O império do Mali era conhecido por suas riquezas em ouro, seus artigos de luxo e suas grandes comerciais. Contudo a base desse império era formada por pequenas cidades e muitas aldeias. Estima-se que em seu apogeu o império contava com mais de 400 vilas e cidades sob seu domínio.362 Seu controle era descentralizado, no entanto pagavam
constantemente ao mansa os devidos tributos. Estes impostos podiam ser pagos em forma de gêneros e envio de guerreiros ou de escravos para compor o exército real.
A estrutura social e política do Mali era bastante heterogênea. No ápice da pirâmide estava o mansa, seguido pela linhagem real e o clã dos Keita. Vinha em seguida toda a nação mandenka, e após ela, todas as outras. Dentro dos diferentes grupos étnicos distinguiam-se as famílias reais e a nobreza, os homens livres, aqueles que pertenciam às castas profissionais (como os sapateiros, os ferreiros ou os griots), os servos e os escravos. Djbril Tamsir Niane usa o termo “confederação” de povos e nações para definir a estruturação política dos diferentes povos que compunham o império do Mali. 363
Nos centros urbanos mandenka alguns homens destacavam-se pelas vestimentas que usavam. Estes não saiam às ruas sem carregar às costas uma ornamentada aljava suprida de flechas. Estes homens compunham um clã específico de homens livres, mais precisamente a “Nobreza de aljava”. Este objeto de uso bélico nos grandes centros urbanos possuía apenas uma utilidade suntuária, isto é, compunham a identidade visual de uma casta na intricada estratificação social do Mali.
Alguns outros indivíduos, menos numerosos que os primeiros, também destacavam-se da maioria da população pelo modo de vestir-se. Enquanto os cidadãos muçulmanos comuns usavam túnicas para cobrir todo o corpo – por influência dos costumes islâmicos do Egito e do Maghreb – estes segundos vestiam calças muito largas. Estes homens possuíam o título de fararijas. Eram os chefes militares do imperador. O mansa premiava seus feitos militares com a autorização para que usassem calças largas. Estas serviam como símbolo de distinção social. “Quanto mais amplas as calças, que se apertavam nos tornozelos, maior a importância de quem as usava”.364
Outros poucos viviam em bairros separados. Eles usavam longas túnicas que cobriam o pescoço e toda a parte baixa do rosto. Eram tuaregues. Estes percorriam as cidades do Mali para realizar trocas comerciais. A cidade de Tombuctu foi fundada em seu princípio por este mesmo grupo étnico. Alguns grupos deste povo, como os Gondola, eram nômades que desciam o deserto do Sahara para saquear as cidades. Contudo muitos eram pacíficos e começavam a sedentarizar-se na região. As lideranças tuareg há muito já tinham se convertido ao Islã.
363 Ibidem.
Diante da resistência firme, constante e silenciosa das religiões tradicionais, o Islã, ao contrário do que ocorreu em outras partes do mundo, irradiou-se lentamente pelas savanas do Sudão Ocidental. Mesmo em cidades mercantis, onde a presença maometana era dominante, os cultos tradicionais se preservavam, à vista de todos ou sob embuço.365
O império do Mali, por não ter se constituído um estado unitário, nem homogêneo, compreendia as mais diversas formas políticas. Sob o seu domínio e controle tributário espalhavam-se desde reinos e cidades-estado, até aldeias que obedeciam a conselhos de anciãos. A extensão do território e a diversidade dos povos que lhe pagavam tributos e lhes forneciam guerreiros exigia do mansa uma ampla tolerância, ventando desta forma a políticas de islamização forçada ou de jihads.
Isso explica, por exemplo, o não-interesse do mansa Sulaiman, o mesmo que Ibn Battuta conhecera em c.1353, em não converter os povos das regiões ao sul de seu domínio. Este tópico fora percebido e explicado por Al-Umari [Al-Omari] (1300-1384). Ele terminou seu livro Masalik Al-Absar fi mamalik al-amsar (Itinerário dos olhares sobre os reinos das metrópoles) em c.1348 e escreveu:
O atual rei do Mali chama-se Suleiman [Sulaiman]. É irmão do sultão mansa Musa. Controla as terras do Sudão que seu irmão juntou por conquista e acrescentou aos domínios do islã. (...) Considerado o sultão dos muçulmanos, ele trouxe juristas maliquitas para o país e dedicou- se aos estudos religiosos. (...) Dele depende a terra de Mafazad al-Tibr (o Refúgio do Ouro), cujos habitantes lhe trazem ouro em pó anualmente. Eles são infiéis ignorantes. Se o sultão quisesse, poderia submetê-los, mas a experiência mostrou que cada vez que uma cidade do ouro é conquistada, o islã se impõe e o almuadem [muezin] convoca para a prece, o ouro começa a minguar até desaparecer, ao mesmo tempo que aumenta nas áreas pagãs vizinhas. Ao aprender que sempre assim passava, os sultões deixaram as terras auríferas nas mãos dos pagãos e se contentaram com a vassalagem deles e o pagamento do tributo em ouro.366
Segundo Al-Umari, o mansa, mesmo vivendo o Islã enquanto uma de suas práticas religiosas, já havia aprendido a respeitar e tolerar o espaço religioso de alguns povos sob seu domínio. No caso, a desestabilização da coleta aurífera explicitada por Al-Umari
365 Idem. p. 312.
366 Al-Omari apud COSTA E SILVA, Alberto. Imagens da África. São Paulo: Pinguin, 2012, p. 44-45.
Também ver: HENRI, Labouret. Gaudefroy-Demombynes, Masālik el absār fi mamalik el amsār, par Ibn Fadl Allah Al-'Omari. Annales d'histoire économique et sociale, 1929, vol. 1, n° 3, pp. 475-477. (Disponível em: </web/revues/home/prescript/article/ahess_0003-441x_1929_num_1_3_1120_t1_0475_0000_2>. Acessado em: 02/12/2014)v
decorre do fato de que uma possível imposição do Islã naquelas terras provocaria não só mudanças no âmbito religioso, como também no âmbito da organização social e do trabalho da mineração. Em consequência, dessa diminuição da produtividade de um bem tão caro ao império, preferia o mansa respeitar este espaço religioso.
A tônica principal desta passagem nos escritos de Al-Umari é o fato de que as regiões auríferas não serem convertidas ao Islã, dependendo a produção do ouro da continuação das práticas religiosas não-islâmicas. De fato, comerciantes Wangara (ou Juula / Dyula), muitos dos quais muçulmanos, já iam do Mali (manden) até as regiões das florestas para comprar esse ouro. Porém, pensar na possibilidade de que alí já haviam comunidades “submetidas” ao Islã é demasiado improvável.
As rotas comerciais do Mali – conhecidas pela segurança e a garantia contra bandidos e assaltantes – eram famosas na África e fora dela. Este comércio trans- sahariano, que tinha como um dos pontos de chegada algumas cidades do sul de Al- Andalus, era essencial ao Estado e à corte do mansa. Contudo, pouco ou nada influía na vida simples das populações. Explica-nos Alberto da Costa e Silva:
Enquanto isso, quase todos os seus súditos – fossem mandes, tucolores, saracolês, bambaras, jalofos ou songais – viviam em vilarejos, em casebres de barro socado, a cultivar o milhete, o sorgo e o arroz, sem auxilio que não o da vara de furar ou da enxada curta; cuidar dos bois, das cabras, dos camelos; a pescar nos rios e nas praias do mar; a tecer algodão e lã; a fazer cestas, potes, objetos de madeira e couro; a fundir o ferro em fornos primitivos. Do tráfico transahariano só se beneficiavam do sal, que lhes era indispensável. O comércio que lhe interessava era o que fazia chegar o peixe seco e os cereais às regiões que não os produziam.367
IMAGEM 06 – (esq.) Representação de uma caravana no deserto do Sahara. Detalhe do Atlas Catalan
(Bibliothèque Nationale de France).
IMAGEM 07– (dir.) Caravana de dromedários carregando sal-gema no atual Mali (africatravelassociation.org).
Ibn Battuta fala-nos da segurança que desfrutou nos caminhos em meio ao Sahara: “Como tinha me decidido ir visitar o Mali, que está a 24 jornadas de distância de Ualata, contratei um guia massufi e saí com apenas três companheiros. Não é necessário ir em grupo maior porque o caminho é seguro”. Além da segurança, não deixou de admirar e apontar que “esse caminho é muito bonito e nele há árvores enormes [baobás], centenárias, cuja sombra é tão grande que pode abrigar uma caravana inteira”.368 Esta segurança em meio ao deserto do Sahara (ver MAPA 07) seria difícil de imaginar nos primeiros anos do século XV, período de desestabilização do Império do Mali. Ou no final do século XVII após a invasão do Songhay sob comando do soberano marroquino Al-Mansur e abandono da região por parte dos soldados em 1618.369
MAPA 09– Rotas comerciais trans-saharianas na África Ocidental
durante o séc. XIV (http://stmarys.ca).
368 BATTUTA, Ibn. A Traves del Islã... op. cit., p. 808.
Em relação à produção agrícola, é importante frisar que apesar do império do mansa ser conhecido em outros espaços por suas riquezas em ouro, sua base econômica, repousava essencialmente na agricultura e na criação Estas ocupavam a maior parte da população.370 Em referência à um produto agrícola, Ibn Battuta fala ainda que uma planta bastante consumida era inhame, cujo caule, rico em amido, era largamente consumido pelos mandens, seja ele frito ou cozido. O viajante deixou-nos uma receita do inhame consumido com mel, alertando ainda para possíveis complicações intestinais para aqueles que não estavam acostumados a este tipo de alimento.371 De uma forma mais detalhada, Ibn Battuta, descreve alguns dos gêneros alimentícios do povoado de Iwalatan:
No povoado de Iwalatan o calor é tórrido, há algumas palmeirinhas em cuja sombra se cultivam melões. A água, extraem de bolsões que ficam debaixo da areia. A carne de cordeiro é abundante e as pessoas vestem boas roupas egípcias.372
O soberano, o mansa, era sempre mencionado como um juiz. Contudo, por razões óbvias, era impossível ao soberano julgar todos os casos dentro do extenso território de seu império. Apesar da oficialidade muçulmana de seu líder, o povo do Império do Mali professava diferentes religiões. Consequentemente, nos processos de julgamento, boa parte das acusações sempre mencionavam trabalhos de feitiçaria. Praticamente todos os casos de doenças eram imputados a esta prática. O acusado durante o julgamento se via perante o farin (delegado) que em muitos casos se valia, como prova, do chamado “julgamento da água vermelha”. As duas partes do processo eram obrigadas a beber água avermelhada por raízes de Khaya senegalensis. Quem vomitasse primeiro, ganhava o processo. O culpado era considerado feiticeiro e, em alguns casos, jogado às feras ou no cativeiro.373 Como aponta Djibril Niane, “para os chefes, tratava-se, evidentemente, de um processo bastante cômodo de obter escravos”.374
Neste contexto, o comércio era um ponto chave para a consolidação e diálogo político e cultural. Não só dentro do Império do Mali, mas principalmente em sua ligação como o Marrocos Merínida e o Al-Andalus atravessando o estreito. Caravanas guiadas por experimentados cameleiros berberes saíam do norte do Sahara levando seda, sal e ideias.
370 NIANE, D. T. “O Mali e a segunda expansão manden”... op. cit., p. 183.
371 A quem possa interesar a receita, conferir em BATTUTA, Ibn. A Traves del Islã... op. cit., p. 814 372 Idem, p. 817.
373 NIANE, D. T. “O Mali e a segunda expansão manden”... op. cit. 374 Idem, p. 200.
Bem como do sul, seguiam as preciosas pepitas douradas, cheirosas pimentas vermelhas e prisioneiros, homens e mulheres, feitos escravos a serem vendidos principalmente na direção do mediterrâneo (ver MAPA 09). Neste espaço de circulação de riquezas, concepções de mundo e religiões circulavam, amalgamavam-se ou seus fiéis entravam em conflito. A possibilidade da viagem de Ibn Battuta encaixa-se neste espaço e nesta realidade política e cultural. Sem a estabilidade proporcionada por um Estado forte e burocrático no Bilad al-Sudan, ou a rede comercial construída em séculos de prática pelos berberes no Sahara, o fluxo de mercadores, sufis ou viajantes curiosos não teria sido possível durante a particular primeira metade do século XIV.