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Ao nos referirmos em geral à Escola de Frankfurt, temos em mente as figuras de Theodor Adorno e Max Horkheimer. Mas outras figuras se ligaram a este Instituto e são também importantes para buscarmos uma compreensão larga das relações entre o cinema e as sociedades. Este foi o caso de Walter Benjamin e de Siegfried Kracauer. Se Benjamin posicionou-se de forma mais progressista e positiva em relação ao fenômeno das relações entre o cinema e as massas, Adorno e Horkheimer assumiram uma perspectiva mais negativa e crítica. É verdade que podemos nuançar suas visões. Estes também admiti- ram ser interessante a possibilidade de acesso de um grande número de pes- soas aos bens culturais. No entanto, para eles o problema mais fundamental não era este. Eles estavam mais preocupados com o fenômeno da indústria cultural como produtora de massificação.

O maior mérito do posicionamento de Adorno e Horkheimer é apon- tar para a transformação da arte em mercadoria, numa sociedade capitalista pautada pela necessidade de realização da mercadoria. Para eles a indústria cultural é a reprodução em massa, é a produção de uma “pseudo-arte”, ori- entada para consumidores massificados. Sendo reproduzida, a arte é desvirtu- ada e banalizada, perdendo seu caráter crítico e pedagógico e seu aspecto especial. Legitimando e veiculando a ideologia dominante, ela se transforma na própria ideologia. A indústria cultural é a forma como as produções artís- ticas e culturais são organizadas no contexto capitalista, ou seja, produzidas e postas no mercado para serem consumidas. Apesar da importância dessas

considerações, vale lembrar que Adorno e Horkheimer desprezaram comple- tamente o fato de que, somente com esse processo de transformação da arte em mercadoria, é que as massas, antes excluídas da fruição da arte culta, passaram a ter acesso às produções artísticas.

Essas afirmações, mesmo com os limites apresentados, ainda podem ser consideradas legítimas e perspicazes, pois Adorno e Horkheimer apontam para uma perspectiva de análise que ainda - principalmente com o avanço cada vez maior dos meios de comunicação de massa e com a transformação cada vez mais significativa da arte e da cultura em mercadoria, está muito longe de ser superada, esclarecendo muitos aspectos sobre a cultura. Porém, convém ressaltar que, Adorno e Horkheimer simplesmente desprezaram a possibilidade de os filmes poderem cultivar a arte e representar a diversidade de situações vivenciadas nos diversos lugares. Os filmes de Federico Fellini, Pedro Almodóvar ou István Szábo, apenas para citar alguns, pouco ou nada têm de indústria cultural. São filmes críticos e políticos que nos levam a refle- tir sobre as mais diversas situações sociais. O conceito de indústria cultural só é pertinente e eficaz quando se trata de produções medianas, sob a égide da perspectiva dominante de Hollywood, e ainda assim, podem ser feitas algu- mas ressalvas. O filme classe B, O exterminador do futuro (Terminator, James Cameron, 1984), por exemplo, que revelou Arnold Schwarzenegger, pode perfeitamente ser considerado um exemplar da indústria cultural. Porém, do mesmo modo, se bem analisado, torna-se um excelente documento revelador de importantes aspectos dessa sociedade. Oferece-nos uma radiografia ao re- verso. Dela pode se traçar um perfil da sociedade ocidental às portas do sécu- lo XXI: a incerteza quanto ao futuro, o receio de que as máquinas controlem os homens, ou ainda, o medo que as classes dominantes têm das revoluções. Claro que todas essas questões vêm envoltas numa história de ficção científi- ca, com muitos tiros e carros em alta velocidade, quando um ciborgue viaja do futuro para o passado com o objetivo de assassinar a mãe daquele que é a única esperança dos humanos no futuro recriado. Muitos outros exemplos podem ser citados. Os filmes do diretor-historiador, como é denominado Oliver Stone por Robert Rosenstone (cf. seu artigo nesta obra), são um gran- de exemplo desse fenômeno. Sem dúvida, JFK, a pergunta que não quer calar (JFK, 1991), Assassinos por natureza (Natural borns killers, 1994), ou ainda, Nixon (1995) são filmes fabulosos, que nos levam à reflexão crítica sobre determi- nado período histórico ou a barbárie e a decadência da sociedade ocidental. Mas, o que pensar de Alexandre (Alexander, 2004)? Revela-nos algum aspecto da

atualidade? Com pouco esforço percebemos a vontade do seu diretor em querer fazer uma pregação moral e conjuntural dizendo “atenção, todos os impérios do passado desabaram por serem insaciáveis e por quererem domi- nar o mundo”. É visível assim um limite na análise de Adorno e Horkheimer, pois, se os veículos de comunicação de massa (cinema, rádio, televisão, internet) podem ser transformados em indústria cultural, também podem ser utiliza- dos contra ela, apresentando, portanto, um potencial que pode se contrapor ao capital, mesmo se é forçoso de constatar também que, como fenômenos críticos conscientes são minoritários. É pertinente, portanto, assinalar que a fusão da abordagem frankfurtiana com aquela desenvolvida por Marc Ferro é de grande utilidade para o pesquisador das ciências sociais, particularmente nesses casos dos filmes de baixa qualidade estética que não podem ser apenas denunciados como fruto da indústria cultural, pois eles nos permitem tam- bém, virar pelo avesso as sociedades e os homens que os produziram.

Se por um lado a conjuntura em que Benjamin, Adorno e Horkheimer produziram seus textos modificou-se, por outro, alguns de seus aspectos não apenas sobreviveram como se acirraram. Atualmente, mais que nos anos de 1930 e 1940, a arte tem sido reproduzida tecnicamente e o fenômeno da cooptação pela ideologia das classes dominantes também se acirrou. A reprodutibilidade técnica, com o avanço das técnicas de informação e comu- nicação (rádio, cinema, televisão, cassetes, CDs, DVD, CD-ROM, internet e as mais diversas mídias), assumiu proporções gigantescas. O que eles vislum- braram foi apenas a ponta do iceberg, por isso o pensamento desses autores permanece pertinente e atual para análises sobre o tema da cultura, notadamente sobre o cinema, orientando muitas reflexões.

O conceito de indústria cultural formulado por Adorno e Horkheimer foi bem recebido e teve excelente aceitação nos meios intelectuais, no perío- do em que foi formulado, devido à sua lucidez e crítica aos meios de comuni- cação de massa. Mas, como diz Denis Collin (2006), é importante observar que estes dois alemães foram pensadores que a Segunda Guerra irá torná-los ainda mais conservadores. Em 1968, por exemplo, diferentemente de Marcuse, eles olharam “com desconfiança e mesmo hostilidade os movimentos estu- dantis contestatórios”. (COLLIN, 2006, p. 246) No plano teórico, foram influenciados por Wilhelm Dilthey e, sobretudo por Max Weber. Já Benjamin foi considerado romântico e ingênuo pelo fato de não perceber o quanto a incorporação da técnica à obra de arte e à cultura, poderia transformá-las em veículos de uma ideologia dominante. Contudo, atualmente a situação se in-

verteu. Habermas (1980) - que teve como mestres Adorno e Horkheimer - ao comentar as obras destes mestres, se aproxima mais de Benjamin, afir- mando que ele percebeu o quanto as alterações na base material de produção da arte e da cultura, alteraram seu caráter e funcionalidade. Habermas perce- be a importância de Benjamin quando este acentua que o acesso de muitos e das massas à obra de arte ou aos produtos da cultura pode ser muito positivo.

Inspirando-se em Benjamin, Habermas (1980),1 mesmo que tenha criado

outras ilusões com suas idéias com relação ao que chama de democracia co- municativa, sustenta que o que instaura a manipulação e a dominação, tam- bém é condição de emancipação. A verdade é que muitas vezes existe uma contradição flagrante quando observamos num mesmo autor, de cinema, por exemplo, como no caso de Oliver Stone, filmes profundamente reveladores e que cumprem um papel fundamental na crítica histórica da sociedade ameri- cana contemporânea e outros piegas, lugar comum - quase puramente ideo- lógicos. Esse fenômeno pode ser estendido ao conjunto da produção cinema- tográfica, para ficarmos nela, mesmo aquela de Hollywood.

Para Adorno e Horkheimer, a indústria cultural é a forma como as pro- duções artísticas e culturais são organizadas no capitalismo e postas no merca- do para serem consumidas. Numa sociedade em que todas as relações são mediadas pela mercadoria, os produtos artísticos e culturais se realizam antes pelos seus valores de troca. São avaliados não por seus valores estéticos, filo- sóficos ou literários. Existe assim, inevitavelmente uma dimensão anti-cultu- ral nessa indústria que a torna ideal para que a sociedade burguesa perpetue seus valores e sua dominação. Mas se as análises desses frankfurtianos guar- dam atualidade e ajudam a esclarecer muitos aspectos da cultura contemporâ- nea, elas soçobram no prognóstico de uma linearidade e de uma evolução inevitável do capitalismo. No entanto, as reflexões de Benjamin sobre a in- corporação dos meios técnicos aos bens culturais parecem ser mais corretas para enfrentarmos as relações entre cinema, ideologia e sociedades na atuali- dade. Isto por vislumbrar que o cinema pode possuir uma dupla função, re- presentando e consolidando a ordem existente, ao mesmo tempo em que a critica, denunciando suas imperfeições e contradições. A crítica benjaminiana torna-se mais perspicaz ao perceber que a cultura pode ser utilizada para legitimar e divulgar a ideologia das classes dominantes, seus valores, sua polí- tica, mas também para se contrapor a essa ideologia. Pensava que os novos 1 Sobre Habermas conferir a leitura de Denis Collin em Marx, a filosofia e a ética: novas reflexões e propostas

artistas deveriam usar os novos meios de produção artística para desnudar o mundo que os condiciona, para explicá-lo e à própria arte, revolucionando-o, transformando-o em alguma medida. Entregues a si mesmos as diversas mídias perpetuará a inadequação entre a necessidade da criação livre e as imposições do capital que cria uma falsa integração da produção cultural com as relações sociais gerais. Benjamin não apenas reconhecia o valor das obras artísticas passadas, como as venerava também, mas pensava que se satisfazer com os alcances dos patamares dos séculos precedentes da obra artística e de suas auras como critério absoluto abria o flanco à barbárie social e artística. Enten- dia que um esforço crítico e político deviam levar aos artistas a organizarem suas criações atendendo às finalidades humanas e anticapitalistas. Ao reco- nhecer que o nazismo soube estetizar a política dizia que os “novos” artistas deviam politizar a arte. Enquanto Adorno e Horkheimer consideraram ape- nas “um lado da moeda”, que a cultura, sendo reproduzida tecnicamente, transforma o esclarecimento e a informação em ideologia, Benjamin observa também o fenômeno da sua negação. Benjamin aponta para a possibilidade de uma relação dialética entre cinema e ideologia. Deixa-nos ver que produção de um mesmo cineasta, ou ainda, de um mesmo filme, pode ser pautada por tal contradição. Pode divulgar e legitimar a ideologia dominante, sendo um verdadeiro exemplar da indústria cultural, mas também pode revelar e até mesmo denunciar os conflitos e as contradições sociais do mundo que lhe condicionou. Revoltado contra a idéia de progresso permanente, se revolta também contra a idéia de uma história universal baseada numa totalidade vazia e linear.

Slaughter (1983), num livro esquecido, chama a atenção que Benjamin viveu praticamente isolado e, salvo Brecht, foi vilipendiado por stalinistas e social-democratas. E os caminhos cruzados com Adorno e Horkheimer cria- ram uma profunda “incompreensão de Adorno em relação à obra de Benja- min”. Diz, com ênfase, que, a tese de Marx, de que “toda a superestrutura ideológica do capitalismo entra num processo de transformação contraditória uma vez que acentua a contradição entre as relações sociais de produção e o desenvolvimento das forças produtivas”, foi o ponto de partida de Benjamin, que considerou correta também, a observação, deste outro alemão, de que não se pode analisar as referidas “modificações na superestrutura (...) com a mesma precisão com que se pode analisar a economia” (Slaughter, 1983, p. 159-160). Benjamin não fetichizou de modo absoluto a transformação de tudo em mercadoria e acentuou a contradição desse processo - que para ele

não era uma via de mão única, nem fatal, assinalando também a impossibili- dade de uma hegemonia absoluta, mesmo se as condições não são as mesmas para os artistas revolucionários. Portanto, como diz Slaughter (1983), existe uma distinção fundamental entre a posição de Adorno e Horkheimer que se colocam pesarosos diante da vitória nazista e da facilidade com que as massas educadas pelas novas tecnologias submetem-se ao despotismo e a posição de Benjamin que rejeita a simples interpretação da atividade das massas apenas como joguetes da ideologia e da tecnologia. Benjamin enxergou as brechas por onde devia penetrar a ação consciente dos homens engajados com uma verdadeira ética de negação do capital.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ADORNO, Theodor. HORKHEIMER, Max. “A indústria cultural: o esclarecimento como mistificação das massas.” (1947) In: Dialética do esclarecimento: fragmentos filosóficos. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1985.

BENJAMIN, Walter. “A obra de arte na época de sua reprodutibilidade técnica.” (1935/ 1936) In: Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo, Brasiliense, 1994.

COLLIN, Denis. Comprendre Marx. Paris, Armand Colin, 2006.

FERRO, Marc. “O filme: uma contra-análise da sociedade?” In. LE GOFF, Jacques. NORA, Pierre. história. Novos objetos. Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1995, p. 199 a 215. FREITAG, Bárbara. A teoria crítica: ontem e hoje. São Paulo, Brasiliense, 2004.

HABERMAS, Jürgen. Política, arte, religião. Rio de Janeiro, Ática, 1980. _____. O discurso filosófico da modernidade. São Paulo, Martins Fontes, 2000. MARX, Karl. ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã. São Paulo, Martin Claret, 2004. NÓVOA, Jorge (org.). Incontornável Marx.São Paulo, EDUFBA, EDUNESP, 2007. SLAUGHTER, Cliff. Marxismo, ideologia e literatura. Rio de Janeiro, Zahar, 1983.

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