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2. UTILISATION

2.12 L ES GRAPHIQUES

2.12.4 Navigation dans le graphique

A tabela 5 refere-se as correlações realizadas entre o alfa-tocoferol no soro e no leite, o colesterol sérico, triglicerídeos, LDL, HDL e o consumo dietético de vitamina E dos grupos controle e suplementado. Verificou-se que não houve associação entre o alfa-tocoferol presente no soro e no leite do grupo controle nos dois momentos de coleta (p > 0,05), porém na coleta 2 do grupo suplementado, houve uma associação positiva entre a vitamina no soro e no leite (r = 0,371; p = 0,020) e com vitamina E da dieta (r = 0,351; p = 0,029). Também foi observado uma associação positiva entre o alfa-tocoferol no soro e o colesterol sérico, triglicerídeos e LDL (< 0,05) nas duas coletas dos grupos controle e suplementado, ressaltando o envolvimento dessas partículas no transporte do alfa-tocoferol sérico.

Tabela 5 – Correlações entre o alfa-tocoferol no soro materno e no leite, perfil lipídico e consumo de vitamina E das coletas 1 e 2 do grupo controle (GC) e do grupo suplementado (GS). Natal, Rio Grande do Norte, Brasil, 2017-2018.

Coleta 1 GC GS

R p r p

Alfa-tocoferol no soro (µg/dL) x Alfa-tocoferol no leite (µg/dL)

0,207 0,201 0,047 0,778

Alfa-tocoferol no soro (µg/dL) x Colesterol sérico (mg/dL)

0,516 0,001* 0,424 0,007*

Alfa-tocoferol no soro (µg/dL) x Triglicerídeos (mg/dL)

0,491 0,001* 0,534 < 0,001*

Alfa-tocoferol no soro (µg/dL) x LDL (mg/dL) 0,378 0,016* 0,377 0,018*

Alfa-tocoferol no soro (µg/dL) x HDL (mg/dL) 0,128 0,431 -0,201 0,221

Alfa-tocoferol no soro (µg/dL) x Ingestão dietética de vitamina E (mg/dia)

0,104 0,522 0,298 0,065

Coleta 2 GC GS

R p r p

Alfa-tocoferol no soro (µg/dL) x Alfa-tocoferol no leite (µg/dL)

0,213 0,188 0,371 0,020*

Alfa-tocoferol no soro (µg/dL) x Colesterol sérico (mg/dL)

0,652 < 0,001* 0,497 0,001*

Alfa-tocoferol no soro (µg/dL) x Triglicerídeos (mg/dL)

0,411 0,008* 0,383 0,016*

Alfa-tocoferol no soro (µg/dL) x LDL (mg/dL) 0,577 < 0,001* 0,491 0,002*

Alfa-tocoferol no soro (µg/dL) x HDL (mg/dL) -0,062 0,703 -0,174 0,290

Alfa-tocoferol no soro (µg/dL) x Ingestão dietética de vitamina E (mg/dia)

-0,036 0,825 -0,025 0,878

Coleta 2 x Coleta 1 GC GS

R p r p

Alfa-tocoferol no soro (µg/dL) x Ingestão dietética de vitamina E (mg/dia)

0,092 0,573 0,351 0,029*

r = coeficiente de correlação de Pearson's; p valor = nível de significância (p < 0,05 = estatisticamente significativo).

A tabela 6 demonstra as correlações entre o alfa-tocoferol no leite e o colesterol, triglicerídeos, LDL, HDL e a ingestão de vitamina E dos grupos. Observou-se que apenas no grupo suplementado houve associação positiva entre o alfa-tocoferol no leite da coleta 2 e a ingestão dietética de vitamina E da coleta 1 (r =

0,323; p = 0,045). E não foi constatada associação entre a vitamina presente no leite e as variáveis relacionadas ao perfil lipídico (> 0,05).

Tabela 6 – Correlações entre o alfa-tocoferol no leite materno, perfil lipídico e consumo de vitamina E das coletas 1 e 2 do grupo controle (GC) e do grupo suplementado (GS). Natal, Rio Grande do Norte, Brasil, 2017-2018.

Coleta 1 GC GS

r p r p

Alfa-tocoferol no leite (µg/dL) x Colesterol sérico (mg/dL)

0,247 0,124 -0,139 0,399

Alfa-tocoferol no leite (µg/dL) x Triglicerídeo (mg/dL) 0,080 0,623 0,130 0,431

Alfa-tocoferol no leite (µg/dL) x LDL (mg/dL) 0,197 0,224 -0,200 0,223

Alfa-tocoferol no leite (µg/dL) x HDL (mg/dL) 0,199 0,219 0,177 0,281

Alfa-tocoferol no leite (µg/dL) x Ingestão dietética de vitamina E (mg/dia)

0,105 0,518 0,183 0,266

Coleta 2 GC GS

r p r p

Alfa-tocoferol no leite (µg/dL) x Colesterol sérico (mg/dL)

0,273 0,088 0,165 0,317

Alfa-tocoferol no leite (µg/dL) x Triglicerídeo (mg/dL) -0,012 0,940 0,086 0,603

Alfa-tocoferol no leite (µg/dL) x LDL (mg/dL) 0,197 0,223 0,133 0,418

Alfa-tocoferol no leite (µg/dL) x HDL (mg/dL) 0,225 0,163 0,047 0,776

Alfa-tocoferol no leite (µg/dL) x Ingestão dietética de vitamina E (mg/dia)

0,005 0,977 0,005 0,977

Coleta 2 x Coleta 1 GC GS

r p r p

Alfa-tocoferol no leite (µg/dL) x Ingestão dietética de vitamina E (mg/dia)

0,064 0,695 0,323 0,045*

r = coeficiente de correlação de Pearson's; p valor = nível de significância (p < 0,05 = estatisticamente significativo).

4.6 Fatores associados ao aumento do alfa-tocoferol no leite após suplementação

Para avaliar os fatores associados a concentração de alfa-tocoferol no leite materno após a suplementação (coleta 2), foi realizada a análise de regressão linear múltipla. Para isso foram incluídas as variáveis associadas ao leite materno do grupo

suplementado, como a concentração de alfa-tocoferol no leite e a ingestão dietética de vitamina E da coleta 1 e o alfa-tocoferol sérico da coleta 2. Assim, apenas o alfa- tocoferol no leite antes da suplementação foi determinante para o aumento da vitamina no leite após a dose de 800 UI de alfa-tocoferol (β = 0,927; IC 95% 1,925 - 2,396; p < 0,001), ou seja, quanto maiores os valores basais da vitamina no leite, maior a transferência da suplementação para a glândula mamária (Tabela 7).

Tabela 7 – Coeficientes de regressão linear múltipla para a associação entre o alfa-tocoferol no leite após a suplementação e variáveis maternas. Natal, Rio Grande do Norte, Brasil, 2017-2018.

Variáveis Β p-valor Alfa-tocoferol no leite coleta 1 (µg/dL) 0,927 < 0,001** Alfa-tocoferol no soro coleta 2 (µg/dL) - 0,012 0,824 Consumo dietético de vitamina E coleta 1(mg/dia) - 0,009 0,863

β: Coeficiente beta de regressão múltipla linear; p - valor = nível de significância. **Diferença significativa.

As participantes do grupo suplementado foram divididas em quartis a partir do efeito da suplementação no leite. No quartil 1 foram agrupadas as mulheres que apresentaram até 83% de aumento no alfa-tocoferol no leite, e nos quartis 2-4 permaneceram as que apresentaram mais de 83% de aumento. A tabela 8 mostra o modelo de regressão logística binária para o efeito da suplementação no leite, sendo observado que apenas o consumo alimentar de vitamina E da coleta 1 foi determinante para provocar uma maior resposta à suplementação (p = 0,020; IC 95% 0,209 – 0,877) e o modelo da regressão tem sensibilidade de explicar 89,7% do efeito positivo da suplementação no leite, mostrando que quanto maior a ingestão da vitamina, maior o efeito da suplementação.

Tabela 8 - Modelo de regressão logística binária para variáveis associadas ao maior efeito da suplementação de 800 UI de alfa-tocoferol no leite materno do grupo suplementado. Natal, Rio Grande do Norte, Brasil, 2017-2018.

Variáveis Maior efeito da suplementação no leite

(Quartis 2 - 4) *

IC 95% p-valor

Alfa-tocoferol no leite coleta 1 (µg/dL)

0,998 – 1,024 0,104

Alfa-tocoferol no soro coleta 1 (µg/dL)

0,991 – 1,005 0,565

Alfa-tocoferol no soro coleta 2 (µg/dL)

0,995 – 1,002 0,387

Consumo dietético de vitamina E coleta 1 (mg/dia)

0,209 – 0,877 0,020**

Colesterol sérico coleta 1 (mg/dL)

0,937 – 1,163 0,431

LDL coleta 1 (mg/dL) 0,846 – 1,051 0,289

* Percentual do efeito da suplementação no leite equivalente a maior que 83%. LDL: Lipoproteína de

baixa densidade. Variável dependente: Maior efeito da suplementação no leite (quartis 2 – 4).

Variáveis independentes: alfa-tocoferol no leite e no soro da coleta 1, alfa-tocoferol no soro da coleta 2, consumo dietético de vitamina E coleta 1, colesterol sérico coleta 1 e LDL coleta 1. p-valor = nível de significância. **Diferença significativa.

As características dessas lactantes encontram-se na tabela 9 e 10, sendo verificado que o consumo de alfa-tocoferol, de calorias e de lipídeos totais foi maior no grupo de maior efeito da suplementação no leite (p = 0,001; p = 0,013; p = 0,033 respectivamente).

Tabela 9 - Caracterização das 39 mulheres lactantes randomizadas no grupo suplementado, divididas pelo efeito da suplementação no leite (menor efeito: quartil 1, equivalente a 83% do percentual de aumento da vitamina no leite e maior efeito: quartis 2-4). Natal, Rio Grande do Norte, Brasil, 2017- 2018. Características Quartil 1 N = 9 n (%) Quartis 2 - 4 N = 30 n (%) p-valor

Idade materna, anos 27 (6,5) a 27 (6,9) a 0,922*

Idade pós-parto, dias 58 (30,0) a 55 (22,1) a 0,749*

Nível de escolaridade Educação primária incompleta 2 (22,2) 3 (10,0) 0,343 Educação primária completa 1 (11,1) 1 (3,3) Educação secundária incompleto 1 (11,1) 5 (16,7) Educação secundária completo 3 (33,3) 19 (63,3) Ensino superior completo 2 (22,2) 2 (6,7) Renda familiar b <1 salário mínimo 4 (44,4) 19 (63,3) 0,312 >1 salário mínimo 5 (55,6) 11 (36,7) Tipo de parto Vaginal 2 (22,2) 11 (36,7) 0,420 Cesário 7 (77,8) 19 (63,3) Paridade materna Primípara 6 (66,7) 11 (36,7) 0,111 Multípara 3 (33,3) 19 (63,3) Classificação do IMC (Kg/m2) c Baixo peso 0 (0) 0 (0) 0,754 Eutrofia 3 (33,3) 14 (46,7) Sobrepeso 4 (44,5) 10 (33,3) Obesidade 2 (22,2) 6 (20,0)

Tipo de aleitamento materno Aleitamento

materno exclusivo 8 (88,9) 25 (83,3) 0,685

Aleitamento misto 1 (11,1) 5 (16,7)

N: número. a Desvio padrão. IMC: Índice de Massa Corporal. Teste Qui-Quadrado. * Teste t para amostras independentes usado nas variáveis idade materna e idade pós-parto. b Salário mínimo brasileiro por mês = 954 reais. > 1 salário mínimo (até 3 salários mínimos). c Classificação WHO, 2000. p-valor = nível de significância.

Tabela 10 – Concentração de alfa-tocoferol no soro (expresso por µg/dL e por mg de colesterol) e no leite, médias de consumo de calorias, vitamina E e de lipídeos e do perfil lipídico das 39 mulheres lactantes randomizadas no grupo suplementado, divididas pelo efeito da suplementação no leite (menor efeito: quartil 1, equivalente a 83% do percentual de aumento da vitamina no leite e maior efeito: quartis 2-4). Natal, Rio Grande do Norte, Brasil, 2017-2018.

Características Quartil 1 N = 9 Média (DP) Quartis 2 - 4 N = 30 Média (DP) p-valor Alfa-tocoferol no leite (µg/dL) 427,0 (133,3) 487,5 (145,3) 0,272 Alfa-tocoferol no soro (µg/dL) 1477,2 (240,1) 1647,9 (337,1) 0,167 Alfa-tocoferol:Colesterol sérico (µg/mg) 9,5 (2,3) 9,4 (1,7) 0,933

Consumo de calorias (Kcal/dia) 2624,6 (453,8) 3464,5 (873,4) 0,001*

Consumo de alfa-tocoferol (mg/dia) 6,7 (2,1) 9,3 (3,6) 0,013*

Consumo de lipídeos total (g/dia) 58,5 (12,8) 73,3 (27,9) 0,033*

Perfil lipídico Colesterol (mg/dL) 164 (44,3) 179 (37,8) 0,309 Triglicerídeos (mg/dL) 99 (52,6) 125 (57,1) 0,237 HDL (mg/dL) 44 (11,9) 41 (9,4) 0,514 Não HDL (mg/dL) 120 (48,2) 138 (40,4) 0,271 LDL (mg/dL) 101 (45,8) 115 (35,8) 0,344

N: número. DP: Desvio padrão. Teste t para amostras independentes. p-valor = nível de significância. *Diferença significativa.

5. DISCUSSÃO

Na literatura é possível identificar ausência de relação entre a concentração de alfa-tocoferol presente no leite com os níveis desse micronutriente no soro e com a ingestão dietética de vitamina E (RODRIGUES, 2016; JIANG et al., 2016; LIRA, 2017; SILVA et al., 2019). Tais achados podem estar relacionados ao baixo consumo da vitamina pelas mulheres lactantes, sugerindo que, nessa situação, o alfa-tocoferol presente no leite poderia estar vindo de reservas extra-hepáticas.

Assim, sabendo que a suplementação materna com vitamina E contribui para o aumento dos níveis dessa vitamina no soro e no leite materno (CLEMENTE et al., 2015; PIRES et al., 2016; LIRA et al., 2017), além do leite maduro ser a fase de lactação mais estável e com menor secreção de alfa-tocoferol (DEBIER, 2007), esse é primeiro estudo a investigar se em situações de alto consumo/exposição à vitamina é possível observar uma associação entre o alfa-tocoferol presente no soro e no leite, além de avaliar características as quais podem contribuir à resposta da suplementação no soro e leite.

No presente estudo, as mulheres lactantes foram caracterizadas como adultas, com educação secundária completa e mais de 35% das participantes apresentavam sobrepeso, mostrando concordância com outros estudos que avaliaram mulheres a partir de 30 dias pós-parto, os quais encontraram excesso de peso (SÁNCHEZ et al., 2008; TAVARES et al., 2013). Vale salientar que não houve diferença entre os grupos controle e suplementado em relação às características gerais apresentadas na tabela 2, ressaltando a homogeneidade da população avaliada.

Sabe-se que o leite materno é essencial para o lactente, pois apresenta em sua composição todos os nutrientes e fatores essenciais para o desenvolvimento da criança (UNITED NATIONS CHILDREN’S FUND; WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2018). Assim, é preconizado o aleitamento materno exclusivo durante os seis primeiros meses de vida, e até dois anos ou mais, de forma complementar a outros alimentos (BRASIL, 2015). Essa prática também pode beneficiar as lactantes, contribuindo na perda de peso no pós-parto, reduzindo o risco de desenvolvimento de câncer de mama e também de outras doenças crônicas, como o diabetes mellitus tipo 2 (BRASIL, 2015).

Verificou-se neste ensaio clínico que mais de 84% das participantes praticavam o aleitamento materno exclusivo (AME), um indicador bastante positivo na população estudada ao comparar com o encontrado na II Pesquisa de Prevalência do Aleitamento Materno nas Capitais Brasileiras e Distrito Federal, que relatou no Brasil uma prevalência de apenas 41% de crianças menores de 6 meses em aleitamento materno exclusivo, sendo essa situação classificada como “razoável” pela OMS (prevalências inferiores a 50%) e tal pesquisa também mostrou que a duração do AME chega a 54 dias (quase 2 meses) (BRASIL, 2009).

Ressalta-se que apesar das mulheres lactantes deste estudo apresentarem um adequado status nutricional bioquímico em vitamina E, segundo o biomarcador alfa-tocoferol sérico, encontrou-se uma baixa ingestão dietética de vitamina E (Tabela 2). Tal achado também foi observado em outras populações no Brasil (RODRIGUES, 2016; LIRA et al., 2017; SILVA et al., 2019), assim como na Grécia e Polônia (ANTONAKOU et al., 2011; DIDENCO et al., 2011), o que caracteriza ser frequente a inadequação no consumo de vitamina E durante a lactação.

É importante destacar que a recomendação de vitamina E para mulheres lactantes pode está superestimada, já que a maioria dos estudos não encontraram consumo adequado nessa população, sendo discutido a importância de revisar tal ponto de corte (TRABER, 2012). Ainda é necessário o desenvolvimento de tabelas nutricionais brasileiras que analisem a quantidade de alfa-tocoferol em alimentos, pois as tabelas utilizadas para investigar o consumo dessa vitamina são estrangeiras, não refletindo o consumo da população brasileira.

Para prevenir a DVE em lactentes é necessário que o leite materno apresente quantidades adequadas de vitamina E (TRABER, 2012; TRABER, 2014). Alguns estudos que avaliaram essa vitamina no leite maduro observaram valores abaixo da necessidade nutricional da criança (DIDENCO et al., 2011; PIRES et al., 2016; SILVA et al., 2017; XUE et al., 2017), sugerindo que a suplementação materna com vitamina E seja uma importante estratégia em aumentar os valores dessa vitamina no leite (CLEMENTE et al., 2015; PIRES et al., 2016; LIRA, 2017).

Neste estudo foi observado que os leites dos grupos controle (coleta 1 e 2) e suplementado (coleta 1) também apresentaram valores baixos de vitamina E, não atingindo o recomendado para lactentes de até 6 meses de idade (4mg/dia) (INSTITUTE OF MEDICINE, 2000). Porém, após a suplementação com 800 UI de

alfa-tocoferol, o leite do grupo suplementado alcançou a recomendação de ingestão (Figura 10).

A suplementação com 800 UI de alfa-tocoferol provocou o aumento de 83% no alfa-tocoferol do soro e de 116% no leite materno (Figuras 8 e 9). Outros ensaios clínicos utilizando uma dose menor (400 UI de alfa-tocoferol) encontraram um aumento entre 60% a 80% da vitamina no leite após a suplementação (PIRES et al., 2016; GAUR et al., 2017; LIRA, 2017; MELO et al., 2017), verificando um menor aumento da vitamina quando comparado ao do presente estudo. Tais achados sugerem que a resposta à suplementação pode ser influenciada pela dose utilizada. Ainda, após a suplementação foi possível encontrar relação positiva entre o alfa-tocoferol no leite e soro (Tabela 5). Diferente do encontrado em situações de inadequação de consumo, quando a composição de vitamina E no leite não foi influenciada pela dieta e níveis circulantes maternos (DIMENSTEIN et al., 2010; MARTYSIAK-ŻUROWSKA et al., 2013; RODRIGUES, 2016; JIANG et al., 2016; PIRES et al., 2016; LIRA, 2017; XUE et al., 2017). Portanto, esse foi o primeiro estudo que encontrou, apenas no grupo suplementado, relação positiva entre o alfa- tocoferol no leite com a vitamina presente no soro e com a vitamina E na dieta (Tabelas 5 e 6), sugerindo que em situações de elevada ingestão, considerando dieta + suplemento, os níveis circulantes maternos são os principais responsáveis em contribuir com a vitamina no leite. Provavelmente em situações de baixo consumo de vitamina E (como encontrado nos estudos citados), a vitamina E do leite pode ser originária de outras fontes, como da reserva corporal (TRABER, 2012), justificando a ausência de relação entre aquelas variáveis.

Ao avaliar os fatores associados ao aumento da vitamina E sérica, o presente estudo mostrou que o nível circulante basal da vitamina foi determinante para o aumento do alfa-tocoferol no soro após a suplementação (Tabela 4), mostrando que a quantidade de alfa-tocoferol existente na circulação pode influenciar positivamente os níveis da vitamina E após a suplementação.

Estudos sugerem que a concentração de alfa-tocoferol circulante pode aumentar de 2 a 3 vezes, não diferindo entre as doses de suplemento (LODGE et al., 2005). Tal mecanismo estaria ligado a saturação da alfa-TPP, limitando a secreção do alfa-tocoferol recém-absorvido no plasma, sendo direcionado para o metabolismo hepático para ser excretado (LODGE et al., 2005; TRABER, 2013).

Ressalta-se que Chuang et al. (2011) e Traber et al. (2015) encontraram associação positiva entre o alfa-tocoferol circulante e sua curta meia vida (em média 30 horas), sugerindo que a concentração da vitamina E no soro após a suplementação pode ser influenciada pelo nível basal da vitamina até um certo momento.

O leite maduro caracteriza-se como a fase mais estável da lactação, apresentando uma maior concentração de lipídeos, como os triglicerídeos e ácidos graxos de cadeia média e, em contrapartida, ocorre uma menor secreção de alfa- tocoferol, mostrando que apesar dele depender dos lipídeos para seu transporte, existem outros fatores que podem interferir na transferência dessa vitamina para o leite materno, como a idade gestacional do parto, paridade e consumo de lipídeos (CAMPOS, 2005; DEBIER, 2007; DIDENCO et al., 2011; RIBEIRO, 2016).

Ao investigar os fatores associados a uma melhor resposta no leite após a suplementação, destaca-se que apenas a quantidade dessa vitamina no leite basal (antes da suplementação) e a ingestão dietética foram determinantes para elevar os níveis desse micronutriente (Tabelas 7 e 8), mostrando que quanto maior o consumo de vitamina E e seus níveis no leite, maior será a transferência de alfa-tocoferol da suplementação para a glândula mamária. Nesse caso, ressalta-se a importância da orientação dietética para as lactantes ser realizada por profissionais nutricionistas, com o objetivo de otimizar o efeito da suplementação, diminuindo os custos dos programas de saúde e beneficiando o binômio mãe e filho.

Quando avaliado o perfil das lactantes do grupo suplementado, observou-se que as participantes com maior efeito da suplementação (quartis 2-4) eram as que apresentavam maior consumo de calorias, de vitamina E e de lipídeos totais (Tabela 10). Esses achados sugerem que a quantidade de lipídeos disponível na dieta pode melhorar a biodisponibilidade da vitamina no organismo, como a sua absorção e a distribuição para os tecidos, nesse caso para a glândula mamária, como já relatado em outros estudos (LEONARD et al., 2004; BRUNO et al., 2006; TRABER et al., 2015).

Vale salientar que o tipo de ácido graxo pode afetar a formação das micelas e a absorção da vitamina, assim os ácidos graxos saturados e os monoinsaturados contribuem para uma maior absorção. Já em relação aos ácidos graxos polinsaturados, estudos mostram que quanto maior seu consumo, maior deve ser a ingestão de vitamina E, devido a ação antioxidante desempenhada por essa

vitamina, evitando a peroxidação dos PUFAS (LEONARD et al., 2004; FAILLA et al., 2014; ZINGG; MEYDANI, 2019).

Para uma melhor investigação da relação entre lipoproteínas e transporte de vitamina E para o leite, também foi determinada a concentração das lipoproteínas circulantes e o perfil de colesterol e triglicerídeos séricos, porém não foi encontrada diferenças após a suplementação nem associação com um maior efeito no leite (Tabelas 3 e 8). Vale salientar que Weiss e Wyatt (2003), em um estudo com vacas leiteiras, sugeriram que a capacidade das lipoproteínas transportarem o alfa- tocoferol pode determinar a captação dessa vitamina pelo tecido mamário e que o fator limitante para esse mecanismo seria a quantidade máxima de vitamina E nas lipoproteínas.

De fato, o transporte da vitamina E para glândula mamária é pouco compreendido (LAURIDSEN et al., 2002; DEBIER, 2007; WANG et al., 2011). Relata-se que as lipoproteínas circulantes são as responsáveis por fazerem essa transferência, sendo a LDL o principal transportador (JENSEN; JOHANNSEN; HERMANSEN, 1999; MONKS et al., 2001) e o transporte pode ocorrer na presença ou na ausência de seu receptor na glândula mamária (JENSEN; JOHANNSEN; HERMANSEN, 1999; DEBIER, 2007).

Outros receptores podem ser encontrados no tecido mamário, como o SR-B1, que apresenta um sítio de ligação tanto para LDL como para HDL, e CD36 que apresenta alta afinidade para HDL, LDL e VLDL (MONKS et al., 2001; DEBIER, 2007). Também é sugerida a participação da lipase lipoproteica (LPL), que durante a lactação, a sua atividade pode estar aumentada contribuindo para uma maior circulação de alfa-tocoferol e captação dessa vitamina (MARDONES; RIGOTTI, 2004). Vale salientar que no presente estudo foi possível observar a associação entre o alfa-tocoferol sérico e o colesterol, triglicerídeos e LDL séricos antes e após a suplementação (Tabela 5), ressaltando o envolvimento das lipoproteínas no transporte da vitamina para os tecidos.

Esses achados trazem informações importantes para o entendimento de possíveis mecanismos de transporte da vitamina E para a glândula mamária, demonstrando que, em situações de suplementação de 800 UI de vitamina E no leite maduro, quanto melhor o status de vitamina E (considerando a vitamina no leite e a ingestão dietética) mais efetiva será a captação para a glândula mamária,

independente de saturação de receptores, caracterizando um possível transporte passivo. Ainda, faz-se necessário investigar como ocorre esse transporte, a partir de estudos in vitro e in vivo e com uso de isótopos marcados de alfa-tocoferol, por exemplo, para investigar a sua biotransformação.

Sugere-se também a utilização de um jejum maior, como de 12 horas, para a avaliação do perfil lipídico, assim como investigar uma possível influência do suplemento nas lipoproteínas, necessitando de um período maior entre as coletas. Ainda se faz necessário analisar o perfil dos ácidos graxos polinsaturados no leite materno com o objetivo de verificar sua relação com o alfa-tocoferol.

No caso da vitamina E no soro, esse é o primeiro estudo que mostrou os níveis circulantes de alfa-tocoferol como um fator que propicia o efeito da suplementação, aumentando a vitamina no soro. Portanto, faz-se necessário estudos que avaliem até que momento essa relação pode existir, sugerindo possíveis protocolos para o incentivo ao consumo de alimentos fontes de vitamina E e/ou uso da suplementação visando uma melhor reposta, a partir de níveis circulantes adequados da vitamina e sua atuação no organismo da mulher lactante.

Ressalta-se a importância de um consumo adequado em vitamina E, a partir de alimentos fontes, para manter níveis satisfatórios de alfa-tocoferol no soro e no leite. No entanto, em casos de populações que apresentem inadequação dietética e quantidades baixas de vitamina E no leite, possam necessitar de uma suplementação com doses maiores da vitamina, como 800 UI de alfa-tocoferol, para assim obter uma intervenção mais eficaz.

Sendo assim, a suplementação associada a uma ingestão adequada de vitamina E é uma estratégia efetiva para aumentar a vitamina E no leite materno e prevenir os casos de deficiência dessa vitamina que acometem os lactentes (DEBIER et al., 2005; DEBIER, 2007; TRABER, 2012).

6. CONCLUSÃO

A suplementação com 800 UI de alfa-tocoferol aumentou os níveis da vitamina no soro e no leite materno, porém, não interferiu no perfil lipídico sérico. Após a suplementação foi possível identificar associação positiva entre o alfa- tocoferol no leite, soro e ingestão dietética de vitamina E, como também uma associação positiva entre a vitamina presente no soro com o colesterol, triglicerídeos e LDL. O fator associado ao aumento de alfa-tocoferol no soro após a suplementação com a megadose de vitamina E foi a concentração da vitamina no soro da coleta 1, e apenas os níveis basais de alfa-tocoferol no leite e o consumo alimentar de vitamina E foram associados ao maior aumento da vitamina no leite.

REFERÊNCIAS

ABE, C. et al. Cytochrome P450-dependent metabolism of vitamin E isoforms is a