Section II : La cristallisation et la reconnaissance du droit de souveraineté permanente sur les ressources naturelles
B- La nationalisation du Canal de Suez
Considerando as opções culturais, por vezes concentradas em curtos períodos de tempo, cabe questionar: havia público pagante suficiente para todas elas? No Correio do Bonfim relatavam-se apresentações para plateias cheias e também vazias. Não sabemos em que
proporção isso se dá, mas o fato é que as atrações continuavam chegando e as exibições das entidades locais e dos filmes não paravam de acontecer.
Que faziam os artistas, entre moradores e visitantes, amadores e profissionais, para garantir a presença do público nos espetáculos, semana a semana? O periódico fazia sua parte, não apenas divulgando, como também apresentando palavras de estímulo ao consumo de arte, estivesse ela presente nas festas artísticas, nas apresentações infantis, nos filmes, nas récitas, nas apresentações das bandas filarmônicas ao ar livre ou nos espetáculos de companhias e de artistas visitantes.
Em favor desses últimos, considero que o movimento social, levado a cabo pelas agremiações locais, assim como a familiaridade do público com conteúdos artísticos apresentados por elas que eram - majoritária, mas não exclusivamente - os mesmos gêneros trazidos de fora para dentro, formavam um panorama propício ao consumo da arte que apresentavam. É claro que, para ser estimulada por um jornal feito por membros da elite, esta arte deveria estar ao seu agrado. Isso não invalida, entretanto, o gosto popular, uma vez que, em se tratando de uma realidade de altos níveis de analfabetismo, uma nota no jornal dificilmente garantiria a presença de mil pessoas, como ocorrera em espetáculo do Circo Berlando, segundo notícia acima referida, que cobriu sua apresentação em julho de 1917.
Ademais há que haver destaque para as estratégias utilizadas tanto pelos de dentro como pelos de fora. A mais comum e possivelmente a mais eficiente delas é o benefício, artifício muito utilizado por artistas e empresários do período em diversos pontos do país. Dirigindo-se a renda das sessões para determinada entidade, obras assistenciais, causas beneficentes, ou para o próprio artista, conclamava-se a presença do público para que, além de ter acesso ao conteúdo cultural, contribuísse com alguma causa maior. Tantos eram os benefícios que o poeta Gil Gaio assim os descreveu, nas trovas que trataram dos contínuos espetáculos de benefícios dessa cidade:
Despesa obrigatória p’ra se ser educado Correspondendo a tal dedicatória... Ora, muito obrigado!
A Civilização obriga a gente a duros sacrifícios. Pois com os tais “benefícios”
Só fazendo das tripas coração. Para se andar na figura Segundo a norma antiga,
Embora essa impostura
Exiga muito aperto de barriga É preciso saliencia
Nessa agitada vida social,...
Mesmo no apito, guarda-se a apparencia Mas a linhe... integral!
Beneficios pr’a frente
Porque mesmo pra vida assim tão cara Para essas fitas nunca falta gente
Embora gente arara...
(grifos meus) (Sovas e Trovas.Correio do Bonfim, nº 11, 9 de dezembro de 1917. Ano VI, p. 01)
As trovas apontam para a importância do benefício como evento social. E informam sobre a existência daqueles que mesmo “no apito” compareciam à “agitada vida social” e mantinham a “aparência”. Também as festas e festivais artísticos retratavam bem o espírito de congraçamento que as apresentações artísticas, associadas a elementos tais como discursos, bailes, quermesses, significavam para a comunidade local. Acredito que, mais do que uma noite dinâmica, esse formato trazia consigo uma inserção social que extrapola a apreciação pura e simples de conteúdo artístico, qualquer que fosse ele. Era ali que o que havia de melhor, de mais distinto na sociedade bonfinense, se reconhecia como tal. Ter recursos para bancar os ingressos, era, possivelmente, uma prova tácita de pertencimento a esta elite.
E para os beneficiados? Qual o efeito real das doações? Vejamos a prestação de contas de uma das apresentações de teatro infantil, feita em benefício da Igreja:
Producto de bilhetes vendidos 250$500 DESPESAS:
Aluguel do palco – 35$000 Orchestra – 25$000
Impressão de bilhetes e programas – 10$000 Fazendas, carretos e diversas – 23$000 157$500
Importancia entregue ao Conego Tolentino 146$500 Bilhetes a receber 11$000
(Theatro infantil. Correio do Bonfim, nº07, 12 de novembro de 1916, Ano V, p. 02)
É de se destacar que embora a renda seja revertida para o beneficiado (neste caso o cônego Tolentino, como representante da Igreja), ganham o dono do espaço, - que não deixa
de cobrar seu aluguel -, e a orquestra, que recebe algum valor para, possivelmente, cobrir seus custos. Assim, quando os artistas que vem de fora apresentavam-se em benefício de alguma instituição local, é de se imaginar que lhes coubesse algum valor - descontado do valor geral e considerado como despesa - que justificasse a apresentação.
Em 26 de novembro de 1916, um domingo, o Circo Planeta apresentou-se em benefício da Sociedade Filarmônica 25 de Janeiro. Na quinta-feira da mesma semana o benefício fora para a União e Recreio. Em ambos, as filarmônicas beneficiadas, cada uma a seu dia, apresentaram-se nos intervalos e no início da sessão, integrando o programa da noite63.
Difícil acreditar que os artistas do circo entregassem toda a renda às sociedades filarmônicas beneficiadas. Assim, os benefícios funcionavam numa via de mão dupla: garantiam casa cheia, dada a mobilização das entidades locais interessadas na venda dos ingressos em seu favor e na oportunidade de exibirem-se ao lado das atrações visitantes, que, por sua vez, estabeleciam uma articulação com organismos da cidade visitada, obtendo renda que, ainda que não fosse total, era garantida. Além disso, havia os espetáculos em benefício dos próprios artistas, que ocorriam, nas últimas apresentações antes da partida da companhia ou trupe. Era essa mais uma estratégia de sedução da plateia, que se sentia compelida a colaborar com o artista que lhe houvesse conquistado nos espetáculos anteriores64.
Esse tomaladacá revela o interesse de ambos os envolvidos - artistas visitantes e setores organizados da sociedade local -, em estabelecer vínculos que lhes fortaleciam a ambos. Não eram incomuns os agradecimentos dos artistas quanto ao acolhimento recebido na cidade, em nota nos jornais 65. Alguns visitavam os jornalistas pessoalmente para fazê-lo:
Por terem de seguir para Juazeiro, como de facto seguiram, vieram trazer- nos, pessoalmente, as despedidas, os distinctos artistas da Troupe Jandaia, Paulo Quirino, Mario Barreto, Eugeni Guerra, Aurelio Epaminondas e Elyseu Borges.
Agradecidos desejamos-lhes múltiplas felicidades.
(Viajantes. Correio do Bonfim, nº 19, 7 de fevereiro de 1915. Ano III, p. 02)
63
Circo Planeta. Correio do Bonfim, ed 10, 03 de dezembro de 1916. Ano V, p. 01.
64
Os festivais e benefícios serão retomados na conclusão, quando serão aprofundados alguns pontos de análise acerca de seu caráter de instrumento de conquista de público e garantia de recursos de bilheteria.
65
“Agradecimentos. O artista M. J. Santiago vem de publico testemunhar ao povo de Campo Formoso o favorável acolhimento que lhe dispensou durante a sua exhibição nessa futurosa localidade, especialmente ao sr. Jose Maria Teixeira pelos muitíssimos obséquios com que o distinguiu, obséquios esses que se tornam eternamente dignos da sua gratidão.” (Agradecimentos. Correio do Bonfim, nº 48, 16 de agosto de 1916. AnoIV, p 01.)
Uma última estratégia a ser citada aqui diz respeito aos brindes e brincadeiras, usados como atrativo especialmente para o público infantil. O Cinema Royal lança mão deste recurso por mais de uma vez.
Hoje a tarde havera páu de sêbo, corrida de sacos, quebra potes e outras diversões em frente ao Royal, recebendo o garoto que mais se distinguir um bonito presente
Havera matinée para as creanças, distribuindo-se aos pequenos frequentadores bonbons, etc.
Alerta petizada! (Cinema Royal. Correio do Bonfim, nº 43, 19 de julho de 1914, Ano II, p. 02)
Além de servir de chamariz imediato para venda de ingressos ao público infantil, essa estratégia funcionava, deliberadamente ou não, como instrumento de formação de plateia. E haveria um instrumento de formação de platéia mais eficaz (e doce!) que esse, capaz de unir a associação do consumo artístico com o prazer da brincadeira e da guloseima?
Estas e outras tantas estratégias de conquista de público serão investigadas no decorrer da pesquisa, na medida em que avançarmos nas fases da carreira de Celina. As recorrências, adaptações, inovações, serão buscadas e comparadas para que, ao fim deste trabalho, seja possível identificar, a partir dos formatos artístico-produtivos pelos quais a atriz passou, um painel acerca da produção artística da qual ela foi criatura e atriz criadora e de sua relação com os públicos encontrados no interior e capitais do nordeste brasileiro.