Ponderando acerca dos termos coletivos que Halbwachs (2006) associou à memória, Jan Assmann (2011, p.32), egiptólogo alemão, infere:
Como um psicólogo social, Halbwachs não olhou para além do grupo, e ele nunca considerou expandir sua teoria da memória para o reino de uma teoria da cultura. A perspectiva de evolução cultural também não entra em seu campo de visão. No entanto, as estruturas básicas que ele desenvolveu são fundamentais para a análise da cultura, e muitos dos seus achados permanecem válidos quando aplicados aos mecanismos da evolução. (Tradução nossa).25
Com isso em perspectiva, no final dos anos 1980, inspirado por escritos do historiador de arte alemão, Aby Warburg26; e pela pesquisa de Iúri Lotman27 e outros teóricos da cultura,
25 “As a social psychologist, Halbwachs did not look beyond the group, and he never considered expanding his
theory of memory into the realm of a theory of culture. The perspective of cultural evolution also did not enter his field of vision. Nevertheless, the basic structures that he developed are fundamental to the analysis of culture, and many of his findings remain valid when applied to the mechanisms of its evolution”.
26 Aby Warburg, historiador de arte alemão, cunhou o termo “memória social”. Ele parece ter sido o primeiro a tratar imagens (entendidas como objetivações culturais) como portadoras de memória. Seu projeto principal, ao qual denominou Mnemosyne, foi estudar a “sobrevivência” (Nachleben) da Antiguidade clássica na cultura ocidental. Warburg era especialista em memória icônica e a força memorativa imanente das imagens esteve no centro de suas pesquisas. Warburg não chegou a utilizar o termo “memória cultural” nos seus trabalhos. Como vimos, este conceito foi claramente desenvolvido apenas a partir dos anos 1980. Contudo, para Warburg, as imagens são os meios paradigmáticos da memória. (ASSMANN, A. 2011, p.243).
27Estudioso da cultura e literatura, crítico e filósofo russo, Iúri Lotman (1922-1993) desenvolveu pesquisas na Escola Semiótica de Tártu- Moscou e entendia a cultura como a memória de uma sociedade que não é transmitida geneticamente. (ASSMANN, A. 2008; 2011).
Jan Assmann reconstrói o conceito de memória coletiva dado por Halbwachs ao instituir dois novos conceitos: Memória Comunicativa e Memória Cultural. Assmann, J. (2008, p.110) compreende que Halbwachs deixou algo de fora quando criou o termo Memória Coletiva e dessa suposta omissão, o autor articula sua ideia de memória cultural e renomeia o conceito do sociólogo para memória comunicativa:
O termo “memória comunicativa” foi introduzido para delinear a diferença entre o conceito de “memória coletiva” de Halbwachs e a nossa compreensão da “memória cultural”. [...] Halbwachs, no entanto, inventor do termo “memória coletiva”, teve o cuidado de manter o seu conceito afastado do reino das tradições, transmissões e transferências que nos propomos incluir sob o termo “memória cultural”. (Tradução nossa).28
Segundo sustenta Jan Assmann (2008), a ideia de Halbwachs (2006) acerca da memória coletiva é preservada por ele, ou seja, ela não é substituída com o advento da memória cultural, pois se trata de um modo diverso de lembrar. Com esse novo modelo teórico ocorre a inclusão da esfera cultural nos estudos da memória. Nesse contexto, as memórias cultural e comunicativa surgem como formas diferentes de manifestação da memória coletiva e diferem entre si quanto ao conteúdo, forma, meios, estrutura temporal e sujeitos portadores.
A memória comunicativa, aponta Assmann, J. (2008, p.111), é demasiadamente instável para se configurar como uma cultura objetivada, e logo, como elemento capaz de identificar uma coletividade. Ela caracteriza-se por um alto grau de não especialização, instabilidade temática e desorganização; vive na interação cotidiana e, por essa razão, tem apenas um tempo limitado de existência que normalmente não supera oitenta anos, o período de tempo em que três gerações interagem29. Nessa perspectiva, inserem-se os processos comunicativos que ocorrem face a face. Com efeito, a memória comunicativa compreende memórias relacionadas a um passado recente; são memórias contemporâneas dos indivíduos que recordam e nesse sentido, não se trata de uma memória institucionalizada, visto não ser apoiada por qualquer instituição de ensino ou transmissão; não é cultivada por especialistas; não é convocada ou celebrada em ocasiões especiais; e não é formalizada e estabilizada por quaisquer formas de simbolização material.
28 “The term “communicative memory” was introduced in order to delineate the difference between Halbwachs’s
concept of “collective memory” and our understanding of “cultural memory”. [...] Halbwachs, however, the inventor of the term ‘collective memory’, was careful to keep his concept of collective memory apart from the realm of traditions, transmissions, and transferences which we propose to subsume under the term “cultural memory””.
A memória cultural, de outro modo, trata das tradições, transmissões e transferências que se dão no âmbito da cultura; trata de tradições que são guardadas e difundidas por mídias extracorpóreas em sociedades midiáticas ou por indivíduos especialistas (também chamados “portadores vivos”), em sociedades eminentemente orais. Exteriorizada, objetivada e guardada em formas simbólicas que, ao contrário dos sons das palavras ou dos gestos, são estáveis e transcendem situações, a memória cultural existe em uma forma desencarnada/incorpórea; é um tipo de “instituição”; faz referência a um passado remoto, com a distância do cotidiano marcando o horizonte temporal dessa memória (ASSMANN, J. 2008, p.111).
Conceito construído a partir da observação do Mundo Antigo, vide campo especializado de Jan Assmann, a memória cultural está viva em objetos materiais e imateriais; presente em textos, canções, imagens, ritos, danças, máscaras, monumentos, símbolos, paisagens urbanas, pratos típicos, meios tecnológicos de informação e comunicação e seus agenciamentos. Tal memória solicita a existência de instituições de preservação e reincorporação, como museus, bibliotecas e arquivos. Ademais, apesar de habitar em formas incorpóreas e de estar baseada em textos canônicos amplamente divulgados, de acordo com o espaço onde habita e circula, essa memória necessita de especialistas como narradores, bardos, griots, escultores ou sacerdotes.
Falci (2013, p.7), baseando-se em Jan Assmann (2011), pontua que a memória cultural pode ser definida como “todo conhecimento obtido através de práticas sociais repetidas ao longo do tempo, que funcionam como elemento que estrutura o comportamento e a experiência de vida de um grupo social”. A memória cultural seria deste modo, construída pela cristalização de ritos, eventos, acontecimentos, os quais poderiam ter seus significados transmitidos através do tempo. Para existir, esse tipo de memória solicitaria algum tipo de ordenamento e fixação temporal, o que comumente acontece quando essa memória se encontra registrada em suportes físicos, como a escrita em papel, a fotografia, as imagens em movimento do cinema.
A memória cultural subdivide-se em ativa ou funcional e passiva ou cumulativa. Segundo explica Aleida Assmann (2008), a memória que circula de forma ativa é aquela que mantém o passado no presente e portanto, está vinculada a um cânone30. Já a memória passiva
30 O termo “cânone” pertence à história da religião, sendo usado para se referir a um texto ou um corpo de textos decretado como sagrado e que por isso, não deve ser alterado e nem trocado. O texto canonizado é uma referência estável utilizada ao longo dos séculos e milênios em contínuos atos de reverência, interpretação e prática litúrgica. (ASSMANN, 2008, p.100). Aplicado ao contexto da Memória Cultural, o cânon ou cânone se refere ao conjunto de textos verbais e não verbais normativos e formativos, bem como os mitos que circulam na sociedade.
é aquela que conserva o passado armazenado e está associada a figura do arquivo31. Quando elementos pertencentes ao cânone recuam para o arquivo e quando os elementos que estavam no arquivo são recuperados e valorizados para o cânone, estabelece-se a dinâmica da memória cultural. Desse modo, portanto, compreende-se haver uma interdependência dos diferentes domínios e funções inerente à memória cultural que a mantém aberta à mudanças, negociações e esquecimentos, ainda que esta não seja um tipo de memória passageira, mas relativamente estável.
No tocante a dimensão ativa da memória cultural ou mais especificamente aos elementos que a compõem, Aleida Assmann (2008) esclarece que são um pequeno número de textos normativos e formativos, lugares, pessoas, artefatos e mitos que passam por um rigoroso processo de seleção, ao qual denomina canonização. Esses elementos que integram a memória ativa são destinados à ampla divulgação social e operam principalmente em três áreas: religião, arte e história. Eles são comunicados em apresentações e performances, a fim de garantir a conservação dessa memória e a reprodução do capital cultural, e devem sobreviver a passagem de gerações. Estas, por sua vez, em contato com o cânone, deverão reinterpretá-lo, de acordo com o seu próprio tempo.
Enquanto modelo teórico-cultural, aceita-se formalmente que a expressão Kulturelles Gedächtnis (Memória Cultural) emerge de debates realizados no Jan Assmann’s Egyptological Institute, vinculado à Universidade de Heidelberg, Alemanha. No Instituto de Egiptologia, um grupo de estudos interdisciplinar para a cultura e a memória foi formado nos anos 1980 com as presenças de Jan Assmann e Aleida Assmann. Como consequência das pesquisas ali desenvolvidas, em 1988 foi dado um passo crucial na promoção do conceito de memória cultural com a publicação do volume de ensaios reunidos Kultur und Gedächtnis, editado por Jan Assmann e Tonio Hölscher. Posteriormente, ocorreram novos lançamentos e em 1992, Assmann, J. lançou Das kulturelle Gedächtnis: Schrift, Erinnerung und politsche identität in frühen Hochkulturen32. (HARTH, 2008, p. 88).
31 Tradicionalmente, o arquivo é um repositório da memória passiva. Observamos ainda que ele é também um lugar da memória. Mas, diferente da memória corporificada sensorialmente nos corpos e em outros lugares, o arquivo é separado desses. Nesse aspecto, para além de ser somente um repositório para documentos, o arquivo é também um lugar onde o passado é construído e produzido que para funcionar bem depende de meios materiais de armazenamento empregados como suporte de memória. O arquivo é assim um armazenador de conhecimento coletivo e dizemos que hoje os arquivos são altamente dependes de mídias tecnológicas, visto que o potencial de arquivamento de dados tem aumentado vertiginosamente com as tecnologias de novos sistemas de registro, tais como fotografia, filmes, mídias de áudio e vídeo.
32 Traduzido para o inglês em 2011 pela editora Cambrige University Press como Cultural Memory and Early
Conforme acredita Assmann, J. (2008), a memória é responsável pela consciência de individualidade e pela síntese do tempo no homem. Estudioso do Egito Antigo, ele propõe um conceito rígido de memória cultural e afirma que para o tempo, a identidade e a memória é possível distinguir três níveis: interno; social; e cultural.
No nível interno, a memória é um assunto do nosso sistema neuro-mental. A memória individual ou pessoal pertence a essa dimensão e até o século XX essa era a única forma de memória explorada. No plano social, assim como ocorre com a linguagem, as faculdades cognitivas e a consciência, a memória é uma questão de comunicação e interação, formada por meio dos processos de socialização pelos quais passa o indivíduo. Na dimensão cultural, por sua vez, a memória se faz presente em objetivações culturais, como imagens, e está associada a um tempo histórico. O conteúdo da memória cultural, bem como as maneiras pelas quais se organizam e sua duração no tempo, são, na maior parte, não uma questão de armazenamento ou de controle interno (como acredita-se que ocorre com a memória individual), mas das condições externas impostas pela sociedade e pelos contextos culturais.
Formalizada e institucionalizada, é uma memória que tem por funções: a) preservar e reproduzir no decorrer do tempo os textos sagrados e as obras-primas da cultura que solicitam a existência de instituições de preservação e reincorporação, como museus, bibliotecas, além de arquivos; e b) arquivar documentos e artefatos que, se não possuem status canônico, são considerados importantes a ponto de não serem condenados ao esquecimento.
De modo geral, considera-se que a memória cultural alimenta a tradição e a comunicação, servindo-se de representações simbólicas. Nesta perspectiva, é preciso reforçar que a memória cultural precisou da evolução tecnológica para se constituir e circular nas sociedades de uma maneira sem precedentes. Em vista disso, para definir e elucidar o conceito de memória cultural, Jan Assmann (2008; 2011) e Aleida Assmann (2008; 2011) se apoiam no processo de extensão da situação comunicativa que demandou o desenvolvimento da intermediação e de uma área de armazenamento externo, na qual informações (sobretudo de importância cultural) passaram a ser processadas, armazenadas e recuperadas. Em virtude disso, nos estudos da memória cultural é dada grande ênfase ao surgimento da tradição escrita, pois ela aparece como alavanca da memória cultural; uma das mídias preferenciais da memória quando se trata de obter perpetuação. Com efeito, a partir do advento das formas escritas, a memória pode estender uma mensagem ou significado para além das limitações de seu tempo e espaço original e da comunicação oral ou pictórica. A memória, desse modo, exteriorizou-se
e tal feito, autoriza concluir que a escrita é caracterizada como um dos primeiros lugares de latência e de armazenamento do passado reconhecidos33.