Como foi mencionado anteriormente, no mundo Mapuche a atividade têxtil é anterior ao contato com os espanhóis. A introdução da lã de ovelha por parte dos hispânicos aumentou a produção e a qualidade dos produtos, mantendo assim, a autonomia de sua reprodução, dando continuidade ao desenvolvimento de tecidos com características e símbolos próprios (ALVARADO; GUAJARDO, 2011, p. 17).
Neste sentido, Margarita Alvarado (2002) diz que,
as tradições têxteis que praticaram os povos da cordilheira e dos pampas argentinos e das zonas da Araucania, no Chile, constituem um dos âmbitos privilegiados onde se reproduzem valores culturais e estéticos específicos. A prenda têxtil representa um meio artístico imprescindível na representação de uma identidade cultural. Todo artefato realizado por uma especialista tecedora passa a formar parte de uma poderosa rede de relações sociais e simbólicas que fazem possíveis a vigência de uma cultura. Busca-se fundamentalmente, cobrir um suporte em um gesto e uma ação estética, convertendo o tecido em um diferenciador cultural. Assim, os têxteis se transformam em artefatos para o adorno, criados e produzidos para a ostentação e o luxo (ALVARADO, 2002, p. 50, tradução nossa).
A partir das pesquisas desenvolvidas pela historiadora Patricia Mendez (2009), onde esta estudou a importância dos tecidos para as etnias andinas, entre elas os Mapuche, percebe-se que estes tecidos foram utilizados em uma ampla gama de conceitos que vão desde o simples ato de vestir, passando pelos aspectos simbólicos até chegar ao escambo entre os diferentes grupos étnicos.
Os teares utilizados na produção têxtil Mapuche são do tipo de 4 palos, apoiados em uma parede, sendo denominados de Huitral no idioma Mapudungun. A lã deve ser desfiada a mão, e tingida em geral com ervas e elementos naturais do conhecimento das tecedoras (ALVARADO; GUAJARDO, 2011, p. 18) (Figura 14).
assim como algas, diversos tipos de terras com componentes salitrosos, minerais e fuligem. As cores variam de região a região, de acordo com a flora e os componentes minerais dos solos (MASTRANDEA, 2007, p.21, tradução nossa).
Figura 14 – Tear Mapuche tradicional de 4 palos (1903). Fonte: Sur, 2015.
Quanto à produção de lã, Mastrandea (2007) diz que,
a lã que se utiliza com mais frequência para o tear Mapuche é a de ovelha e geralmente da raça Merino, que é característica da Patagônia argentina. A maior quantidade de tecidos se realiza com lã branca que é a que permite tingimentos com plantas da região. Porém, também se usa muito a lã de ovelha negra, que com suas tonalidades de bege claro ou marrom quase negro e grande variedade de cinzas oferece uma gama muito interessante de cores para combinar (MASTRANDEA, 2007, p.31, tradução nossa).
O uso de lã fiada à mão constitui o "selo" de identidade do tecido Mapuche, e este resulta em um fator determinante no momento de planificar uma peça, pois o tempo de fiação é longo e a possibilidade de conseguir lã fiada à mão, é escassa. Cada artesã reserva para si sua própria lã e só é possível comprá-la daquelas anciãs que já não tecem, porém na cidade não existem muitas delas. É por isso que para a trama, que fica escondida, pode se usar uma lã auxiliar (MASTRANDEA, 2007, p.55) (Figura 15).
Figura 15 – Lã sendo desfiada a mão. Fonte: Telar Mapuche, 2007.
Em relação ao tingimento, o processo de preparação das lãs se realiza no verão, quando o bom clima permite o trabalho ao ar livre e a secagem mais rápida da lã, uma vez que se economiza tempo já que se disfruta do ar e do sol.
Em meio às várias técnicas de desenhos da tecelagem Mapuche, encontram- se o Rayado, o Peinecillo e o Labor (Figura 16). Dentre estas, a técnica Labor é a mais destacada, visto que,
esta é a essência do tear Mapuche, já que através dela se alcançam os característicos desenhos que constituem sua identidade cultural. É evidentemente a técnica mais completa do tecido, pois combina uma forma particular de urdidura2 com a elaboração dos desenhos a partir da seleção manual dos fios em cada volta de tecido. Isto faz que com seja muito mais lento e requer muita concentração em todo seu desenvolvimento (MASTRANDEA, 2007, p.57, tradução nossa).
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Urdidura: série de fios estendidos longitudinalmente em tear e através dos quais é depois lançada a trama. O mesmo que urdume e urdimento. Versão digital. Michaelis.
Figura 16 – Técnica Labor. Fonte: Telar Mapuche, 2007.
Merece uma menção especial a técnica de "Íkat", "Amarrado" ou "Lista atada", aplicada no chamado "poncho pampa". O desenho tradicional destas prendas é a cruz Mapuche, caracterizada por suas linhas verticais e horizontais, tal motivo se faz mediante o tingimento, e não por tecimento, como as demais.
Para isto, se utiliza a técnica do negativo, isto é, coloca-se no tear todo o urdume de uma só cor e se amarram ambos extremos com uma trança bem firme para que não se movam os fios, seguidamente se marca o desenho sobre o urdume e se isola a superfície que não se deseja tingir com uma argila especial, amarrando a zona com fortes ataduras de fios ou tiras (Mastrandea, 2007, p.61) (Figura 17).
Segundo Figueroa Pozo (2012), as peças de tecidos produzidas pelas mulheres Mapuche dão suporte para a transmissão de uma mensagem que está inserida nos distintos símbolos que compõem a vestimenta. Estes signos dão conta de uma gama de valores que vão desde a ética a religião, sempre correspondendo ao gênero de seu usuário.
Desta maneira, escreve Figueroa Pozo (2012):
as peças têxteis, suporte da mensagem que os Mapuche buscavam transmitir, eram muito valiosas para a sociedade Mapuche. Na cultura Mapuche o primeiro que se levava em conta para interpretar símbolos era o objeto sobre o qual se insere a mensagem. Estes objetos (a definir o gênero correspondente, masculino ou feminino de acordo ao usuário do adereço) constituem o primeiro passo para conceder a símbolos que podem ser
iguais em estrutura, sua correta valorização ética, prática, mística e religiosa. A alteração do significado de um símbolo pelo objeto que o contenha é uma característica na leitura da simbologia própria de toda região andina (POZO, 2012, p. 32, tradução nossa).
Figura 17 – Técnica de Cruz Mapuche. Fonte: Telar Mapuche, 2007.
Assim, para compreender o significado e o sentido estético colocados na textilaria Mapuche, é preciso levar em consideração a combinação das formas, desenhos e cores que adornam as diferentes peças. Estas implicam a um modo de expressão particular e a existência de uma linguagem própria, sendo através desta um modo de estabelecer um diálogo entre as suas criadoras e os membros da sociedade (WILSON, 1992, p. 7).
Desta maneira, ao que tange este trabalho, foram tiradas refêrencias daquilo que especialmente chama a atenção no poncho e na faixa de cintura Mapuche, que são seus símbolos, isto é, os desenhos geométricos que aparecem nas peças. Com esta orientação, observa-se as imagens seguintes (Figuras 18, 19 e 20), em uma tentativa de tradução do que foi mencionado, trazendo a principal característica desta arte Mapuche em sua variada diversificação.
Através dos desenhos empregados em uma determinada peça, se pode contar uma história, assim como saber a posição social de quem a usa, como já fora dito. Em relação às histórias, algo que ainda vive na memória das tecedoras.
As vestes podem representar uma marca familiar, um sinal da vida da própria pessoa e o estabelecimento de um diálogo compartilhado no interior da sociedade, porém, parece indecifrável ou sem significado nenhum para os que não pertencem a esta cultura (WILSON, 1992, p. 8).
Com isso pode-se perceber a importância destes símbolos, que são repletos de significados e misticismo, o que para nós, a primeira vista, parece sem sentido, mas que representam não só a visão do mundo, como também a definição do Ser Mapuche.