisas.
4.1. O local e o massivo: o rural híbrido em Lagoa de Itaenga
A idéia de atraso que se tem há séculos dos territórios rurais ainda não chegou ao fim e talvez não seja apenas uma “idéia”. Na maioria das regiões rurais, o que se observa é pobreza, falta de infra‐estrutura sanitária, educacional, de saúde, de políticas públicas e privadas para o desenvolvimento local e por fim, um desmantelamento do laço de comunidade que envolvia a população campesina. Ainda que sobreviva a custos muito altos (com a exclusão
social), a articulação comunitária no campo se vê diante de um processo que não tem volta: a hibridização cultural.
Como Canclini (2006) constata, hoje não há mais nada tão puro, tradicional, isolado. E isso se deve a vários acontecimentos mundiais: desenvolvimento econômico, expansão do crescimento urbano, ampliação do mercado de bens culturais, introdução de novas tecnologias comunicacionais (em especial a TV) e o avanço de movimentos políticos radicais. Segundo o autor, ainda que esses cinco processos não tenham sido fáceis, “hoje se torna evidente que transformaram as relações entre modernismo cultural e modernização social, a autonomia e dependência das práticas simbólicas” (2006, p.85).
Pelo simples fato de que as comunidades rurais de Lagoa de Itaenga não estão isoladas já nos indica que há um processo de entrelaçamento entre culturas, povos e conhecimentos. Esse envolvimento é o que Canclini (2006) chama de hibridização. Em que nível ele está se estabelecendo e se configurando no cenário atual, diante de ações locais com forte influência de ações externas, é o que se propôs verificar também este estudo.
Isso porque para sabermos como estão sendo construídas as identidades culturais dos jovens rurais, estabelecemos indicadores que pudessem revelar essas transformações no local da pesquisa. Mesmo que estejamos inseridos num espaço de extensão rural para o desenvolvimento local, é no campo da cultura que se alicerça este estudo.
Podemos afirmar que o meio rural de Lagoa de Itaenga é híbrido não só pelas questões simples do urbano inserido no rural com a moto fazendo o papel do cavalo ou burro de carga; ou pela mistura de mobílias dentro das casas dos moradores; pela maneira como se prepara uma comida (de acordo com a receita posta por Ana Maria Braga); ou mesmo por uma expressão de um personagem da novela que foi incorporada por um morador. Essas práticas híbridas, como bem lembram Burke (2003), vêm acontecendo há séculos.
Agora, o processo percorre um caminho mais complexo a começar pelo desmantelamento de uma dicotomia antiga entre urbano e rural. A partir da observação, da coleta de dados e entrevistas é possível afirmar existir “comunidades híbridas”. E isso está bem explícito nas comunidades
denominadas “rurais” estudas em Lagoa de Itaenga. Se o ambiente é híbrido, os processos dentro dele tendem a se hibridizarem, buscarem novas formas de atuação no novo cenário. Isso acontece com a “mistura” do turismo rural; com o “turismo de pesquisa universitária”; com a inserção de telecentro e conexão online via internet para o mundo; do entrelaçamento entre o agronegócio e as feiras orgânicas por algum item de atuação; com a agricultura de base agroecológica e a tradicional; com a Economia Solidária dentro da “economia predatória”; mas também, com uma política de Assistência Técnica e Extensão Rural pregando a filosofia da Agroecologia em meio ao pragmatismo da economia capitalista mundial.
Nada mais híbrido que tudo isso num único ambiente, entre conflitos diários, entre acertos e erros, entre o local e a globalização, entre valores sociais opostos ou em processo de hibridização. Mas como reagem as identidades dos indivíduos nesse ambiente turbulento? Como já afirma Bauman (2003), as identidades procuram uma saída, uma solução de conforto e segurança em meio a tantas incertezas. E a única solução é ser “flexível”, é “adaptar‐se” à turbulência, “agarrar‐se” a algo que lhe proporcione, pelo menos, um “sentimento de pertença” a uma certeza momentânea. Portanto, é aí onde entra o mundo do entretenimento, a tal “dependência simbólica” da qual fala Canclini (2006). A seguir, veremos como essas novas posturas se expressam e como os jovens se apropriam delas.
4.2. Posturas e valores
As posturas e os valores que circulam na contemporaneidade estão intimamente ligados à dependência simbólica humana. Autores como Dufour (2007) acreditam que o capitalismo atual aposta cada vez mais na desinstitucionalização, “ele busca destruir a dependência simbólica indispensável à formação humana e à vida em sociedade. Sobram apenas as relações de força e a hiperviolência. É o darwinismo social, no qual só o mais forte sobrevive” (p.1). Entretanto, defendemos que a hibridização cultural faz da dependência simbólica ainda mais forte entre os indivíduos na atualidade pelo simples fato de que para esse processo híbrido acontecer, o ambiente