CHAPITRE 2 : Architecture pour la supervision d’une Cloudlet
II. Les défis de la surveillance logicielle
2.2. Le monitoring des périphériques
Dominique Maingueneau contribuiu enormemente através de suas teorizações para pensarmos e desenvolvermos trabalhos no campo da Análise do Discurso, sobretudo, no que tange ao ethos, noção da qual ele propõe atualizações e releituras.
Inicialmente faremos uma retomada, a partir de um relato em que o próprio D. Maingueneau (2008) comenta sobre o seu interesse em teorizar o ethos, retomando historicamente esse conceito e contextualizando a partir de sua emergência:
Quando comecei a refletir sobre ethos, no início dos anos 1980, não imaginava que essa noção chegaria a ter tanta repercussão. Curiosamente, o reaparecimento dessa noção não se deu, de saída, dentro do quadro da retórica, mas sobretudo por meio das problemáticas relativas aos discursos. Enquanto o interesse renovado por parte da retórica já vai longe (foi em 1958 que surgiram as obras fundadoras de Ch. Perelman e de S. Toulmin), foi só nos anos 1980 que o ethos assumiu primeiro plano. No que diz respeito à França, só em 1984 se começou a explorar o ethos em termos pragmáticos e discursivos: em O. Ducrot, que integrou o ethos a uma conceituação enunciativa (1984: 201), e mesmo no meu trabalho, em que propus uma teoria dentro do quadro da análise do discurso (1984, 1987). (MAINGUENEAU, 2008, p. 11).
Maingueneau problematiza e teoriza a questão do ethos em diversos trabalhos (1996; 1997; 2004; 2008a; 2008c; 2010; 2011; 2015a; 2016; entre outros) inscritos na análise do discurso, como o próprio autor afirma na citação. Interessa-nos retomar seu constructo teórico para que possamos, a partir dele, compreender a apropriação desse conceito e avaliar a possibilidade de sua expansão. Desse modo, cabe aqui elencar a ordem de publicação de suas obras88, uma vez que a tomaremos para delinear um percurso de ethos.
• Initiation aux méthodes de l'analyse du discours (Paris, Hachette, 1976)
• Les livres d'école de la République, 1870-1914, Discours et idéologie (Paris, Le Sycomore, 1979)
• Sémantique de la polémique (Lausanne, l'Age d'Homme, 1983) • Genèses du discours (Bruxelles-Liège, Mardaga, 1984)
• Nouvelles tendances en analyse du discours (Paris, Hachette, 1987)
• L'Analyse du discours, Introduction aux lectures de l'archive (Paris, Hachette, 1991) • Les termes clés de l'analyse du discours (Paris, Seuil, 1996)
• Analyser les textes de la communication (Paris, Dunod, 1998)
• Le Rapport de soutenance de thèse. Un genre universitaire (avec C. Dardy et D. Ducard) (Lille, Presses du Septentrion, 2002)
• Cenas de enunciação (Curitiba, Criar, 2006); (São Paulo, Parábola, 2008) • La littérature pornographique (Paris, Armand Colin, 2007)
• Doze conceitos da Análise do Discurso (São Paulo, Parábola, 2010) • Les phrases sans texte (Paris, Armand Colin, 2012)
• Discours et analyse du discours. Introduction (Paris, Armand Colin, 2014)
• The Discourse Studies Reader. Main trends in Theory and Analysis (avec J. Angermuller et R. Wodak) (John Benjamins, 2014)
• La philosophie comme institution discursive (Limoges, Lambert-Lucas, 2015)
Gênese dos discursos (1984) é a obra fundadora da teoria de Maingueneau, a qual opera a partir de conceitos fundadores desse campo de saber. Essa obra revela também sua imensa contribuição para os estudos teóricos e metodológicos da Análise do Discurso, dado seu objetivo em fundar um aparato metodológico e não somente estabelecer postulados teóricos. Embora tenhamos adotado como método de trabalho a utilização de seus trabalhos em um
88 Lista de obras extraída do site do autor. Disponível em <http://dominique.maingueneau.pagesperso- orange.fr/livres.html>. Acesso em: 20 dez. 2018.
crescente, já que ao longo dos anos o autor concebeu, reformulou e abandonou muitas teorizações, acreditamos que sua obra fundadora, esteja atrelada a um projeto maior, que delineia todo seu trabalho a uma questão: às restrições a que se submetem os discursos. (CARREON, 2018, p. 67).
Ao postular sobre a semântica global que rege os discursos em Gênese dos discursos (1984), Maingueneau afirma que há certas restrições a que eles estão submetidos, sendo uma delas o modo de enunciação do sujeito. Embora não tenha tratado explicitamente a questão do ethos, podemos observar que se refere como “uma maneira de ser através de uma maneira de dizer” (MAINGUENEAU, 2008b, p. 94). O autor, assim, introduz reflexões sobre caráter e corporalidade nos quais se apoia o “tom” do enunciador”: “esse ‘caráter’ é inseparável de uma ‘corporalidade’, isto é, de esquemas que definem uma maneira de ‘habitar’ seu corpo de enunciador e, indiretamente, de enunciatário (idem, 2008b, p. 92).
O conceito de semântica global nos interessa na medida em que o ethos é concebido pelo autor como derivado, em primeiro lugar, da semântica global de uma formação discursiva. Segundo Maingueneau, a semântica global de um discurso define também um ethos característico e, em decorrência, um léxico e uma maneira de dizer que lhe dão concretude:
Em vez de considerar o ethos da mesma forma que a retórica, como um meio de persuasão, nos inclinamos a pensá-lo em termos de dispositivo enunciativo. O ethos é parte integral deste dispositivo como o vocabulário ou as formas de circulação próprias do modo de existência do enunciado. Não é então dissociável da situação de enunciação do discurso, o que designamos como cenografia (MAINGUENEAU, 1996, p. 82).
Em Novas tendências em análise do discurso (1987), o termo “ethos” aparece ligado ainda ao tom, mas o autor pontua que, para se ter o conceito dentro dos domínios da Análise do Discurso, afastando-se, portanto, do ethos retórico, de modo que se faça um duplo deslocamento: afastar qualquer caráter “psicologizante” de ethos e admitir que o texto escrito também possui uma voz, ou tom. Maingueneau introduz a noção de incorporação para designar esta “mescla essencial entre uma formação discursiva e seu ethos que ocorre através do procedimento enunciativo”. (MAINGUENEAU, 1997, p. 48).
Em Análise de textos de comunicação (1998), Maingueneau define o conceito de cenas da enunciação para ligá-lo ao ethos. Ele apresenta os enunciados como sendo o produto de uma enunciação que implica uma cena. A cena de enunciação por sua vez desdobra-se em três planos: em cena englobante, referente ao tipo de discurso; em cena genérica, corresponde ao
gênero de discurso; e em cenografia que é “fonte de enunciação do discurso e aquilo que ele engendra” (MAINGUENAU, [1998] 2013, p. 98).
Assim, para Maingueneau (1998), através do ethos, o destinatário é convocado a um lugar inscrito na cena de enunciação, a qual se configura essas três cenas, conforme ele explica de forma mais detalhada nesta passagem:
A cena englobante atribui ao discurso um estatuto pragmático, ela o integra em um tipo: publicitário, administrativo, filosófico...A cena genérica é a do contrato associado a um gênero ou a um subgênero de discurso: o editorial, o sermão, o guia turístico, a consulta médica... Quanto à cenografia, ela não é imposta pelo gênero, mas construída pelo próprio texto: um sermão pode ser enunciado por meio de uma cenografia professoral, profética, amigável etc. A cenografia é a cena de fala que o discurso pressupõe para poder ser enunciado e que, por sua vez, deve validar através de sua própria enunciação. (MAINGUENEAU, 2008, p. 79).
Para melhor compreendermos o funcionamento dessas três cenas de enunciação, Maingueneau (1998) exemplifica através do enunciado político do candidato à presidência, François Mitterrand, por ocasião da campanha de 1988, o qual não se limita apenas ao conteúdo, mas sendo inseparável de sua encenação epistolar:
Meus caros compatriotas,
Vocês compreenderão. Desejo, nesta carta, falar-lhes da França. Graças à confiança que depositaram em mim, exerço há sete anos o mais alto encargo da República. No final desse mandato, não teria concebido o projeto de apresentar-me novamente ao sufrágio de vocês se não tivesse tido a convicção de que nos restava ainda muito a fazer juntos para assegurar a nosso país o papel que dele se espera no mundo e para zelar pela unidade da Nação.
Mas quero também falar de vocês, de suas preocupações, de suas esperanças e de seus justos interesses.
Optei por escrever-lhes uma carta para me expressar sobre todos os grandes temas que merecem ser tratados e discutidos entre Franceses, uma espécie de reflexão em comum, como acontece quando a família se reúne à noite, em volta da mesa.
A partir dessa cena de enunciação, podemos dizer definir que a cena genérica é a do discurso político, cujos parceiros se encontram reunidos no espaço-tempo de uma eleição; A cena genérica, por sua vez, corresponde às publicações por intermédio das quais um candidato apresenta seu programa aos eleitores; e, por último, a cenografia, que se instaura uma correspondência particular, que põe em contato dois indivíduos que mantém uma relação pessoal, isto é, uma cenografia pode apoiar-se em cenas de falas já validadas na memória coletiva, como uma conversa em família durante à refeição. (MAINGUENEAU, [1998] 2013, p. 101).
Em Ethos, cenografia, incorporação (1999), artigo do pesquisador publicado na coletânea – Images de soi dans le discours: La construction de l’ethos, organizada por Ruth
Amossy, revela sua contínua busca em desenvolver e atualizar o conceito de ethos, distanciando-se daquela análise do discurso que utiliza os mesmos corpora e do quadro da argumentação. Maingueneau afirma que “além da persuasão por argumentos, a noção de ethos permite, de fato, refletir sobre o processo mais geral da adesão de sujeitos a uma certa posição discursiva” (MAINGUENEAU, 2008, p. 69). O pesquisador francês propõe a divisão do ethos em discursivo e pré-discursivo, sendo este a primeira imagem que se faz do enunciador, antes mesmo que ele tome a palavra e enuncie. Sendo assim, Maingueneau concebe sua noção de ethos discursivo:
O ethos discursivo é coextensivo a toda enunciação: o destinatário é necessariamente levado a construir uma representação do locutor, que este último tenta controlar, mais ou menos, conscientemente e de maneira bastante variável, segundo os gêneros de discurso. A problemática que desenvolvi a partir dos anos 1980 (MAINGUENEAU 1984, 1999, 2002) visa articular corpo e discurso, para além de uma posição empírica entre oral e escrito. Sendo assim, algo da ordem da experiência sensível se opera no processo de comunicação verbal. A instância subjetiva que emerge da enunciação implica uma “voz”, associada a um “corpo enunciante” especificado sócio- historicamente: uma maneira de circular uma disciplina tácita do corpo que o destinatário constrói apoiando-se num conjunto difuso de estereótipos, avaliados positiva ou negativamente. O discurso, através da leitura ou da audição, faz com que o destinatário partilhe de certo movimento do corpo, em um processo de “incorporação” que implica certo “mundo ético”, associado a comportamento estereotípicos. Assim, o “conteúdo” do enunciado suscita adesão por meio de uma maneira de dizer que é também uma maneira de ser. (MAINGUENEAU, 2010, p. 80).
Ainda sobre essa representação, o autor sublinha que todo texto oral ou escrito possui uma vocalidade específica e os leitores ou co-enunciadores constroem mentalmente uma imagem do enunciador, imagem essa que é a representação da figura do fiador. Desse modo, diz-se que a leitura faz emergir uma figura subjetiva, dotada de caracteres psicológicos e físicos, que é a figura do fiador. Pois de acordo com o autor (2005a, p. 72), “[...] o fiador, cuja figura o leitor deve construir com base em indícios textuais de diversas ordens, vê-se, assim, investido de um caráter e de uma corporalidade, cujo grau de precisão varia conforme os textos”.
Ainda no texto Ethos, cenografia, incorporação (1999), Maingueneau apresenta o esquema representativo de ethos, no qual categoriza o conceito postulando que o ethos efetivo resulta da interação entre diversas instâncias, cujo peso varia de acordo com os discursos. “A distinção entre ethos dito e ethos mostrado inscreve-se nos extremos de uma linha contínua, já que é possível definir uma fronteira clara entre o ‘dito’ sugerido e o ‘mostrado’ não explícito” (MAINGUENEAU, 2011, p. 82). Assim, para a construção de um ethos efetivo, há a relação direta entre ethos pré-discursivo – ligado a estereótipos - e ethos discursivo, sendo este constituído pelo ethos dito e mostrado.
Já em Cenas da Enunciação (2008), coletânea brasileira de artigos publicados pelo autor, Maingueneau traz a reflexão sobre problemas de ethos (2002), considerando como uma categoria com vocação interdisciplinar. Sublinha que sua concepção desse termo é mais encarnada, pois recobre as determinações psíquicas e físicas associadas ao fiador pelas representações coletivas, o que faz com que o leitor não se identifique apenas com o fiador em si, mas também com um mundo ético. Outro fator que o autor aponta como o problema mais delicado refere-se à compreensão do ethos, “por natureza, articula o verbal e o não-verbal para provocar no destinatário efeitos que não decorrem apenas das palavras” (MAINGUENEAU, 2008, p. 61).
Tal processo de incorporação se articula em função dos gêneros e tipos do discurso e, por isso, Maingueneau afirma que não se pode contar com o ethos como um meio de persuasão, ele é parte integrante da cena de enunciação. “A partir desse dado incontornável, muitas explorações do ethos são possíveis, em função do tipo e do gênero de discurso em questão” (MAINGUENEAU, 2008c, p. 73)
Em La philosophie comme institution discursive (2015), largo empreendimento teórico e metodológico, o autor apresenta uma rede de conceitos relevantes para a análise do discurso filosófico. Segundo ele, para apreender a filosofia como discurso, a "cena da enunciação", não a devemos reduzir nem ao texto nem a uma situação de comunicação que poderia ser descrita de fora, pois estes possuem um um papel crucial a desempenhar. Podemos, portanto, falar de uma instituição discursiva da filosofia, pela qual a instituição é estabelecida como um processo de construção de legitimidade, e a instituição como dispositivo que organiza uma prática: a estrutura do campo, o status do filósofo, os gêneros.
Por fim, em Retorno crítico sobre o ethos (2016), Maingueneau tenta propor uma noção mais precisa de ethos, já que para ele o ethos permanece até o momento, uma categoria insuficientemente especificada se compreendermos os enunciados em toda sua diversidade, pois conforme o referido autor, “uma reflexão sobre o ethos não pode mais ser ignorada, a existência de iconotextos que associam intimamente texto e imagem. (MAINGUENEAU, 2016, p. 30).
Assim, retomando alguns postulados anteriores, Maingueneau (1997) toma de empréstimo a noção de ethos da Retórica, a reformula e a enquadra nos pressupostos teóricos da Análise do Discurso Francesa (ADF): “O ethos (do locutor) está associado ao exercício da palavra, ao papel que corresponde ao seu discurso, e não ao indivíduo real, independentemente
de seu desempenho oratório: é, portanto, o sujeito da enunciação enquanto ele está enunciando que aqui está em jogo. (MAINGUENEAU, 1993, p. 138, tradução nossa)89.
Nesse tocante, o linguista francês (2008a) postula que não existe um ethos preestabelecido, mas sim um ethos construído no âmbito da atividade discursiva. Dito de forma diferente, o autor reforça a ideia de que o ethos é uma categoria discursiva, gestado no e pelo discurso, isto é, construído na enunciação.
Em consonância com Aristóteles, a noção de ethos aqui analisada é concebida por sua discursividade, pois esse conceito se constitui por meio do discurso de maneira interativa, já que é um processo de influência sobre o outro, e ainda é um comportamento socialmente avaliado. Por isso, não pode ser concebido fora de uma situação de comunicação sócio-histórica precisa.
Como já dito anteriormente, Maingueneau vem se debruçando nos estudos do ethos há algumas décadas. Diferentemente dos estudos da Retórica, ele procura inscrever seu estudo dentro do quadro da Análise do Discurso ampliando-a e aplicando-a a todo e qualquer texto oral ou escrito. A partir desse movimento, o conceito de ethos foi expandido, e passa a ser abordado como pode ser entendido como a imagem do enunciador criada no momento da enunciação. Ademais, Maingueneau (2008a, p. 63) ressalta que “não vivemos no mundo da retórica antiga, e a fala não é mais governada pelos mesmos dispositivos”.
O autor francês (2008a), ao reconfigurar o conceito de ethos, no quadro teórico da Análise do Discurso, postula que qualquer discurso, seja oral e escrito, pressupõe um ethos que, por conseguinte, implica em certa representação do corpo do seu responsável, do enunciador que assume o discurso. Assim, ao sistematizar esse conceito, ele liga-o diretamente ao tom90 que engendra o discurso. O tom estaria ligado a uma corporalidade e ao caráter do enunciador. A corporalidade remeteria, assim, a uma representação subjetiva do corpo do enunciador na formação discursiva; já o caráter seria “o conjunto de traços psicológicos que o leitor-ouvinte atribui espontaneamente à figura do enunciador, em função de seu modo de dizer” (MAINGUENEAU, 1997, p. 47).
O ethos, então, relaciona-se com a construção de uma corporalidade do enunciador por intermédio de um tom lançado por ele no âmbito discursivo. Dessa maneira, a imagem corporal do enunciador faz emergir a figura do fiador, entendida aqui como aquela que deriva da
89 L´ethos [du locuteur] est [...] attaché à l´exercice de la parole, au rôle qui correspond à son discours, et non à l´individu “reel”, indépendamment de sa prestation oratoire: c´est donc le sujet d´énonciation en tant qu´il est en train d´énoncer qui est ici em jeu”. (MAINGUENEAU, 1993, p. 138).
90 De acordo com Maingueneau, o tom corresponde a “voz”, regidos nos textos escritos, que permite ao co- enunciador construir a representação do enunciador no discurso.
representação do corpo do enunciador efetivo, construindo-se no âmbito discursivo. O fiador é, portanto, aquele que se revela no discurso e não corresponde necessariamente ao enunciador efetivo (HEINE, 2006, p. 44). O ethos do enunciador, então, não diz respeito necessariamente à imagem real do sujeito empírico, já que, conforme Fiorin (2008, p. 139), “o ethos é uma imagem do autor e não do autor real, é um ethos discursivo, implícito”.
Assim, no âmbito discursivo pode-se criar a imagem de um fiador popular e simples, mesmo que o enunciador não tenha essas características. Por conseguinte, a imagem do fiador terá relação com as escolhas lexicais91 feitas pelo enunciador, que conferirão ao enunciado um tom de popularidade e simplicidade, fazendo emergir a imagem de um fiador popular e simples. Ao reformular esse conceito, Maingueneau (2008c, p. 69) acredita que “além da persuasão por meio de argumentos, é possível, através da noção de ethos, refletir sobre o processo mais geral de adesão de sujeitos a uma certa posição discursiva”. Para ele, por meio do ethos, o co-enunciador está convidado a participar da construção da imagem do enunciador, a ter um lugar inscrito na cena enunciativa que o texto requer. Assim, o co-enunciador é levado a participar da construção das cenas enunciativas.
Desse modo, podemos observar que o discurso é um acontecimento inscrito soócio- historicamente do qual seus conteúdos são indissociados do modo de legitimação de sua cena enunciativa. Assim “todo discurso pressupõe uma cena enunciativa para poder ser enunciado, todo ethos é parte constitutiva de uma cena da enunciação”. (MESTI, 2016, p. 56).
Maingueneau (2008a) acredita, ainda, que para o enunciador conferir credibilidade ao seu discurso e ao seu auditório, deve criar um status para a legitimação do seu dizer. Assim, ele desenvolve a noção de ethos ligada à cena de enunciação, a qual é composta por três cenas, às quais ele se propôs chamar de cena englobante, cena genérica e cenografia, conforme já antecipamos. Para o autor, há uma relação de completude entre as cenas englobante e genérica, que funcionam como instâncias reguladoras da discursividade, definindo as estabilidades de tipo e gênero de discurso.
Dentre as três cenas, a cenografia aparece como a cena de enunciação mais propícia aos investimentos de criação do discurso. Trata-se de uma dimensão criativa do discurso, na qual engendra-se a imagem de um momento, de um espaço e dos papéis sociais conhecidos e compartilhados culturalmente. A cenografia pode ser entendida como instrumento legitimador de um enunciado. Como já se sabe, ela não é imposta pelo gênero, ela se constitui no próprio
91 Em relação as escolhas lexicais feitas pelo enunciador, para a Análise do Discurso o sujeito está vinculado a posições ideológicas e que seu discurso se vincula à toda formação discursiva, a qual prende-se e relaciona-se diretamente.
texto. Portanto, um sermão pode ser enunciado por meio de uma cenografia professoral, profética etc., assim como o discurso político é igualmente propício à diversidade das cenografias. Nesse sentido, um candidato poderá falar a seus eleitores como tecnocrata, como operário, como homem experiente etc., e conferir os “lugares” correspondentes a seu público (MAINGUENEAU, 2008a). Ele ainda destaca que “o discurso político mobiliza cenografias variadas, uma vez que, para persuadir seu co-enunciador, devem captar seu imaginário, atribuir- lhe uma identidade invocando uma cena de fala valorizada” (MAINGUENEAU, 2008, p.70). Dessa forma, cada discurso pode comportar uma distribuição preestabelecida de papéis, de modo que o locutor pode escolher, mais ou menos, livremente sua cenografia, como assegura Amossy (2008, p. 16).
Maingueneau aponta duas razões que o motivaram a recorrer a noção de ethos, a primeira é sua relação com a reflexividade enunciativa, e a segunda é a relação entre corpo e discurso que ela implica. Nessa perspectiva, seria insuficiente compreender a instância subjetiva do discurso apenas por meio do estatuto ou do papel, porque ela se manifesta também “como uma “voz” e, além disso, como um “corpo enunciante”, historicamente especificado e inscrito em uma dada situação, que sua enunciação ao mesmo tempo pressupõe e valida