DEUXIEME PARTIE
2.5 La genèse de la théorisation de l’expérience managériale
2.5.4 La multi dimension du management moderne
O Holocausto foi o maior genocídio da história da humanidade, se tornando um evento único não somente por sua barbaridade e crueldade, substantivos que praticamente se tornaram sinônimos da Shoá, como também pela burocratização do extermínio que resultou em números descomunais. O número de guetos e campos de concentração e extermínio está na casa dos milhares, enquanto que o de vítimas atinge a impressionante casa dos milhões.
A quantidade exata de judeus mortos no Holocausto ainda é desconhecida por faltarem registros de todas as vítimas, contudo o número mais aceito pelos historiadores, apesar de não ser consenso, é de seis milhões212. Dentre esse assombroso total de vítimas de origem judaica, estão aproximadamente um milhão e meio de crianças judias, número que, apesar de igualmente contestado por alguns, é o de maior consenso entre os historiadores.
As crianças, representando vinte e cinco por cento do total de judeus mortos no Holocausto, eram um alvo central para os nazistas, pelo seu duplo papel de serem ao mesmo tempo “inúteis e potencialmente ameaçadoras”, nas palavras da socióloga e sobrevivente Nechama Tec213. Inúteis porque, a priori, não podiam contribuir para o
212 A estimativa sobre número total de vítimas do Holocausto foi mencionada na introdução do presente
trabalho, onde expliquei de onde provêm os números de maior consenso, a saber, seis milhões de judeus mortos e um milhão e meio de crianças mortas.
213 Nechama Tec é professora emérita de Sociologia na Universidade de Connecticut e especialista na
temática da Shoá. Nascida em 1931 na cidade de Lublin, Polônia, Nechama Tec era criança de 8 anos quando sua cidade foi tomada pelos alemães, tendo sobrevivido ao Holocausto devido à ajuda de
esforço de guerra alemão através do trabalho, postulado esse que seria derrubado no gueto de Łódź; e ameaçadoras porque colocariam em xeque o ideal nazista de garantir a sobrevivência da raça ariana, a qual se acreditava ameaçada pela mestiçagem com “raças inferiores” como os judeus. As crianças judias eram o futuro da raça judaica que se pretendia exterminar para que reinasse a supremacia ariana.
Apesar da importância numérica e sentimental das vítimas infantis nesse incompreensível genocídio, o número de obras dentro da vasta historiografia do Holocausto que as colocam como tema central é escasso, numa aparente contradição somente explicável pela limitação de documentação disponível que nos possibilite o entendimento da situação específica das crianças na Shoá. Tal escassez pode ser explicada em parte, mas não exclusivamente, pela impessoalidade dos registros alemães, que oferecem basicamente números e estatísticas frias sobre os crimes cometidos contra os judeus, dentre os quais as crianças eram apenas mais um número ou nem isso, pois que nem sempre eram computadas como vítimas.
Debórah Dwork, importante historiadora da infância, atribui a fragmentação da documentação referente às crianças à política nazista e às alterações que esta sofreu (1991, p. xvii-xviii). Um exemplo de modificação mencionado pela historiadora seria o momento da implementação da “Solução Final” pelos nazistas, que a autora coloca entre o final de 1941 e início de 1942. Até esse, que seria um ponto de virada na política alemã em relação aos judeus, as crianças cuja idade não requeria o uso do distintivo imposto pelos alemães, obrigatoriedade cuja faixa etária variava de acordo com a determinação das autoridades locais, não entravam nos registros oficiais. Essas crianças menores eram consideradas meros apêndices de suas mães, uma vez que não eram vistas propriamente como indivíduos e, portanto, como um “problema” em si.
Nechama Tec (2005, pp.2-3) compartilha da mesma opinião, afirmando que até a metade de 1942, quando tiveram início as deportações dos “elementos inúteis” dos guetos para os campos de extermínio, as crianças eram vistas pelos nazistas como supérfluas. Incluídas no objetivo maior de exterminar os judeus da Europa, a destruição das crianças, sobretudo aquelas com menos de 10 anos de idade, recebia menor prioridade por parte dos alemães. Elas não apresentavam os mesmos riscos
poloneses católicos. Suas palavras estão na introdução do livro de Patricia Heberer (HEBERER, 2001, p. xxi).
dos adolescentes e adultos, que podiam se unir a movimentos de resistência e se vingar da morte dos parentes, tampouco podiam ter filhos. Mesmo inúteis por não poderem trabalhar para o Terceiro Reich produzindo bens e artigos de guerra, sua morte podia aguardar, não sendo prioridade para os alemães.
Uma vez implementada a “Solução Final”, as crianças forçosamente permaneciam com suas mães durante as deportações para os campos de extermínio a fim de que a ordem prezada pelos nazistas fosse assegurada. Apêndices de suas mães, a partir de então as crianças passariam a significar a sentença de morte destas que sequer eram consideradas para trabalho nos campos por terem dependentes vistos como inúteis para o esforço de guerra alemão. Sendo suas mortes um procedimento automático, Dwork afirma que seja compreensível que as crianças não tenham sido alvo de detalhados registros nazistas (1991, p. xx)
Mesmo sobre as crianças que foram resgatadas por indivíduos ou instituições e que sobreviveram às investidas alemãs na parte ariana de suas cidades ou em países neutros existe pouca documentação, uma consequência natural da ilegalidade na qual estavam inseridos tais resgates e dos riscos aos quais se expunham aqueles que participavam dessas ações, que intentavam manter as crianças e a si mesmos no anonimato (DWORK, 1991, p. xxi). Não obstante, a falta de registros ricos e abrangentes que permitam aos historiadores criar uma descrição o mais completa possível do conjunto de vivências e das circunstâncias específicas nas quais estavam inseridas as crianças no contexto da Shoá não é ocasionada somente pela falta de interesse ou de oportunidade daqueles que tinham, seja como perpetradores ou salvadores, a vida desses pequenos nas mãos.
A maior lacuna na documentação é àquela pertinente ao registro das próprias vítimas, no caso as crianças, sobretudo aqueles efetuados conforme aconteciam com os eventos descritos. Consideradas como todos aqueles que tinham menos de 18 anos (TEC, 2005, p. 3), as crianças compartilhavam das mesmas dificuldades enfrentadas pelas vítimas adultas que intentavam registrar os sofrimentos aos quais eram expostos pelos nazistas, tais como a falta de materiais para escrever e as próprias condições dos guetos e campos, que não lhes dava tempo nem oportunidade de manter um registro diário dos acontecimentos.
Entretanto, as pequenas vítimas tinham empecilhos adicionais como a falta de escolaridade entre muitas delas que, apesar de estarem na fase escolar, foram privadas de frequentarem a escola através das leis impostas pelos nazistas no Reich
e nos territórios ocupados, além da inexistência de escolas na maioria dos guetos e nos poucos campos nos quais as crianças eram toleradas por um tempo maior pelos alemães.
Ademais, existem agravantes inerentes à infância em si que dificultam quaisquer tentativas de se realizar uma história das crianças que busque resgatar a autêntica voz destas, como a incapacidade das crianças menores em se expressar por escrito de maneira clara e coerente sobre os acontecimentos e sobre seus próprios sentimentos (DWORK, 1991, p. xxii). De forma geral, as crianças não possuem o mesmo costume de escrever cartas regularmente e de documentar fatos como os adultos, mais conscientes da gravidade de determinados fatos e da importância de registrá-los para a posteridade (HEBERER, 2001, p. xvi).
Consequentemente, o que nos resta são diários contemporâneos escritos majoritariamente por crianças mais velhas e adolescentes; registros sobre elas escritos por adultos como pais, parentes e professores das crianças e mesmo por cronistas que intencionaram fazer uma história de seus guetos, como Emmanuel Ringelblum em Varsóvia e Josef Zelkowicz em Łódź; além de memórias de sobreviventes escritas, não raro, décadas após os eventos descritos.
A popularidade e difusão mundial de alguns diários como da adolescente Anne Frank acabaram por perpetuar uma ideia enganosa de que escrever um diário era uma prática fácil para aqueles que estavam escondidos na parte ariana e até que fosse estimulada pelos governantes. Na maioria dos casos, manter um diário no esconderijo era quase tão perigoso e desafiador quanto em um gueto, pois que havia o risco de ser encontrado em uma das buscas empreendidas pela Gestapo e se tornar uma evidência incriminadora inclusive contra aqueles que deram abrigo aos judeus fugitivos (DWORK, 1991, p. xxiii). Além do risco, não raro nos esconderijos também havia a falta de lápis, cadernos e papéis, como ocorria na maioria dos guetos.
Os diários que perduraram após o final da guerra foram majoritariamente escritos por adolescentes, sendo preciosos para compreender um pouco da visão de mundo juvenil. Contudo, não podem ser vistos como um espelho das percepções e das emoções das crianças pequenas que não sabiam ainda escrever, pois cada fase da infância tem suas características próprias quanto ao nível de compreensão do mundo ao redor, o que influi na interpretação que a criança faz dos acontecimentos e em sua reação a eles.
Por esse motivo, pode-se questionar o uso dos relatos de crianças mais velhas na construção de uma obra como a presente, que almeja compreender como as crianças foram afetadas pelas situações enfrentadas durante o seu confinamento no gueto de Łódź. Por exemplo, Dawid Sierakowiak, cujo diário escrito concomitantemente com os acontecimentos descritos foi muito utilizado como fonte no presente trabalho, tinha 15 anos quando começou a escrever seu diário, o qual manteve até a sua morte, que ocorreu em agosto de 1943, quando estava com 19 anos.
Apesar dos estudos sobre o Holocausto considerarem criança todos aqueles abaixo de 18 anos e não raro 19 anos, data utilizada em muitas tabelas feitas pelo Departamento de Estatística do Gueto, dificilmente Sierakowiak seria considerado criança nos dias atuais, o que pode suscitar indagações acerca da validade de suas opiniões e sua visão de mundo dentro de um estudo que almeja compreender a percepção infantil sobre os acontecimentos do Holocausto.
Também existem relatos de adultos sobre as vivências infantis cujo uso é questionado por ser uma visão externa que pode não representar a visão delas. Os adultos, mesmo aqueles que conviviam de forma próxima e constante com as crianças, tais como pais e professores, podiam somente descrever as ações das crianças e interpretar suas reações conforme seu entendimento.
Por esse motivo, Dwork sustenta que é imprescindível buscar a voz das crianças, pois que unicamente através delas é que podemos entender como esses seres sem experiência e vivência lidaram com “esse novo e bizarro mundo com suas novas e bizarras leis” (DWORK, 1991, p. xxxii, tradução minha). Dentro desse contexto, não podemos descartar relatos de adolescentes como o de Dawid Sierakowiak, pois que, entrando no gueto com 15 anos, tinha uma mentalidade ainda infantil em certos aspectos e preocupações comuns às das crianças menores, como a escola, os amigos e os desentendimento com o pai. Na falta da voz direta da criança pequena, há que se buscar aquela mais próxima, que é a das crianças maiores.
A voz das crianças pequenas que não sabiam escrever na época do gueto pode ser obtida nos relatos dos sobreviventes que rememoram suas vivências quando crianças. Apesar de termos excelentes memórias escritas e testemunhos orais, o uso desse tipo de fonte tem sua validade questionada por muitos historiadores. A maior objeção é quanto ao transcorrer do tempo, uma vez que a maioria dos testemunhos orais ou memórias escritas foram realizadas décadas após os eventos narrados pelos
sobreviventes, e quais efeitos traria à memória destes que, hoje adultos, relatam as experiências vividas quando crianças.
Muitos acadêmicos são abertamente críticos ao uso de testemunhos posteriores, que se constituiriam um risco na busca de um trabalho que busque ser o mais historicamente fiel possível. Patricia Heberer, historiadora do conceituado United
States Holocaust Memorial Museum em Washington D.C., destaca como pontos
negativos desse tipo de fonte na historiografia do Holocausto a “teleologia e a circunspecção” (HEBERER, 2001, p. xv) às quais estariam sujeitos esses testemunhos e que poderiam influir no relato dos sobreviventes.
Afinal, desde o final da guerra, tendo ouvido por décadas a fio sobre o Holocausto através de livros e da mídia, os sobreviventes podem ter sua memória contaminada por esse conhecimento obtido a posteriori, o que prejudicaria a credibilidade de seu relato. Justina Kowalska-Leder (2015, p. 8) afirma que a distância cronológica dos acontecimentos descritos pode fazer com que o testemunho traga consigo uma visão cristalizada da história, decorrente do conhecimento obtido a posteriori do curso e do resultado dos eventos.
Logicamente que essa preocupação se refere aos testemunhos orais e livros de memórias que começaram a surgir em massa a partir da década de 80, questionando os efeitos do tempo sobre a memória individual. Porém, ainda que em menor número, existem testemunhos coletados logo após o final da guerra, quando os eventos ainda estavam bem vívidos na mente dos entrevistados e não havia a intensa bibliografia que temos hoje sobre o extermínio dos judeus europeus. Sem apresentar os riscos que o passar das décadas inflige na percepção dos acontecimentos passados, seria natural supor que tais testemunhos fossem aceitos sem restrições pelos historiadores. Contudo, não é o que ocorre, particularmente com respeito ao testemunho das crianças. Se a confiabilidade de um relato feito por um adulto sobre suas memórias da infância é questionada, mais ainda se duvida do relato de uma criança, cercada de uma aura de imaginação e criaividade, vista como sugestionável e com um pé na fantasia. A falta de domínio da linguagem torna ainda leva a criança a ser considerada incompetente para expressar de forma adequada sua vivência, o que, por sua vez, resultou na marginalização da criança como objeto de estudo pelos historiadores (MICHLIC, 2007, p. 14).
A dúvida que emerge em relação à veracidade de um relato infantil se encontra por detrás dos testemunhos dados por crianças judias no pós-guerra, como os publicados
em 1946 pela Jewish Historical Comission214. Os mais de cinquenta relatos colhidos de crianças que sobreviveram aos guetos e campos foram baseados em entrevistas orais que seguiam critérios pré-determinados em seus questionários, padronizando as entrevistas para obter uma imparcialidade por parte dos entrevistadores.
Seria de se esperar que um tipo de material como esse fosse considerado de extrema importância para o estudo da situação das crianças durante o Holocausto, por não apresentar os problemas já mencionados que cercam os testemunhos obtidos décadas depois. Todavia, não é o que aconteceu, visto que outros questionamentos foram levantados por historiadores sobre a credibilidade dos relatos obtidos entre 1945 e 1946, que acabaram por dar à obra em questão descrédito, deixando-a fora do cânone de fontes documentais do Holocausto, segundo afirma Joanna Michlic em seu artigo sobre essa coletânea (2007, p. 11).
Contudo, a hesitação no uso de testemunhos como fontes históricas vai além do recorte das crianças e abrange todo o espectro das memórias escritas e da história oral. Uma parcela considerável dos historiadores em geral desconsidera testemunhos orais ou escritos como fontes históricas, assim como ocorre entre os pesquisadores do Holocausto. Um dos maiores representantes deste último grupo é Raul Hilberg, cujas obras são respeitadas e que foram elevadas à categoria de referência na historiografia da Shoá, formando um grupo de discípulos na área, intitulada por Joanna Michlic (2007, p. 13) como “história dos perpetradores” por utilizarem unicamente registros e documentos oficiais, em sua esmagadora maioria produzidos pelos nazistas.
O tipo de metodologia utilizado por esse grupo de acadêmicos dispensa a adoção de testemunhos de quaisquer períodos por não atribuírem a estes legitimidade histórica devido à sua intrínseca subjetividade como relatos pessoais. Fora da subjetividade embutida nos testemunhos, outra crítica que esse grupo faz ao uso destes é o risco de se criar uma “história das vítimas” (MICHLIC, 2007, p. 15) que enfatize o heroísmo individual e mesmo coletivo dos judeus, criando uma narrativa histórica que pudesse ser utilizada com fins políticos e/ou nacionais.
Joanna Michlic (2007, p. 17) chega à conclusão, após a análise desta coletânea pioneira de testemunhos de crianças que viveram os desafios e ameaças nazistas, de
214 A coleção de testemunhos, dentre eles 55 dados por crianças e 15 por adultos, foi publicada na
Polônia na forma de um livro chamado Dzieci Oskarja. Em 1996 recebeu uma tradução para o inglês chamada The Children Accuse (MICHLIC, 2007, p. 11)
que esses relatos devem ser considerados como importantes fontes históricas. Contudo, Michlin reiteradamente lembra em seu artigo a importância da contextualização histórica, em uma abordagem balanceada que faça um contraponto entre os testemunhos pessoais e as evidências históricas fornecidas por fontes primárias, ambas com seus pontos fortes e suas limitações:
Apesar de sua clara deficiência em termos de linguagem, e sua falta de referências precisas ao tempo, espaço e atores sociais, os testemunhos de crianças sobreviventes fornecem certas informações diferenciadas sobre acontecimentos e circunstâncias que dificilmente são encontradas em qualquer outro documento de arquivo. (MICHLIC, 2007, p. 12, tradução minha)
É dessa opinião igualmente a historiadora Debórah Dwork (1991, pp. xxxii-xxxiii), que defende o uso de desenhos, cartas, diários e anotações feitas pelas crianças durante a Shoá e o uso de testemunhos de adultos que eram crianças naquela época a fim de apresentar a perspectiva das crianças perante tais acontecimentos, perspectiva essa que era diferente da dos adultos, assim como o eram suas preocupações.
Justyna Kowalska-Leder (2015, p. 12) destaca a importância do registro escrito feito pela criança, por exemplo na forma de diário, utilizado como um meio de lidar com o caos que a ocupação alemã impôs em suas vidas, onde confidenciava suas emoções, dores e reclamações. Ademais, o diário frequentemente era utilizado na construção da identidade da criança e do jovem que, desabafando sobre o mundo ao redor, fazia uma autoanálise de seu comportamento e de seus sentimentos perante os acontecimentos que o afetavam.
Os testemunhos posteriores, apesar de serem feitos décadas após a vivência dos acontecimentos descritos, também cumprem as mesmas funções. Kowalska-Leder (2015, p. 13) afirma que os testemunhos servem para preservar a memória dos eventos e das pessoas falecidas, como uma forma de terapia na qual o sobrevivente lida com seus traumas e afirma sua identidade pessoal, além de testemunhar os sofrimentos sofridos pelos judeus durante o Holocausto.
A questão do trauma explica, segundo a autora, o hiato que surgiu entre o final da Segunda Guerra e o aparecimento da maior parte dos testemunhos a partir da década de 80. O trauma decorrente das situações extremas vividas, do risco constante de morte e da perda de entes queridos, aliada ao sentimento de culpa e remorso por ter sobrevivido enquanto outros pereceram ao seu redor, acaba por acionar um mecanismo de defesa no indivíduo. Esse mecanismo, por sua vez, força o
sobrevivente a se distanciar emocionalmente da fonte do trauma, gerando uma “dormência psicológica”, segundo definição de Robert Jay Lifton (In: KOWALSKA- LEDER, 2015, p. 14).
Assim sendo, os sobreviventes acabaram silenciando por décadas, não somente para não serem incompreendidos por seus interlocutores, mas para se preservarem de lembranças traumáticas que buscavam, sem sucessso, esquecer. Justyna Kowalska-Leder (2015, p. 15) conclui, após abordar a raiz do trauma e suas consequências sobre os sobreviventes que a Shoá não podia ser descrita, expressada, compreendida ou assimilada, seja emocional ou intelectualmente, na época em que ocorreu. Nos anos subsequentes outras motivações impediram os sobreviventes de narrar suas experiências, tais como o antissemitismo que foi reforçado no pós-guerra e que produziu uma onda de violência contra os judeus (KOWALSKA-LEDER, 2015, p. 17).
A partir do final da década de 1970, uma série de acontecimentos215 ocorreu, deixando o cenário mais propício ao acolhimento dos relatos dos sobreviventes do Holocausto. Tais acontecimentos, somados ao efeito do passar dos anos sobre os efeitos do trauma, suscitou o aparecimento de testemunhos orais e escritos dos sobreviventes que se sentiam prontos para contar sua história de vida. Portanto, fica claro que os testemunhos tardios possuem sua justificativa e sua utilidade, tanto para a história quanto para o próprio sobrevivente.
Deborah Dwork (1991, p. xxxiii) defende a necessidade de se fazer uma correlação dos testemunhos e registros infantis, sejam contemporâneos ou tardios, com outros