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6.3 MRDC Implementation and Validation
Conforme já mencionei anteriormente, o espaço no qual a escola está situada provisoriamente é totalmente novo. A construção foi feita de alvenaria, pois a prefeitura pretende que o mesmo local sirva para a liderança comunitária do bairro dos Vigilantes assim que a unidade de ensino voltar para o bairro Vista Linda. Entretanto, alguns materiais geraram transtorno para a diretora da escola, que precisou lidar com problemas recorrentes, especialmente no início de sua gestão. Vale destacar que parte desses objetos veio da “antiga” unidade de ensino. Como os professores e a diretora falavam, apenas “desceram” com eles para a “nova” escola. O termo “descer” refere-se ao fato de que a unidade de ensino original estava situada num morro, no bairro Vista Linda. Desse modo, muitos materiais e objetos entraram na escola nova com certo desgaste.
Nesse quesito de transporte de materiais, a diretora contou consideravelmente com a ajuda do seu marido. Os principais materiais que “desceram” foram os armários. Muitos estavam quebrados e foram todos consertados por ele, que não cobrou nada pelo serviço. Aliás, como apontarei adiante, o marido da diretora foi fundamental para que outros problemas materiais da escola fossem solucionados. Mesmo sabendo que, perante o órgão central, isso não era permitido, ela pedia para que seu marido trabalhasse voluntariamente no reparo de alguns objetos. No início da gestão, a presença dele era mais frequente na unidade de ensino. Entretanto, a partir de meados de março, ela conteve mais a ida dele à escola, justamente para evitar receber reclamações do órgão central ou até mesmo da sua oposição (embora todos soubessem dessa medida adotada por ela).
Ainda assim, a maioria dos problemas com a infraestrutura da escola se deu em objetos novos utilizados na recente obra realizada pela prefeitura. Os imprevistos envolvendo as deficiências materiais foram percebidos e sentidos pela diretora logo no segundo dia de planejamento geral dos professores. Estávamos na sala dos professores quando alguém a chamou. Hesitei em segui-la, principalmente porque era algo ainda novo para mim. No entanto, após cerca de 10 minutos, fui até ela. Quando me aproximei, logo percebi que o dia não seria conforme o planejado. Em meio aos vários atendimentos que ela fazia, dividindo-se em atenção aos pais que chegavam procurando vagas e aos funcionários da escola que a procurava para acertarem seus horários ou para solicitarem materiais e chaves de armários e salas, a diretora teve uma conversa que foi o “divisor de águas” do dia. Em diálogo com uma nutricionista da empresa terceirizada responsável pela prestação de serviços da cozinha, foram pontuadas algumas reclamações das cozinheiras a respeito de problemas com o fogão, a geladeira, a coifa e o filtro de água.
Como o primeiro dia de aula já iniciaria na manhã seguinte, a diretora ficou preocupada e, de certa maneira, desnorteada. Assim, deixou tudo o que estava fazendo e decidiu ir até a cozinha junto com a referida nutricionista e o marido a fim de verificar esses problemas. Chegando lá, seu marido constatou que a coifa, que estava bamba, não funcionava porque a instalação elétrica deixada pela construtora não estava concluída. Além disso, havia fios desencapados, pondo em risco toda a escola, especialmente porque o fogão que ficava ao lado estava sem a mangueira industrial adequada para evitar vazamento de gás.
Irritada ao constatar esses defeitos, a diretora ligou no mesmo momento para a nutricionista do órgão central e disse que, com essa situação, não seria possível ter o primeiro dia de aula, já que as funcionárias da cozinha estavam sem condições de fazer as refeições. Ela ficou de receber uma resposta ainda naquele dia sobre o que deveria ser feito. Em menos de cinco minutos, a mesma nutricionista retornou à ligação e disse que iriam encaminhar merendas frias, mas que era para ter aula. Além disso, marcaram uma reunião com ela, às 13h30min na SEME, onde ela conversaria com a gerência de gestão democrática e com a gerência administrativa.
Nessa reunião, a diretora explicou todos os problemas envolvendo a cozinha da escola. Ponto a ponto, os problemas foram sendo discutidos e negociados. A diretora parecia bem mais tranquila do que quando estava ao telefone, na parte da manhã,
principalmente porque a insatisfação dela parecia ter surtido efeito, já que o órgão central se mobilizou para resolver os problemas na cozinha da escola. Com relação aos problemas que foram mais alarmantes (fiação elétrica exposta e consequente inutilidade dos equipamentos coifa, geladeira, fogão e filtro), a nutricionista, com o consentimento da gerente, afirmou que a Secretaria de Obras iria ficar à frente destes problemas. A diretora não fez mais questionamentos. Parecia estar satisfeita, pois ela ter conseguido “palco e atenção” para a resolução dos problemas da escola, como ela mesma disse, foi o mais importante.
Nos dias seguintes, em conversas com uma das coordenadoras da manhã, a diretora reclamou sobre a situação da cozinha. Disse que, embora o órgão central tivesse encaminhado funcionários para fazer os devidos reparos, estava triste em ver que uma obra recente já estava gerando problemas para a escola. Como as “meninas da cozinha” relataram o defeito dos objetos “em cima da hora”, a coordenadora sugeriu que a diretora pedisse às merendeiras um relatório dizendo que estava tudo certo com a cozinha e que tudo poderia funcionar (ou não) normalmente. Nesse momento ela tranquilizou a diretora, afirmando que, aos poucos, ela aprenderia a lidar com esses imprevistos. A diretora concordou, mas ressaltou que ficar calma diante desses episódios é difícil.
Ainda na primeira semana de aula, a diretora recebeu em sua sala a nutricionista do órgão central, que apenas repassou algumas propostas do que a escola poderia resolver sozinha. Foi falado que era de responsabilidade da escola consertar a geladeira e comprar alguns produtos, como sanitizante e polpa de fruta. Como estava sem Conselho de Escola e sem perspectiva de quando este seria regularizado, comprou, com seu dinheiro, todos os materiais necessários e solicitou que seu marido consertasse a geladeira.
Mais problemas com a infraestrutura da escola foram surgindo ao longo dos dias. No terceiro dia de aula, funcionários da vigilância sanitária do município foram à unidade de ensino e detectaram vazamento em um dos bujões de gás, deixando a diretora desesperada. Ainda que o fiscal tenha tentado tranquilizá-la, dizendo que isso seria um ponto fácil de ser resolvido (sequer houve notificação), a gestora não conseguiu se acalmar. Em todo momento relembrava que a escola, recém-construída, já apresentava vários defeitos. Nesse instante, pensei em como o acúmulo de imprevistos e dificuldades para enfrentar no início de mandato estavam deixando a
diretora cansada e sobrecarregada. Mesmo um problema aparentemente simples de resolver, como o caso do bujão de gás, tornava-se uma barreira gigantesca a ser ultrapassada. Para evitar qualquer novo contratempo, a diretora preferiu isolar a área até que tudo fosse resolvido. Assim, impediu que professores e alunos passassem por aquele local.
Na segunda semana de aula, outro problema atormentou o trabalho da diretora. Um dos blocos da escola ficou, de repente, sem água. Para piorar, era justamente o bloco onde estão situadas as salas, os bebedouros e os banheiros dos alunos. Com isso, houve certo transtorno e dificuldade para lidar com essa situação. Rapidamente, a diretora precisou parar tudo o que estava fazendo e decidiu, junto com as coordenadoras, que os alunos usariam os banheiros do segundo bloco, onde ficam localizadas as salas dos professores. Como esse episódio aconteceu um dia antes da semana de carnaval, a diretora aproveitou todo o feriado para solucionar o referido problema. Sem Conselho de Escola e, dessa forma, impossibilitada de contratar um prestador de serviço, quem resolveu a falta de água naquele bloco foi seu marido. Segundo ele, havia um problema na caixa d’água colocada pela empreiteira que construiu a unidade de ensino.
O laboratório de informática também foi um espaço que gerou transtorno para a diretora. Até março, ele ainda não podia ser utilizado pelos alunos, tendo em vista que a construtora colocou as bancadas que dão suporte aos computadores abaixo da altura exigida. Assim, quando os equipamentos eram colocados em cima da mesa de granito, não era possível ligá-los às tomadas. Dessa maneira, como o laboratório de informática é fundamental para os professores e alunos, a diretora precisou se desdobrar para negociar com o órgão central que a construtora se responsabilizasse pelo acerto dessa questão. Finalmente, a partir de meados março tudo já estava funcionando normalmente, embora a relação com a construtora tenha sido difícil pelo fato de eles protelarem a correção do serviço. Nesse sentido, a demora para que o laboratório de informática ficasse disponível foi uma situação imprevista e que dificultou o trabalho da diretora no início de seu mandato.
Outros problemas nos arranjos materiais que surgiam na escola diziam respeito aos bebedouros, torneiras, portas e fechaduras. Esses imprevistos apareceram de fevereiro a maio, pois eram gerados principalmente pelo vandalismo de alguns alunos. Como os professores e o CTA destacavam, os estudantes não estavam entendendo
que a escola era deles. Não existia um sentimento de “pertença”. Por isso, os atos de depredação eram constantes, em especial nos objetos que destaquei. Sem poder contratar prestadores de serviços que reparassem tais impasses, mais uma vez o marido da diretora era o encarregado de consertar esses problemas. Por vezes, por exemplo, o banheiro masculino ficava impossibilitado de ser utilizado porque as torneiras estavam quebradas. Com isso, a diretora precisava solicitar que seu marido fosse até a escola resolver aquela urgência. Além disso, o conserto de bebedouros e de portas foi feito mais de uma vez em finais de semana. O que os profissionais da escola buscavam fazer para minimizar as situações de vandalismo era construir, junto com os alunos, a percepção de que eles ficariam naquela escola por mais anos e que toda aquela obra foi realizada com dinheiro público. Logo, dinheiro deles e dos pais deles foi utilizado.
Assim, todo o incômodo da diretora em ter que resolver os imprevistos envolvendo os arranjos materiais da unidade de ensino tinha certa justificativa. Insatisfeita, ela comentou comigo que todo dia precisava “apagar incêndio, ao invés de fazer outras coisas”. O que ela gostaria de estar fazendo era aprender mais sobre a merenda, os orçamentos e as prestações de contas, que são assuntos que ela não sabia como lidar. E eu concordava com ela. O dia a dia da escola é tão frenético que acaba muitas vezes consumindo todo o tempo e energia do gestor, impedindo-o de realizar e aprender coisas mais relacionadas ao “formal”. A alternativa encontrada por ela, como já destaquei anteriormente, era de estudar em casa todas as questões que não conseguia analisar na escola.
Além disso, como ficou sem Conselho de Escola até abril para deliberar os serviços e o pagamento dos mesmos, a solução encontrada pela diretora era de pedir que seu marido fizesse as obras de maneira voluntária e comprar, com seu dinheiro, os materiais necessários. Isso a fazia vivenciar um dilema que a deixava angustiada: por mais que o órgão central afirme que isso não seja permitido, a diretora entendeu que, naquele momento, essas ações deveriam ser tomadas. Ou ela fazia dessa maneira, ou ficaria com uma série de problemas nos arranjos materiais da escola que poderiam, inclusive, dificultar o acontecimento normal das aulas. Isso geraria insatisfação da comunidade, dos alunos, dos professores e da própria SEME, que exigiria o funcionamento normal do período letivo. Por fim, como consequência dessas
insatisfações, sua gestão seria prejudicada e mal avaliada pela comunidade escolar e pelo órgão central.
Dessa maneira, as emergências “apagadas” pela diretora ao longo do período em que estive na escola tiveram bastante relação com a infraestrutura da unidade de ensino. Por isso, como esse aspecto influenciou significativamente a gestão da escola, considerei fundamental tratá-lo nesta categoria de apresentação dos resultados. No entanto, outro ponto que caracterizou o “apagar incêndio” do trabalho da diretora foram os imprevistos que ela tinha que resolver com a comunidade escolar e com o órgão central. Por causa disso, ela não conseguia parar, sentar e pensar naquilo que acontecia no cotidiano escolar. A todo instante, ela era chamada por alguém para resolver urgências. Dessa maneira, destacarei no próximo tópico justamente esses episódios, que marcaram “um trânsito intenso” da diretora por toda a escola e pelo órgão central.
8.2.2 Transitando por toda a escola: resolvendo imprevistos com a comunidade