Diante do que comentamos até aqui, a pergunta motivadora dessa subseção é: como as ideias de Bourdieu podem contribuir para a discussão do tema evasão escolar? Buscando respondê-la, recorremos a uma pesquisa bibliográfica pela produção acadêmica brasileira em Sociologia da Educação baseada em seu pensamento.
À título de uma breve revisão bibliográfica, são apresentados a seguir exemplos de estudos bastaste significativos realizados no Brasil, que apontam para uma relação estreita entre a origem social dos estudantes e suas trajetórias escolares. Observe-se que todos os estudos foram selecionados considerando as reflexões apresentadas para se pensar a evasão escolar (tema base da presente pesquisa).
Sueli Presta e Ana Maria F. Almeida realizaram uma pesquisa com jovens de diferentes classes sociais a fim de apreender suas disposições quanto ao futuro em relação à escola e ao trabalho. Apresentaram resultados desse estudo no artigo “Fronteiras imaginadas: experiências educativas e construção das disposições quanto ao futuro por jovens dos grupos populares e médios”, publicado em 2008. As autoras verificaram que além de haver uma associação significativa entre a estrutura do patrimônio, material e simbólico, de que dispõem as famílias e a maneira como organizam seus investimentos quanto ao futuro dos filhos, há também a maneira como os próprios jovens aceitam e compartilham esses investimentos. Entretanto, a pesquisa que realizaram “[...] mostrou também que o veredito escolar sobre o desempenho dos jovens exerce uma influência significativa na maneira como esses patrimônios são investidos” (PRESTES; ALMEIDA, 2008, p. 406). Na esteira dessas considerações é que se pode perceber a construção de “fronteiras imaginadas”, que marcam a ação dos sujeitos. As autoras observaram, por exemplo, que embora certos grupos sociais
tradicionalmente menos privilegiados venham aumentando suas chances objetivas de chegar até o ensino superior, passando a percebê-lo como algo “possível”, “desejável” ou até mesmo “obrigatório”, para seus congêneres dos grupos médios e superiores, ele aparece como algo “natural” ou quase “automático”.
Paulo Lima Junior, Fernanda Ostermann e Flavia Rezende publicaram, em 2013, um estudo relacionando o desempenho de estudantes nas avaliações de Física Básica em uma Universidade Federal e suas posições originais na estrutura das relações de classe. Sob o título “Análise dos Condicionantes Sociais do Sucesso Acadêmico em Cursos de Graduação em Física à Luz da Sociologia de Bourdieu”, o artigo contém a seguinte conclusão: as variáveis renda familiar e escolaridade do pai4 se mostraram relacionadas ao sucesso e ao fracasso acadêmico na referida disciplina.
Dulcinéa Janúncio Marun defendeu em 2008 sua dissertação de mestrado “Evasão escolar no ensino médio: um estudo sobre trajetórias escolares acidentadas”. Por meio de entrevistas com estudantes que apresentavam trajetórias irregulares no Ensino Médio em uma escola de Osasco-SP, Marun (2008) analisou a relação entre as condições familiares, escolares, sociais e profissionais pregressas e as reiteradas evasões e retornos à escola, assim como com as expectativas e destinos sociais desses jovens. A pesquisa revelou que as expectativas quanto ao destino social desses estudantes pareciam muito mais marcadas pela posição social de origem do que pelo grau de escolaridade alcançado. Apontou também que esses sujeitos interpretavam que suas dificuldades durante a escolarização estavam mais relacionadas a si próprios do que aos processos de ensino.
Marun (2008) também realizou entrevistas com professoras e coordenadora da escola e pode observar que, enquanto representantes da escola, ao tratar todos esses alunos como iguais, sem reconhecer suas especificidades, contribuíam para perpetuar e legitimar as desigualdades escolares. Nas palavras da pesquisadora:
[...] ao transformar as desigualdades de fato em desigualdades de direito, as diferenças econômicas e sociais em “distinção de qualidade”, leva os alunos a incorporarem como inaptidões naturais o que não é senão efeito de uma condição inferior, persuadindo-os de que eles devem o seu destino social à sua natureza individual e à sua falta de dons [...]. (MARUN, 2008, p. 156)
4 Uma terceira variável – escolaridade da mãe – foi considerada para a pesquisa, porém os autores não
Essa pesquisa revelou que tais aspectos reforçam a manutenção de um destino social para esses sujeitos muito próximo a suas origens sociais, evidenciando a escola como instituição que reproduz, perpetua e legitima as desigualdades sociais.
Alicia Bonamino, Fátima Alves, Creso Franco e Sibele Cazelli escreveram conjuntamente um artigo em que colocam lado a lado os estudos de Pierre Bourdieu e James S. Coleman, buscando-se uma perspectiva que enfatizasse os pontos em comum e as diferenças entre os dois sociólogos. Intitulado “Os efeitos das diferentes formas de capital no desempenho escolar”, publicado em 2010, o estudo teve como objetivo principal analisar os efeitos das diferentes formas de capital (econômico, social e cultural) e a mobilização no contexto familiar sobre o desempenho em leitura dos estudantes brasileiros que participaram do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (PISA).
A pesquisa aponta que maior capital econômico (posse de bens) e social (recursos educacionais familiares) condizem com melhor desempenho dos estudantes nos testes na área de leitura (foco da análise). Ela permitiu ainda perceber que estudantes no cenário “alta posse de bens/baixa posse de recursos educacionais familiares” apresentaram um desempenho abaixo da média geral, enquanto que no cenário “baixa posse de bens/alta posse de recursos educacionais familiares” redundaram em um desempenho acima da média. Essa constatação indica que a mobilização de capital social familiar (mobilização da família a respeito da vida acadêmica de seus filhos, disponibilizando recursos educacionais para apoiá-los) é relevante para a vida e a aprendizagem escolar dos estudantes.
Interessante notar um paralelo entre o estudo de Bonanimo et al (2010) e Junior, Ostermann e Rezende (2013). Estes últimos não perceberam relação expressiva entre o desempenho na disciplina de Física Básica dos estudantes com a escolaridade da mãe, enquanto que a pesquisa de Bonanimo et al (2010) demonstrou uma relação acentuada entre o desempenho em leitura dos alunos e a escolaridade materna.