Este ensaio propõe uma abordagem da cidade através da literatura de Italo Calvino, a partir das reflexões sobre a cidade presente em sua obra. Referimo- nos às possibilidades da literatura em termos de liberdade de pensamento e de sua capacidade para tratar o drama urbano como forma de contribuir com as ciências que têm a cidade por seu objeto. Nesse caso, da literatura pode-se extrair mais que a interpretação e análise dos signos arquitetônicos e espaciais; é possível aprender com suas estruturas, funções e linguagem. Reclamamos para a ciência uma abordagem da cidade que faça dialogar as vivências urbanas e os constructos teóricos da literatura. A literatura, inspirando-se na urbanidade, interpreta os dilemas humanos em sua potência, propõe leveza e multiplicidade em sua forma, concentra pensamentos, sentimentos e ações vividos no espaço e ainda possibilita a apreensão de lugares outros, expostos e propostos pela via literária. Italo Calvino aprende com o ‘urbano’, constrói significados e apresenta a cidade como protagonista e ao mesmo tempo cenário, ambiente de vivências das contradições e complexidades de seus personagens e histórias.
Conectar as Cidades Italianas com as possibilidades científicas de abordagem do espaço urbano é compreendê-las como representação de realidades que nunca serão totais, mas que se articulam através dos ‘passeios’ urbanos da literatura e de pretensões literárias da questão urbana.
O termo Cidades Italianas é uma alusão ao escritor ítalo-cubano Italo Calvino. Ao defini-la dessa forma, e não como Cidades Calvinianas, descartamos a possibilidade de serem associadas ao Calvino da Reforma Protestante. Aqui, trata-se do Calvino-Italo até no nome. Na verdade, é tanto uma homenagem ao autor, como uma referência à sua Pátria, a Itália. Outro termo aqui importante é Complex(c)idade, com o qual realçamos a complexidade da cidade, apresentada, inclusive, pelo próprio Calvino como um de seus principais símbolos e como capaz de representar a
contradição e a complexidade da vida humana. Pretendemos com esse trabalho percorrer caminhos das ‘cidades da literatura’ do referido autor com olhares de um pensamento da complexidade. Estamos conscientes dos possíveis descaminhos, mas propomos a literatura como guia de uma também possível abordagem urbana.
Italo Calvino, no prefácio para uma edição de Ferragus, discorre sobre a tarefa de Balzac ao escrever sobre Paris. Esse prefácio foi lançado em seu livro Por que ler os clássicos, com o nome de A cidade-romance em Balzac:
Transformar em romance uma cidade: representar os bairros e as ruas como personagens dotadas cada uma de um caráter em oposição às outras; evocar figuras humanas e situações como uma vegetação espontânea que germina no calçamento desta ou daquela rua ou como elementos de tão dramático contraste com elas a ponto de provocar cataclismos em cadeia; fazer com que em cada momento mutável a verdadeira protagonista seja a cidade viva (grifo nosso) [...] (CALVINO, 1991, p.147)
A referência de Italo Calvino às cidades está presente em boa parte de sua obra. Literatura e ciência podem conviver de modo articulado, nos ensinando caminhos outros de apreensão e análise da cidade e do espaço urbano. A cidade em Calvino não é apenas cenário de suas fábulas, contos e ensaios, é um organismo vivo, onde a vida urbana acontece, onde ele constrói, re-significa e singulariza a cidade. Têm-se daí as cidades de Marcovaldo, do Sr. Palomar ou as invisíveis, presentes e sentidas em sua vasta obra.
Abordar a cidade, como faz Italo Calvino, não é apenas função ou atividade dos literatos e poetas, visto que ele demonstra que um mesmo objeto pode ser compreendido em várias de suas vertentes, contextos e histórias. Ele não limita a cidade apenas aos aspectos físicos de suas construções, fala de personagens e vidas construídas no espaço urbano. É por esse motivo que vemos os escritos Italianos com o seu lugar de destaque na literatura mundial, abrindo espaço para os teóricos, os pensadores e os profissionais que têm como ofício a cidade e o espaço urbano.
Através de suas cidades, é possível a criação de relações em várias vias. É possível ver cidades, passear por elas, entender e compreender sua formação, sentir seus cheiros, viajar pelos seus encantos, dilemas e problemas. Vemos em sua abordagem a alma multifacetada de um poeta que cria diálogos e situações
inusitadas com seus interlocutores. Poderia ser a alma de vários outros profissionais: sociólogo, geógrafo, arquiteto, urbanista, mas é a de um ser que consegue ultrapassar os muros do conhecimento disciplinar e imprimir, nas suas cidades, as múltiplas possibilidades de percursos dos seus personagens, de suas tramas e ainda do ‘nosso caminhar’ em seus espaços concebidos. Aí perguntamos: é possível não se apaixonar pelas Cidades Invisíveis? Como ficar imune ao entrar nas Cidades Italianas, quando elas nos saltam à vista, nos olham, caminham e sentem as nossas intenções?
Pode até parecer personificação demais do espaço. Mas, achamos que assim como percorremos, passeamos e habitamos a cidade, ela também nos habita, nos percorre e nos passeia. Marcamos e somos marcados no espaço urbano; nossos desejos e anseios ficam impressos nas ruas das nossas vidas e das nossas cidades. O que seríamos sem os nossos órgãos e o que seria deles sem nós? O que é a cidade sem nós, que no plano do tangível construímos suas imagens e símbolos a cada instante? E este ‘nós’ tanto são as pessoas, as ruas, casas e árvores, como os ‘nós’ da inextricável trama que dá forma e sentido à rede urbana.