Antes de iniciar a recolha das palavras que alcançam o nível simbólico nas unidades textuais atrás transcritas, convém explicar quais as principais diferenças entre eles.
No seu Curso de Linguística Geral, Ferdinand de Saussure descreveu um signo como uma combinação de um conceito com uma imagem sonora. Uma imagem sonora é algo mental, visto que é possível a uma pessoa falar consigo própria sem mover os lábios. Mas, em geral, as imagens sonoras são usadas para produzir uma elocução. Ou seja, um signo consiste de:
um conceito - o significado (signifié) que é a ideia formada, a imagem que se tem em mente;
uma imagem sonora - o significante (signifiant), ou forma fonológica que é a parte concreta do signo, como sons ou letras e perceptível através dos sentidos.
Em termos simples, um signo linguístico é toda unidade portadora de sentido.
O termo símbolo, com origem no grego symbolon, designa um elemento representativo que está (realidade visível) em lugar de algo (realidade invisível), que tanto pode ser um objecto como um conceito ou ideia, determinada quantidade ou qualidade. O "símbolo" é um elemento essencial no processo de comunicação, encontrando-se difundido pelo quotidiano e pelas mais diversas vertentes da gnose humana. Ainda que existam símbolos que são reconhecidos internacionalmente, outros só são percebidos entre um determinado grupo ou contexto (religioso, cultural, etc.).
137 A representação específica para cada símbolo pode surgir como resultado de um processo natural ou pode ser convencionada de modo a que o receptor (uma pessoa ou grupo específico de pessoas) consiga fazer a interpretação do seu significado implícito e atribuir-lhe determinada conotação. Pode também estar mais ou menos relacionada fisicamente com o objecto ou ideia que representa, podendo não só ter uma representação gráfica ou tridimensional, como também sonora ou mesmo gestual.
O pensamento simbólico é a marca distintiva mais específica da condição humana e resulta de uma transformação que se insere no processo de hominização.
As ideias acerca do simbolismo remontam a Platão e Aristóteles. À época de Platão, mito era sinónimo de absurdo e mentira, narrativas fantasiosas e inverosímeis atribuídas a deuses. Era a imagem desprezível de uma ideia pré-concebida. Aristóteles, cuja filosofia dominou o Ocidente, especialmente na Idade Média, estabeleceu as bases para a oposição entre o pensamento racional, argumentação conceitual da razão, e o gosto e poder do pensamento simbólico. Aristóteles já declarava que não se pensa sem imagens.
Também Bruner (1990) pretende mostrar que, para além dos recursos físicos e psíquicos, a condição humana é reflexo da cultura e da história, e só tem sentido se for interpretada à luz do mundo simbólico que constitui a cultura humana. Segundo o autor, a construção do eu é o resultado de um núcleo de consciência cujo significado se encontra “interpessoalmente distribuído” e que se encontra enraizado em circunstâncias históricas e culturais, fazendo da psicologia cultural uma psicologia interpretativa. A formação do homem não pode ser compreendida apenas como um produto de processos genotípicos definidos ao longo de processos naturais de selecção e constituição da espécie, mas, e sobretudo, de um acabamento simbólico que o lança para fora do mundo estritamente natural para um universo cultural criado por ele mesmo e do qual depende a sua plena realização.
Dominar os mecanismos de produção dos bens materiais e simbólicos e compreender as diferentes formas de interacção, bem como os meios e os processos da sua construção, definem a tarefa do ser humano e o mundo da cultura, sem o qual é impossível compreender a natureza mesma do homem.
Jung (1989) refere que os símbolos são fruto do inconsciente e aponta para a estreita relação dos símbolos mitológicos com os símbolos dos sonhos, assinalando a forte probabilidade de grande parte dos símbolos históricos provir directamente dos sonhos ou por eles ter sido estimulada. Assim, de acordo com Jung, o inconsciente expressa-se primariamente através de símbolos, ou seja, coloca o imaginário no inconsciente, não sendo esse mais uma manifestação de um impulso recalcado, mas a existência de uma camada
138 profunda do psiquismo, o inconsciente colectivo. Para tanto, desenvolve o conceito de arquétipos (estruturas das imagens primordiais da fantasia inconsciente colectiva), evidenciando elementos estruturais da psique inconsciente formadores de mitos.
Bachelard abre, por sua vez, as portas do estudo do imaginário ao propor a abordagem do símbolo, na fenomenologia dinâmica, potência da palavra humana que emerge do inconsciente colectivo.
Aquilo a que nós chamamos de símbolo pode ser um termo, um nome ou até uma imagem familiar na vida diária, embora possua conotações específicas além de seu significado convencional e óbvio. Assim, uma palavra ou uma imagem é simbólica quando implica alguma coisa além de seu significado manifesto e imediato. Esta palavra ou esta imagem tem um aspecto inconsciente mais amplo que não é nunca precisamente definido ou plenamente explicado.
A transformação do signo em símbolo é parte essencial do processo de pensar e como tal, no contexto hermenêutico, o modo de funcionamento da linguagem que, por não ser puramente unívoca, suscita uma necessidade de interpretação. São as expressões de duplo sentido, e não a linguagem unívoca, o campo privilegiado da hermenêutica. O símbolo refere a dupla intencionalidade da linguagem.
Enquanto expressão linguística, qualquer símbolo é um signo e, neste sentido, tal como todo o signo, visa algo para além de si mesmo e vale por isso. No entanto, nem todo o signo é um símbolo porque, ao contrário dos símbolos técnicos perfeitamente transparentes que apenas dizem o que querem dizer com o significado, os signos simbólicos são opacos. Neles um outro sentido se dá e simultaneamente esconde no sentido patente ou literal.
Os símbolos evocam uma realidade que não pode ser nem designada nem reconstruída por detrás deles. O seu duplo sentido suscita sempre ambiguidade. Estão constituídos de tal modo que a sua significação secundária apenas se alcança mediante as ruínas da significação primária.
Todo o símbolo pressupõe, de facto, signos que têm já um sentido primário, literal, manifesto e que por meio deste mesmo sentido remetem para um outro.
O símbolo aparece no âmbito da fenomenologia da religião, ligado aos ritos e aos mitos, enquanto linguagem do sagrado. Aqui, a expressividade do mundo chega, de facto, à linguagem por meio das expressões de duplo sentido.
Como se pode verificar, numerosos autores notaram, com razão, a extrema confusão que reina na demasiado rica terminologia do imaginário: signos, imagens, símbolos, alegorias,
139 emblemas, arquétipos, esquemas, ilustrações, representações esquemáticas, diagramas e sinepsias são termos indiferentemente empregados pelos analistas do imaginário.
Para este trabalho escolhemos essencialmente a análise do imaginário de Gilbert Durand, que, unindo as observações de Bachelard e cumprindo profeticamente o seu desejo de fundar uma ciência do imaginário, partiu da teoria do simbolismo concebida por Jung, aprofundou e deu o modelo de análises do simbólico, por meio da interpretação cultural da linguagem simbólica. Durand estabeleceu no imaginário do homem dois regimes: o diurno e o nocturno. Bachelard queria não ter amarras, enquanto homem nocturno, levando em consideração os sentimentos e aspirações mais profundas, mas aplicando a sobriedade e lucidez do homem diurno, ou seja, da ciência positivista. Nesse sentido, estava preso a uma dinâmica científica clássica e cartesiana. Durand consegue ir além do mestre, concebendo as características que diferenciavam tais regimes sem, no entanto, abraçar tal dicotomia do mestre. Propõe, então, os regimes diurno e nocturno para classificar as dominantes simbólicas. O diurno é estruturado pela dominante postural, explicitada pela tecnologia das armas, mago e guerreiro, rituais de elevação e purificação; o nocturno subdividir-se-ia em digestivo e cíclico.
Durand consegue, por meio dessa concepção, visualizar o projecto antropológico de forma subjectiva, pela natureza humana, e de forma objectiva, pelas manifestações culturais que se relacionam através dos schémes, (imagem afectiva em movimento), que promovem a união entre gestos inconscientes e as representações, formando um esqueleto dinâmico da imaginação humana.
Desta forma, quando estivermos a analisar o léxico do Sagrado na obra do Padre António Lourenço Fontes, tentaremos sempre expor o símbolo e as expressões no seu duplo sentido, usando para tal, e como instrumentos essenciais, o Dicionário de Símbolos e o livro –
As Estruturas Antropológicas do Imaginário – de Gilbert Durand.
Após uma leitura cuidada às unidades textuais seleccionadas, escolhemos o léxico que achamos ser indicador da riqueza dos símbolos que aparecem, no âmbito da fenomenologia da religião, ligados aos ritos e aos mitos, enquanto linguagem do sagrado. Reforçamos aqui novamente a ideia de que a expressividade do mundo chega, de facto, à linguagem por meio das expressões de duplo sentido. Os principais símbolos poderão ser consultados em apêndice.
140