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Du mot au texte, de l’enquête au manifeste 434

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Boutchou, « Capitaine »

3.3. Le slam en un mot : enquête complémentaire

3.3.3. Du mot au texte, de l’enquête au manifeste 434

Bandoneón e acordeón são, sem contar o violão, os instrumentos com maior antiguidade no território uruguaio, encontrados com maior frequência no momento atual. Ambos instrumentos possuem uma característica comum: seu som é produzido por um fole que é movimentado pelos braços do instrumentista, num movimento de abrir e fechar. O fole começa o sistema de produção de ar, produzindo o som quando esse ar atravessa um sistema de linguetas livres. Sem aprofundar nestas questões que para explicar de forma detalhada podem estender consideravelmente o trabalho, vale dizer que visualmente a diferença principal entre um e outro instrumento está baseada no tipo de teclado que utilizam para modificar a altura das notas. O bandoneón tem botões de cada lado e é um instrumento cromático. O acordeón pode ter muitas variantes. Quando tem um teclado tipo piano trata-se também de um instrumento cromático. Quando tem botões (geralmente de maior tamanho que os de um bandoneón) são geralmente diatônicos. Estes botões estão também nos lados do instrumento mas, a diferença do bandoneón, a sua disposição é frontal: no acordeón os botões "olham" pra frente, no bandoneón os botões olham para os lados. Enquanto a diferencia do timbre, dependerá muito dos materiais usados. Por este motivo preferimos não fazer uma diferenciação deste tipo neste momento. Mais para frente observaremos algumas das diferenças entre os distintos tipos de acordeões.

1850 (AYESTARÁN, 1968, p. 65) enquanto que o bandoneón parece ter uma entrada mais tardia. As explicações sobre isto podem ser diversas, mas tentarei observar algumas significativas para este trabalho. Para começar, o bandoneón, que hoje em dia é claramente um instrumento característico do tango, não foi utilizado nos começos do gênero. As datas precisas desta introdução não aparecem com claridade, mas sim parece haver consenso que não foi nos começos (ROSSI, 1958; ASSUNÇÃO, 1984; SIERRA, 1985; VIDART, 2007). Além disto, embora não cabe dúvida que o tango é um fenômeno originado em ambas margens do Rio da Prata115, e mesmo sem datas nem fatos precisos sobre quando e como aconteceu a introdução do bandoneón no tango, o que também parece haver consenso é que aconteceu primeiramente na cidade de Buenos Aires, onde se geraram os primeiros e a maior quantidade de virtuosos do instrumento (AHARONIAN, 2014b, p.26; SIERRA, 1985, p. 41 a 43; ASSUNÇÃO, 1984 p. 176-177), e da onde se expandiu a utilização do instrumento para o interior da Argentina e do Uruguai. Isto faz com que se retarde um pouco mais a chegada do instrumento no interior do Uruguai. Fato que também fica exposto na pouca quantidade de bandoneonistas observados no trabalho de Ayestarán. Solicitamos ao CDM um detalhe dos músicos entrevistados por Ayestarán e, no que aparece nos departamentos de Salto e Rivera (foi dito que não há registro de músicos de Artigas no trabalho dele), não aparece nenhum bandoneonista. Porém, deve ficar claro que isto não significa que não existissem. Segundo os depoimentos recolhidos neste trabalho, podemos confirmar que ao menos a partir da década de 1940, existiram bandoneones e bandoneonistas nas cidades de Artigas, Rivera e Tacuarembó.116 De fato foi em Tacuarembó, em 1950, que se criaram aulas de bandoneón, data que inclusive aparece como um antecedente nacional no ensino deste instrumento (DUNKEL, 1993, p. 3).

Mais recentemente vamos encontrar muitos bandoneonistas. Além dos que iremos apresentar aqui, lembremos que no trabalho citado Tango Doc (2012), encontramos bandoneonistas nas cidades de San Carlos (Maldonado), Treinta y Tres, Tacuarembó e Durazno. Num outro trabalho realizado nos departamentos de Tacuarembó e Rivera, Fornaro (1994) sugere que o bandoneón “es el instrumento preferido, junto con el acordeón de doble 115 Se houvesse dúvidas, observe-se a este respeito a contundente argumentação de Aharonián, particularmente a nota de rodapé na página 105, que se estende até a página 106 do livro Músicas populares del Uruguay (2014b)

116 Por exemplo, o bandoneonista Carlos Nery Suárez (1930-) da cidade de Aritgas, contou que aos 13 anos, ou seja, no ano 1943, começou a tocar um bandoneón que era de seu irmão maior. Existem também registros de bandoneonistas feitos por Ayestarán no departamento de Tacuarembó.

hilera, para ejecutar las tan apreciadas polcas del norte”117 (FORNARO, 1994, p. 63).

Fornaro destaca também a importância do uso “tradicional” do bandoneón, isto é para executar músicas que não seriam do contexto chamado “típico”:

...la importancia del uso tradicional del bandoneón, fuera del contexto llamado “típico”, es decir, más allá de su utilización para la ejecución de tangos, milongas, y valses del tipo “urbano”. (…) En nuestro trabajo de campo hemos registrado en bandoneón, además de tangos, milongas y valses, polcas, rancheras, mazurcas, shotis, marchas, baiones, sambas.118 (FORNARO, 1994, p. 63)

Fica exposta na citação anterior quais gêneros se estão adjudicando como mais característicos do instrumento bandoneón, num nível mais geral: tangos, milongas, e valses do tipo “urbano”, e que estes gêneros seriam próprios do que se conhece como a categoria de “la típica”. Segundo Fornaro, fica exposta a particular utilização do bandoneón que os músicos do interior fazem, ao utilizá-lo para tocar “polcas, rancheras, mazurcas, shotis, marchas, baiones, sambas”, e que para a autora, estes gêneros tocados por bandoneón seriam próprios do “tradicional”. Mas lembremos que a proposta de meu trabalho é de não usar o termo “tradicional” para caracterizar os músicos que fui encontrando. E o mais importante: os músicos entrevistados em nossa pesquisa não se referem comumente a estas utilizações dos instrumentos como “tradicionais”. Tentarei mostrar como é caracterizado o repertório da típica por parte dos músicos da região estudada, mas antes, parece oportuno contextualizar o melhor possível algumas questões, para assim comparar as observações anteriores com os dados que encontramos em nosso trabalho.

O trabalho de campo começa por tentar contatar, primeiramente por via telefônica, os possíveis músicos a serem entrevistados. E aqui surgem as primeiras características a ressaltar. Grande parte dos músicos que temos entrevistado não existe em nenhum tipo de registro institucional deles como músicos; em geral são músicos que não formam parte de nenhuma associação ou agrupamento oficial. Trata-se aliás de pessoas que muitas vezes moram em vilarejos afastados das maiores concentrações urbanas da região, o que faz com que a forma de chegar neles, seja perguntando a outros músicos ou pessoas que os conheçam.

117 “é o instrumento preferido, junto com o acordeón de duas fileiras, para executar as tão apreciadas polcas del norte” T.P.

118 “A importância do uso tradicional do bandoneón, fora do contexto chamado “típico”, ou seja, para além da sua utilização para a execução de tangos, milongas, e valses do tipo “urbano”. (…) Em nosso trabalho de campo temos registrado em bandoneón, ademais de tangos, milongas e valses, polcas, rancheras, mazurcas, shotis, marchas, baiones, sambas.” (T.P.)

Muitos dos músicos sequer têm celulares, e se tem algum telefone, os informantes não tem registro deles. Para se contatar, as pessoas desses vilarejos pequenos e afastados, chegam até onde o outro mora e falam pessoalmente. Assim, muitos dos informantes disseram que para contatar a um determinado músico que eles conheciam, era só chegar até aquele (seu) vilarejo, que eles indicavam ou (geralmente) acompanhavam até o lugar onde os músicos vivem. Claro que para chegar até aquele vilarejo, ou aquele bairro das pequenas e afastadas cidades e povoados do interior, além de percorrer distâncias consideráveis, foi necessário atravessar estradas muito deterioradas ou em reparação. Observo estas condições, não para mostrar o esforço que levou chegar até eles, e sim porque precisamente mostram que os músicos que moram nestes lugares estão com certo isolamento respeito aos tempos atuais, algo mais vinculado com o tipo de vida rural que citava na contextualização, o que os assemelha precisamente com parte das características que observamos sobre os músicos folclóricos que estudaram Ayestarán e seus contemporâneos.

A premissa foi entrevistar todos os músicos que soubemos existem na região estudada, mas por questões logísticas e de tempo, não foi possível entrevistar todos. O leitor observará que, embora não se procurou distintivamente músicos que fossem homens ou mulheres, conseguimos entrevistar só duas mulheres. Soubemos de alguma outra mulher que toca algum desses instrumentos, mas não conseguimos contatá-la; particularmente os informantes falarem de uma que estaria vivendo no “lado brasileiro” no momento atual. Alguns informantes também falarem de mulheres que tocavam no passado, mas além das que vamos a apresentar a nas próximas páginas, não conseguimos contatar nenhuma outra que ainda tocasse na atualidade. Mas deixamos em claro que percebendo a pouca proporção de mulheres encontradas, a intenção foi entrevistar todas as que foi possível sem deixar nenhuma fora. Nos próximos desenvolvimentos o leitor poderá tirar suas próprias conclusões a respeito dos gêneros, neste caso, sexuais.

Há que fazer também um esclarecimento a respeito à terminologia usada. Grande parte da conversa com os músicos tratou a questão dos gêneros (agora sim musicais) que eles conhecem e costumam tocar. Só que precisamente o termo “gênero” não é de uso frequente pelos entrevistados. Quando perguntei alguma vez utilizando o termo “gênero”, os músicos ficaram sem entender, mas logo esclarecia que estava referindo a “ritmo”, e a conversa continuava sem problemas. Eles costumam usar este termo para referir ao que aqui estamos referindo por “gênero” (e lembremos que Ayestarán e seus contemporâneos usaram o termo

“espécies”), por este motivo, em alguma das transcrições ou citações do que disseram os músicos vamos achar o termo “ritmo”.

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