É inegável, atualmente, a utilidade e o lugar de relevo que a BE conquistou no ambiente escolar. Fruto dos esforços de professores e de outros agentes educativos a criação da RBE tornou a BE num espaço com recursos diversificados no apoio ao currículo, no desenvolvimento das literacias, na formação de leitores críticos com a finalidade de os tornar cidadãos mais competentes e aptos a enfrentar o seu futuro. A este propósito, Balça e Fonseca (2012) recordam que:
a integração na Rede de Bibliotecas Escolares tem dado, sem dúvida, um grande contributo e identidade às bibliotecas escolares do ensino básico e secundário, sobretudo através da consolidação de uma premissa central: o de que a biblioteca escolar constitui um contributo essencial para o sucesso educativo, sendo um recurso fundamental para o ensino e para a aprendizagem. (p. 68)
Concordamos, de igual modo, com Amato e Garcia (1989), citadas por Mendonça (2008), na opinião que têm sobre a importância da BE: “uma escola sem biblioteca é uma instituição incompleta, e uma biblioteca não orientada para um trabalho escolar dinâmico torna-se um instrumento estático e improdutivo dentro desse contexto” (p. 385). Por esta razão, a BE deve ser um centro de aprendizagem (e de autoaprendizagem) onde todos os elementos da comunidade educativa podem, de forma livre, obter conhecimento seja através dos meios tradicionais ou das tecnologias mais inovadoras (Sanches, 2007).
Numa época de mudança educacional também à BE se exige que acompanhe o desenvolvimento tecnológico e o seu maior desafio é o de conseguir, através dos seus recursos materiais e humanos, preparar os jovens para o ambiente de informação do século XXI. Segundo Todd (2011), esta não é uma tarefa fácil pois “dar informação não é o mesmo que dar o conhecimento” (p. 2). Para o especialista, nesta área, é necessário haver uma mudança a nível do pensamento, pois a imagem da BE não são somente as suas coleções, a sua tecnologia ou a equipa mas “as suas ações e evidências que mostram que a BE faz a diferença real na aprendizagem do aluno, que contribui de forma tangível e significativa para o desenvolvimento da compreensão humana, da
produção de sentido e da construção de conhecimento” (p. 6). Significa isto que a missão da BE se deve direcionar para a construção de um ambiente de aprendizagem participado e em interação. Kulthau, Maniotes e Caspari (2007), num estudo sobre a aprendizagem no século XXI, baseada num modelo de investigação/pesquisa, referem que “students are involved in every stage of the learning process, from selecting what to investigate, to formulating a focused perspective, to presenting their learning in the final product” (p. 5). Segundo este modelo, os alunos confrontam a informação com os seus conhecimentos alargando-os na criação de novas perspetivas. Como também defende Todd (2012), “a melhor maneira de prever o futuro é trabalhar na sua criação” (p. 3). Podemos dizer que o desenvolvimento de competências para a construção do conhecimento é uma das preocupações do PB mas não a única pois são múltiplos os desafios que lhe são colocados no dia-a-dia, assumindo cada vez uma maior responsabilidade no ensino e na aprendizagem dos alunos. Como assevera Boelens (2010):
school libraries encourage traditional literacy skills, which are imperative to the development of reading and comprehension skills. In this third information age, the qualified school librarian not only carries out these traditional tasks but also has important new responsibilities, including the teaching of new literacy skills and 21st century learning skills to both teachers and pupils. (p. 56)
A figura do PB, criada com a Portaria n.º 756/2009 de 14 de julho, previa, entre outras funções, o apoio às atividades curriculares e o trabalho colaborativo com todas as estruturas da escola/agrupamento. As autoras por nós já mencionadas, Kulthau, Maniotes e Caspari (2007), no seu estudo, destacam assim o papel dos professores bibliotecários:
school librarians are active participants in the implementation of the educational plan of the school. As members of the instructional team, they are involved in all phases of the designing in instruction, from setting goals and objectives, to designing interventions and activities, to establishing means for assessing learning. (p. 57)
No modelo a que as autoras fazem referência, “Guided Inquiry”, são apontados três papéis principais que o PB deve desempenhar: “resource specialist, information literacy teacher, and collaboration gatekeeper” (p. 57).
Freire (2007), no seu projeto de investigação-ação, refere que o papel do PB se centra nas tarefas de gestão da BE, existindo articulação pontual ao nível das atividades extracurriculares. Neste estudo, a autora afirma, baseando-se na sua prática no terreno, que o PB não é ainda percecionado pelos outros docentes como um parceiro na planificação de atividades de apoio ao currículo. Lembramos que no ano em que este estudo foi realizado ainda não tinha sido criada, através de legislação, a figura do professor bibliotecário nem o Projeto aLeR+. Este viria a concretizar-se no ano de 2008. Passados sete anos sobre a investigação da referida autora podemos dizer que se notaram mudanças significativas quanto ao desempenho do PB. No nosso estudo, pudemos verificar que, tanto nos Projetos como nas entrevistas aos professores envolvidos, os PB assumem um papel de relevo. Enquanto coordenadores dos Projetos cabe-lhes divulgá-lo, expor os seus objetivos e propor atividades nas diferentes estruturas pedagógicas da escola. Freire (2007), citada em Rodrigues (2012), refere que a “BE e a sala de aula permanecem mundos separados, cuja intersecção se dá geralmente ao nível de actividades extracurriculares” (p. 20). Em nossa opinião, e, baseando-nos tanto na nossa própria experiência como neste trabalho de investigação, estes dois mundos tendem para uma maior aproximação. Lima (2007), num estudo sobre Redes na Educação, alude ao facto de que “desde há algumas décadas, a prática isolada na sala de aula tem vindo a perder centralidade como modo legítimo de desenvolver a acção educativa” (p. 152). No que à ligação da BE com a sala de aula diz respeito pensamos que a inovação, ao nível das tecnologias que apetrechou a BE e proporcionou a convergência, para este local, de professores e alunos, tem contribuído para esta mudança. O surgimento, em 2008, do MABE 30, que recomenda um maior envolvimento e utilização da BE, veio também intensificar a relação entre os professores e a BE. Este modelo visa avaliar a forma como se consubstancia o trabalho da BE e qual o contributo desta nas aprendizagens e no sucesso educativo. Em 2012 e 2013 o modelo é atualizado a partir de dois outros documentos, criados pelo programa RBE: Programa Rede de Bibliotecas Escolares. Quadro estratégico 2014-2020 e Aprender com a biblioteca escolar: referencial de aprendizagens associadas ao trabalho da biblioteca escolar na Educação Pré-escolar e no Ensino Básico 31. Estes documentos surgem na sequência da Estratégia Europa 2020 e visam contribuir, através
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Este modelo passou a designar-se, em 2011, Modelo de Avaliação da Biblioteca Escolar. Em 2013 surge um novo documento que atualiza o anterior. É este último que aqui nos serve de referência.
de um conjunto de linhas orientadoras, para a consecução dos objetivos estabelecidos pela União Europeia, no domínio da educação.32 No primeiro dos documentos, a BE é apontada como “um importante parceiro desta estratégia de melhoria da educação e de combate ao insucesso e abandono escolares” (p. 7).
Pretende-se dar continuidade aos resultados já alcançados desde a criação do Programa RBE de modo a responder aos desafios atuais e, promovendo:
a adaptação dos meios existentes às exigências tecnológicas e digitais da atualidade; a criação de serviços educativos com impacto visível na vida da escola e no sucesso dos alunos; a continuação da melhoria dos níveis de leitura e das literacias; a oferta de espaços inovadores de conhecimento, formação pessoal e construção da cidadania. (p. 8)
De igual modo, o segundo documento elege a BE como “um recurso que se revela fundamental face aos desafios da sociedade atual, pelas condições de espaço e acolhimento, equidade no acesso à informação e possibilidades de aprendizagem que potencia” (p. 9). Este referencial apresenta as três áreas estruturantes onde devem ser desenvolvidas atividades em diferentes disciplinas e áreas curriculares – Literacia da leitura, Literacia dos média e Literacia da informação – para a educação pré-escolar, 1.º, 2.º e 3.º ciclos. Por serem ainda recentes estes dois documentos não são mencionados nos Projetos da nossa análise. Há uma alusão ao referencial, apenas numa escola, no relatório interno da BE.33 Pensamos que, futuramente, o documento poderá ser tido em conta na elaboração de projetos da BE sobretudo porque apresenta um conjunto de atividades a operacionalizar em articulação com educadores e professores, no âmbito dos conteúdos curriculares.
Os Projetos do nosso estudo, embora não repartindo as suas atividades pelas três áreas indicadas no referencial, desenvolvem algumas atividades nesse âmbito com particular incidência na Literacia da Leitura como temos vindo a relatar. Em todas as atividades há a menção ao envolvimento tanto da BE como do PB na dinamização das
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Este documento é um plano estratégico para a União Europeia que visa não só a saída da crise mas também criar condições para o crescimento de emprego, a educação, investigação e inovação, inclusão social e redução da pobreza e clima e energia. Cf. Comunicação da Comissão ao Parlamento Europeu, ao
Conselho, Ao comité Económico e Social Europeu e ao Comité das Regiões. Bruxelas (2014).
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Estes relatórios, não sendo obrigatórios, são, em alguns estabelecimentos de ensino, solicitados pelas direções.
ações, que tem um papel fundamental na comunicação que estabelece com os restantes membros da escola, tal como se observa nas respostas à questão:
A Biblioteca Escolar, com a implementação do projeto, promove o prazer de ler?
Sim, Muito. É da Be que saem as propostas a serem desenvolvidas nos projectos de trabalho de turma. (EPEEA)
Sim, a BE promove o prazer de ler. (EPEEB) Sem dúvida. (EPEEC)
Sim, sem dúvida nenhuma. (EPEED)
A Biblioteca Escolar estimula o envolvimento dos professores para a utilização dos seus recursos na planificação das suas atividades; tem a preocupação de envolver todas as turmas nas atividades propostas ao longo do ano, atividades diversas, concursos com recurso à web 2.0, atividades de articulação com o currículo e ainda a aquisição de fundo documental que vá ao encontro dos interesses literários dos alunos e da comunidade escolar em geral. (EPEEE); Indiscutivelmente. O projecto volta-se não para a quantificação de leituras, mas para o fomentar desse prazer, o que me parece que tem vindo sendo feito. (EPEEF)
As respostas à questão: Que papel teve o professor bibliotecário na divulgação/desenvolvimento do projeto? Permitem-nos destacar três funções:
1 - Coordenação
Enviou para os conselhos de turma através dos DTs propostas de actividades concretas, além de apoiar com livros e outro tipo de material. (EPEEA);
Apresenta os projectos no Conselho Pedagógico e convida os professores dos vários departamentos a participar. (EPEEB);
Um papel central na proposta de actividades, compreensão e discussão, em grupo, mesmo das propostas mais distantes da própria área, contactos, disponibilização de meios e apoio contínuo. (EPEEF);
2 - Motivação
Um papel central e motivador. Lançando desafios aliciantes e concretos a vários elementos da comunidade escolar e educativa e dando todo o apoio necessário. (EPEEC);
Faz uma motivação constante, está atento aos interesses dos alunos e professores. Trabalha sistematicamente e diariamente num espaço que desperta a atenção para esses mesmos interesses. (EPEED);
3 - Articulação
Articulação no âmbito da comemoração de efemérides ou com o currículo; no apoio aos alunos para o desenvolvimento de trabalhos solicitados às diferentes disciplinas. (EPEEE)
Apesar de os professores considerarem que a PB da sua escola solicita e motiva os restantes professores, verificamos que, no Balanço do Projeto, algumas coordenadoras não sentem que exista um trabalho de colaboração já consolidado. São assinalados como pontos fracosou como ações para melhoria envolver mais professores e alunos (EB); envolver mais departamentos curriculares no que respeita à promoção da leitura e literacias da informação (EE); e reforçar as atividades conjuntas a nível do Agrupamento (EC).
Podemos inferir, pelos dados em análise que, nas seis escolas do nosso estudo, tanto a BE como o PB têm visibilidade na escola e que esta se manifesta através das iniciativas programadas no Projeto. Não deixamos, porém, de assinalar a constatação das coordenadoras quanto à necessidade de um maior e mais efetivo envolvimento dos professores. Esta situação ocorre nas escolas em Agrupamento pelo que podemos pensar que, nestes estabelecimentos de ensino, há uma maior dificuldade em articular conjuntamente as atividades. Tal situação pode decorrer de um maior afastamento geográfico ou da ausência de mobilização dos agentes envolvidos.