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Com o deslocamento forçado, muitos ribeirinhos perderam também sua casa na cidade. Houve uma dispersão das famílias para bairros periféricos da cidade de Altamira onde estão os Reassentamentos Urbanos Coletivos (RUCs), construídos pela Norte Energia. “A minha mulher falou que é prisioneira, porque

quem vive atrás das grades aqui somos nós”, conta seu Leonardo Aranô. Ele e sua esposa, dona Antônia,

vivem no RUC Jatobá. Distante do rio, ele não consegue pagar um vigilante para deixar sua embarcação na beira com segurança, muito menos pagar um frete diário para deslocar seu material de pesca de casa até o rio. Seu Aranô é pescador, mas não consegue acessar o rio para exercer seu ofício. “Eu sou pescador, mas

não tenho como pescar”, constata. Mesmo com uma embarcação emprestada, ele não pode ficar mais de

um dia fora, pois teme que sua casa seja assaltada – o aumento da violência nos centros urbanos é mais uma consequência da instalação da usina. Sem o rio e sem sua roça, seu Aranô busca serviço “ onde dá”. “Nesse último final de semana, eu tive que trabalhar sexta, sábado e domingo até de noite para poder dar

um jeitinho de pagar as contas. Se você não fizer, você passa fome. ” Segundo as premissas do Plano

Básico Ambiental, deveriam ter sido ofertadas aos moradores atingidos opções equivalentes ao que tinham antes do deslocamento forçado, ou melhores. Não foi o que aconteceu.

O box abaixo, “seção E” do box 01, é a representação, de uma das formas, de como, ao longo da implantação do grande projeto UHE Belo Monte, as escalas da vida foram submetidas a um rolo compressor. Retirados do lugar onde se reproduziam socialmente e eram identificados espacialmente, onde eram vistos enquanto sujeitos do mundo, de um mundo onde se reconheciam, foram submetidos a um local, a outro mundo; mundo este onde não se reconhecem, que é estranho aos seus olhos. Seu Leonardo (Aranor) e seus familiares, ribeirinhos que tinham na pesca sua principal fonte de alimentos e recurso hoje, vivem em um mundo que não somente se apresenta como estranhos a ele, sua esposa e seus filhos, como é hostil a sua forma integrada de viver.

BOX 01 (seção E): DA RESISTÊNCIA DOS RIBEIRINHOS À FORMAÇÃO DO “CONSELHO RIBEIRINHO”.

Fonte: http://diplomatique.org.br/sera-que-todo-mundo-evaporou/, acessado em 05 de Julho de 201739. Texto adaptado. Grifo nosso.

Antes de Belo Monte, a casa para seu Leonardo, quando de sua morada na ilha, era o dentro e o fora. Não obedecia a medidas métricas 10x20, 10x30 etc. Em seu lugar, o de antes de Belo Monte, ele e a família não conheciam grades, portões e não tinham gastos com segurança privada. O barco e seus instrumentos de pesca estavam (sempre) na porta da casa. Seus conhecimentos acumulados por várias gerações eram o que garantiam o sustento da família. A vida não era fácil, mas estavam longe da família de seu 39 A matéria do Jornal Le Monde Diplomatique Brasil, datada de 05/07/2017, é assinada pela antropóloga Ana de Francesco e pela jornalista Isabel Harari.

Leonardo, velhas conhecidas de milhões de brasileiros: a fome e a violência. Em sua antiga vida, o dinheiro não era item obrigatório. Hoje, constata ele e seus familiares, tudo piorou.

Os dramas vividos pela população atingida foram convertidos em estratégia de luta para recuperar a sociabilidade-espacialidade que havia antes da barragem. Lutar para voltar a “ser”, hoje já “não se é”. Para os ribeirinhos a vida é intrinsecamente ligada à condição espacial. Como esta foi totalmente alterada, estes sujeitos não se reconhecem na nova vida. A formação do “Conselho Ribeirinho” é a expressão da defesa, da

permanência de um cotidiano escalar em contraposição a certeza sobre uma não permanência nas novas áreas, nos novos locais destinados à população removida

(expulsa, espoliada) em virtude das obras da UHE Belo Monte, produto da reestruturação urbana e da cidade, promovida pela construção da hidrelétrica.

A nova vida a que foram relegados os povos tradicionais, em nada guarda semelhança com sua vida anterior. O que tornar a permanência destes, nos novos bairros, ou melhor, nas novas periferias da cidade de Altamira, um fato cada dia mais difícil, desafiador e penoso. Essa resistência à mudança na(s) escala(s) da vida das pessoas, e os imensuráveis traumas que lhes foram causados pela violência da obra, é o que aqui chamamos de impactos à lugaridade. Expressa na perda de referência existencial do sujeito.

Não mais existe a casa – a casa “lar”, o habitar (LEFEBVRE, 2016); nem o bairro – a segurança; nem a ilha – o abrigo; nem os vizinhos – o apoio; tudo se foi! Nem mesmo a antiga atividade laboral resistiu. O pescador já não pesca, o agricultor não mais cultiva, não cria mais. Tudo fora, de maneira mais ou menos intensa, apagado, ceifado mesmo.

No livro “Espaço e Política” Lefebvre faz a seguinte afirmação:

“As contradições do espaço não advêm de sua forma racional (…). Elas advêm do conteúdo prático e social e, especificamente, do conteúdo capitalista. Com efeito, o espaço da sociedade capitalista pretende-se racional quando, na prática, é comercializado, despedaçado, vendido em parcelas. Assim, ele é simultaneamente global e pulverizado. Ele parece lógico e é absurdamente recortado. Essas contradições explodem no plano institucional. Nesse plano, percebe-se que a burguesia, classe dominante, dispõe de um duplo poder sobre o espaço; primeiro, pela propriedade privada do solo, que se generaliza por todo o espaço (…). Em segundo lugar, pela globalidade, a saber, o conhecimento, a estratégia, a ação do próprio Estado. Existem conflitos inevitáveis entre estes dois aspectos, e notadamente entre espaço abstrato (concebido ou conceitual, global e

estratégico) e o espaço imediato, percebido, vivido, despedaçado e vendido. No plano institucional, essas contradições aparecem entre os planos gerais de ordenamento e os projetos parciais dos mercadores de espaço” (2016, p. 55).

Fazemos alusão a esta passagem por entender que os processos desencadeados na região de Altamira, tendo em vista a dinâmica “destrutiva-criativa” do “grande objeto” Belo Monte, estão em total consonância com os pressuposto teóricos oferecidos a todos nós por este filósofo. Há de fato uma reificação do espaço. Há de fato, um processo responsável pela acumulação do capital, em outros termos e em outros patamares. Que dar-se a partir de dinâmicas espoliadoras (HARVEY, 2004). O que implica há anos na Amazônia a subalternização de sua sociedade em geral e, de suas populações tradicionais, em particular. Não obstante e a partir da consideração das necessidades dos socioespacialmente atingidos, o quê fazer?

Como recomeçar a vida? Com que força? Sobre quais propósitos? A implantação do “Conselho Ribeirinho” é um sopro de esperança para esses questionamentos. É importante dizer que, lugar e lugaridade, embora guardem relações são indubitavelmente distintos. O lugar é um substantivo e como tal é, por sua vez, dotado de materialidade. Eu encontro o lugar. A lugaridade é um adjetivo, uma qualidade. Não é possível encontrar a lugaridade; somente sendo possível encontrar-se nela. Ela é sentida, sentida por todos aqueles que um dia tiveram a oportunidade de viver um lugar, de serem apropriados pelo espaço (LEFEBVRE, 2006). Daí a casa, a rua, o bairro, a vila não serem expressos em termos de localização, mas sim de relações. Não obstante, cabe reforçar, não existir lugar e lugaridade sem história, sem tempo-espaço vividos.

Daí a carga (enorme carga) de sofrimento socioespacial provocada pelos grandes empreendimentos técnicos, quando da necessidade de deslocar, remover, quase sempre de forma compulsória, expressivo quantitativo de pessoas, grupos sociais e étnicos. A brutalidade imposta pelos “Grandes Objetos” (SANTOS, 1995) à vida das pessoas na Amazônia tem muito de totalitário, de desumano, de desolador. E é a partir deste quadro teórico apresentado que serão defendidas nossas convicções ao longo do trabalho. Tendo em vista, a exemplo de Marre, entender-se que,

“(...) com a formulação das hipóteses dentro de um quadro teórico, tem-se mostrado que a realidade empírica não é imediatamente observável e observada, mas que a observação se fará através do ponto de vista teórico, adaptado na elaboração das hipóteses” (1991, p. 16).

A partir desta perspectiva, qual seja a que advoga não ser possível dissociar teoria e metodologia, dar-se a construção do objeto de forma permanente. Bachelard, Koiré, Bourdieu (apud MARRE, 1991) estão entre os que defendem isso, pois entendem que deve haver a integração da teoria à experimentação, no processo de investigação científica. Para tanto, adverte Marre (1991, p. 17),

“Se isso for verdade, haverá necessidade de mostrar como, no processo de dialética descendente, se pode alcançar uma descrição dos métodos, técnicas e procedimentos de coleta de dados que não seja uma metodologia separada, mas pelo contrário, uma teoria materializada numa sucessão de atos sucessivos, capazes de apreender a realidade empírica que o quadro de relações teóricas sugere (...).”

Não obstante, como apreender a realidade empírica?

Na etapa da dialética descendente, as “dimensões operacionais e indicadores – DOI” (MARRE, 1991) se constituem no caminho para alcançar este objetivo. As DOI são um efeito das causas hipotéticas, que devem ser igualmente operacionalizadas. Intitula- se, portanto, de dimensões operacionais, o modo pelo qual se imagina que um conceito teórico possa ser concretizado na realidade empírica.

Ou seja, consideram-se aqui, que os dados não existem em si mesmos, exteriores (e dados) a um sistema de dimensões operacionais, ao contrário, a procura dos dados é norteada, de maneira absoluta, pelas dimensões operacionais que devem estar relacionadas entre si, tanto verticalmente quanto horizontalmente. Não obstante, “a dialética descendente não para no nível da operacionalização; quando essa última está efetivada, convém perguntar que tipo de amostra se podem fazer, através de que técnicas se poderão coletar os dados” (MARRE, 1991, p. 20).

Após se proceder assim, se faz, então, necessário a definição da amostragem. Uma amostra segundo Marre (1991) é função de certa forma da problemática colocada. Não se apresenta, necessariamente, enquanto cálculo estatístico. Esta pode ser escolhida de maneira qualitativa e, sua relevância ou diversificação relaciona-se com a escala empírica da análise, podendo ser assim qualitativa e/ou quantitativa.

As amostras, na presente pesquisa, são de cunho qualitativo e quantitativo, e do tipo “qualitativo alternativo” conforme MARRE (1991). Para tanto, se fez necessário recorrer a documentos variados, tais como: documentos históricos, registros culturais e de natureza econômica. Além de atas, dossiês históricos, referentes ao período estudado e a

uma quantidade de instâncias, instituições ou organizações ligadas aos desdobramentos sócios reestruturadores promovidos pela construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte à escala da vida das pessoas diretamente impactadas pela obra.

Fora também realizado um conjunto de entrevistas-chave, feitas junto às lideranças de movimentos sociais da região, lideranças de atuação e mobilização histórica em defesa da garantia e do reconhecimento dos direitos dos (quase sempre) negligenciados pelo Estado ou mesmo a sociedade. Em virtude dos anos de experiências e conhecimento acumulados sobre a realidade em análise, optamos por dar prioridade à voz destes sujeitos, para, assim, compreender suas narrativas. Buscando entender conhecer, de maneira pormenorizada, o que os motiva a “continuar na luta”, como eles próprios afirmam.

A jornada de luta destes sujeitos inicia-se com a abertura da BR-230 (fim dos anos 60 e início dos anos 70 do século XX – a de alguns sujeitos antes mesmo desse período), a Rodovia Transamazônica. E de lá pra cá, apesar de se transmutarem as pautas (tendo em vista as mudanças que se processam na escala espaço-temporal), as bandeiras se mantêm – todas ligadas à defesa/garantia e reconhecimento de direitos civis constitucionais e, mais do que isso, ligados à defesa do que os militantes de Altamira e região costumam definir como “a luta por uma vida digna”.

Todavia, a complexidade de situações analíticas expressas em Belo Monte, imputava-nos a necessidade de ir ao encontro de um universo de narrativas que são diversas em várias dimensões e intencionalidades40. Daí a importância de conversar com barqueiros, com agentes de trânsito, com agentes de saúde, policiais, estudantes, moradores dos antigos baixões41 da cidade de Altamira, religiosos, indígenas, lideranças indígenas, militantes de movimentos sociais, sindicalistas, “realocados”, ou seja, os atingidos socioespacialmente pela construção da obra da UHE Belo Monte, que tiveram que deixar seus antigos lugares, na beira do rio ou nas vicinais; que tiveram que deixar suas antigas casas, em seus antigos bairros para ir morar nos novos bairros (novas

40 Para tanto, utiliza-se também, amostras “qualitativa alternativa”, tendo em vista que, não fora determinado o percentual numérico a ser pesquisado, nem estabelecido cálculo estatístico amostral. Já que a amostra deve expressar relação com o quadro das “hipóteses teóricas e das relações estabelecidas conceitualmente nessas hipóteses (...) em outras palavras, a técnica ou as técnicas de estabelecimento da amostra são técnicas que estão relacionadas com a teoria” (MARRE, 1991, p. 21).

periferias de Altamira) construídos pelo empreendedor, frutos da “compensação” pelos impactos provenientes da dinâmica des(re)estruturadora de UHE Belo Monte.

Realizamos, ainda, aplicação de questionário (200 ao todo) junto a essas pessoas, aos moradores dos novos bairros, tendo por objetivo averiguar como elas avaliam as muitas mudanças promovidas pela UHE Belo Monte à escala de suas vidas cotidianas. Na medida em que ampliávamos nossos canais de informação, e, por conseguinte os dados coletados ampliava-se também nossa visão sobre o “grande objeto” (SANTOS, 1995) UHE Belo Monte e seus impactos a(s) escala(s) da vida das pessoas na/da formação socioespacial do Xingu.

As viagens feitas a Altamira durante a construção da Tese e o conhecimento prévio sobre a cidade e sua dinâmica socioespacial, acumulado quando do tempo de morador e professor em Altamira, garantiram certa otimização do/no tempo da pesquisa. Ou seja, não precisávamos, não tínhamos a necessidade de a todo tempo nos “encontrar” em Altamira. Os laços sociais e a rede construída alhures (quando da condição de morador por três anos de Altamira – de 2010 a 2013, professor universitário e colaborador dos movimentos sociais e sindicais), ajudavam a guiar nossos passos no sentido da elucidação do que representava Belo Monte para os diferentes agentes e sujeitos envolvidos (por vontade própria ou não) na dinâmica des(re)estruturadora de Belo Monte.

Isso não quer dizer que não estranhávamos as cidades, de Altamira e Vitória do Xingu, cada vez que voltávamos. O estranhamento era muito intenso. Ruas novas, bairros inteiros surgiam em espaços muito curto de tempo, tendo em vista a expansão abrupta da malha urbana, casas novas eram erguidas para tentar acompanhar a demanda por moradia exigida pelo empreendedor; assim como, para tentar fugir a ação do capital imobiliário que saltou os aluguéis a níveis intoleráveis, multiplicando em média por cinco os preços praticados no período anterior a “chegada” de Belo Monte42.

Edifícios novos eram erguidos para responder a um novo momento vivido pela cidade e região; lojas fechavam, tendo em vista o aumento dos aluguéis dos prédios comerciais e a perda de funcionários para o empreendedor de Belo Monte, capaz de 42 Como o aluguel da primeira casa que morei com minha esposa e filho em Altamira, em área considerada pelos promotores imobiliários de médio-baixa valorização urbana, composta de três quartos, garagem, área de serviço e um banheiro, onde o aluguel de R$ 700,00 (seiscentos reais) saltou para R$ 3.000,00 (três mil reais).

remunerar melhor o trabalhador; lojas que abriam, resultado da chegada à cidade de redes ligadas ao circuito das barragens, ao poder do empresariado em trazer franquias novas à cidade, e/ou mesmo a capacidade do empresariado em ter um giro de capital que pudesse não somente ser alimentado pela movimentação local mas, também regional, já que, muitos empresários tinham atuação ao longo de toda a Transamazônica.

Bairros inteiros foram suprimidos, varridos literalmente do mapa, enquanto novos bairros foram construídos. Casas de colegas e amigos não eram mais nos locais onde antes conhecíamos. Transformações socioespaciais devidamente acompanhadas do/no aumento dos casos de violência urbana e não urbana, dos casos de violência contra a mulher, do aumento nos números de atendidos nos hospitais, postos de saúde, escolas, Conselho Tutelar, dentre outras tantas mudanças. Era como visitar o “rio de Heráclito”. O rio não era mais o mesmo em cada uma das vezes que retornávamos, nós também não.

Essas transformações produzidas pelo grande objeto UHE Belo Monte produziram longas entrevista de até duas horas e meia de duração (como a que fizemos junto ao Bispo do Xingu – hoje bispo emérito do Xingu, constante no prólogo desta tese). Os impactos de Belo Monte, permitiram que nós reencontrássemos sujeitos sociais conhecidos alhures, em situação muito adversa. A exemplo de Raimunda, Antônia Melo, Elena, Mônica e Mariene, conhecidas quando de nossa ação colaboradora junto ao Movimento Xingu Vivo Para Sempre ou junto ao Sindicato dos Professores de Altamira, entre os anos de 2011 e 2013.

Assim como, os impactos da obra nos permitiram conhecer seu Otávio, “o pescador sem rio e sem letras” do texto/reportagem da jornalista Eliane Brum, colunista do jornal El

País. Conhecemos ele e sua família, e pudemos constatar as informações (fortes e

impactantes informações) relatadas na reportagem. E pudemos (mais do que isso) atestar que, a situação de seu Otávio e de sua família (esposa e filhos) havia, sob muitos aspectos, piorado.

O momento de análise das amostras deste conjunto de informações deu-se, a partir da reconstrução dos dados coletados, e essa reconstrução se deu através de várias técnicas de coleta subordinada ao quadro teórico, dentre elas, a partir de Marre (1991), destaca-se: a codificação, o experimento, a interpretação.

Tudo isso, tendo por intuito demostrar que esses passos, são constitutivos das etapas qualitativas necessárias à construção do objeto, porém postas no caminho da dialética descendente. Ainda sobre esses passos, vale dizer que,

“a interpretação não é apenas subjacente a toda a construção do objeto:

ela é a alma da dialética ascendente e descendente da construção do

objeto (...) é o foco que ilumina a demonstração empírica das relações

(MARRE, 1991, p. 2543.

O esforço metódico que as etapas e momentos aqui mencionados trazem, são importantes para lermos o mundo contemporâneo em diferentes níveis escalares, tentando desta forma se aproximar de uma leitura que dê conta de entender e explicar a complexidade do “sistema mundo” atual, marcado por imponderabilidades. “Ler” a redefinição incessante das “relações espaço-temporais”, implica em buscar entender os meandros da redefinição de uma “diferenciação socioespacial” proveniente e geradora de novas desigualdades socioespaciais, etapa fundamental para analisar, de forma fundamentada, as implicações promovidas pela construção da Usina Hidrelétrica Belo Monte à escala da vida das pessoas.

1.3 – Da construção do objeto (e das muitas escolhas que isso envolve) à definição das armas teóricas que serão utilizadas: os (des)caminhos da pesquisa.

A partir (e após a) da apresentação dos intentos da pesquisa e do percurso metodológico trilhado, objetiva-se a partir de agora, tratar de um contexto que envolve: 1) discutir a Amazônia a partir da apresentação de seu processo de ocupação ao longo da história e da lógica (ou das lógicas) que permeiam sua exploração 44; 2) destacando, quais foram os agentes centrais no processo de construção do que hoje é a Amazônia45.

43 Segundo MARRE (1991) é importante fazer o confronto de uma leitura teórica ou empírica determinada com a formulação do problema para, posteriormente, comparar os argumentos das teorias revisadas. Para o autor: “Na prática, a questão do debate é a seguinte: não se trata de fazer uma apresentação da revisão da literatura em si mesma e por si mesma, mas de contrapor os argumentos teóricos revisados aos argumentos teóricos que justificam as hipóteses da pesquisa, partindo daqueles que se negam, para pouco a pouco reforçar os que sustentam ou corroboram a argumentação usada na formulação do problema. Assim, a própria pesquisa projetada adquire uma base teórica maior (MARRE, 1991, p. 27).

44 Entendemos ser isso importante para apreendermos os motivos que levam agentes, internos e externos, ao longo da história, voltarem seu interesse por ocupar e explorar a região amazônica, hoje tendo como um dos principais focos a exploração de seu potencial hidroenergético.

Além de 3) identificar o papel relegado aos núcleos de povoamento e, posteriormente, as cidades46 no processo de consolidação da ocupação do espaço amazônico. Periodizando-o desde a época da economia das “drogas do sertão” 47, até chegarmos ao momento de redefinição dos “fixos e fluxos” (SANTOS, 2004, 2008) na região, marcado pela abertura de eixos rodoviários a partir dos anos 1960 do século XX; momento de intensificação do processo de urbanização da sociedade e do território

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