Segue um resumo da estratégia de abordagem da dissertação, com uma sinopse do conteúdo de cada capítulo. Durante o capítulo dois, apresentaremos os modos como Leibniz, Locke, Berkeley e Hume estão cativados ao horizonte da problemática cartesiana. Todos veem na experiência uma fonte de inquietação filosófica. Descartes mergulha o mundo científico moderno em uma forma de inquietação metafísica de caráter novo, transferindo as grandes questões para uma pergunta sobre a natureza do evento de correlação entre mente e o mundo exterior. O que chamamos de problema histórico do empirismo, portanto, ou o problema do espelhamento, é inaugurado pelo filósofo Francês. É o que chamamos nesse trabalho de contaminação metafísica e ontológica do método, mediante uma contaminação metafísica da ideia de experiência. Esta
deixa de ser empregada para responder perguntas no interior de uma investigação, para se tornar uma fonte de inquietação sobre a segurança do nosso conhecimento A questão sobre os limites da razão pura, ou do alcance e autoridade da razão no controle do conhecimento, é uma sequela desta abordagem. Iremos avaliar as consequências do enigma cartesiano segundo suas diferentes interpretações na teoria das mônadas de Leibniz, e as mesmas consequências interpretadas por personalidades empiristas como Locke e mais céticas em Hume e Berkeley.
O capítulo três investigará a Analítica Transcendental como uma tese sobre a natureza discursiva de todo entendimento, sendo o juízo o ato discursivo mais elementar. O resultado é que tanto os dados sensíveis como os exemplos de notas conceituais não são possíveis como experiência para nós a menos que sejam ligados em uma cadeia de condições empíricas determinada por leis, ou princípios para o juízo. O diagnóstico do dano é que fora do juízo nosso conhecimento seria um mero múltiplo, e fora do juízo o conhecimento não seria possível para seres como nós. A crítica de Kant ao modo como os lógicos concebem o juízo na seção 19 da Dedução contém o germe do pensamento de que não existe conhecimento sem que a sua parte conceitual seja condicionada por formas paradigmáticas de funções de unidade. Para o autor a cópula judicativa não expressa uma relação ontológica, psicológica ou semântica entre duas ideias, mas sim um lance para resolução de um problema. Essa parte da defesa também constitui o clímax do trabalho, onde apresentamos a coincidência entre o aspecto discursivo, ou a conformidade a regras, como um elemento conjectural do conhecimento. Encontraremos aqui tanto a resposta contra a contaminação metafísica da experiência, quanto contra a tese da indiferença da experiência e da teoria pictórica, na medida em que a Dedução Transcendental proíbe a possibilidade de qualquer experiência que ocorra independente de condições formais a priori, como se fossem átomos fenomenológicos indiferentes uns aos outros em uma relação de semelhança estrutural com o real.
No capítulo (3.5), estabelecemos um paralelo entre Kant e Witt- genstein. Sabe-se que (o que se convencionou chamar de) a primeira
fase intelectual do filósofo austríaco é assumidamente transcendental, na medida em que o filósofo proibia a confusão entre o domínio do dizer e o do mostrar5. Mas é na sua segunda fase que residem os mais fecundos
paralelos com Kant. Dito introdutoriamente, para Wittgenstein das
Investigações Filosóficas a linguagem privada é um contrassenso que
apenas pode surgir no contexto filosófico. Para ele, expressões como “não posso me representar o contrário” ou “esta dor é minha”, que supostamente contém verbos intencionais que versam sobre o conteúdo de nossas mentes, não constituem proposições que problematizam um tema empírico, que pudesse ser refutado ou exposto ao tribunal da expe- riência, justamente, pois são truísmos filosóficos, ou “frases gramaticais” (??, PI § 251, p. 99). O ceticismo nasceria dessas frases gramaticais: não são problemas genuínos, mas enigmas que adquirem valor apenas no contexto filosófico. Wittgenstein acredita que essas frases grama- ticais encobrem o modo como as expressões são usadas no seu jogo de linguagem ou servem apenas para sugerir regras de uso para essas expressões. Assim, por exemplo, não há nada de enigmático, incorrigível ou misterioso na minha dor. A expressão “minha dor” faz sentido tanto para mim quanto para qualquer outro que jogue o mesmo jogo que eu, ou que possa responder às mesmas perguntas que eu. Qualquer que seja a concepção privada que alguém tem de sua própria linguagem, esta já tem de ter um grau de exposição a um inquérito, pois já pressupõe uma regra e um uso em um jogo de linguagem: “‘Apenas você pode saber se você tinha a intenção’. Poder-se-ia dizer isso a alguém, se lhe fosse elucidado o significado da palavra ‘intenção’. Isto significa então: nós a usamos assim” (PI § 247). Essa crítica do mentalismo é uma objeção decisiva contra a dicotomia cartesiana entre mente e corpo, e concorda com a visão de Kant de que o conhecimento só é possível em um horizonte de possibilidades determinado por regras da faculdade 5 A divisão entre dizer e mostrar, em Wittgenstein, expressa sua opinião sobre
a diferença entre proposições dotadas de significado (no sentido de serem pro- posições atômicas ou compostas a partir de proposições atômicas) e o inefável, mas que, apesar de não serem proposições com sentido, podem dizer respeito a precondições transcendentais sobre a estrutura da representação e do mundo(??, TLP, 6.13). Essas precondições não podem ser ditas, no entanto, mas apenas mostradas.
do juízo.
Como argumentaremos, tal crítica reproduz o argumento trans- cendental da Dedução Transcendental, que por sua vez oferece uma doutrina sobre as condições mínimas da experiência caracterizada por proibir expressões da experiência que sejam independentes, ou que ocorram fora de nosso círculo formal de categorias e regras. As coinci- dências entre Kant e Wittgenstein exploradas nesta dissertação podem ser sumarizadas na crítica à ideia de uma propriedade intencional capaz de conectar representações com um objeto, que engloba também uma crítica à teoria pictórica, e a adesão a uma doutrina baseada no segui- mento de regras. Não arriscamos, contudo, ir além disso. E o empirismo conjectural continua sendo uma tese que atribuímos somente a Kant.
Nossa leitura da Refutação do Idealismo (com grande auxílio da Segunda Analogia da Experiência) é feita no capítulo quatro. Nesta seção da obra de Kant os resultados já invocados na Dedução são renovados ou reempregados com uma mudança de finalidade. A nossa leitura interpreta o capítulo como pronunciando a impossibilidade de confirmar ou refutar juízos sobre ordens temporais se não tivéssemos a possibilidade de identificar as diferentes regiões de verificação de juízos que alternam ou invertem a ordem entre eventos. Em outras palavras, as condições de que depende uma ordem seriam indiferentes ou virtualmente idênticas às condições de que depende outra ordem,tornando impossível distinguir entre a ordem subjetiva e a objetiva dos fenômenos. Ora, como reduzir a ordem objetiva à ordem subjetiva seria negar mesmo um conceito mínimo de experiência como representação interna, Kant conclui a obrigatoriedade de admitir a existência de objetos fora de mim como condição da representação interna. O realismo empírico envolve, assim, um determinismo empírico que não é senão a tese modesta de que representar peixes antes que mamíferos na cadeia evolucionária tem um valor de verificação diferente da representação da ordem inversa. Essa tese se relaciona mais intimamente com uma resposta à doutrina da gratuidade da experiência. Para Kant a ordem dos eventos na consciência não é gratuita, mas condicionada pelas possibilidades da natureza para responder a nossos inquéritos, determinando um sistema empírico
conectado por leis.
O capítulo cinco é importante porque nele pela primeira vez abordaremos diretamente como Kant sugere uma resposta ao problema enunciado no início: como é possível a correlação entre a representação e o objeto? Essa pergunta reflete o problema do empirismo. Pois ela pergunta sobre que tipo de evento justifica, autoriza ou protocola a conexão entre a representação e o objeto. Já sabemos que a alternativa kantiana não é nem uma teoria pictórica, nem uma onde a experiência aparece como um milagre que estabelece a coincidência perfeita entre um mundo dos fatos e um mundo mental e nem uma teoria onde a expe- riência aparece como um elemento protocolar autorizado por uma teoria psicológica ou metafísica. Já sabemos também que na teoria de Kant não há um objeto em si mesmo em um dos lados da relação. É o sujeito que estrutura seu plano de inquérito e força a natureza a respondê-lo. Mas apesar de oferecermos nossa própria interpretação desta doutrina, ainda não apresentamos os meandros técnicos e o vocabulário apresentado pelo próprio Kant em sua teoria das sínteses puras, ou da aplicação de sínteses puras a conceitos. Agora iremos percorrer a divisão entre forma e matéria, a crítica às anfibologias, a lógica transcendental, alguns trechos do esquematismo, com o intuito de satisfazer esse requerimento. Isso ajudará também a amadurecer nossa compreensão da resposta de Kant ao empirismo pré-kantiano, e esclarecer a natureza de sua própria teoria sobre as sínteses puras como os elementos estruturais da conexão com um objeto possível.
Também esboçamos (5.7) a relação de Kant com o empirismo clássico e o empirismo moderno, mostrando que a sua posição anti- metafísica e anti-psicológica emparelha com a posição anti-sensualista ou fenomenalista do empirismo lógico – posição essa já explorada por Paul Abela. Este acredita que o poder contributivo do quadro teórico de Kant pode ser usado como fonte de oposição a filosofias mais recentes: “muito da atenção contemporânea direcionada contra visões empiristas na epistemologia (o trabalho de Mc Dowells e Davidson em particular) é prefigurado no ataque do próprio Kant contra a tradição herdada de seu tempo” (??, p.4). Segundo Abela a estrutura argumentativa crítica
pode ser usada para refutar o “myth of the given” (mito do dado) presente no empirismo moderno, ligado aos primeiros filósofos analíticos: “a abordagem kantiana resultante é discutida à luz do assalto do próprio
Kant à inteligibilidade do idealismo empírico (Hume em particular) e ataques contemporâneos a certos aspectos da epistemologia empirista (o ”mito do dado’ em particular) ”(??, p. 17).
Nesse capítulo também concluímos que a linha condutora da filosofia teórica de Kant sugere que o filósofo sustentava uma visão sobre a lógica e a analiticidade subsidiária à noção de experiência possível e síntese. A leitura da Analítica Transcendental aqui adotada mostra que para Kant mesmo julgamentos necessários e analíticos dependem de uma esfera ou região de investigação particular, e que, portanto mesmo a necessidade lógica não tem um fundamento ontológico, semântico ou psicológico independente, se fundando, antes como qualquer necessidade empírica e sintética, na unidade sintética da apercepção das represen- tações dadas. Essa argumentação será operada nos capítulos 5.1.1 e 5.6, onde investigamos o fundamento geral da crítica de Kant ao uso da lógica como organon, chegando à tese, compatível com o empirismo conjectural, de que mesmo as verdades necessárias da lógica estão expos- tas à revisão investigativa. Ou, em outras palavras, mesmo as verdades analíticas têm um fundamento sintético quando as consideramos pelo ponto de vista heurístico de um problema e uma estratégia de solução. Por exemplo, a proposição verde é uma cor é analítica apenas de acordo com um organon, isto é, apenas quando abordada de maneira técnica, conforme uma estrutura gramatical ou semântica fixada e por regras de computação competentes para calcular conexões entre meros conceitos. Para um computador, portanto, verde é uma cor é analítica. Mas do ponto de vista heurístico, isto é, do inquérito empregado para solucionar o problema sobre se verde é uma cor, o objeto x que é suspeito de ser verde não é o mesmo objeto x que é suspeito de ser uma cor. Do ponto de vista objetivo - isto é, com respeito à coisa considerada, e não meramente aos seus conceitos - a conexão entre verde e cor depende de uma síntese, uma unificação experimental, ou uma forma de colocar as representações em uma estrutura investigativa através da cópula, ou
representá-la segundo uma unidade sintética da apercepção. Isso aponta para o fato de que o conceito de análise é subsidiário do conceito de síntese em Kant.
Finalmente, no capítulo seis entraremos em uma discussão filosó- fica mais direta com os problemas gerados pelo tipo de realismo kantiano. Discutimos a crítica de D.C Stove a Hume para dar perspectiva a um tipo de empirismo capaz de fazer justiça, ao mesmo tempo, a uma posição racionalista sobre a pesquisa empírica. Apesar de Stove não defender uma posição transcendental, como a de Kant, a sua crítica a Hume tem muitos aspectos paralelos à crítica de Kant ao que chamamos nesse trabalho de doutrina da gratuidade da experiência, presente no empirismo clássico. Em seu livro The Rationality of Induction (1986) o problema de Hume é apresentado como um enigma aliciante que es- trutura a transição do aluno para o mundo da filosofia. Se há espaço para medir também a contribuição para reforçar a oposição ao ceticismo sobre a indução moderno, podemos dizer que a tese de Kant sobre o empirismo moderado, na medida em que é precursor de argumentos com o de Stove, tem um valor a mais, largamente ignorado pelas leituras contemporâneas. A discussão de D.C Stove contra o ceticismo a respeito da indução envolve um amplo arsenal argumentativo, que vai de provas formais até um confronto direto com a tradição histórica. Nosso interesse nele, contudo, está no fato de que não se contentou com fornecer provas da racionalidade da indução, mas também ofereceu uma engenhosa lei- tura dos dogmas e pressuposições que cativam a mentalidade filosófica ao problema. A oposição de D.C. Stove a Hume terá um papel essencial para ajudar a entender a orientação, a meta e a campanha de Kant. Isso porque também o filósofo australiano ofereceu um diagnóstico abran- gente da iniciação do estudante de filosofia ao ceticismo. Veremos no capítulo 6.1 como certas manobras típicas do ceticismo, como a chamada ’misconditionalization’ (a ideia de que uma inferência sobre questões de fato depende de uma pressuposição contingente, como a de que o mundo é uniforme), são efeitos de um pensamento empirista clássico. Os elementos dessa discussão auxiliam a sugestão de que o empirismo de Kant tinha algo de extemporâneo que não perde muito ao ser posto
em paralelo e comparação com a visão de filósofos recentes. Por fim, no capítulo 6.2 e 6.3 entramos em uma discussão sobre as propriedades e problemas do realismo empírico, conforme algumas controvérsias nas tradições de leitura de Kant contemporâneas.