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n otes annexes

Dans le document DOCUMENT DE REFERENCE 2012 (Page 134-147)

ANNEXE

3.8.3. n otes annexes

A partir de estudos sobre o processo de globalização e a forma como esse interferiu na política, na economia, na cultura e no social, é reforçado o entendimento de que a cada mudança estrutural que a sociedade enfrenta, é afetado diretamente o modo dessa se relacionar quanto à alteridade e, principalmente, quanto aos grupos, suas organizações coletivas. O processo global7 levou a uma universalização devido à promoção da queda de barreiras entre diferentes nações e culturas, ao mesmo tempo em que incentivou uma reorganização em âmbito local, o qual se fechou em certos aspectos, ou seja, incorporou um processo de particularismo, que encaminhou a alguns movimentos de comunitarismo (SANTOS, 2005). Esse comunitarismo, conforme é trabalhado por Santos (2005), tem relação com o que apresenta Touraine (1997 e 2009), quando o aponta como a organização de identidades étnicas e diversidades locais, que oportunizam esse movimento de regresso, o retorno a uma organização comunal, fechada e limitada às suas fronteiras e tradições.

Para Santos (2005), “a globalização, longe de ser consensual, é [...] um vasto e intenso campo de conflitos entre grupos sociais, Estados e interesses hegemônicos, por um lado, e grupos sociais, Estados e interesses subalternos, por outro” (p. 27). Esses conflitos, que pouco mudaram desde a sociedade e comunidade de Tönnies (1957), permanecem na esteira das mudanças sociais e como causa do deslocamento de grupos não hegemônicos à periferia do poder social e cultural, aumentando o número de minorias e levando à comunitarização.

Sob esse quadro, desencaminha-se, de certa maneira, o conceito de comunidade, de uma visão de força através da união e apoio mútuos, para a representação de uma congregação de asujeitados e “aproveitadores” do sistema, visto não terem as condições necessárias para sobreviver frente à força das economias e culturas hegemônicas. Essa constatação é percebida com menos intensidade em um nível global, e com maior pressão em nível local (nacional). “A economia é, assim, dessocializada, o conceito de consumidor substitui o de cidadão e o critério de inclusão deixa de ser o direito para passar a ser a solvência. Os pobres são os insolventes [...]” (SANTOS, 2005, p. 35).

Trazemos aqui a participação da comunicação, através de suas mídias, nesse panorama de transformações, pois é através das tecnologias de comunicação que a globalização está presente globalmente, seja pelo cinema, pela internet, pela televisão, pelos rádios. A

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comunicação tem importante papel na expansão dos efeitos da globalização, ao passo que é o instrumento pelo qual ela se expande pelo globo. Nessa atuação, os meios de comunicação criam e recriam “personagens”, que dão vida e movimento à “novela da globalização”, como representações da realidade. Ianni (1998), citado por Santos (2005), fala no “príncipe eletrônico”, como o “arquiteto da ágora electrónica na qual todos estão representados, reflectidos, defletidos ou figurados, sem o risco da convivência nem da experiência” (IANNI, 1998 apud SANTOS, 2005, p. 45).

Com a representação e a figuração é o ponto de vista hegemônico que ganha destaque, deixando-se em segundo plano a forma como os “interesses subalternos” são enunciados pela mídia. Como exemplo podemos trazer o caso da mídia televisiva no Brasil que, apesar de ser composta por mais empresas, é representada majoritariamente por uma única emissora, de grande abrangência e influência no país. Até mesmo quando o mote do programa centra na questão das minorias, das comunidades populares atendidas pela sociedade, percebemos que o enquadramento segue a visão hegemônica e monofônica.

Ainda em seus estudos acerca das transformações ocorridas com a globalização, Santos (2007) aborda a questão da emancipação social que, para o autor, precisa ser reinventada, visto que está em meio a “uma tensão entre regulação e emancipação social, entre ordem e progresso, entre uma sociedade com muitos problemas e a possibilidade de resolvê-los em outra melhor [...]” (p. 17). Nesse contexto emerge a proposta do autor sobre as sociologias da ausência e da emergência.

Embora o autor não apresente o conceito de comunidade, o estudo de sua teoria é importante por apresentar um contexto atual, considerando as transformações ocorridas através da globalização. Além disso, apesar de não tratar sobre comunidade, em seu texto são apresentadas diversas coletividades (povos, grupos sociais, movimentos sociais) que representam modelos de comunidade na contemporaneidade. Outro fator importante em se considerar os estudos de Boaventura é sua análise sob a perspectiva histórica, social e cultural do sul (sua teoria para uma epistemologia do sul8), com teorias ajustadas a essas realidades.

Partindo para o estudo da ecologia de saberes, iniciamos com a compreensão de que “não é simplesmente de um conhecimento novo que necessitamos; o que necessitamos é de um novo modo de produção de conhecimento. Não necessitamos de alternativas, necessitamos

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“A expressão Epistemologias do Sul é uma metáfora do sofrimento, da exclusão e do silenciamento de povos e culturas que, ao longo da História, foram dominados pelo capitalismo e colonialismo. Colonialismo, que imprimiu uma dinâmica histórica de dominação política e cultural submetendo à sua visão etnocêntrica o conhecimento do mundo, o sentido da vida e das práticas sociais. Afirmação, afinal, de uma única ontologia, de uma epistemologia, de uma ética, de um modelo antropológico, de um pensamento único e sua imposição universal” (TAVARES, 2009).

é de um pensamento alternativo às alternativas” (SANTOS, 2007, p. 20). Esse novo modo de produção está diretamente ligado à necessidade de agir do homem, de olhar em volta e perceber que há muito mais para ser visto que somente o que está dado. A forma de conhecimento e produção que a sociedade conhece hoje está levando a um reducionismo, que se está criando acerca do multiculturalismo presente no mundo.

Então, o que estou tentando fazer aqui hoje é uma crítica à razão indolente, preguiçosa, que se considera única, exclusiva, e que não se exercita o suficiente para poder ver a riqueza inesgotável do mundo. Penso que o mundo tem uma diversidade epistemológica inesgotável, e nossas categorias são muito reducionistas (2007, p. 25).

Esta indolência leva a dois movimentos chave à compreensão da proposta do autor: a compressão do presente, ou razão metonímica; e a expansão do futuro, razão proléptica (SANTOS, 2007). Para Santos a solução é simples, ou seja, é unicamente pensar e atuar ao contrário: tornar o presente expandido e o futuro contraído. Com isso, conseguimos no presente perceber mais experiências e estar mais bem preparado para a chegada do futuro (SANTOS, 2007). Sob esse contexto, o autor propõe duas sociologias, das ausências e das emergências, e uma ecologia dos saberes em substituição às monoculturas, cuja compreensão é sintetizada no quadro abaixo.

Quadro 1 - As Sociologias e a “Biologia” de Boaventura Santos Fonte: SANTOS, 2007, p. 28 – 38

A partir desse quadro síntese da teoria de Santos (2007) acerca das sociologias das ausências e das emergências, percebemos a preocupação do autor em tornar as pessoas preparadas e mais flexíveis a aceitar o multiculturalismo, e vivenciar as diferenças, que para ele, são consideradas experiências que não devem ser esquecidas e/ou descredibilizadas. Contudo, com essa sua proposta, surgirá um número expressivo de novas possibilidades e realidades, as quais serão muito mais ricas, o que gerará ainda mais fragmentação e, possivelmente, mais barbáries.

A proposta de Santos (2007), frente a este contexto inovador e conflituoso, é um “procedimento de tradução”, o qual supõe “traduzir saberes em outros saberes, traduzir práticas e sujeitos de uns aos outros, é buscar inteligibilidade sem ‘canibalização’, sem homogeneização” (SANTOS, 2007, p. 39). É reconhecer e saber o que há em comum entre culturas, hábitos e grupos com diferenças. Nesta proposta, está encaixada a teoria de uma epistemologia do Sul, de que é preciso ter uma “justiça cognitiva global”, que está entre os saberes, no conhecimento e reconhecimento (SANTOS, 2007).

Ao pensarmos a concepção de comunidade encaixada nesta teoria trazida por Santos, encontramos uma possibilidade de utilização do conceito sendo apresentado/representado despido de preconceitos e qualificações pré-moldadas. Basta que se aplique a ecologia dos saberes no momento da produção midiática, ou seja, que se parta do reconhecimento das realidades a partir da experiência, percebendo primeiramente o que há em comum, pautando a construção de conteúdos acerca das comunidades ditas de minorias em uma inteligibilidade, traduzindo os saberes.

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