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Perspectives

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Para abordarmos a questão que influencia o possível ―declínio‖ da moral como defendido por Tácito, é necessário apresentar tal ideia de ―declínio‖ inserindo- a enquanto topos. Ele é a reafirmação de uma tradição historiográfica que concebe um imaginário ―degenerado‖ do ―presente‖, sendo a delimitação de um período inferior a um ―passado‖ idealizado. Ao analisarmos esse pensamento, poderemos problematizar se: a) esta seria ou não uma leitura que Tácito faz das obras que o antecederam e b) se ele considerava os antigos como baluartes da moral.

O que é possível observar e indagar é o porquê dessa afirmação constante de declínio. Para Richard Alston (2008, p. 154), Tácito possui uma visão fixa do passado: em suas obras, atuariam as forças do ―presente‖, pois as mudanças sociais e políticas33 que estavam sendo operadas eram determinantes para a construção/legitimação de suas narrativas.

Independentemente do que estivesse acontecendo na política e na sociedade contemporânea, a elite romana podia sempre se relembrar de um passado glorioso, das realizações de seus antepassados, dos quais eram herdeiros. O passado era firme e imutável mas, firmadad nas certezas do passado, a elite romana poderia afirmar sua identidade no presente perigoso e fluido34 (ALSTON, 2008, p. 155 -156).

Igualmente, observamos que Tácito continua com o discurso de emulação e estilo dos autores antigos, no que concerne ao período pretérito, permeado de homens virtuosos. Esse processo constitui parte da historiografia lalina em que eles ―valorizava[m] a apresentação do material reciclado de autores anteriores mostrando

33 ―Tacitus's attitude toward the republican past is in some ways very clear. The past was gone.

Nevertheless, it would seem that the conservatism of for min the Annales and Histories could be read not as ironic comment on the decease of history but as a claim to historiographical continuity. The historian retained value by providing understanding and exempla for the new age. It was only through the correct understanding of the Roman past that the present could be understood‖ (ALSTON, 2008, p. 154).

34―Whatever was happening in contemporary politics and society, the Roman elite could always look

back to a glorious past, to the achievements of their ancestors, of whom they were the direct continuators. The past was firm and unchangeable, and from the certainties of the past, the Roman elite could affirm their identity in the dangerous and fluid present" (ALSTON, 2008, p. 155-156).

um domínio superior do discurso e das técnicas retóricas‖ (MARQUES, 2017, p. 483). Para Alston (2008), os predecessores taciteanos eram considerados ―rochas de retidão‖. Contudo, é perceptível que essa celebração é construída a partir de uma visão renovada sobre o passado que, ao mesmo tempo em que permanecia ―fixo‖, continuava ―vivo‖ enquanto construção contínua fruto de uma visão de renovatio35

. Tito Lívio também foi outro historiador romano que refletiu sobre essa ideia de construção/renovação por meio do momento em que vivia. O autor demonstrava em sua obra que seu momento estava ―degenerado‖ e elencava dois fatores: guerra civil e o colapso da República. Sua obra (História de Roma) ―ajudou a redefinir e reafirmar as virtudes constituintes desse ‗ser romano‘ no período de retomada política e cultural de Augusto‖ (MARQUES, 2013b, p. 43). Para esse historiador, o objetivo de seu trabalho ultrapassaria o deleite e teria como finalidade descrever as virtudes do povo romano e reconstruir a identidade pelo viés das reformas morais de Augusto, apresentando ―determinados personagens, como nos primeiros reis ou em Camilo, [onde] a grandeza do caráter romano é simbolizada em episódios como o estabelecimento da República ou a reconstrução de Roma após a invasão gaulesa‖ (MARQUES, 2013b, p. 28).

Dessa maneira, a memória era, a partir da leitura dos antigos, quase a ilusão concreta de que o passado poderia estar acessível através das lembranças no presente e projetado no futuro. Os autores, atráves dos topos historiográficos, buscavam ―recuperar‖ o momento transcorrido, indicando através dos exempla e dos

mores o que seria o ―passado ideal‖, a fim de torná-lo vivo e, assim, também poder

enfrentar o possível momento turbulento em que sobreviviam, em que representavam o presente rodeado por imperadores tiranos36.

35 ―O que é interessante notar é que a decadência da historiografia romana é para Tácito reversível, já

que ele retomará (eis a ideia romana de renovatio, como vimos no primeiro capítulo) os padrões antigos de mérito do trabalho do historiador. Isso também significa que não é o Principado em si como sistema político que determina a decadência, mas sim a postura dos historiadores no seu primeiro momento, ou seja, até Domiciano, que não compreenderam ou aceitaram a verdadeira natureza da nova situação e se comportaram inadequadamente (em eloquentia), aliado ao fato de serem governados por imperadores que tolheram suas possibilidades de legítima expressão (sem libertas)‖ (MARQUES, 2002, p. 67-68).

36 ―O tempo da lembrança não é o passado, mas ‗o futuro já passado do passado‘. O tempo da

lembrança é, portanto, inevitavelmente diferente do tempo vivido, pois a incerteza inerente a este último está dissipada no primeiro. Isso pode explicar os numerosos casos de embelezamento de lembranças desagradáveis que, ao serem relembradas, são aliviadas da angústia e do sentimento de contrariedade provocados pela incerteza da situação vivida durante a qual se teme sempre o pior. A lembrança é, portanto, algo distinto do acontecimento passado: é uma imagem (imago mundi), mas

Esse possível momento ―decadente‖ foi evidenciado por Tácito através de alguns artifícios retóricos e estilísticos, a saber: a dramaticidade (WALKER, 1960, p. 35-48), a retórica (WALKER, 1960, p. 49-56), a pluralidade do vocabulário (WALKER, 1960, p. 57-65), a alusão (WALKER, 1960, p. 66-77), a imparcialidade (WALKER, 1960, p. 2-5) e a intertextualidade atrelada à metáfora (KRAUSS; WOODMAN, 1997, p. 97).

Antes de detalhar os elementos, destacamos as duas maneiras que Tácito emprega para narrar os acontecimentos: a narração de um fato simples ou o prolongamento a fim de obter determinado efeito sobre o leitor, tornando implícita ou explícita a decadência da moral37, e o ato de mencionar de maneira sintética um evento para que se reforce a ideia de declínio a ele subjacente38.

A dramaticidade constitui-se como o ―arranjo de eventos e a manipulação das características‖ (WALKER, 1960, p. 35) para que se alcancem as temáticas principais. Tais elementos podem ser obtidos, na visão de Walker, através da ironia; dos comentários irônicos (WALKER, 1960, p. 45), de digressões (WALKER, 1960, p. 45), de factum‖ (WALKER, 1960, p. 46); de suas convicções éticas e do caráter que o autor tece a respeito de suas personagens.

A retórica envolve o arranjo dos eventos de forma lógica ou cronológica; nela, a herança cultural é perceptível, pois as técnicas são reproduzidas como elementos ―fixos‖ dos autores. A influência da formação oratória dos historiadores é nítida, pois valem-se da omissão ou não de detalhes, da persuasão para aguçar seus ouvintes, da ironia e do sarcasmo (WALKER, 1960, p. 49-56).

A pluralidade do vocabulário de Tácito se expressa em seus termos incomuns; na inserção de palavras em locais inesperados, e no uso das metáforas com intuito de atingir um efeito emocional no leitor (WALKER, 1960, p. 57-66).

A alusão é empregada para descrever ―um evento ou pessoa não descrita diretamente, mas que se conecta a um conjunto de circunstâncias, pessoas ou

que age sobre o acontecimento (anima mundi), não integrando a duração e acrescentando o futuro ao passado‖ (CANDAU, 2014, p. 66-67).

37 ―The total effect of the speech is to present the Roman proposal as something wantonly and

monstrously cruel, almost perverted [...] The Romans, ‗terrarum ereptores‘, are deaf to the claims of friendship and human duty, and an upheaval in nature will be needed before they will attend to the will of the gods‖ (WALKER. 1960, p. 34).

38 ―The effect to present the whole of a minor episode at once and then return to the continuity of the

main themes, so that the structure of the history is not broken by frequent reference to unrelated topics‖ (WALKER. 1960, p. 36).

ideias que nos levam a ver, sob nova luz, um assunto‖ (WALKER, 1960, p. 66-67). Essa técnica pode ser expressa por meio de lembranças de ―eventos anteriores ou uma indicação das consequências do que pode se esperar no futuro‖ (WALKER, 1960, p. 67) pelo uso de comparações e pela utilização de outros autores a fim de reforçar seu próprio engenho.

A imparcialidade caracteriza-se enquanto topos historiográfico, ou seja, reafirma sua possível ―neutralidade‖, ―isenção‖ e erudição39

ao comportar-se enquanto tributário dessa estilística do mundo antigo. Em Agrícola, o autor revela que não denegrirá o período anterior, contudo, só escreve após a morte do

princeps40; nos Diálogos, ele utiliza a voz de interlocutores (TAC., Dial., I); nas

Histórias, aponta que a adulação seria repugnante, sinônimo até de escravidão, e

que, por esse motivo, não adularia os governos dos imperadores que se propunha a narrar (TAC., Hist., I, 3-5); e, nos Anais, compõe episódios que indicam uma situação mas, em análises profundas, constituem-se como antagônicos a ela41.

O último elemento que aqui destacamos é o atrelamento da intertextualidade e o emprego de metáforas (KRAUS; WOODMAN, 1997, p. 97) com as quais Tácito, cria modelos e estereótipos na narração de eventos. Como exemplo, citamos a Guerra Civil de 69 d.C., em que o autor delineia no imaginário do leitor um arquétipo ideal de governo no Principado e aponta que, apesar da falta da libertas, esse sistema ainda seria a melhor opção para afastar os perigos das contendas (naturais em períodos de exceção) e das invasões. Todas essas marcas estilísticas conduzem a narrativa para uma estrutura mais ampla de degeneração da moral e opressão dos regimes, e provocam a sensação de que o historiador seria ―agnóstico, cético, estoico, fatalista,

39

Para Marincola (1997, p. 158) a imparcialidade constitui-se como parte de uma promessa comum dos historiadores antigos, pois demonstrariam uma isenção frente aos ―eventos reais‖. Assim, os antigos seriam como testemunhas, legitimadores de fatos reforçados através da autoridade que possuíam. Marincola continua afirmando que em todos os momentos históricos latinos, a imparcialidade existe, contudo em tempos de falta de libertas a reafirmação desse topos é maior, visto faz parte de ―um componente fundamental de verdade histórica‖ (MARINCOLA, 1997, p. 160).

40 ―Many modern readers suspect that Tacitus‘ portrait of Domitian is a distortion; even if this were so,

it might still be utterly honest from the writer‘s own viewpoint. It is certain that Tacitus‘ wrote of Domitian as he felt he must after that emperor‘s reign, he knew the nature of oppression and would not lightly choose to blacken a previous age with its horrors‖ (WALKER, 1960, p. 5).

41

A saber, ao narrar o início do governo de Tibério, aponta que esse imperador teria se recusado a receber títulos, como o ―pai da pátria‖, contudo ao analisarmos o trecho, Tácito não quer delinear o imperador enquanto humildade, mas que esse exerceu seu poder por outras vias, como através da lei de lesa-majestade.

fanático-republicano, retórico, idealista desiludido42‖ (WALKER, 1960, p. 2-3).

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