Todo conflito é resultante da não aceitação de uma ordem social já posta – ou imposta. Os grupos sociais mantidos às margens não se submeteram aos interesses dominantes sem lutar por melhorias em suas condições de vida. Séculos após a invasão do território brasileiro e da distribuição desigual de terras, ainda é gritante as desigualdades sociais que a população do campo é submetida.
Nas lutas encampadas pelas classes sociais menos favorecidas há uma diferenciação entre os problemas sofridos pelo operário urbano e o produtor rural no campo. A cidade possui mais recursos de informação, maior possibilidade de locomoção e consequentemente reunião, além de ser o lugar do pensar, onde a sede política se estabelece. A cidade torna-se a definidora de políticas, programas e ações que visem a minimizar os conflitos gerados pela não aceitação das condições impostas pelo capital. Segundo Martins (1982), há um risco de o campo não ser ouvido e as estratégias aprovadas não corresponderem aos objetivos dessa população.
[...] Infelizmente, temos a tradição de lutar pela reforma agrária na cidade. Estamos sempre ignorando muito do que se quer e o que se faz no campo. Acho que uma indicação clara do que seja o descompasso entre a luta pela reforma agrária no campo e a luta pela reforma agrária a partir da cidade esta no fato, de que quando se fala nela fala-se como se houvesse todo um diagnóstico e um processo político por traz dessa palavra, que resolvessem os muitos problemas que há no campo hoje. E a gente sabe que no campo existem problemas muitos diversificados, situações muito distintas. [...] É importante que a luta pela reforma agrária não nasça na cidade e nem responda as conveniências ou pontos de vista de classes sociais urbanos, mesmo da classe operaria. Nesse momento, pelo menos sob o ponto de vista tático, seria muito importante que o campo falasse primeiro. O trabalhador do campo esta lá lutando e precisa ser ouvido, ao invés de ouvir [...] (MARTINS, 1982, pp.22-23).
Para Martins (1982), o trabalhador do campo precisa ser ouvido; as estratégias de diminuição da concentração fundiária propostas pela cidade e expressas nos planos de reforma agrária não são as mesmas pensadas pelos produtores do campo. São muitas as bandeiras levantadas e o produtor sabe o que pretende, só não tem os mecanismos para conseguir, por isso precisam ser ouvidos e respeitados. A ideia de propriedade, por exemplo, pensada na cidade, não é a mesma praticada no campo em sua essência. Nessas circunstâncias, os pequenos produtores não se deixam intimidar, organizam-se e utilizam as armas que possuem na luta contra a subordinação e a aceitação de ideias prontas, impostas pelos pensadores e políticos urbanos, que, em muitos casos, só consideram as informações transmitidas pela grande aristocracia rural.
Apesar das inúmeras forças de repressão aos movimentos soc iais, estes tendem a se fortalecer e por meio da articulação entre seus objetivos, intensificar a pressão por políticas públicas para redução das desigualdades sociais no campo. A persistente luta dos movimentos sociais pela desconcentração agrária ainda esbarra na burocracia que invalida seus direitos legalmente
garantidos. Nota-se que no campo brasileiro ao mesmo tempo em que se garante a permanência da concentração fundiária, há uma consolidação das lutas sociais no campo em oposição a tal permanência, como afirma Germani (2009).
Nesse sentido identifica-se como permanência a continuidade da histórica concentração de terras e as enormes barreiras encontradas pelos grupos sociais que reivindicam seus direitos territoriais para reverter este quadro. Aparentemente contraditório, mas como parte do mesmo processo, identifica-se como mudança a emergência e consolidação dos movimentos sociais no campo, enquanto forças políticas [...] (GERMANI, 2009 p.348).
As atuais políticas agrárias devem-se, em parte, à articulação dos movimentos sociais do campo. Essa pode ser considerada uma luta desigual em que a maioria da população está submetida aos desígnios de uma elite social detentora do capital e conseqüentemente das forças políticas representativas da sociedade. Os movimentos sociais do campo não se deixaram intimidar pela pressão a que são submetidos. Em contrapartida imprimem marcas no território que serão capazes, inclusive de redirecionar as políticas agrárias por meio de pressão social. Segundo Germani (2001)
A ação dos movimentos sociais em novo contexto altera a atuação do Estado, com relação à sua política agrária, influindo na espacialidade das ações da Reforma Agrária, tanto com relação à sua distribuição no território como na organização espacial interna dos projetos de assentamentos [...] (GERMANI, 2001, p.67).
É perceptível que as medidas propostas pelo governo estão envolvidas em tamanha intencionalidade que redirecionam seu foco no momento em que este não corresponder a interesses de alguns grupos sociais nele envolvidos. Cabe analisar, dentre os grupos sociais, quais estão sendo privilegiados e de que forma a histórica luta dos movimentos sociais do campo é vista pela instância governamental.
Enquanto força política a sociedade civil organizada se impõe frente às questões que lhes são postas na busca por solução, ou dissolução da questão agrária que não se atenha apenas à redistribuição fundiária, mas possibilite a permanência do pequeno agricultor no processo de produção, bem como a inserção de seus produtos no mercado. Essa é uma luta desigual onde a maioria da população está submetida aos desígnios de uma elite social detentora do capital e ao mesmo tempo das forças políticas representativas da sociedade. Os movimentos sociais do
campo não se deixaram intimidar pela pressão a que são submetidos imprimindo marcas irrefutáveis capazes, inclusive, de redirecionar as políticas agrárias por meio da pressão social.
A questão agrária pode ser entendida como uma questão social que é intensificada pelas questões econômicas e acima de tudo fortalecida por questões de ordem política. Na realidade atual não é possível pensar a questão agrária como um problema que afeta unicamente o campo. Apesar de se manifestar no campo suas repercussões modificam a realidade urbana de forma direta, tanto pela alteração nos padrões de produção devido ao aumento considerável de mão de obra disponível como resultado da expropriação dos pequenos produtores, quanto pela mudança no padrão alimentício como resultado da inserção de insumos e novas tecnologias no campo. Também não é possível tentar minimizar as problemáticas agrárias pensando apenas em suas repercussões locais. Com a mundialização da economia e a inserção de grandes corporações multinacionais no campo, os impactos da questão agrária tornam-se cada vez mais um problema global.
No Brasil, as desigualdades sociais que ainda excluem, expropriam e exploram o pequeno produtor, não permitem uma visão política ampla da questão agrária. O poder público ainda age de forma a garantir a permanência da concentração agrária e, consequentemente, das desigualdades sociais. Essa realidade é resultado da inserção de grandes capitalistas no poder público, e, como manipuladora do poder público, age de forma cada vez mais violenta contra a grande massa de produtores rurais. Porém, os pequenos produtores não se submetem a essas condições. É considerável o número de movimentos, associações, sindicatos, organizações e cooperativas de pequenos e médios produtores que se mobilizam em busca de melhores condições de produção e reprodução da vida no campo.
É importante considerar que, apesar da falta de capital disponível para o desenvolvimento da produção do pequeno produtor, a luta social tem gerado inúmeras mudanças na realidade social do campo. Mas essas mudanças ainda são incipientes frente às grandes demandas da população do campo. A solução possível a essa problemática seria uma mudança total na estrutura social atual, o que não será possível porque indicaria o fim das formas de exploração difundidas pelo sistema capitalista, o que não é interessante para as classes dominantes que detêm o poder tanto no que se refere a economia quanto as relações políticas. A fim de camuflar as lutas sociais e abafar as principais questões norteadoras do problema agrário nacional, são implantadas políticas assistencialistas e compensatórias que inicialmente
redirecionam o olhar da população para questões que não resolvem o problema, apenas reduzem os impactos e criam um ilusório avanço nas negociações. Com isso muda-se o foco das discussões e a questão agrária só tende a crescer ao longo do tempo sem previsão de solução.
2 ESTRUTURA AGRÁRIA NO PORTAL DO SERTÃO: QUESTÃO AGRÁRIA,