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4.2.1 Produção de novos sentidos e ressignificações da escola

Quando se pensa na relação entre juventude e escola, é importante contemplar a “heterogeneidade de situações e experiências que marcam a condição juvenil na contemporaneidade” (SPOSITO, 2000, p. 79). É preciso encarar a juventude na contemporaneidade problematizada como uma noção que engloba múltiplos sentidos e revela um conjunto de posições políticas, ideológicas e estéticas (BENNETT, 2007).

Desenvolvida em uma etapa em que a escola assume destaque (FORNÃS, 1995), a juventude situa-se entre um tempo de descoberta dos prazeres e de práticas de lazer e sociabilidade únicas a essa fase (GALLAND, 1991), marcada atualmente por situações de precariedade e dificuldade de acesso ao emprego (RENÉ, 1990). A juventude é marcada pela instabilidade (HODKINSON, 2007), diversos “problemas sociais” (PAIS, 1990) e pela conturbada afirmação identitária e adaptação a contextos sociais voláteis (BENDIT, 2011).

Esta pesquisa busca a compreensão do jovem como sujeito social (DAYRELL, 2003), considerando que ele se constrói ativamente nas relações com os outros, conforme elementos disponíveis em sua realidade e seu cotidiano. A escola que ora se reinventa, sem dúvida, pode se converter em espaço privilegiado para essa construção, ao enriquecer a concepção de estudante jovem como sujeito que tem um papel ativo no seu processo de escolarização, capaz de participar e atuar nos diversos espaços escolares e urbanos.

No ensino médio, a escola, geradora de questionamentos, pensamentos, sentimentos e ações, busca ajudar o sujeito a chegar a essas questões e encontrar suas próprias respostas:

Como jovem estudante de escola pública na periferia da cidade de São Paulo, após 2015, passei a enxergar a escola de uma outra maneira. Uma das meninas da sala até brinca comigo porque acham que eu problematizo demais. E é verdade: comecei a ver a escola como um lugar onde tenho espaço e preciso ter participação, enquanto ação política. Ser aluno não é só ir lá estudar e ir para casa” (G. O., 17 anos).

São múltiplos os sentidos e significados que os jovens atribuem às experimentações no interior das escolas públicas. Nos depoimentos, a escola era frequentemente vista como local de suma importância, atrelada à educação como um fator de mobilidade social, garantia de circulação pela cidade e inserção em atividades nos equipamentos culturais.

Ao ensino médio é conferida a responsabilidade da consolidação da educação básica, o que permite intuir que, ao final desse nível de ensino, o jovem estudante deve estar pronto para o exercício da cidadania. E o que pensa um dos estudantes entrevistados: “A escola é um lugar de diálogo, acolhimento e oportunidades para o futuro. Nesse espaço escolar, participo ativamente do meu processo de construção de novos conhecimentos que ultrapassam os muros da escola” (B. S. S., 18 anos).

A escola de ensino médio tem um papel fundamental na formação da cidadania, não só por meio do conhecimento científico, cultural e tecnológico que ela proporciona, mas também pela possibilidade de levar os jovens à experiência do exercício democrático. Com a participação nos processos decisórios, o jovem potencializa cada vez sua voz e assume um papel relevante na responsabilidade social, tornando-se verdadeiramente um sujeito no processo educativo.

Figura 15 - Primeira aula pública no cursinho livre Cláudia Silva Ferreira

Fonte: Arquivo fotográfico elaborado pelo autor. Aula inaugural do cursinho Livre Cláudia Silva Ferreira (2018).

“A escola que estou matriculado é decadente. Durante todo o ensino médio, vivenciei

experiências de exclusão social e cultural no interior da escola. A grande maioria dos jovens estudantes na escola pública onde estudo são de comunidades periféricas, residentes no Jardim João XXIII, Vila Leopoldina e Osasco. A culpa por toda essa exclusão no interior da escola é do Estado brasileiro que, além de ser racista, faz de tudo para sucatear a educação básica pública. Desde as mobilizações dos estudantes secundaristas de São Paulo, no ano de 2016, a minha participação na escola passa a ter um novo sentido. A cada sinal de troca de aula dos professores é uma nova página na história da minha revolução como estudante. Precisamos revirar a escola, destruir os muros, reescrever as propostas curriculares impostas diariamente e contextualizar o conhecimento a nossa condição social (D. D., 17 anos).

A participação a qual nos referimos é aquela que implica em representação e intervenção política, centrada no processo de decisões e não uma mera colaboração, coesão e integração, que pacificam conflitos, no reforço do controle interno e do consenso.

Entendemos que um projeto escolar comprometido com a formação da cidadania deve proporcionar vivências de participação dos alunos – entendidas como intervenção constante nas definições e decisões políticas públicas – sendo necessário que os sistemas de ensino e, em especial, as escolas que atuam no ensino médio, consolidem práticas e relações de gestão democrática.

Penso que a escola não é a base de um futuro, mas o lugar do primeiro convívio em sociedade, de nossos primeiros pensamentos, das primeiras coisas que pensamos. E ali é onde se aprende. Na época das ocupações eu aprendi a viver como ser humano. Além de uma estudante, eu me vi como uma pessoa que está numa sociedade na qual temos várias frustrações, e na qual às vezes vivemos numa rotina que talvez não seja uma rotina que queremos seguir. Talvez trabalhemos em função de um Estado que não sabe de nossa existência. E, na primeira oportunidade que ele tem, ele pisa em nós e destitui nossos sonhos. Quanto menos nós formos e mais ele ser, melhor (G. S.,

18 anos).

É predominante a reivindicação do ideário dialógico (FREIRE, 1980), respeitoso e empático para garantir de fato o espaço escolar democrático. Essa interpretação da realidade fica ilustrada na fala dos jovens: “Na escola, temos a oportunidade de dialogar com os diferentes grupos sociais. Um lugar de aprendizado. Não só com matérias escolares, mas também com lições de vida atribuídas pelos transformadores diálogos” (F. F. C., 17 anos). “A escola possibilita o aperfeiçoamento e convívio com pessoas de diferentes culturas, pensamentos e comportamentos em situações sociais bem distintas” (I. S. A., 17 anos).

Os jovens reivindicam nos espaços “institucionalizados” e “fomentados” pela escola a representação e a necessária participação dos estudantes nas tomadas de decisões.

4.2.2.1 Participação juvenil nos grêmios estudantis

O grêmio estudantil é uma entidade autônoma, representativa dos estudantes, instituída em lei federal no 7.398/85, promulgada em outubro de 1985, denominada Lei do Grêmio Livre (MOURA, 2005), que faculta a sua criação, podendo constituir-se em um canal legítimo de exercício de cidadania e participação nas decisões democráticas da escola. A importância do grêmio fica evidente na fala de alguns alunos, como é o caso a seguir: “A escola é um laboratório. Um espaço destinado ao desenvolvimento social e intelectual. A participação em projetos escolares e no grêmio colabora com a nossa formação política e contribui para a construção da identidade” (A. M. B., 17 anos).

Pensar em instituições de espaços democráticos, como é o grêmio estudantil, nos quais os jovens podem viver mais amplamente a juventude, implica no reconhecimento de que eles

são capazes de agir e de tomar decisões responsáveis, sendo necessário um profundo reexame das relações entre adultos e jovens, para além do controle e subordinação ou da omissão e ausência.

As associações de estudantes, no caso os grêmios estudantis, constituem-se em instâncias de direitos e de poder. Entretanto, de acordo com os discursos dos jovens, tais associações não se afirmam, na prática, como instrumentos de objetivos e de interesses dos alunos. Parece que elas existem para além da ação, para corresponder às expectativas sociais e ao atendimento legal de sua existência, respondendo apenas formalmente ao apelo democrático e participativo de tipo formal.

Para Lima (1988), as associações dos estudantes possuem forte dependência hierárquica dentro das escolas, de modo que a capacidade de iniciativa e de mobilização dos estudantes é diminuída e quase sempre vigiada.

O grêmio estudantil é o espaço coletivo de discussões, onde os estudantes podem expor suas opiniões a respeito da comunidade escolar, suas necessidades e desejos, tanto com relação a questões administrativas como pedagógicas, participando ativamente na construção do processo educacional (AGUIAR; GRACIO, 2002).

Pelo fato de eu participar do Grêmio Estudantil na Escola Estadual João XXIII, eu passo a perceber o quanto o abismo é profundo entre as decisões que a equipe gestora toma e a nossa invisível participação. A intenção foi durante os dois anos participando ativamente do Grêmio reivindicar no mínimo um lugar de fala. Eu queria ver aquela escola funcionando de um modo mais atraente para nós estudantes. Debatendo questões da atualidade, propondo espaços para as culturas marginalizadas dos manos que fazem Rap, Funk, Grafite e até mesmo o Pixo (D. D.,

17 anos).

Diante dos relatos expostos pelos jovens estudantes, pode-se afirmar que esses espaços até realizam atividades na unidade escolar, mas quando se trata da resolução de problemas ligados à gestão da escola, os estudantes ficam à margem das discussões.

Ser jovem estudante de escola pública em São Paulo, é você saber que na teoria deveria ser algo bom por estarem dando o ensino a pessoas que não podem pagar por um estudo de qualidade. Para que no futuro tenhamos boas oportunidades no mercado de trabalho. Mas na prática, não é muito bom, pois, faltam professores, verbas para melhorar a infraestrutura da escola, assim, quem sabe teremos um ensino de qualidade. É necessário o aluno se dedicar e dar a volta por cima, independentemente da condição da escola e a péssima relação que mantemos com a direção. Não estão nem aí pra nóis, parça. Somente a galera do Grêmio que insiste diariamente para criar algumas atividades diferenciadas nos intervalos. É uma sementinha que infelizmente não irá germinar nesse território. Precisamos acreditar na nossa capacidade de mudança. Dialogar com os professores e propor projetos mais próximos das nossas necessidades sociais e culturais já foi um ganho da hora! Mas ainda temos muito o que fazer na e pela nossa escola (A. S., 19 anos).

O grêmio estudantil ainda é reivindicado pelos jovens estudantes que buscam uma efetiva participação nas discussões e pautas referentes às tomadas de decisões no interior das escolas. Apenas uma pequena parcela dos jovens entrevistados trouxe em suas narrativas a importância atribuída à participação nos eventos que ocorrem no interior das escolas. Esses espaços são significativos para a potencialização da participação, mesmo que primária, gerando experimentações democráticas durante o processo de criação, desenvolvimento e finalização dos projetos voltados a feiras culturais e atividades realizadas durante a Semana da Consciência Negra. De acordo com um dos estudantes: “O racismo na escola ainda é um tabu, porém, muitos registros de bullying dentro e fora da unidade escolar por conta de traços étnicos, que ocasionam posicionamentos etnocêntricos, xenofóbicos e discriminatórios” (D.D., 17 anos).

Essa ideia é retomada em outro discurso:

“Navio negreiro” relata a situação extrema dos africanos que, em navios, saiam de suas terras em direção à América para serem propriedades de senhores e trabalharem sob regime de escravidão. Ler o livro e discutir com os colegas em rodas de conversa foi uma experiência única, ficamos muito felizes (G. V., 18 anos).

4.2.1.2 A participação estudantil como representante de classe

“A escola é um espaço oportuno para expor os fatos e absorver conhecimentos” (G. C. S., 16 anos).

Um outro ponto que merece a nossa atenção, refere-se à participação dos estudantes como representantes de classe. De acordo com os jovens essa participação conferia-lhes condições básicas para experimentar um envolvimento introdutório na gestão dos conflitos, implicações decorrentes do processo de escolarização dos jovens nas respectivas séries em que estavam inseridos.

Em muitos dos discursos, os estudantes apresentavam suas percepções, que eram elencadas nas reuniões do conselho de classe para dinamizar o processo de diálogo com os professores e gestores da unidade escolar. De acordo com os regimentos escolares, representantes de classe, escolhidos no início do ano por seus pares, deveriam participar do conselho de classe (colegiado responsável pelo acompanhamento e avaliação do processo do ensino e aprendizagem, composto pelos professores e por alunos de cada classe) e do conselho de representantes de classe (instância intermediária e deliberativa do grêmio). Pelos motivos expostos e pelo fato de que o aluno representante de classe normalmente ocupa outras funções atribuídas no regimento escolar ou na proposta pedagógica da escola, consideramos que ele

pudesse fornecer informações valiosas para o estudo da formação política e exercício da cidadania.

4.3 REPRESENTAÇÕES DAS JUVENTUDES ESTUDANTIS QUE REIVINDICAM UMA

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