A Teoria Científica de Taylor que ainda é referência, influencia os mais variados setores de trabalho, não apenas nos ramos da indústria e comércio, mas principalmente no de serviços, como é o caso do trabalho em saúde. Assim, podemos notar que o parcelamento das tarefas e a especialização do profissional de saúde exemplificam essa influência. Enfim, cada parte de cada usuário é vista por um profissional diferente, onde o médico que vê os seus pulmões, nem sempre tece opiniões sobre o seu coração, rins ou qualquer outro órgão ou sistema. (RIBEIRO; PIRES, 2004 apud FREITAS, 2016)
A assistência ao usuário configura-se, por si só, como um processo especializado de trabalho, e o usuário, curado após a implementação do tratamento, é o produto. Este produto, ao final do processo, foi tratado por diversos profissionais, cada um deles em sua área de especialização, configurando assim a divisão parcelar do trabalho. (FREITAS, 2016)
Concordando com Pires (1998), o trabalho em saúde possui características que o classificam no setor de produção de serviços principalmente por não produzir bens materiais. Este é um trabalho essencial para a vida humana, pois além de não produzir bens materiais, ele só se completa no momento de sua realização, logo, produto e processo se confundem, pois, o produto é o próprio ato de fazer.
De acordo com Merhy (2002), a área de saúde se organiza a partir de três tecnologias. As Tecnologias Duras onde se incluem os equipamentos e instrumentos disponíveis; as Tecnologias Leve-duras que inclui o saber técnico estruturado e as Tecnologias Leves que inclui as relações entre os sujeitos envolvidos no trabalho em saúde. No trabalho do enfermeiro ou de outro profissional de saúde, existe a associação dessas três tecnologias. Em alguns processos, existem predominâncias de tecnologias duras e leves duras, como na realização de exames, por exemplo, em que o profissional lança mão de equipamentos e conhecimentos técnicos para o diagnóstico. Porém em consultas, a tecnologia leve se apresenta fortemente na relação do profissional com o paciente, tornando a mesma um processo que utiliza a aplicação de conhecimentos e o estabelecimento de vínculos típicos das tecnologias leve - duras e leves, respectivamente. Enquanto as tecnologias duras e leves duras, em sua maioria, são específicas de cada profissional, a tecnologia leve é comum a todos, independentemente de profissão e nível profissional.
Ainda segundo Merhy e Franco (2005), quanto mais predomine o uso de tecnologias duras, mais voltado é o trabalho para o modelo assistencial focado em procedimentos e na cura, beneficiando o neoliberalismo e o capital. Por outro lado, o uso prevalente das tecnologias leves, aumenta a condução da assistência por diretrizes como o acolhimento, estabelecimento de vínculos e de projetos terapêuticos, fugindo de práticas focadas basicamente na supressão dos sintomas.
Conforme Gil, Luiz e Gil (2016), o processo de trabalho em saúde é a forma como os trabalhadores de saúde realizam a produção dos serviços, refletindo, portanto, o cotidiano do trabalho em saúde. Por trabalhadores de saúde, entende-se:
Indivíduo que se insere direta ou indiretamente na prestação de serviços de saúde, no interior dos estabelecimentos de saúde ou em atividades de saúde, podendo deter, ou não, formação específica para o desempenho de funções atinentes ao setor. Nota: o mais importante na definição de trabalhador de saúde é a ligação com o trabalho no setor ou atividade de saúde, independentemente da formação profissional ou capacitação do indivíduo (BRASIL, 2009, p. 49).
Para realizar o trabalho em saúde, o trabalhador utiliza diferentes saberes, dentre os quais podemos citar: manusear materiais e equipamentos; aplicar os conhecimentos científicos e tecnológicos (saber clínico, assistencial); e saber estabelecer relações com os outros (comunicação, fala, diálogo). (GIL, LUIZ, GIL, 2016)
Gil, Luiz e Gil (2016) também destaca que, na área da saúde, estão bastante presentes a divisão social e a divisão técnica do trabalho, definidas como:
Quadro 2: Divisão do trabalho em saúde
Divisão social do trabalho Divisão técnica do trabalho Se refere ao caráter específico do trabalho
humano e se apresenta de diferentes formas de acordo com as diferentes sociedades, em cada momento histórico.
Se refere ao trabalho executado por trabalhadores especializados em cada tarefa; é característico do modo de produção capitalista e surge em meados do século 13. Exemplo: em nossa cultura, o trabalho
médico quanto mais especializado mais valorizado e reconhecido é.
Exemplo: na enfermagem, o enfermeiro ocupa a coordenação do trabalho da equipe de enfermagem que é composta, além dele, pelo técnico em enfermagem e pelo auxiliar de enfermagem.
Essas divisões – social e técnica do trabalho – tendem a gerar situações de conflitos e disputas de espaços nos serviços de saúde. Um dos desafios do SUS é justamente fomentar e promover a integração dos trabalhadores, configurando equipes multiprofissionais de saúde. (GIL, LUIZ, GIL, 2016)
Os profissionais de saúde constituem um grupo, cuja atividade profissional se inclui nas chamadas “profissões de ajuda“. A sua atividade, caracteriza-se, essencialmente, por apresentar exigências múltiplas, quer a nível físico, quer a nível psicológico. (SACADURA-LEITE e SOUSA-UVA, 2012).
Outra característica muito importante associada à atividade dos profissionais de saúde diz respeito à responsabilidade por pessoas. Essa responsabilidade abrange não só os doentes, mas também outros aspetos relacionados, por exemplo, com a satisfação de familiares e amigos, para além da responsabilidade social. A responsabilidade por pessoas parece estar na origem de níveis mais elevados de estresse que a responsabilidade por aspectos de natureza material. (SACADURA-LEITE e SOUSA-UVA, 2012).
Muitos profissionais de saúde identificam a possibilidade de promoção do bem-estar de outras pessoas como uma forte motivação para a sua escolha profissional. Contudo, a proximidade com o doente que sofre e a (in) capacidade para responder às suas exigências emocionais e das suas famílias, poderão constituir-se como intensos fatores indutores de estados de estresse; além do mais, eles são relativamente específicos destes profissionais.
O trabalho na área da saúde é, reconhecidamente, uma das ocupações com alto risco de estresse e adoecimento. Por este motivo, os estressores e os aspectos psicossociais do trabalho são importantes fatores de risco a serem identificados e compreendidos no ambiente laboral, visando à construção de ambientes de trabalho mais saudáveis. (WURDIG, 2014)
Segundo Borges (2002), o profissional de saúde pública é um exemplo típico de categoria que parece estar submetida à influência de estressores, visto que além de conviver com inúmeros problemas estruturais típicos do sistema público, precisam estar constantemente atentos a seus papéis e ao papel da instituição frente ao usuário, na tentativa de atender aos desafios consequentes da implantação do Sistema Único de Saúde (SUS), tais como: universalização, regionalização, hierarquização dos serviços, entre outros.
Consoante Gil, Luiz e Gil (2016), o conflito está presente no cotidiano do trabalho coletivo. Muitas teorias de administração focam seus estudos nesse tema com intuito de manejar adequadamente as situações de conflito e minimizar seus efeitos no mundo do trabalho. É de suma importância compreender o conflito como um fenômeno esperado nos agrupamentos de trabalho e enxergar neles uma oportunidade de mudanças de processos. Saber escutá-los e
qualificá-los pode se constituir numa ferramenta de gestão do conflito com resultados positivos para gestores e trabalhadores da saúde.
O conflito e o estresse estão contidos na vida das organizações. O conflito, por sua vez, permeia as relações humanas e é um tema complexo, objeto de estudos em função dos seus diferentes tipos e consequências que podem trazer para as organizações. As organizações são consideradas arenas de conflito pelas suas próprias características: ocupação de cargos, poder técnico, poder político, diferenças salariais, diferentes visões de mundo, diferentes valores pessoais, estrutura organizacional e a separação entre os que “fazem” e os que “mandam”. São sintomas de presença de conflitos nos locais de trabalho: hostilidade, alienação, tensão, ansiedade, competição, desentendimento, entre outros. Há conflitos que, na sua resolução, permitem o crescimento da equipe. Há outros que evoluem para comportamentos nocivos que comprometem e prejudicam o trabalho da equipe. (GIL, LUIZ, GIL, 2016)
De acordo com Wurdig (2014), a enfermagem foi classificada pela Health Education
Authority como a quarta profissão mais estressante, do setor público, e que vem tentando
afirmar-se profissionalmente, em busca de reconhecimento profissional. Vários fatores corroboram para que tal fato ocorra, entre eles o número reduzido de profissionais no atendimento à saúde em relação ao excesso de atividades que executam. Além disso, a situação de achatamento de salários não raro os obriga a enfrentar mais de uma frente de trabalho, resultando numa carga mensal extremamente longa e desgastante. Desta forma, torna-se o ambiente de trabalho extremamente propício à ocorrência de acidentes e ao desenvolvimento de doenças relacionadas ao seu desempenho.
De acordo com Nascimento (2013), nesse direcionamento, o cotidiano do trabalho do enfermeiro ocorre através de ações que objetivam a promoção/recuperação da saúde, envolvendo o gerenciamento, e a avaliação do desenvolvimento do trabalho em equipe e da assistência prestada ao paciente. As ações desenvolvidas pelo enfermeiro envolvem as funções de gerência, além da assistencial, de ensino e pesquisa, compondo assim as esferas e campo de atuação em seu processo de trabalho.
O trabalho em enfermagem é exercido por um grupo diversificado de profissionais, sendo necessária a fragmentação das tarefas para a execução da assistência. Em relação aos profissionais de enfermagem, o enfermeiro avalia as ações a serem realizadas e as prescrevem para serem executadas pelos auxiliares e técnicos de enfermagem, sendo cada trabalhador responsável por uma parte da assistência ao usuário. O enfermeiro planeja o trabalho, mas não o executa. Os auxiliares e técnicos realizam, mas não tem a visão completa do trabalho, contudo, o usuário recebe a assistência necessária para melhoria de sua saúde (COSTA, 2012).
No processo de trabalho da enfermagem, o produto do trabalho é a própria assistência prestada, ou ainda, o próprio usuário atendido que, sendo considerado matéria, ao ser submetido aos cuidados da enfermagem tem, na melhora do seu quadro, o produto desse processo, que é a assistência de enfermagem (RIBEIRO; PIRES, 2004; FREITAS, 2018).
Ribeiro e Pires (2004) mostram, ainda, o outro legado dos princípios gerenciais de Taylor para a enfermagem: a divisão do trabalho em intelectual e braçal.. Assim, prevalece a ideia de que o trabalho intelectual (planejamento da assistência, suprimento de materiais e gerenciamento de pessoal) é atribuído ao enfermeiro, enquanto as atividades braçais (tais como higiene, transporte de pacientes, curativos e outros) são delegadas aos técnicos e auxiliares que compoem a equipe de enfermagem.
Os profissionais de enfermagem são indivíduos susceptíveis a desenvolverem transtornos mentais, visto que trabalham em ambientes insalubres, estão em contato direto com os pacientes, possui número reduzido de profissionais nos setores de trabalho, apresentam dupla jornada de trabalho, remuneração inadequada, desvalorização da profissão e o trabalho ocorre sob pressão por estarem cuidando de vidas. Para Leão (2018), esses profissionais, geralmente, possuem mais de um emprego (devido à baixa remuneração), necessitando adequar jornadas, plantões, horários exaustivos (algumas vezes associadas aos serviços domésticos ou aos estudos).
2.5 Cultura e mudança organizacional: o hospital universitário e a nova forma de