II. DISTANCIATION PAR LE LANGAGE
II.1. Les formes de discours
II.1.2. Le monologue intérieur rapporté
Os conceitos de lugar e território, em referência às definições de Milton Santos (2008: 29)10, compõem outros fundamentos que subsidiam a leitura sobre a cultura e a interpretação
dos espaços e dos sujeitos neles estabelecidos ou em trânsito. O geógrafo, ao investigar o contexto por onde a globalização e a mundialização competem, reafirma a disputa pela hegemonia no âmbito do poder econômico e político e pela ressignificação cultural que desta decorre na sociedade. Santos (2008) apresenta também o espaço geográfico como fundante ao ato de refletir sobre os fatos, os acontecimentos e as multifacetadas interpretações sociais, a confluir conceito de Saraiva que a incrementa aos aspectos lúdicos, afetivos, práticos e intelectuais de uma determinada população (1993: 11). A descrição de Leach (1978: 11) dos estruturalistas criva a importância que estes dão às afirmações verbais, à fala, como nos relatos de mitologias e narrativas históricas, pessoais e coletivas, no seu ambiente de vivência. Em registro, para os estruturalistas, as discrepâncias entre o comportamento observado e as descrições verbais são analisadas em função da realidade social. Segundo este mesmo autor, esta linha de pensamento tende a “se preocupar mais com o que é dito do que com o que é feito” (Leach 1978: 11). Leach também lhes reconhece outra iniciativa, ao considerar a importância da relação entre o tempo e o espaço na análise e reflexão sobre os contextos, sujeitos e objetos de investigação, configurando o conceito que “o mapa é um ícone”, e deste se deriva a “descrição metafórica do terreno”, cuja interconexão se mescla à “representação metafórica do tempo” (Leach 1978: 63). Esta complexidade da relação tempo e espaço, expressa também em Santos (2008), delineia novas estruturas e formulações teóricas fundamentais à metodologia etnográfica da observação participante, dado que a cultura também se configura circunscrita às questões de demarcações no tempo histórico e pessoal, e no espaço territorial e virtual. Correspondem também a essa abordagem outras releituras relacionadas com as definições de cultura e as suas variantes que, por sua vez, instauram mais dificuldades que clarezas, isto é, nesta vertente os componentes metodológicos se estabelecem na perspectiva em que as leituras de mundo e de seus signos se perfazem embasadas nas histórias pessoais e coletivas de seus protagonistas, calcadas prioritariamente nos respectivos territórios. Em confluência a essa discussão, se incrementa a definição para o conceito de diversidade cultural
10 Os conceitos de lugar e o território estão reconceituados em Milton Santos (2008: 29) que os insere, além do
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e em destaque a elaborada para a “Declaração Universal sobre a Diversidade Cultural”11
(2002), promovida pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), na qual a
diversidade se incorpora na originalidade e na pluralidade das identidades que caracterizam os grupos e as sociedades que compõem a humanidade. Fonte de mudanças, de inovações e de criatividade, a diversidade cultural é, para a espécie humana, tão necessária quanto a biodiversidade é para a natureza. Neste sentido, ela constitui o patrimônio comum da humanidade e pode ser reconhecida e afirmada pelo benefício das gerações presentes e futuras (UNESCO 2002: s/p).
Estas abordagens sobre os conceitos de lugar e território, também em Santos (2008), implicam descrições cujas categorias subjacentes, como a paisagem, a configuração territorial, a divisão do trabalho no território, as formas-conteúdo e o espaço produtivo desempenham premissas analíticas imprescindíveis à avaliação circunscrita ao escopo cultural e social. Esse debate se coaduna à percepção de Freire (2007: 57) sobre a importância de se estudar profundamente os contextos nas análises de conjuntura e das estruturas sociais dos sujeitos. O espaço geográfico é sinônimo de território usado (Santos 2008: 30) e se constitui em mediação entre a sociedade local e nacional e o mundo. Ao uso do espaço, do território e do lugar, nesse mesmo autor, também se conforma a intencionalidade do poder, mesmo no âmbito do solidário ou resistência, do mercado ou estado.
A esta abordagem do lugar também se infere a percepção de vínculos culturais e afetivos circunscritos aos sujeitos nele estabelecidos e, ao se aperceberem influenciados e influenciadores, esses sujeitos ampliam a complexidade de sua análise ambiental; daqui resulta outra reflexão de Santos (2008: 258), que enfatiza a afetividade enquanto categoria de sistematização e a conecta ao aspecto da afirmação de identidade cultural e na função das vivências dos sujeitos em seus territórios. Neste aspecto, as polêmicas e complexas discussões sobre língua portuguesa e a identidade nacional se mesclam com os conflitos sociais descritos em centenas de registros instigantes sobre as disputas pelo domínio político e cultural no processo de formação do Estado republicano no Brasil e investiga questões ambíguas sobre as línguas na nação. É neste contexto que se coloca a intrigante autoafirmação de identidade dos sujeitos brasileiros em descolamento à cultura portuguesa. Esta perspectiva se percebe recorrente nas obras didáticas no sistema de ensino formal no Brasil, tanto em disciplinas específicas de estudo da língua portuguesa como nos livros de história, geografia, estudos literários e outros. No aspecto de complementar a leitura sobre os conceitos de identidade,
11 Na perspectiva de democratizar a informação sobre conceitos de cultura, a UNESCO disponibiliza seus debates
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intensamente debatido nas ciências sociais, mas não somente, se agregam as classificações elaboradas por Stuart Hall que se entremeiam às complexas conjunturas locais e regionais, e que, mesmo assim, carecem de contínuos aprofundamentos investigativos. Desta feita, segundo descrição de Hall (2006: 10), se apresentam três tipificações de identidade: a) sujeito do iluminismo, b) sujeito sociológico e c) sujeito pós-moderno. A estas caracterizações o sujeito do iluminismo se figura como “totalmente centrado, unificado, dotado de capacidades de razão, de consciência e de ação” (Hall 2006: 10). Ao sujeito sociológico se propõe que a identidade se constitua na interação entre a sociedade e o eu, com a respectiva dependência de influências exteriores, em afastamento à sua autonomia e à autossuficiência. A outra vertente está demonstrada na desconstrução da estabilidade e unidade relativamente pautada na contraposição às tipologias anteriormente explicitadas. Este autor também comenta que a este sujeito pós-moderno não se concebe referência por uma identidade fixa, isto é, por aspecto móvel, continuamente transformadora e fragmentada em várias identidades, na conformação em que este “sujeito assume identidades diferentes em diferentes momentos” (Hall 2006: 13). Acrescenta-se a esta reflexão os apontamentos de Pires (2006: 15) que, ao abordar a discussão entre o conceito de identidade e a noção de cultura, resgata o conceito alemão de kultur ou
bildung. Na interpretação deste autor, para esses conceitos, a cultura abrange um contexto
amplo, no qual se insere o desenvolvimento histórico, os sistemas de fé e a consciência de mudança, isto é, a cultura como relação direta a maximização do potencial humano, do qual a arte, a literatura e a língua se configuram componentes privilegiados em função de seu papel de difusores culturais.
A complementar esta reflexão sobre os conceitos imbricados à cultura se interpõem as observações pertinentes de Freire (2006) ao alertar os agentes culturais, e em especial os educadores, para o seu papel social de difusores culturais, que atuam de forma privilegiada. Para este autor a língua é um instrumento primordial para o protagonismo cultural, a destacar a importância de apurar a prática pedagógica em relação ao uso do livro e a adicionar nesse procedimento a necessidade de se vincular as leituras com as respectivas críticas aos textos e a seus autores, a afirmar que os “livros em verdade refletem o enfrentamento de seus autores com o mundo. Expressam esse enfrentamento. E ainda, quando os autores fujam da realidade concreta estarão expressando à sua maneira deformada de enfrentá-la” (2006: 12). Esse argumento consta dos indicativos expressos no texto de título, “considerações em torno do ato de estudar” (Freire 2006) e compõe uma série de sugestões aos que se pretendam leitores e estudantes, conclamando-os à postura crítica, curiosa, criativa, atenta para com o livro e seu autor, o que concerne uma correlação às posturas de identidade ou preconceito cultural.
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A abrangência deste raciocínio é reafirmada na alegação de que “o ato de estudar é assumir uma relação de diálogo com o autor do texto” (Freire 2006: 12) e permite coadunar a proposição de Ziliotto (2010) que aborda o ambiente do museu como objeto de leitura. Ao se coadunar essa postura ao método de trabalho do observador participante no contexto da investigação, se incorpora a referência em considerar fundamental o respeito às opiniões e às visões de mundo dos sujeitos envolvidos nas pesquisas em campo. Outra ambiência que ilustra essa reflexão se encontra na literatura sobre a formação do Rio Grande do Sul, numa perspectiva analítica e perspicaz correlata à relação entre a história e a formação cultural nacional, tema no qual Verissimo (2008) descreve a saga do Capitão Rodrigo12, personagem
principal e veterano de guerra, que se instala na cidade de Santa Fé, nos idos de 1828. Essa representação literária elucida parte da formação e da identidade cultural do Brasil, recém- declarado independente de Portugal, e descreve a origem de tradições envoltas em conflitos e revoltas regionais.
Esse autor relata que nos rincões do país as notícias demoravam a chegar e as prosas nos bares e nas pequenas mercearias se manifestam como os espaços privilegiados de comunicação. Nessa ambiência rural, o Capitão Rodrigo sente-se confortável para expor a sua opinião: “- Eu sempre digo, se é contra o governo podem contar comigo”; de Juvenal, seu companheiro de jornada, recebe a seguinte argumentação “- Mas o governo, às vezes, pode ter razão”; e, em contra argumentação, “- Mesmo que tenha, isto não vem ao caso. Governo é governo e é divertido ser contra”, replica o Capitão Rodrigo. Nesse diálogo, Juvenal, seu parceiro, profere outra lancinante declaração: “- Me desculpe. Nunca ouvi falar nesse negócio. Sou um homem rude” (Veríssimo 2008: 14).
Em crítica, ambos são homens rudes no sentido das árduas tarefas que a vida lhes impõe. As distinções que os distanciam se materializam nas experiências e vivências individuais. A patente de capitão torna Rodrigo um homem respeitado para os valores rústicos do interior. Juvenal, no entanto, não reconhece a própria sabedoria como valor cultural. Essa postura e forma aparentemente humilde de se expressar mantêm-se viva, como perfil de popular, aos gestos comumente encontrados no meio comunitário brasileiro. Pedir desculpas por ser pobre ou por não ter ido à escola, no caso de não ter a oportunidade de frequentá-la, ou não ser uma pessoa de posses, constitui-se em gestos simbólicos13 e ideologizados de um
culpar-se pela sua condição de vida oprimida e iletrada e os mantém vinculados a um modelo
12 O autor Érico Verissimo (2008) constrói seus personagens e roteiro narrativo, em função de pesquisas históricas
relacionadas com a formação do estado do Rio Grande do Sul.
13 A relação do comportamento humano, e sua ligação com a estética, perfaz os conceitos designados, entre outros,
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de alienação socialmente ensinada, pela qual o oprimido reconhece ao opressor o direito à sua postura de superioridade.
Nesses gestos simbólicos o desculpar também se refere às condicionantes sociais que Freire procura desmitificar ao problematizar que “o grande problema está em como poderão os oprimidos, que “hospedam” ao opressor em si, participar da elaboração, como seres duplos, inautênticos, da pedagogia de sua libertação” (Freire 1981: 32). Essas alegações e expressões simbólicas das culturas populares ultrapassam gerações e remetem os investigadores a aprofundar as contextualizações em suas pesquisas. Ortiz apresenta outro argumento a esta logicidade ao afirmar que “toda diferença é socialmente construída” (2006: 182). Essas posturas que enunciam a submissão social gestam, em contrapartida, comportamentos manifestos através da baixa autoestima em relação à afirmação cultural e oferecem percursos contraditórios aos estudos sobre as identidades e afastamentos dos sujeitos, e a essas demandas se proporciona a necessária ampliação das pesquisas, em aprofundada investigação, frente aos obstáculos pedagógicos inerentes aos processos de trabalho educativos e culturais. Freire alude a essa contextualização ao descrever uma experiência educativa, por onde
de tanto ouvirem de si mesmos que são incapazes, que não sabem nada, que não podem saber, que são enfermos, indolentes, que não produzem em virtude de tudo isto, terminam por se convencer de sua “incapacidade”. Falam de si como os que não sabem e do “doutor” como o que sabe e a quem devem escutar. Os critérios de saber que lhe são impostos são os convencionais (Freire 1981: 54).
Outra inferência nesse debate agrega a discussão sobre a sociedade de consumo quando em Freire se desenvolve a tese que critica o aspecto culturalmente invasivo do
merchandising ao comentar que
uma das grandes, se não a maior, tragédia do homem moderno, está em que é hoje dominado pela força dos mitos e comandado pela publicidade organizada, ideológica ou não, e por isso vem renunciando cada vez, sem o saber, a sua capacidade de decidir (Freire 2007: 51).
A apreciação analítica desse processo encontra a receptividade nas críticas relacionadas com as acepções culturais elitizadas ocidentais, curiosamente instaladas em faces politicamente opostas da sociedade: à esquerda por considerá-la burguesa, opressora e alienadora (Freire 2007: 37) e à direita, ao visualizá-la como mercantilista pela promoção de acesso social ao pop como consumo cultural na “ideia de democracia de massa e ao mercado” (Ortiz 2006: 178), em detrimento da crítica à necessidade de maiores investimentos nas artes e literaturas eruditas consideradas nobres para esta mesma elite.
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Ao examinar outras variantes conceituais relacionadas com os estudos da cultura se diligencia atenção em se observar constantemente outras percepções e premissas. A compreensão de Freire (1981: 30) insere a dupla de palavras que se conjugam como referenciais a esta reflexão opressor-oprimido, e concebe que a análise da cultura numa sociedade implica também entender as suas contradições e, nestas, a relação conflitiva entre o capital e o trabalho. Nessa proposição, a análise dos antagonismos explicitados nas lutas de classes14 condiciona a exploração econômica, política e cultural da vida cotidiana dos sujeitos
nela envolvidos, e a competitividade nessa sociedade hegemonizada pela lógica de mercado gesta valores simbólicos prementes ao capitalismo e se estrutura ideologicamente em função dele. As correlações de forças entre esses polos opostos e o ato de percorrer a metodologia de leitura do mundo sob a ótica das percepções dos oprimidos requer posicionamento em relação àqueles que se debruçam sobre os métodos de investigação, em particular aos que se correlacionam às teorias da cultura. De forma abrangente, Freire exige o posicionamento frente às contradições no contexto pedagógico e cultural e acrescenta outras categorias de análise ao relatar que
ao fazer-se opressora, a realidade implica na existência dos que oprimem e dos que são oprimidos. Êstes, a quem cabe realmente lutar por sua libertação juntamente com os que êles em verdade se solidarizam, precisam ganhar a consciência crítica da opressão, na práxis desta busca (Freire 1981: 39).
Essas composições implicam propor o posicionamento político do observador e a busca por compreender as condicionantes sociais e premissas classificatórias que emergem no campo da pesquisa. Ao inferir que as convivências dialéticas das culturas presentes na relação opressor-oprimido se imiscuem no mundo do trabalho e no cotidiano, esses sujeitos históricos se posicionam como que em atitude performativa (Habermas 2000: 414) e conformam outra complexidade fulcral que permeia as suas identidades culturais. Neste mesmo contexto, o oprimido também atua na conformação do alienado15 ou de servidão16 quando não se revela
contra a exploração. A hegemonia cultural, classista, desempenha um movimento pela construção de um convencimento ideológico e cultural, segundo Gramsci (1978: 62). Este movimento, de caráter classista, na concepção deste mesmo autor, congrega componentes de
14 A definição em Marx (1983) de luta de classes é a configuração que referencia esse contexto.
15 A referência do termo alienado aborda o conceito de alienação em Gramsci (1978:62), ao contrapor o sujeito
que atua politicamente frente a processos de dominação e hegemonia do poder.
16 O Conceito de servidão em Boétie (1999), Discurso da Servidão Voluntária, representa um significado
discursivo que se correlaciona à alienação e à respectiva postura do indivíduo frente às demandas das relações de desigualdade, entre os seus papéis sociais.
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adesão do outro, mesmo que fragilizado na disputa pelo poder. Esta adesão configura um tensionamento letárgico de mobilização social, catalisado pela alienação. Esta percepção de mundo observa que a força e poder coercitivo, através da estrutura do Estado, envolve a população em uma representação ideológica, mobilizando falsos consensos e gestando contradições e tensionamento entre um regime de imobilismo versus um processo de resistência cultural e mobilização social. A ideologia, nesse aspecto, exemplifica na escravidão e dependência econômica, nas condicionantes injustas de trabalho, nas restrições ao ir e vir e nas limitações às melhorias da qualidade de vida como interpretações naturais e imutáveis da sociedade em que se vive. Santos (2008) agrega a esse estudo a importância das dinâmicas que se manifestam nas tradições populares que mantêm vivos o patrimônio imaterial, mesmo em convívio às tratativas de padronização dos movimentos hegemônicos de globalização; nesta circunstância demanda que a
cultura popular tem raízes na terra em que se vive, simboliza o homem e seu entorno, encarna a vontade de enfrentar o futuro sem romper com o lugar, e de ali obter a continuidade, através da mudança. Seu quadro e seu limite são as relações profundas que se estabelecem entre o homem e o seu meio, mas seu alcance é o mundo (Santos 2008: 327).
A compreensão dessas modalidades culturais e políticas, com as quais as sociedades se organizam, recorrem ao afluxo de demandas dos movimentos sociais que, por sua vez, reivindicam ações culturais e conformam as perspectivas que contrariam as leituras de mundo conexas às estratégias de dominação e manutenção do status quo, implicando o surgimento de lutas em resistências ou mesmo em transformações sociais e culturais.