2 SPATIAL RESTRICTIONS ON THE DEMOCRATIC SECURITY POLICY
2.6 National territorial ordering?
A história das representações e dos usos do corpo vem crescendo desde os anos de 1980 e hoje é tema marcante em pesquisas das ciências humanas desenvolvidas no Brasil. Embora uma miríade de abordagens sobre o assunto proliferasse em outros países, diversos trabalhos brasileiros ainda pareciam tímidos quando se tratava de problematizar a historicidade dos corpos, os cuidados com a beleza, a saúde, a higiene e o bem-estar físico, explica Denise Sant’Anna (2005). Porém, segundo a autora, esse cenário não demorou a adquirir novos contornos, incluindo um número significativo de pesquisadores dedicados a investigar cultos antigos e, ou, contemporâneos do corpo, assim como as suas representações no esporte34.
Afirmar a centralidade do corpo, recuperar sua importância nas questões relacionadas ao esporte, não é tarefa a ser operada com as dicotomias, a cisão entre corpo e cultura, corpo e pensamento, corpo e política, corpo e gênero, e assim por diante, mas um investimento para compreender o trânsito entre esses assuntos, como sugere Santa’Anna (2005). Para a autora, superar a dicotomia entre esses eixos temáticos seria muito mais importante que querer fundar, mais uma vez, o corpo como uma matéria inerte que apenas recebe de fora determinações, implantações, obrigações, próteses. É importante, portanto, pensar seriamente que o corpo é vivo, tem uma inteligibilidade própria, é agente histórico e cultural, se expressa, provoca e participa do pensamento, faz pensar, permite e proíbe pensar, é possibilidade de tudo que fazemos e pensamos.
34 Não só os corpos, mas os esportes também são compreendidos a partir de conhecimentos de diferentes áreas. No viés das ciências humanas, um número bastante grande de disciplinas se ocupa de estudos sobre o corpo e movimento humano, suas objetivações e representações culturais.
Pensar o corpo no esporte significa, então, tomá-lo como um problema a ser discutido, como uma realidade que precisa ser questionada, propor que sejam modificadas as formas que o definem e o constituem, assim como as práticas que o instituem. Para isso, as definições e os modelos corporais não devem voltar-se apenas para uma discussão unilateral, dicotômica, segregada, e sim fundar-se em uma relação plural, conexa, complexa. Tomar essas formas de pensar o corpo na nossa cultura, no esporte, na ginástica rítmica, nos possibilita elaborar esquemas, descontruir e reconstruir saberes, entendê-los como uma tarefa infinita, inacabada, misteriosa. Pretende-se, assim, pensar para além de oposições como liberação e repressão, corpo natural e artificial, não para negá-las, “mas para analisá-las lá onde elas sempre estiveram: no curso da história, sendo, portanto, datáveis, provisórias, plurais e, sobretudo, estreitamente interligadas” (SANT’ANNA, 2005, p. 15).
Em uma época em que se fala sucessivamente do culto ao corpo no esporte, à beleza, ao rendimento, em que se assiste à fabricação de uma diversidade inédita de aparelhos, serviços, publicações, roupas, medicamentos destinados, sobretudo, a melhorar a performance esportiva, a constatação que fica é de que o corpo deve ser visitado e revisitado, pois o processo constituinte do corpo atlético é amplamente revelador de uma história que é também relacionada a ociosidade, a feiura, ao não rendimento, ao grotesco. Trata-se de buscar os pontos de sensibilidade e de tolerância que fazem do corpo uma verdade tangível e, ao mesmo tempo, abstrata.
Trata-se igualmente de buscar os pontos convergentes e divergentes entre os discursos científicos e o campo observado, pois “seu conhecimento é interminável tanto quanto são diversificadas as bases culturais que, da medicina à religião, passando pela filosofia e pela antropologia, o constituem e o transformam” (ibid, p. 12). Algo se observa, por exemplo, em pesquisas que lidam apenas com dados antropométricos de atletas de ginástica rítmica em que o/a pesquisador/a escolhe não dar voz aos sujeitos. O conhecimento produzido é importante e contempla algo sobre o corpo, mas se “cala” em relação a uma série de aspectos desse mesmo corpo (por exemplo, os ligados às subjetividades), impossibilitando uma abordagem mais ampla que pudesse alcançar outros aspectos da realidade. Assim, a ideia não é separar, mas pensar os dados quantitativos e qualitativos de forma conjunta, ajudando a rastrear os aspectos relacionados ao corpo para nos aproximarmos mais desse fenômeno social e analisarmos os sentidos e modos nele presentes.
Não se trata de considerar supérfluo o conhecimento produzido a partir do interesse técnico e prático pelas ciências empírico-analíticas, mas, como coloca Bracht (1999) ao tratar de Habermas e sua razão comunicativa, cuja base é a superação do paradigma científico centrado na relação sujeito-objeto, de “reconhecer seus limites e possibilidades e re-interpretá-los, submetê-los ao outro critério, a uma racionalidade comunicativa” (p. 125), buscando os objetivos propostos através do diálogo. O propósito seria reunir diversas áreas das ciências, estudar o mensurável e o imensurável, a quantidade e a qualidade, o linear e o não linear. “Por conta disso tudo, não convém dicotomizar entre quantidade e qualidade porque são apenas modos diferenciados de manifestação, funcionamento e dinâmica” (DEMO, 2004, p. 16), sobretudo porque são múltiplos e ambíguos, ressalta o autor.
Nessa direção, Morin (2007) afirma que, para compreender o objeto em sua totalidade, é preciso ampliar o modo de enxergar seu contexto e todas as complexidades que o cercam. Só esse pensamento complexo sobre uma realidade pode fazer avançar a reforma do pensamento na direção da contextualização, da articulação, da interdisciplinaridade do conhecimento produzido pela humanidade35,
afirma o autor. Para ele,
O complexo requer um pensamento que capte relações, inter-relações, implicações mútuas, fenômenos multidimensionais, realidades que são simultaneamente solidárias e conflitivas (como a própria democracia, que é o sistema que se nutre de antagonismos e que, simultaneamente, os regula), que respeite a diversidade ao mesmo tempo que a unidade, um pensamento organizador que conceba a relação recíproca entre todas as partes. (MORIN, 2007, p. 23)
35 Esse “diálogo entre os saberes” ocorre em resposta a uma necessidade de superar a fragmentação e o caráter especializado do conhecimento enraizado em uma epistemologia de tendência positivista cujas raízes assentam-se no empirismo e no naturalismo, mecanismos científicos do início da era moderna, explica Gadotti (2000). A influência das correntes de pensamento naturalista e mecanicista buscavam construir uma concepção de ciência mais dogmática do mundo, buscando certa verdade absoluta, especialmente em meados do século XIX. A interdisciplinaridade, por sua vez, como movimento contemporâneo e inovador, emerge da crítica a estas concepções.
Esse processo de integração e engajamento de partes, de disciplinas entre si, mediante uma visão global de mundo para enfrentar uma determinada realidade de forma complexa, representa o vínculo de um saber com outro saber, ou ainda dos saberes entre si, e busca entender um objeto de forma plena, total (LUCK, 1994).
Nesta perspectiva, é possível pensar o debate entre corpo e esporte não como um encontro de áreas, apenas, mas como um processo de construção de uma “zona de transitividade”, como sugere Fabiana Britto (2008, p. 14) ao estudar a dança e a arquitetura, baseada na cooperação entre as disciplinas, em busca de conexões entre elas que favoreçam a produção de novos sentidos. Assim, para atuar sob essa proposta de análise sobre o corpo na ginástica rítmica, é preciso visualizar o fenômeno como pluridimensional, valorizando os diversos conteúdos das disciplinas, numa simbiose de saberes e reflexões. Essa análise pressupõe, então, uma relação íntima de diferentes áreas, que tem como objetivo compreender a complexidade do objeto de estudo, utilizando-se de saberes e intercâmbio entre eles, características presentes nos estudos interdisciplinares e em nosso trabalho.
Essa modalidade de articulação de conhecimento implica considerar que os distintos horizontes não se ordenam de forma rígida, nem em função de algumas referências disciplinares pré-estabelecidas ou de uma homogeneização de saberes. Seria um teorizar à luz das necessidades específicas de cada objeto de estudo, um diálogo com múltiplos pontos de vista (RAYNAUT, 2011). Assim, as interfaces temáticas, a utilização de disciplinas e ferramentas podem auxiliar na compreensão de estudos desse caráter, como nos coloca Kaplan (1975, p. 61 apud SIQUEIRA, 2006, p. 10): “cada uma das disciplinas pode receber das outras as suas técnicas, ou seus conceitos, as suas leis, os seus dados, modelos, teorias e explicações – tudo, enfim, que for útil para as investigações que realiza”.
Contudo, sabe-se que a proposta de articular diferentes campos do conhecimento para engendrar reflexões críticas acerca de casos e situações de uma dada realidade é um exercício tão necessário quanto delicado: é preciso cuidar para não hipergeneralizar. A hiper- generalização e a utilização de categorias de análise que não se enquadram em um determinado tema passam a ser um problema na compreensão de um determinado assunto e podem prejudicar a própria análise. Dependendo do caso e da forma, a proposta passaria a ser uma descrição de opiniões, rotinas, concepções, e esse estudo não se
enquadraria em uma pesquisa interdisciplinar (KRISCHKE, 2010). Algo que nos impõe delimitar os objetos de estudo demarcando seus espaços sem, contudo, fragmentá-los.
Essa delimitação assegura sua importância e suas diferentes formas e direções para substituir o famoso “o todo mais complexo” (GEERTZ, 2008, p. 3), não porque haja somente uma direção para percorrer, mas porque há muitas e é preciso escolher. Significa que não podemos abandonar as múltiplas determinações e mediações históricas que constituem o corpo, mas delimitar o problema a ser estudado se faz necessário.
Nesse sentido, as abordagens teóricas, por mais complementares que possam ser nos estudos acadêmicos, não podem ser amplamente abordadas. É preciso definir o problema de pesquisa e sua pergunta condutora. Caso contrário, corre-se o risco de ampliar demais um tema e fugir da proposta de análise do objeto de estudo. É uma questão de postura ou uma “questão de atitude”, como sugere Fazenda (2011, p. 10), que se deve tomar ao definir os conceitos básicos para estudos complexos, possibilitando as trocas com a atitude de humildade para reconhecer o que falta e com o que se pode contribuir.
Para compreender esse tema, seria, portanto, empobrecedor analisá-lo tomando-o como algo já pronto e constituído para, em seguida, privilegiar suas representações, nas quais está submerso. Não se trata de realizar uma listagem das maneiras supostamente exóticas de lidar com o corpo no esporte, mas sim de tornar questionáveis os gestos e as atitudes que parecem familiares ou não. Estudar o corpo na ginástica rítmica implica, assim, trabalhar segundo uma perspectiva voltada à apreensão das condições de possibilidade que fazem emergir as relações e as oposições entre os corpos, suas designações e especificidades.
Ao produzir um ambiente de questionamentos sobre o que é o corpo de uma ginasta, o que ele representa, como ele se conforma na busca de alto rendimento, buscamos, portanto, desenvolver considerações sobre questões técnicas, estéticas, de educação e de formação atlética, a fim de estabelecermos uma compreensão mais expansiva sobre o corpo gímnico e esportivo para além das bases das ciências médicas, biológicas, fisiológicas, biomecânicas, que constituem, em sua maioria, as pesquisas voltadas para essa modalidade. Nesse sentido, o objetivo é o de fomentar reflexões que escapam o olhar tecnicista e biologicista e desvendar uma corporeidade cheia de nuances, conotações e desígnios culturais que marcam as diferentes formas de lidar com o corpo dessas atletas.
A ideia, então, é centrar a reflexão na relação que separa ou aproxima o corpo daquilo que se considera naturalizado pelos sujeitos do subcampo. Afinal, medindo estas distâncias, indagando sobre as razões de sua constituição e considerando a sua variação no tempo e no espaço, deparamo-nos com alguns dos receios e sonhos que participam das estratégias de modelar o corpo em busca de rendimento. Estudar, por exemplo, os sistemas de significações (a alimentação, o controle do corpo, os estilos de vida, diversos discursos que permeiam a performance esportiva) é compreender a historicidade não apenas desse corpo, mas também os valores a ele atribuídos, como nos ensina Sant’Anna (2005).
Para tanto, não pretendemos realizar uma história do corpo, coesa e linear, para descobrir suas evoluções no tempo. Diferentemente, nosso objetivo é fornecer diferentes pistas para a análise do corpo como objeto heterogêneo e plural. São importantes, portanto, as reflexões que suscitam e enfrentam questões filosóficas, históricas, sociológicas, antropológicas e políticas mais amplas, como as que se referem às questões relacionadas ao corpo e à história e que se radicam nas experiências presentes, o esporte entre elas.
Apoiamo-nos, assim, em diferentes saberes e autores, como Norbert Elias, Michel Foucault, Pierre Bourdieu, Theodor W. Adorno, Walter Benjamin, Clifford Geertz, para citar alguns. Estes oferecem um diálogo interessante sobre a relação sujeito-sociedade e, também, uma alternativa teórico-metodológica importante para a compreensão do corpo na ginástica rítmica e sua complexidade. Nesse esforço de mediação entre as diversas correntes, analisar os usos do corpo não significaria, apenas, uma descrição, mas, compreender a sua complexidade nesse subcampo, o que nos permite pensar, também, nossa sociedade.
3.2. PESQUISA QUALITATIVA E ETNOGRÁFICA: MEU LUGAR