“Os paulistas”. É assim que boa parte dos entrevistados e jornalistas de A Gazeta se referem aos diretores de redação que ocuparam esse cargo depois da morte de Paulo Torre. A essa referência, em boa parte das vezes, é acompanhada com expressões faciais de descontentamentos, seja por suas decisões administrativas ou editoriais. A “época dos paulistas” coincidiu com alguns fatos que foram determinantes para a história de A Gazeta nos anos seguintes: as demissões por causa da dívida para a construção do parque gráfico e a virada de A Tribuna na venda de número de exemplares, que passou a ser a preferida pelos leitores capixabas.
Ariovaldo Bonas, o primeiro paulista, e substituto de Torre, no seu período em A Gazeta, “Era um jornalista reconhecido por gostar de grandes reportagens e grandes assuntos” (BOURGUIGNON; REZENDE; ARRUDA, 2005, p. 81).
Antes de desembarcar no Espírito Santo, Bonas já tinha atuado em grandes veículos de comunicação do país, participando de algumas experiências históricas para ao desenvolvimento do jornalismo brasileiro. Dentre eles, está o Jornal da República, 11 André Hess de Carvalho, editor-chefe da redação integrada desde janeiro de 2014.
onde esteve como Subcoordenador de Produção, trabalhando ao lado de Mino Carta, Cláudio Abramo, Clóvis Rossi, Ricardo Kotscho, Paulo Markun, Humberto Werneck, Hélio Campos Mello, Nirlando Beirão, entre tantos outros. A experiência durou apenas poucos meses, durando de agosto de 1979 e janeiro de 1980. “Fechou por absoluta falta de fundos. Quase não tinha publicidade, pois o mercado era contra, a venda era pouca e tinha poucas assinaturas”, nos contou Bonas em depoimento em novembro de 2017.
Antes disso, ele já havia trabalhado em O Estado de S. Paulo de 1972 a 1979, primeiro como repórter correspondente e os seis últimos anos dessa passagem como Subcoordenador de Sucursais e Correspondentes. Depois da passagem pelo Jornal da República, passou a ser Coordenador de Produção e subeditor de Brasil da revista IstoÉ.
Entre 1984 e 1992, o jornalista volta mais uma vez a atuar em O Estado de S. Paulo, dessa vez como Editor de Primeira Página e Subsecretário de Redação. Ele esteve no jornal na passagem entre as décadas de 1980 e 1990, quando o veículo, já chefiado pelo jornalista Augusto Nunes, conheceu uma de suas mais radicais transformações, com a informatização da redação, a criação dos cadernos temáticos, a introdução da cor e o lançamento da edição de segunda-feira (ABREU; LATTMAN-WELTMAN; ROCHA, 2003, p. 291).
Do “Estadão”, Bonas foi trabalhar novamente na IstoÉ. Nessa segunda passagem, o jornalista trabalhou como Redator-Chefe entre 1993 e 1996, quando saiu para assumir como Diretor de Redação de A Gazeta.
Em A Gazeta, ele ficou até 1998 e de lá foi para a revista Época, ocupando o cargo de Editor Sênior até 2001. Ele nos recebeu em seu apartamento, localizado no bairro Pinheiros, na capital paulista, na tarde do dia 09 de novembro de 2017. Atualmente, aos 70 anos de idade, desde 2008, Bonas produz conteúdo digital para empresas. “Sangrarei até a morte”, disse em tom de brincadeira sobre a sua atual atuação profissional ao final da conversa.
Sobre o desafio de assumir a vaga deixada por Paulo Torre na redação e dar continuidade ao ápice vivido pelo jornal, o jornalista tentou dar a sua cara ao periódico, sem se preocupar com o passado recente do veículo.
Sabia mais ou menos aonde eu estava me metendo. Sabia da morte do Paulo Torre, a quem eu conhecia apenas de nome. Amigos em comum me indicaram e eu fui até Vitória conversar com Cariê e assim foi...
Não pensei no peso de substituir ninguém e nem cheguei com essa ideia de que o jornal tinha vivido o seu ápice. O que encontrei foi um jornal pesado. Um produto pesado. E, além disso, uma redação presa em si mesma. Tentei destravar e tomei uma decisão, não sei se a mais correta, de trabalhar com a mão de obra do jornalismo local e não importar.
Eu sabia que se importasse, o resultado para exibir seria mais rápido e melhor. Agora, a médio prazo, seria improdutivo, porque você amarraria o trabalho em algumas pessoas que seguramente não iriam ficar lá. Paguei um pouco o preço por isso, pois convivi com jornalistas bons ou razoáveis, mas de diferentes índoles, de diferentes experiências, valorizei tanto uns quanto os outros e tentei formar uma redação, antes de mais nada, profissional e exigindo que os principais repórteres e editores não tivessem empregos públicos. Isso ainda tinha, não era a maioria, mas existia alguns repórteres e colunistas que trabalhavam no governo e isso é complicado. Mas aos poucos foi se resolvendo (BONAS, 2017).
3.2.1 “Chicago é aqui”?
No seu primeiro ano como Diretor de Redação, aconteceu um episódio que marca a sua passagem pelo diário. No dia 09 de julho daquele ano, é publicado na página 10 do jornal um artigo/crônica chamado/chamada “Chicago é aqui”, escrito pelo jornalista Friederick Brum (Ver ANEXO II).
O jornalista, que era responsável pela coluna “Perspectiva” escreveu sobre uma situação fictícia em que narrava casos de venda de sentenças por juízes. Ainda que não utilizasse nome de personalidades do Judiciário capixaba, foi considerado ofensivo pelos desembargadores e juízes, que processaram A Gazeta.
Era um tempo em que o jornalismo começava a colocar opinião. Até então, opinião no meio das notícias tinha ficado um pouco restrito aos editoriais para ter um alívio frente à ditadura e frente ao mercado publicitário. Mas aí teve a volta da opinião através do colunismo, que era a recuperação de um colunismo que não era social e que se mantem até hoje a ponto de termos um jornal de colunistas, que é a Folha.
Fizemos algumas experiências ali. Umas deram certo, outras não. Uma delas sofreu um susto, um acidente de percurso com o Fred Brum e o seu pequeno artigo “Chicago é Aqui”, que em tom ficcional escreveu sobre o Judiciário, creio que do Espírito Santo, colocando algumas situações para supostamente definir alguns personagens.
Para a minha enorme surpresa, esses personagens se identificaram. Não teve um que não vestiu a carapuça. Eu não sabia se eu ria ou ficava estatelado. Era uma obra de ficção, mas aí tomaram as dores e
processaram o Fred, eu, o jornal, o Cariê. No Criminal e no Cível. No meu caso, morreu na terceira instância, no STJ.
O Cariê ficou preocupado com a coluna. Eu achava que o Fred tinha exagerado fazendo uma coisa meio Gabo12 em Vitória, mas eu não acreditava que as pessoas fossem vestir a carapuça. (BONAS, 2017).
Esse “acidente de percurso”, como definiu Bonas, não definiu a sua saída de A Gazeta, mas prejudicou a forma como ele quis dirigir o jornal, com reportagens investigativas, pois após os processos recebidos por causa da coluna, o jornal passou a ser processado corriqueiramente.
Tornou-se complicado porque a partir do episódio do “Chicago”, criou-se uma indústria da indenização. Isso foi imediato. Não apenas os desembargadores supostamente descritos pelo Fred entrando com pedidos de indenizações, isso colocou A Gazeta no corner. Imediatamente depois, qualquer pessoa que se sentia prejudicada por algo publicado no jornal, entrava na Justiça. Isso virou uma febre. Naquele momento, o aparelho judiciário tinha sede de sangue de A Gazeta. Depois passou, porque nem todas as reclamações vingaram (BONAS, 2017).
O episódio do “Chicago é Aqui” foi um sintoma da relação que A Gazeta teria com a política capixaba nos anos seguintes e, para Carlos Lindeberg Neto, um alerta sobre como o jornal deveria ser tocado.
Isso foi um sintoma da relação entre A Gazeta e o Judiciário capixaba. Foi um ato extremamente irresponsável de um jornalista, que contava com a confiança de todos aqui, que fez uma coisa meio suicida, só que ele estava suicidando o outro e não ele. Ele acabou sofrendo processo. Foi perseguido, teve que sair daqui. Até hoje sofremos ações na Justiça por causa disso, com indenizações altíssimas.
Li sobre isso em um voo. Quando li, falei, “não é possível”. Para nós foi um alerta. Um editor não podia deixar passar um negócio desse. Não cuidava da redação nessa época, portanto não sei se foi uma trama ou se foi uma falha de edição. Por mais que você saiba que as coisas acontecem, para se publicar uma coluna daquela natureza, teria que disfarçar mais.
Mas a coluna foi um sintoma de uma situação que já vinha ruim. A verdade veio à tona na “Operação Naufrágio”, que prenderam desembargador, gravaram venda de sentenças... a coluna estava certa, não sei se com as pessoas certas, mas custou muito caro para nós (LINDENBERG NETO, 2017).