3. GOVERNANCE AND NATIONAL GOALS
3.3 National Projects
Afinal o que é COTIDIANIDADE? Essa pergunta norteou o percurso da escrita desta TESE e manifestou-se uma clara necessidade de intensificar um texto sobre esse conceito, quando conduzimos a comunicação final dos resultados obtidos. Como podemos perceber já estávamos na fase final da escrita, quando percebemos que deveríamos voltar neste tópico e complementar as ideias estabelecidas na teoria do Cotidiano, acrescendo a esse texto, neste momento, a explicitação sobre o que é a COTIDIANIDADE. Isso foi pertinente, pois nesse segundo capítulo estamos na fase de elucidar conceitos da teoria, mas nem por isso deixamos de revelar nossas preocupações sobre os momentos finais da pesquisa. Isso deixa claro as nossas idas e vindas ao texto que tanto Moraes e Galiazzi (2011) tratam como necessárias quando falam de ATD e como Richardson (2014) afirma quando discorre sobre metodologia da pesquisa. Para finalizar, citamos também Yin (2015) que recomenda a reescrita textual da pesquisa, sempre que o pesquisador sentir essa necessidade, pois, num Estudo de Caso Múltiplo prevalece em nosso pensamento, todo o tempo, à consciência de que nada está posto num caminho único. Os textos são reescritos e por vezes alguns tópicos são acentuados de um modo, o qual, no início da pesquisa, não tinha em si esta propriedade, pois pesquisador e pesquisa estavam nos passos iniciais.
Assim, após ter constituído a TESE sentimos esta necessidade, de voltar a este capítulo e chamar a atenção ao aspecto de que a possibilidade de COTIDIANIDADE está presente no cotidiano de todo homem particular-genérico, dentro da Teoria do Cotidiano em Agnes Heller (1970).
A COTIDIANIDADE (não cotidiano) é um conceito filosófico complexo. Para compreendê-lo precisamos nos aproximar de situações e pensar sobre algo que acontece cotidianamente e, depois, nos afastarmos para podermos observar quais são, de fato, as razões (causas), os modos (consequências) que habitam nessas ocorrências. O que sustenta as ocorrências e as mantém em movimento de particularidade-genericidade é a COTIDIANIDADE. No entanto esta precisa de forças que a impulsionem. Assim, entra em ação a moral e a ética.
Desse modo,
os valores morais são o resultado da ação cultural entre os homens e recebem reconhecimento e legitimidade no convívio social. Eles são únicos e variam de acordo com a época e determinada sociedade. Ética é a matriz geral, é uma teoria que interpreta a moral, e a motivação para alcançar esta ética, na unidade entre particularidade e genericidade, é a moral. Ou seja, a moral se dá num âmbito prático das ações que refletem o pensamento e o comportamento do homem no seu cotidiano (GUIMARÃES, 2000, p.41)
Num exemplo menos sutil poderíamos dizer que uma rede de pesca seria o cotidiano O uso desta rede retira do mar diversos peixes e outras matérias orgânicas que são dispensadas pelo pescador, pois não servem ao seu uso, mesmo sendo necessárias ao seu habitat natural, de onde foram removidas. A COTIDIANIDADE dessasituação seria não usar a rede, sabendo-se disso. Seria manter a ideia de que por trazer este dano à natureza, a rede deixaria de ser instrumento de busca de peixes, e assim, outro método a substituiria. Mesmo que dessa decisão viesse a fome de não ter o peixe, ainda assim, este uso não mais ocorreria.
A pesca em si será sempre a ação necessária para buscar os peixes, mas o modo de realiza-la tem opções e pressupõe nas escolhas a administração das tensões que resultam desta tomada de decisão. Alguns homens entenderão, nesta analogia da pesca, que para a sua vida é útil fazer uso dos instrumentos e das estratégias já pensadas por outros homens. Devemos ter o cuidado de não dar importância aos instrumentos, pois não é na especificidade desses, ou qualquer outra característica sobre eles que pode conduzir a cotidianidade. Se fosse isso, as próprias TDIC fariam alterações com efeito de cotidianidade quando são utilizadas pelos docentes em suas práticas pedagógicas. E, sabemos que, não é isso que ocorre.
Voltando a pesca, para outros homens (pescadores) a função que os mantém satisfeitos durante a sua vida é pensar e elaborar novos processos de pesca. Assim, homens convivem no cotidiano em diferentes imersões do pensar. Homens diferenciam-se e mantém de iguais modos válidos seus processos, pois o cotidiano precisa se manter existente nas elaborações que esses homens realizam. Mesmo assim o cotidiano flui em ações que o
ultrapassam. Essa fluidez move as ações humanas e as impulsiona numa bi-implicação24 fluindo o tempo todo e todo tempo, de particular a genérico. Essa bi-implicação de ações acontece entre cotidiano e moral e resulta na cotidianidade. Para percebermos que isso não ocorre ao acaso precisamos estudar uma teoria que nos dê suporte em relação ao modo como são amarradas ocorrências e estratégias do pensamento. Essa Teoria do Cotidiano de Agnes Heller faz isso. Torna visível, no que é possível, os laços que prendem pensamento e ação, e os classifica temporalmente revelando nesse temporal a sua instantaneidade. No entanto, essa teoria é densa em seus significados e requer tempo para a sua apropriação, em salas de aula onde ocorrem os processos de formação dos professores.
Heller (1970) nos mostra que os acontecimentos do cotidiano não são assim tão livres de serem compreendidos enquanto diferentes forças de intensidades humanas, que podem ser determinados, de um modo melhor, quando percebemos que estas forças existem. Jamais poderemos vislumbrar numa prática pedagógica algo que ignoramos a existência. Por isso o uso de uma teoria que nos permita detectar e entender a presença dos elementos da moral são não só necessários, como valiosos aos agentes que têm a possibilidade de contribuir para com as ações de tantos outros profissionais. Os docentes têm esta função sobre as ações. E, em seu cotidiano fazem este uso e movimentam ações pedagógicas à todo o tempo. Mas, com que saber sobre estas ações têm exercido as suas práticas pedagógicas, é a pergunta que nos fez unir a Teoria do Cotidiano a prática pedagógica e assim, a necessidade de compreender a presença da COTIDIANIDADE.
Porém, se não está a COTIDIANIDADE configurada de modo a ser compreendida pelos professores, de modo geral, continuaremos a percorrer processos de formação em que os discentes começam e terminam seus cursos sem compreender o quanto a prática pedagógica é um valioso instrumento de formação profissional e humana, uma vez que, poderá situar as ações enquanto processos de elevação das objetividades. Essas elevações por meio dos elementos de tensionamento impulsionados pela moral transitam do homem particular (ser ontológico), enquanto pessoa que vive a vida, com suas funções básicas da existência, ao homem genérico, ao mesmo tempo em que é o indivíduo (ontologia do ser social). Entender que qualquer pessoa está imersa nesse processo e pode realizar objetivações que percorrem a dinâmica do em-si /para-si, desde que entenda estas nuances que no dia a dia, portanto
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Bi-implicador é um conectivo lógico que indica o movimento de uma ideia dependente em sua ocorrência de situações. A bi-implicação enquanto proposição é verdadeira, se e somente se seus componentes são ou ambos verdadeiros ou ambos falsos.
cotidiano se liga ao não cotidiano, ou seja, na COTIDIANIDADE. Compreenderisso é um modo de propor novas formas de impulsionar e instrumentar a geração das práticas pedagógicas.
Desse modo, há pretensão de dizer: Você professor pode ser uma "muda unidade vital de particularidade e genericidade", conforme Heller (1970, p.23) se não compreender que a prática pedagógica é um valioso instrumento de processo de vida, na vida de todas as pessoas que por você passam. Nosso agir trata justo da essência da vida que evolui, pois tem em si o trabalho realizado sobre o aprender. Nada mais cotidiano se situa na vida do homem do que o aprender. Mas, sempre situando os porquês desse aprender e, para esses, constituir as bases que os fundamentam.
A prática pedagógica docente se assemelha a COTIDIANIDADE por ser também constituída de conceitos complexos. Em ambos se interseccionam distintas situações e fundamentações. Tendo firmada essa consciência é que nos dispomos a discorrer sobre esse assunto, de modo a nos situarmos além de sua exposição teórica, pois, buscamos atingir um campo de reflexões que contribua para análises sobre a realização das práticas pedagógicas docentes formadoras de professores. Assim, concordamos que:
a TEORIA segundo a qual os homens fazem sua própria história, mas em condições previamente dadas, contém as teses fundamentais da concepção marxista da história: por um lado, a tese da imanência, e, por outro, a da objetividade. À primeira vista, o princípio da imanência implica no fato da teleologia, ao passo que o princípio da objetividade implica naquele da causalidade; os homens aspiram a certos fins, mas estes estão determinados pelas circunstâncias, as quais, de resto, modificam tais esforços e aspirações, produzindo desse modo resultados que divergem dos fins
inicialmente colocados, etc. [...] Essas finalidades formuladas pelo homem são as
relações e situações sócio humanas, as próprias relações e situações humanas mediatizadas pelas coisas. [...] essa distinção seria verdadeira, tão somente se 'circunstância' e 'homem' fossem entidades separadas" (ibidem, p.1, grifo nosso).
Esse momento da citação em grifo acima nos coloca de volta a questão anteriormente mencionada no que concerne à necessidade de melhor compreendermos a COTIDIANIDADE. Pois, quando desejamos agir sobre uma determinada ação para modifica-la precisamos compreender exatamente seus envolvimentos. No viés de Heller (1970) a circunstância envolve: unidade de forças produtivas, estrutura social e formas de pensamento. Tudo isso se transforma num complexo modo resultante e objetivo de posições teleológicas. Ou dito, de outro modo: o homem expressa ideias utilizando-se do que em si habita conscientemente sobre a sua compreensão de imanência. Filosoficamente,
o termo imanência pode significar: 1º presença de finalidade da ação na ação ou do resultado de uma operação qualquer na operação; 2º limitação do uso de certos princípios à experiência possível e recusa em admitir conhecimentos autênticos que superem os limites de semelhante experiência; 3º resolução da realidade na consciência. (ABBAGNANO, 2012, p.623)
Tratamos de imanência em consonância as ideias de Heller (1970), compreendendo nesse conceito um caráter que expressa o que tem em si, o próprio começo e o fim. Como podemos observar, a complexidade se mantém ativa nessas discussões sobre a vida do homem nas quais se manifestam as suas ações cotidianas e não cotidianas. Em referência a isso Heller (1970, p. 26) considera que "em nenhuma esfera da atividade humana [...], é possível traçar uma linha divisória rigorosa e rígida entre o comportamento cotidiano e não cotidiano".
Por isso, é possível percebermos nas ações de cada homem particular sua predisposição a movimentos ao genérico, ou não. É possível que o homem passe toda sua vida e categoria muda na particularidade. Isso significa que há uma fluência entre essas ações que pode estar disponível ao homem e nunca vir a ser realizada. No cotidiano está o homem particular e ao mesmo tempo genérico (homem particular-genérico). Do mesmo modo que não há uma linha divisória, como dissemos a pouco, é que particular e genérico coexistem. Dessa forma,
a vida cotidiana é a vida do indivíduo. O indivíduo é sempre, simultaneamente, ser particular e ser genérico. [...] Também o genérico está "contido" em todo homem e, mais precisamente, em toda atividade que tenha caráter genérico, embora seus motivos sejam particulares. (HELLER, 1970, p. 20-21).
Para Granjo (1996, p.31-32),
o homem particular com o objetivo de conservar-se, apropria-se do mundo e, nessa atividade, ganha consciência de si mesmo e do mundo, simultaneamente. Mesmo que não estabeleça com a genericidade uma relação consciente, tem sempre contato com ela, não existe, portanto a particularidade pura. Na medida em que supera a particularidade na construção de sua vida, cotidiana, o homem faz-se indivíduo, que ao contrário do particular, é consciente de si e de sua circunstância.
Como evoluir em termos de objetivações e atingir outras esferas não cotidianas, ou seja, atingir propriamente a COTIDIANIDADE? Para a autora,
quanto mais intensa é a motivação do homem pela moral, isto é, pelo humano- genérico, tanto mais facilmente a sua particularidade se elevará (através da moral) à esfera da genericidade. Nesse ponto termina a muda coexistência de particularidade e genericidade. É necessário o conhecimento do próprio eu. [...] Na realidade, nenhum homem é capaz de atuar de tal modo que seu ato se converta em exemplo universal, já que todo homem atua sempre como indivíduo concreto e numa situação concreta. Mas o caráter paradigmático existe apesar de tudo, na medida em que se produz aquela elevação até o genericamente humano. [...] a elevação ao humano-
genérico não significa jamais uma abolição da particularidade (HELLER, 1970, p.24).
A autora afirma isso, pois podemos verificar que a completa suspensão do particular-individual levando a transformação em "homem inteiramente" é algo excepcional na maioria dos seres humanos. Mas, o viver em si precisa de ações. Por isso, o cotidiano é condição básica. Ir além é opcional e requer saberes para essas ações. Essa característica de ação cotidiana também se impõe sobre cientistas e artistas quando estes realizam suas atividades.
Embora Heller (1970) informe que as esferas de superação do cotidiano estão no trabalho criativo, na arte. A tensão exigida durante a produção de suas atividades os eleva a genericidade que, após esta ação, retoma na vida do homem a posição de particularidade. Assim há na genericidade um envolvimento tenso que precisa voltar ao movimento de relaxamento, na particularidade.
Portanto, coexistem particularidade-genericidade em todo o homem, pois "tão- somente durante as fases produtivas essa particularidade é suspensa; e quando isso ocorre tais indivíduos se convertem, através da mediação de suas individualidades, em representantes do gênero humano. [...] o artista parece guiado por uma mão invisível". (HELLER, 1970, p.29).
Com a consideração acima a filósofa encaminha que todos os elementos que nos situam no cotidiano podem também ser realizados no sentido de uma elevação de particularidades, quando o mesmo homem consegue transpor lugares comuns, de seu próprio pensamento, efetivando outras ações. Isso se dá, conforme Heller (1991), por meio de quatro
fatores que caracterizam o conteúdo moral das ações: a elevação das motivações particulares, a escolha de fins e conteúdo; a constância na elevação de determinadas exigências e a capacidade de aplicar estas exigências em todas as situações da vida. Todo
o movimento envolve uma permanência de ações voltadas ao coletivo (genericidade).
Para uma análise de objetivações em que o homem pelas suas ações passa do campo abstrato (do pensamento) ao concreto (de suas ações) precisamos notar que o homem no movimento de transformação do particular-genérico não deixa de realizar os elementos que o situam no cotidiano (espontaneidade, economicismo, pragmatismo, ultrageneralização, juízo provisório, analogia, precedente, imitação e entonação). O que ocorre é que alguns desses elementos perdem intensidade numa determinada decisão que repercute numa ação consciente. Para que o homem-particular assuma a genericidade precisa reconhecer determinada dose de tensão com a moral numa situação ou nas ações de outro homem.
Numa elevação de categoria "os sujeitos suspendem suas atividades cotidianas e rendem-se as normas e regras da objetivação para-si, passando a mover-se em meio homogêneo e unificando sua atividade". (GRANJO, 1996, p.37).
Diante desses elementos, "Azanha25 acredita que possa, o estudo do cotidiano, constituir-se em ponto de partida adequado para fundamentar a ciência do homem, possibilitando uma visão da escola numa dimensão mais ampla, como parte do todo social" (GRANJO, 1996, p.40).
Embora Heller (1970) tenha publicado cerca de 30 livros sobre diversos temas, não há, ainda, em sua teoria uma colocação para uso específico na educação. Nesse sentido, Agnes Heller propôs que uma terceira categoria de objetivação está situada numa elevação em para-nós. A categoria para-nós situa a presença do contexto. Contudo, a filósofa, segundo Granjo (1996), não vê na escola um modo de alteração do homem particular para o genérico, conscientemente. Diz isso por supor que a escola é responsável por manter um status quo.
Exatamente por ter enunciado Heller (1970) que a categoria em-si não é fechada e transita juntamente a categoria para-si, é que supomos ser esta teoria um modo de ver, na prática pedagógica do formador, um ato em que rompemos o reprodutivismo e instalamos ações para o coletivo, no sentido de verdadeiramente contribuir para a formação do homem genérico, lembrando que nesse sempre estará presente a particularidade.
Afirmamos que essa Teoria ainda não tinha sido possibilitadora de agenciar espaços para pensar numa outra foram de elaboração das práticas pedagógicas docentes. Eis, que estamos postulando nosso desafio, sabendo que tudo que está dito nesta Tese é um exercício real de promoção da alteração da tensão provocada pela moral, voltado a genericidade dessas práticas pedagógicas.
Dessa forma, afirmamos que, a nosso ver, na escola e nas IES sempre haverá presença reprodutivista coadjuvante a novas ações e práticas pedagógicas. O que se deve alterar é o modo do trabalho docente envolvendo a tensão na esfera da moral, de forma consciente e crítica.
Passamos no próximo tópico a apresentar as pesquisas que têm sido realizadas utilizando-se da Teoria do Cotidiano em Agnes Heller. Com isso, inferimos que essa Teoria, ainda não tinha sido possibilitadora de agenciar espaços para pensar numa outra forma de
elaboração das práticas pedagógicas docentes. Dessa forma, estamos postulando nosso desafio sabendo que, tudo que está dito nesta TESE é um exercício real de promoção da alteração da tensão provocado pela moral, voltado a genericidade dessas práticas pedagógicas.
No próximo tópico passamos a apresentar as Teses e Dissertações que utilizaram nos últimos dez anos, a Teoria do Cotidiano, em sua fundamentação.