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Universidade divulga resposta ao jornal "O Estado de São Paulo"

A reitoria da Universidade, por meio da Assessoria de Comunicação e Imprensa, solicitou ao jornal "O Estado de São Paulo" a publicação de uma resposta ao editorial publicado no referido periódico em 24 de fevereiro. Confira a íntegra do texto encaminhado. Universidade Federal do ABC - um projeto que já é realidade

No dia 5 de julho de 2006, ano de eleições presidenciais, o Estado de São Paulo publicou uma reportagem de título "Universidade do ABC fica no papel". Nela, os leitores do jornal eram informados de que as aulas teriam início "em um prédio improvisado, pois o terreno

cedido pela prefeitura de Santo André para virar campus ainda funciona como garagem municipal."

Poucas semanas depois, no dia 14 de setembro do mesmo ano, o jornal publicou o editorial "Demagogia no ensino superior" em que, na mesma tecla, os leitores eram informados de que "a improvisação é tanta que a UFABC vem funcionando provisoriamente num prédio

alugado."

Dois dias depois o jornal publicava a carta resposta do Reitor Hermano Tavares, a qual registrava que "Iniciar as atividades acadêmicas de uma instituição nova em instalações

provisórias é simplesmente a melhor prática. Foi o que fizeram ITA e Unicamp, para citar apenas dois exemplos. Absurdo seria começar construindo o prédio."

Agora, em 2010, sintomaticamente mais um ano de eleições presidenciais, O Estado de São Paulo volta à carga contra a UFABC em editorial de 24 de fevereiro intitulado "As

inaugurações de projetos".

Nele, sempre com a mesma obsessão centrada nos prédios, os leitores são informados de que "as obras em Santo André estão atrasadas, tendo sido inaugurado, até agora, um único

prédio". Adiante, o mesmo editorial informa que a pedra fundamental do campus de São

Bernardo do Campo foi lançada em agosto do ano passado, mas que "até hoje, a obra não

passou disso.". Informa ainda que "a taxa média de evasão foi de 42%" e cita uma frase do

Reitor Helio Waldman "Há uma certa lentidão crônica, cuja origem não saberia

reconhecer", frase que o editorial associa ao problema da evasão e qualifica de "afirmação exemplar, pois mostra o saldo das inaugurações de projetos que continuam sendo projetos".

Com relação a cada um dos aspectos acima, cumpre registrar:

O "único prédio" a que se refere o editorial é uma torre de 11 andares que tem 14 mil metros de área construída. Com quase 90% das obras concluídas, o próximo bloco a ser entregue agregará ao campus mais 40 mil metros de área construída.

A afirmação de que a obra de São Bernardo do Campo nunca passou do lançamento da pedra fundamental é simplesmente falsa. As licitações de terraplenagem do terreno e da construção do "primeiro prédio" foram concluídas no 2º semestre de 2009, dentro do previsto, e as duas obras já foram iniciadas, como pode ser constatado por uma simples visita ao local.

A informação de que "a taxa média de evasão foi de 42%" parte de uma conta precária, para dizer o mínimo, como explica a carta do Reitor Helio Waldman publicada na mesma edição

de 24 de fevereiro do referido jornal e ignorada pelo editorial.

Finalmente, a frase citada do Reitor é colocada completamente fora de contexto, já que ela foi pronunciada em referência às obras de Santo André. Não há nela, portanto, qualquer indício de concordância com a opinião de que a UFABC seja um "projeto que continua projeto". E ilustramos, com brevidade:

Fosse apenas "um projeto que continua projeto", a UFABC não poderia registrar que com menos de três anos e meio de atividades ela já conta com mais de 400 docentes em regime de dedicação exclusiva, todos eles doutores - fato inédito no ensino superior público federal - que compõem um conjunto de jovens talentos com reconhecimento crescente no meio científico nacional a partir de conquistas como esta: em 2009, a UFABC foi a 3ª demandante de novos projetos de pesquisa junto à FAPESP, atrás apenas da USP e da Unicamp e à frente de todas as outras instituições públicas e privadas do Estado de São Paulo.

Fosse apenas "um projeto que continua projeto", a UFABC não teria os 10 cursos de pós- graduação stricto sensu recomendados pela CAPES, sendo seis em nível de mestrado e quatro de doutorado, todos eles em pleno funcionamento, com cerca de 300 alunos regularmente matriculados e com 30 dissertações de mestrado já defendidas com sucesso. Fosse ainda "um projeto que continua projeto" a UFABC não poderia registrar que conta com mais de 2.600 alunos de graduação que, até quatro anos atrás, não tinham onde fazer um curso público, gratuito e de qualidade. Ou que a eles se juntarão, nas próximas semanas, mais 1.700 jovens que conquistaram uma vaga em um processo seletivo de âmbito nacional, no qual o Bacharelado em Ciência e Tecnologia da UFABC, com quase 20 mil candidatos apenas na primeira etapa das inscrições, figurou em primeiro lugar na lista de procura dos estudantes que participaram do Sistema de Seleção Unificada do MEC.

A UFABC conta com um projeto pedagógico que é, de fato, ousado, pioneiro e inovador. Sua implantação vem sendo atentamente observada por educadores do Brasil todo, os quais acreditam que ele possa dar contribuição significativa ao ensino superior nacional. Tratá-lo com desdém e ironia, sem entrar no seu mérito, é miopia, como foi a posição adotada pelos que, nos anos 1950, não queriam a criação do ITA com base no famoso bordão "um país que não sabe fabricar bicicletas não pode se arvorar a ambição de fabricar aviões". Ou mesmo dos que, nos anos 1930, faziam restrições à criação da USP e sua Faculdade de Filosofia,

Ciências e Letras, uma ousada inovação para o ambiente acanhado da época. Hoje, um ano de faturamento da Embraer corresponde a vários séculos de orçamento do ITA, e a USP figura entre as 200 melhores Universidades do mundo.

Os riscos em empreendimentos desse porte são consideráveis. Admitimos nossos problemas. Reconhecemos que algumas obras atrasaram, mas estamos lutando para concluí-las, em parceria e com o apoio do MEC. Cada nova turma de alunos da UFABC encontrou melhores instalações físicas do que a turma que a precedeu, tendência que será mantida neste e nos próximos anos. A evasão, também em parte decorrente do medo do novo, é um problema grande a ser combatido. Há que se registrar, todavia, que os indicadores apontam para sua queda.

A UFABC é uma instituição de ensino superior que pratica os melhores valores acadêmicos. Nesse contexto, estaremos sempre abertos ao diálogo e à crítica, inclusive a destrutiva, histérica, míope ou de mau gosto. Mas não podemos permanecer calados diante da crítica vilipendiosa.

Em 2006, o Estadão afirmou que a UFABC não sairia do papel, o que não era verdade. Em 2010, ele diz que a UFABC não passa de um projeto, o que não é verdade. Qual será a nossa maldição de 2014?

Helio Waldman

Reitor da Universidade Federal do ABC Assessoria de Comunicação e Imprensa 26/2/2010

Nível situacional

A publicação acima da carta do reitor da Universidade Federal do ABC foi feita no site oficial da Instituição, dois dias após a publicação do editorial do jornal O Estado de S. Paulo. Teve como finalidade do ato de linguagem contradizer os dados e informações publicadas pelo jornal tentando convencer o leitor de que os dados expostos e as maneiras como foram trabalhados pelo veículo tiveram um trabalho de manipulação com viés eleitoreiro.

A intenção de minimizar as críticas feitas pelo jornal O Estado de S. Paulo por meio da desconstrução da credibilidade do veículo é evidente quando o reitor pontua matérias pejorativas publicadas pelo jornal, relacionando-as ao período em que foram publicadas, sempre em anos eleitorais. Com isso, o reitor tenta mostrar que, mais que denúncias ou matérias investigativas, o jornal tem um histórico de matérias negativas em anos de pleito eleitoral.

Tal finalidade do ato fica claro quando, em dois parágrafos, o reitor inicia a frase fazendo referência ao momento em que aquelas reportagens foram publicadas: “no dia 5 de julho de 2006, ano de eleições presidenciais” e “agora, em 2010, sintomaticamente mais um ano de eleições presidenciais”.

Vale lembrar que esta resposta foi elaborada pelo reitor da Universidade e publicada no site da instituição em um dos meses mais críticos de visibilidade midiática para a UFABC, conforme identificou a Análise de Conteúdo realizada anteriormente. O primeiro quadrimestre de 2010 foi o período em que a Universidade esteve mais presente na mídia com notícias negativas e também o período com maior número de citações político-partidária, ou seja, em que ela mais esteve relacionada pelos veículos

de comunicação à partidos ou políticos. Este seria, portanto, o dispositivo da criação do discurso, uma vez que caracteriza o espaço e o tempo em que ele foi criado.

Sobre a identidade do autor, o Professor Dr. Helio Waldman é professor aposentado pela Unicamp e participou da construção da Universidade Federal do ABC desde o início das atividades, sendo, inclusive, um dos membros do Comitê responsável pela criação do Projeto Pedagógico da instituição. Em fevereiro de 2010, data da publicação, havia recém tomado posse em Brasília para o cargo de reitor. Antes, porém, assumiu outros cargos na diretoria da Universidade, como pró-reitor.

A sua participação desde o início das atividades da Universidade, sempre em cargos de direção, o possibilitou acompanhar de perto todas as repercussões da Universidade Federal do ABC na mídia. Isso porque, desde 2006, a Assessoria de Comunicação e Imprensa da UFABC elabora diariamente o informativo Recorte, com o clipping do dia, e encaminha aos dirigentes da instituição para que todos tenham conhecimento do que a imprensa fala sobre a instituição.

Com isso, o enunciador garantiu um domínio do saber que lhe habilitou a tecer afirmações com base não apenas na publicação pontual, mas no histórico desenhado no texto. Como dirigente da Universidade o reitor acompanhou muito próximo todas as manifestações da mídia sobre os mais variados temas, alguns inclusive de sua responsabilidade, como dirigente em cargo principal nas pró-reitorias.

Na resposta ao jornal, o reitor traz uma série de informações sobre a estrutura da Universidade, número de discentes, informações sobre as obras e dados da evasão para contradizer diretamente as informações publicadas no editorial de O Estado de S. Paulo. Além disso, acrescenta a essas informações dados sobre números de docentes, os programas de pós-graduação oferecidos pela Universidade em pouco tempo de atividades, além de números da Fapesp e do SiSU como informações adicionais, numa tentativa de mostrar que há muito o que se festejar também na história, ainda curta, da instituição.

Nível Comunicacional

Algumas características são válidas elencar sobre a maneira de escrever e difundir este discurso. Além de encaminhar o texto ao jornal, o reitor optou por

disponibilizá-lo também no portal oficial da Universidade, o principal canal de comunicação da instituição com a comunidade interna e externa. Isso demonstra que a direção da Universidade preocupou-se não só em conseguir um espaço para resposta, uma oportunidade para esclarecer os fatos apontados aos leitores do jornal, mas foi além, se utilizando da oportunidade para também ampliar o público de acesso às informações. Isso pode ter sido motivado por uma angústia no público interno, que provavelmente vinha acompanhando as constantes críticas dos veículos de comunicação sem um posicionamento formal da reitoria.

Nível Discursivo

Algumas características textuais merecem ser apontadas. Ao utilizar a palavra “obsessão” para classificar as repetidas reportagens do jornal com críticas à questão das obras, a resposta questiona a prática jornalística de O Estado de S. Paulo, com finalidade social de informar, e aponta a prática do veículo como uma insistência descabida.

Outro ponto é que, ainda que a resposta seja assinada pelo Reitor, em alguns momentos o dirigente é tratado na terceira pessoa, como se o texto tivesse sido elaborado por, ou contado com a contribuição de, terceiros.

A escolha de algumas expressões e palavras utilizadas no texto apontam para uma revolta da Universidade Federal do ABC com a forma que vinha sendo tratada pela imprensa, em especial pelo jornal. Isso porque, ao invés de o dirigente apenas corrigir as informações publicadas incorretamente, o discurso tende a desclassificar o trabalho do veículo ao indicar, por exemplo, que afirmação sobre a obra de São Bernardo “é simplesmente falsa” que “pode ser constatado por uma simples visita ao local”. As palavras simplesmente e simples não são essenciais para o sentido da frase, mas reforçam a defesa de que o jornal poderia ter sido leviano na apuração das informações.

No parágrafo seguinte, outro trecho reforça a ideia colocada, quando afirma que o índice de evasão publicado pelo jornal “parte de uma conta precária, para dizer o mínimo”. Mais uma vez, reforça-se a ideia da falta de cuidado com as informações. Ou então, quando se fala da citação do reitor que teria sido “colocada completamente fora

de contexto” como uma acusação de manipulação da informação pelo veículo de comunicação.

Toda a primeira parte do texto, conforme os trechos e citações destacados acima, demonstra uma postura mais agressiva e de enfrentamento da Universidade, como um ato de indignação. Já na segunda parte do texto, diminuem as críticas e a construção textual dá maior espaço para a apresentação de uma série de motivos que poderiam fazer o leitor crer que a afirmação “um projeto que continua projeto” não passa de uma postura ideológica, porém irreal, do jornal. A expressão é confrontada repetidas vezes com ações positivas e dados que demonstrariam que a Universidade não é apenas um projeto, e sim uma realidade.

No final do texto, a instituição atribui ao editorial uma série de adjetivos para desconstruir o trabalho deste veículo de comunicação de maneira agressiva. A crítica realizada pelo jornal foi considerada, indiretamente, pela direção da Universidade como “destrutiva, histérica, míope ou de mau gosto” o que corrobora a ideia de que o texto do reitor tenha sido desenvolvido em meio a uma indignação e revolta, com intenção de enfrentamento ao jornal.

Relação Discurso Organizacional X Discurso Midiático

Apesar de tão diferentes, vale lembrar que os dois textos foram produzidos em um intervalo de dois dias de diferença. Ou seja, foram construídos sob o mesmo contexto. Porém, enquanto um ressalta os problemas da Instituição, o outro tenta reverter os prejuízos de imagem rebatendo as acusações com dados e informações favoráveis à instituição.

No entanto, o que os dois têm em comum é a abordagem relacionada ao período eleitoral, que foi utilizada como justificativa em ambos os discursos. No primeiro, o jornal utilizou a questão da proximidade das eleições para justificar a participação do presidente Lula, apoiador da candidata a presidente Dilma Rousseff, em eventos da Universidade, enquanto que no segundo material a Universidade utilizava o mesmo pretexto, porém para justificar a postura agressiva do jornal com relação à divulgação dos dados de maneira tendenciosa.

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