As vogais átonas iniciais /a/, /e/, /i/, /o/, /u/ podem achar-se só ou precedidas de consoante. Mas a tendência é cair quando se acham entre consoantes. O a proveniente de ou do latim clássico persistiu. Eis alguns exemplos com essas vogais: 1º) a: prile > abril, gusto > agosto, maricu > amargo, rena > areia, violu > avô, n rice > nariz, c pitia > cabeça. 2º) e: f roce > feroz, m liore > melhor, s niore > senhor, c pulla > cebola, s curu > seguro, s cretu > segredo, v ranu > verão. 3º) i: d cere > dizer, m liariu > milheiro, pr mariu > primeiro, t tione > tição. 4º) o: c cina > cozinha, d lore > doer, f rmica > formiga, j care > jogar, m linu > moinho, m neta > moeda, c lare > coar. 5º) u: m ralia > muralha, m tare > mudar, r gito > ruído, s dore > suor, cr dele > cruel, d ritia > dureza.
Nunes (1975) assinala que a troca do i átono por e é coisa muito antiga na língua, principalmente em sílaba inicial da palavra seguida de outra em que haja também a vogal i. Neste caso ocorre uma dissimilação. O autor dá-nos alguns exemplos: dessimular, deferença, vertude, deficuldade, vezinho, trebuto, etc. Também ocorre em silaba não inicial, restetuir, marterizar, lágrema, openião, ordenário, etc. Isso, segundo Nunes, talvez explique por que essa troca perdurou por tanto tempo na língua.
As vogais a e e átonas iniciais seguidas das semivogais i ou u ou de consoante vocalizável, atraem-se e formam os ditongos ei e ou, por exemplo: basiare > beijar, factura > feitura, altariu > outeiro, habuerunt > houveram, capuistis > coubestes, sapuisse > soubesse.
Quando as vogais átonas iniciais ficam em contato com a imediata tônica ou não pela queda da consoante intermédia, assimila-se a ela produzindo depois a crase. Segundo Nunes (1975), esse fato era muito observado na linguagem popular, ex: calente, caente > quente, canale, caal > cal, palatiu, paaço > paço, vagativu, vaadio > vadio, balistariu, beesteiro > besteiro, palumbu, poombo > pombo, colobra, coobra > cobra, legere, leer > ler, sedere, seere > ser, tenere, teer > ter, videre, veer > ver.
As vogais pretônicas conservaram-se em geral, exceto se estavam precedidas de consoante a que podiam encostar-se formando com ela grupo. Isso só era possível com a vogal i ou com as seguintes consoantes: m, n, l, r ou z, proveniente de –ci. ex: marabilia > maravilha, preconariu > pregoeiro, bonitate > bondade, penicellu > pincel, salicariu > salgueiro, belitate > beldade, caballicare > cavalgar, veritate > verdade, medicina > meezinha > mezinha.
Tanto as pretônicas como as átonas inicias também eram assimiladas às tônicas fundindo-se numa única, ex: caeda (do arc. caer) > queeda > queda, excadescere> escaecer (arc.) > esquecer, cupiditia > cobiiça > cobiça, falacariu > faagueiro > fagueiro.
10.2. As vogais latinas átonas postônicas
Como a tendência da língua era evitar as proparoxítonas, a postônica caía sempre que estava seguida de consoante ou precedida por esta formando grupo com a vogal que vinha antes ou depois, ex: vir de > verde, teneru > tenro, lep re > lebre, pul ca > pulga, opera > obra, oculu > olho, man ca > manga.
Nunes (1975) observa que embora a tendência da língua fosse abolir as proparoxítonas, ela ainda conserva grande número delas: vip ra > víbora, arb tu > érvodo, dec ma > dízima, deb ta > dívida, hosp te > hóspede, pers cu > pêssego, lacr ma > lágrima, cub tu > côvado.
Nos termos de Coutinho (1976: 107) verifica-se a queda das postônicas não finais no latim vulgar quando a vogal postônica se achava:
1) depois de uma consoante oclusiva e antes de uma lateral ou vibrante: oclus (oculus), masclus (masculus), altra (altera), socrus (socerus);
2) entre uma labial e outra consoante: domnus (dominus), lamna lamina); 3) entre uma vibrante ou lateral e outra consoante: ardus (aridus), virdis viridis), caldus (calidus), soldus (solidus);
4) depois de s e antes de outra consoante: postus (positus).
10.3. As vogais latinas átonas finais
Como é sabido, as quatro vogais latinas , , , , em fim de palavras reduziram- se a e com som de i, ex.: unde > onde, hodi > hoje, quindec m > quinze, dix > disse, etc. o mesmo aconteceu a , , , quando finais reduziram-se a o com som de u, ex.: cit > cedo, quomod > como, fr ctu > fruto, lign > lenho.
A vogal e cai depois das consoantes r, l, s, z, n, isto é, quando o fonema que com ele formava sílaba podia formar também com os fonemas anteriores (Coutinho, p.106). Ex.: amare > amar, debere > dever, amore > amor, canale > cal, crudele > cruel, fidele > fiel, partire > partir, mare > mar, mense > mês, cruce > cruz, narice > nariz, vorace > voraz, bene > bem, pane > pan (arc.) > pão.
As vogais finais que perderam a consoante intermédia ficando em contato com a tônica ou postônica ou separadas delas, fundiram-se com estas vogais na língua moderna, ex.: periculu> perigoo > perigo, articulu, artigoo > artigo, aviolu, avoo > avô, matiana, maçãa > maçã.
Segundo Teyssier (2007), essas evoluções que acabamos de descrever foram produzidas nos séc. XIV e XV. Portanto, estavam concluídas por volta de 1500. Para esse pesquisador, permaneceram ainda na língua algumas seqüências de vogais em hiato que foram eliminadas posteriormente, como em a escrito h a, feminino de um passou a uma a partir do séc. XVIII; os hiatos e-o, e-a foram suprimidos visto que apareceu um iode (eio, eia) ex.: cheo > cheio, creo > creio, candea > candeia.
Em suma, vejamos um quadro do sistema vocálico do português por volta do ano 1500, segundo Teyssier (2007):
Quadro 03:
VOGAIS
Pretônicas Tônicas Postônicas não-
finais
Postônicas Finais |i| |u| |i| |u| |i| |u|
|e| |o| |e| |o| |e| |o| |e| |o| | | | | | | | | | | | | |ä| |a| |ä| |a| |a| |a|
Para Teyssier (2007), o sistema das vogais orais tônicas passa a compreender oito fonemas uma vez que a vogal a no português europeu, (PE) doravante, tem um
timbre aberto ([a]), apesar da presença da consoante nasal seguinte que nas palavras onde havia um a etimológico sempre fechou essa vogal em [ä]; ex.: cama, pano, cano, banho. Por outro lado, o PE pronuncia a desinência – amos da 1ª pessoa do presente do indicativo e do pretérito perfeito com [a] aberto diferente do português brasileiro que pronuncia esse [a] fechado.
Por fim, Em “Estrutura da Língua Portuguesa”, Câmara Jr. (1980) resume as vogais em posição postônica não-final a quatro, a saber: as altas i e u, uma média e anterior e por fim a vogal a central.