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3.5.4. QUELS MOYENS ?
Como a sociedade natureza não tinha sido discutida criticamente até os anos 60, foi necessário que essa condição modificasse e Loureiro (2008) afirma que o entendimento dialético Sociedade-Natureza impede que se façam afirmações de uma relação considerada como natural ou perfeita dos seres humanos na natureza. Nesta visão, um polo determina as possibilidades do outro. Então, as condições decorrentes da atuação no ambiente são definidas em função de cada modo de vida social, em interação dialética com as condições ecológicas e de sustentabilidade.
Já, para Moraes (1997), esta relação se estabelece por meio de posturas típicas, no tratamento das questões ambientais. Nesse caso, considerou a primeira como sendo o naturalismo cujos problemas ignoram as relações sociais, já que a relação indivíduo-natureza é condicionada às relações sociais, vez que a relação indivíduo-natureza é condicionada às relações naturais e à sua dinâmica. Nesta perspectiva, a questão da ação humana é vista como antrópica, de degradação da natureza.
Em 2016, geólogos do mundo todo se reunirão em uma convenção internacional para tomar uma decisão curiosa. Eles decidirão, no voto, se o planeta Terra mudou de época geológica. Será que nós deixamos para trás a época atual, conhecida como holoceno, e entramos em uma nova época? Alguns pesquisadores acreditam que sim. Para eles, a humanidade modificou o planeta Terra de forma tão intensa que nós entramos no antropoceno, a época em que humanos substituíram a natureza como a força ambiental dominante na Terra.
O antropoceno é um conceito novo, proposto pela primeira vez pelo químico holandês Paul Crutzen. Especialista em química atmosférica – ele ganhou o Nobel em 1995 pelos seus estudos sobre a camada de ozônio –, Crutzen estava familiarizado com a forma como a atividade humana estava mudando a composição da atmosfera. Ao lançar fumaça de automóveis, chaminés e queimadas, a humanidade mudou a composição do carbono na atmosfera, provocando um aumento de temperatura de 1ºC, o derretimento das geleiras e o aumento do nível do mar em, até o momento, 20 centímetros. Isso sem falar em como a humanidade alterou fisicamente o planeta, com concreto e aço. Um exemplo claro são os rios: nas últimas décadas, transformamos os cursos de rios de todas as bacias hidrográficas do mundo
construindo 40 mil barragens. Se os reservatórios de todas essas barragens fossem colocados lado a lado, teríamos uma área alagada equivalente ao Estado da Bahia.
O impacto humano no meio ambiente é evidente. Mas será que essas mudanças são realmente intensas e duradouras a ponto de ficar gravadas na rocha? É isso que os geólogos discutem. Um grupo de trabalho foi criado para estudar se há evidências que justifiquem uma mudança de época. Esse grupo, liderado pelo pesquisador britânico Jan Zalasiewicz, da University of Leicester, apresentará no ano que vem um relatório recomendando ou não a mudança de época. Uma mudança de época precisa ser justificada por provas marcadas nas rochas, assim como para qualquer outra época, era ou período da histórica geológica da Terra. Nós sabemos que a era do gelo acabou (o pleistoceno) porque a retração do gelo pode ser identificada na Groenlândia. Nós sabemos que o período cretáceo acabou, há 66 milhões de anos, porque entre uma rocha e outra há elementos químicos que só podem ser explicados pela queda de um meteoro – o mesmo que exterminou os dinossauros. Ora, se os seres humanos se tornaram o principal motor do planeta, issotem de ficar marcado, de alguma forma, no estrato geológico. Zalasiewicz parece convencido de que é esse o caso. "Quanto mais você olha a evidência, mais você percebe que mudanças substanciais estão acontecendo nos registros geológicos no momento", disse.
As cidades talvez sejam o exemplo mais visível do impacto humano. O asfalto, as luzes, os gigantescos arranha-céus fazem o contraste com as áreas naturais. Segundo Zalasiewicz, uma cidade construída em áreas altas ou montanhosas provavelmente não será preservada após milhões de anos do tempo geológico. A erosão e o tempo a apagarão do mapa. Porém, é possível que outras cidades persistam, criando paisagens humanas inteiras fossilizadas. "Cidades como Nova Orleans, Amsterdã, provavelmente Xangai, têm grandes chances de que suas fundações sejam fossilizadas porque elas estão afundando", diz. Muitas evidências da passagem humana pelo planeta não são visíveis aos olhos, mas são igualmente impactantes: nós até mesmo mudamos a porcentagem de elementos radiativos presentes no planeta, graças a explosões de mais de 2 mil testes de bombas atômicas. Não por acaso, ZALAIEWICZ sugere que a data do início do antropoceno poderia ser 16 de julho de 1945, o dia do primeiro teste da bomba atômica na história.
Numa segunda postura a ênfase recai sobre o tecnicismo, apontados como solução para os dilemas naturais, ignorando os aspectos políticos e econômicos, que contextualizam as opções tecnológicas e seus desdobramentos na sociedade.
Já, outra corrente enquadra-se no romantismo ingênuo (preservacionistas e conservacionistas radicais e eco fascistas, como ideias e pensamentos que são criticadas pelos
ambientalistas por não pensarem e atuarem conforme uma perspectiva social). Essa categoria buscou ser política e ecologicamente correta, porém desconsiderou a dinâmica da natureza e a inevitável ação humana sobre ela, não representando, portanto, controle sobre a mesma.
BOKCHISI (1988) afirmou que “[...] é a sociedade contemporânea que apresenta, em função das relações sociais e de produção identificadas, uma ação predatória e potencialmente ameaçadora da vida na terra”. Induz, portanto, uma interação do ser humano nela (natureza) e com ela; também a responsabilidade do indivíduo e sua tendência instintiva humana de destruição.
Nunca é redundante a reação radical à intervenção humana, vez que existe na natureza ecossistemas que resultou da interação de formas vivas com elementos abióticos (não vivos) e que a espécie humana enquanto existir sobre a terra, atuará sobre eles. (LOUREIRO, 2008)
Em outras palavras, o que deve mudar é o padrão societário e, consequentemente a visão de mundo que se tem e o tipo de relações sociais e de produção ai imbricados, reforçando a ideia de mudanças da sociedade no tocante às perspectivas de se encarar a realidade nos seus diversos contextos, bem como as relações advindas dessas formas de ver o mundo e compreendê-lo.
Na cosmovisão andina tudo tem vida. O tempo precisa dialogar entre Passado, Presente e Futuro. Possibilita a amplitude e compreensão do Buen Vivir. Por esse motivo, a desejada integração entre os povos sul-americanos tem como ponto de partida esse valor fundamental: a vida que é onipresente em todos e tudo e se desdobra com múltiplos significados no tempo. Nessa linha de pensamento, a Sustentabilidade se manifesta pela ternura da Pacha Mama
[16] que abriga todos os seres no seu interior e oportuniza essa integração entre seres humanos
e a natureza.
Viver e conviver são as estratégias com base nas quais perpetuam-se os diálogos entre a trindade indivíduo-sociedade-espécie e a Terra descritos, microscopicamente, na América do Sul. Essa é busca pelo equilíbrio e harmonia naquilo que se torna fundamental, comum ao bem- viver de todos com tudo. A fórmula descrita pelos andinos e demonstrada por Huanacuni rememora [17] a expressão: “somos um em todos, todos em um”.
O horizonte inalcançável, na qual se afasta a cada passo dado, precisa de perseverança. Não obstante o território sul-americano possua diversidade cultural acentuada e agravada por um cenário histórico de dominação e exploração, o tempo exige a sua mudança, especialmente no resgate de vínculo entre os seres humanos e não-humanos. Todos habitam o mesmo planeta. Esse vínculo entre ser humano e natureza é própria da América do Sul e já entoada pela bela
poesia de Neruda: Estou, estou rodeado por madressilva e páramo, por chacal e centelha, pelo acorrentado perfume dos lilases: [...]
Persistir nessa “Estética da Convivência” denota um profundo exercício da Alteridade, de reconhecer a pluralidade de diálogos os quais não se expressam apenas pela comunicação racional humana, porém pelas manifestações da Natureza como “ser próprio”. O desafio da Política Jurídica na elaboração dos “Direitos da Natureza” representa significativo avanço porque se mitiga a postura antropocêntrica e a complementa com outra de caráter biocêntrico.
Na medida em que as relações entre todos os seres vivos os quais habitam a Terra se torna cada vez mais clara, a “Natureza”, sob igual critério, abandona a imagem de “objeto” para se tornar, também, “sujeito de direitos”. Essa condição não representa, ainda, a desejada horizontalidade entre os seres que contribuem para a (equilibrada) manutenção do planeta de variados modos, mas denota a percepção de que a Natureza é finita e incapaz de atender aos interesses do progresso, de um crescimento – especialmente econômico – infinito. http://justificando.cartacapital.com.br/2015/02/19/direitos-da-natureza-e-sua-viabilidade-pela- proposta-buen-vivir/ - acesso em 15/05/2017
Já Claval (2004) numa perspectiva de análise geográfica, disse o seguinte: “[...] a natureza preexistia aos grupos humanos, estes estão inseridos em um meio e concordou com o questionamento dos pesquisadores que consistiu em saber como fazer para extrair do meio ambiente em que estabeleceram, os produtos destinados a sua sobrevivência e a permitir geração após geração a reprodução dos membros, ao enfocar as relações que são estabelecidas entre os grupos humanos e os ecossistemas dos espaços onde vivem e estabelecem suas relações.
Para os autores já citados, BOOCHIN (1988), MORAES (1997), CLAVAL (2004), LOUREIRO (2008) os quais exercitaram perspectivas de abordagens semelhantes com enfoques orientados para aspectos de degradação da natureza pela sociedade como também, mudanças nas relações da sociedade com a natureza como sua efetivação dessas relações em termos de reciprocidade, ficou evidenciado a influência dos processos sociais na natureza, que para SOJA (1988), “[...] deve ser compreendida como constituinte de uma dialética sócio espacial.” Portanto, não é possível estabelecer uma determinação unilateral entre os dois elementos.
Estudar a sociedade e sua interface, numa perspectiva de explicar os relacionamentos entre esses dois domínios da realidade, requer que a questão ambiental tenha um papel importante no sentido de reorientar novas relações de exploração geradas em nome do progresso, com consequências negativas à natureza. Primordial, necessário que as práticas de
gestão ambiental e da Educação Ambiental, não sejam caracterizadas pela sua provisoriedade, mas por sua construção e reconstrução permanentes, permeadas por visões críticas, globais, emancipatórias.