• Aucun résultat trouvé

A multidisciplinary approach to discriminating different taxa in the species complex Pachycondyla villosa

“Uma família fez casa no morro, se eu mover o pé, a casa despenca.” (Adélia Prado)

A poeta Adélia Prado leva a vivenciar os pequenos detalhes da vida como significativos ao poetizar sobre o cotidiano por um olhar feminino. A experiência poética da autora leva a experimentar a riqueza das relações com o outro na observação do dia a dia, ações simples da rotina e a repetição dessas ações adquirem outros significados, ultrapassando a dimensão prosaica para dar voz à mulher que transita num cotidiano marcado.

É nessa insistência no cotidiano que a poeta resgata emoções conflitantes carregadas de poesia e reflexões sobre a intrigante posição da mulher na sociedade moderna. A autora não recusa o papel destinado à mulher, entretanto, manifesta um “novo olhar” em que esta cumpre seu papel social sem imposição e opressão, revelando sua percepção sobre mulheres mineiras, interioranas, marcadas pelo condicionamento do espaço doméstico. Compreende-

se que as informações do cotidiano dessa mulher aqui representada são importantes para contextualizar sua produção no cenário a qual pertence, contrariando a ideia universal do que é ser mulher.

Dessa forma, é possível notar que em suas obras constitui-se uma obstinação entre resistência e condição subordinada da mulher. O que leva a autora a equilibrar-se entre o feminismo e as limitações peculiares do ser feminino condicionada pela sociedade patriarcal é o fato de presenciar as mudanças por ela mesma vividas, suas experiências em seus papéis de mãe, esposa, mulher, profissional e intelectual. Outro motivo que a equilibra é ter a consciência de que escrever é uma forma de libertação, como diz: “a poesia me salvará” (PRADO, 2017, p. 49).

O poema “Com Licença Poética “que inaugura sua primeira obra, Bagagem, retoma

ao tópico em que apresentamos o contexto de produção da escritora. No poema, o eu lírico pede licença para se introduzir no universo da literatura, espaço reduzido à mulher, ao dialogar com o célebre Poema de Sete Faces, de Carlos Drummond de Andrade. Nosso propósito é refletir sobre o olhar de um eu lírico feminino e suas experiências como mulher e escritora.

Com licença poética

Quando nasci um anjo esbelto, desses que tocam trombeta, anunciou: vai carregar bandeira.

Cargo muito pesado pra mulher, esta espécie ainda envergonhada. Aceito os subterfúgios que me cabem, sem precisar mentir.

Não sou tão feia que não possa casar, acho o Rio de Janeiro uma beleza e ora sim, ora não, creio em parto sem dor. Mas, o que sinto escrevo. Cumpro a sina. Inauguro linhagens, fundo reinos (dor não é amargura).

Minha tristeza não tem pedigree, já a minha vontade de alegria, sua raiz vai ao meu mil avô.

Vai ser coxo na vida, é maldição pra homem. Mulher é desdobrável. Eu sou.

(PRADO, 2017, p. 17).

De início já podemos perceber o jogo de palavras de duas expressões cristalizadas no título, a saber, "com licença" e "licença poética". A expressão "com licença" evoca a ideia de pedido de permissão à apropriação do texto de um outro poeta e evoca também à caracterização da condição ainda submissa da mulher. Já a expressão “licença

poética” remete às liberdades especiais acessíveis pela linguagem poética, ao espaço aberto para a transgressão e para o inusitado por meio da poesia.

O eu lírico se situa e se anuncia com elegância e eloquência, profetizando uma ideia de sinal, de predestinação que o liga à sua condição de mulher: carregar bandeira é “cargo muito pesado pra mulher” (PRADO, 2017, p. 17). Assim, a poeta admite que ser mulher já é uma tarefa árdua, principalmente se esta for poeta do interior das Minas Gerais.

Em “ainda envergonhada”, situa a identidade do sujeito que se (re) constrói em busca de sua identidade e pré-anuncia outro tempo em que a vergonha, traço de sua identidade feminina, será ultrapassada ao se afastar do discurso do poder masculino. O eu lírico aceita as escapatórias destes senhores sem que seja preciso mentir “Aceito os subterfúgios que me cabem, / sem precisar mentir”. E continua se apresentando de que não é “tão feia” que não possa se casar, ou seja, que não possa ser aceita entre os literatos do Rio de Janeiro. Iniciando o próximo verso com uma conjunção adversativa: “Mas, o que sinto escrevo. Cumpro a sina”, instaura o seu posicionamento, sem pedir licença, de que o ato de escrever poema não é exclusivo para homens.

Adélia Prado, por meio de uma veia poética, reflete sobre sua identidade, sem se colocar como superior ao poeta Carlos Drummond de Andrade, sem a pretensão de anular o outro para afirmar sua identidade como pode ser comprovado nos versos do poema citado: “Aceito os subterfúgios que me cabem, / sem precisar mentir” (PRADO, 2017, p.17). Anuncia de maneira sutil que é momento de inaugurar linhagens e fundar reinos, momento de revelar o que é escrever e o que é criar por um olhar feminino.

A voz de um eu lírico feminino, a percepção de um sujeito com relação ao mundo, suas experiências e memórias são elementos estruturais que contribuem para traçar a identidade de um sujeito que deseja ser ouvido. Entretanto, esse desejo de ser ouvido assinala que há espaço para a mulher na sociedade, mas distintos do homem – e que a convivência respeitosa das diferenças é capaz de construir relações harmoniosas e humanas.

Dessa maneira, por meio da poesia, ela funda reinos infinitos que a define, uma mulher que não apenas poetisa seu relato pessoal observando seu cotidiano aparentemente singelo, mas que também expressa seus mais variados sentimentos como um ser “desdobrável”.