O controle de qualidade do processo de produção do álcool é importante para evitar paradas na produção, manter a qualidade do processo e manter os parâmetros de qualidade exigidos pela ANP e pela empresa. Assim, como forma de manter esse controle os gestores realizam diariamente um padrão reconhecível de ações que são interdependentes, e que permitem o controle do processo. Esse padrão de ações foi denominado de: rotina de controle de qualidade do processo de produção do álcool. Ela envolve, essencialmente, dois setores dentro da empresa: laboratório e produção. Por meio de documentos, da observação e da narração dos entrevistados, foi possível identificar e descrever o padrão de ações dessa rotina, como pode ser observado na Figura 6 (4).
Figura 6 (4): Rotina de controle de qualidade do processo de produção do álcool.
Fonte: A autora.
Como pode ser observado na Figura 6 (4) a rotina tem início quando a cana-de-açúcar chega na usina e começa a ser processada. Nesse momento, o laboratório passa a preparar o boletim diário de análise1. Para obter as informações necessárias à elaboração do boletim, Rafaela – Gestora do Laboratório – gerencia uma equipe de oito pessoas que são responsáveis pela coleta e análise das amostras de cada etapa (ver Apêndice G) do processo de produção. Essa coleta e análise das amostras são realizadas a cada hora do dia, e registrada no boletim diário de análise.
1 Boletim diário de análise – este boletim fica afixado em um flip chart no laboratório e tem
aproximadamente 1m². Contém todas as análises (dentre elas podemos citar Brix, Pol, PZA, Acidez, ART) realizadas em cada etapa do processo de produção do álcool. Estas análises servem como um indicador para que os gestores possam identificar em quais etapas do processo produtivo estão ocorrendo problemas.
LABORATÓRIO: prepara o boletim diário de análise
PRODUÇÃO: analisa o boletim diário de informações
e as atividades executadas (reunião diária) LABORATÓRIO: prepara o boletim diário de informações
PRODUÇÃO: acompanha o processo de produção
PRODUÇÃO: gera o relatório das atividiades (RAs)
VENDAS: verifica o que tem em estoque
Cana de açúcar (matéria-prima)
No setor de Produção, Miguel, Hugo e Saulo juntamente com suas equipes de trabalho, acompanham as informações registradas no boletim diário de análise, fazendo assim, o acompanhamento do processo de produção. Os dados contidos neste boletim são importantes para o controle de qualidade do processo de produção, uma vez que fornecem informações, a cada hora, sobre todas as etapas desse processo. Além disso, eles mantêm Otávio, o diretor industrial, atualizado sobre o andamento do processo de produção.
O setor de Produção ao realizar o acompanhamento do processo gera os relatórios das atividades2 (RAs) - de cada etapa do processo - e envia ao setor de Laboratório. As RAs contêm informações importantes do processo de produção. Algumas das informações contidas nas RAs - como, por exemplo: número de vezes que a produção parou para manutenção ou limpeza dos equipamentos, qual etapa parou e por que parou - são importantes para que, no laboratório, Rafaela possa montar o boletim diário de informações3.
O setor de Laboratório, por sua vez, recebe as RAs enviadas pelo setor de produção e, juntamente, com as informações produzidas no próprio laboratório (análises químicas), elabora o boletim diário de informações. No final do dia este boletim é enviado para a Gerência de Produção. Por fim, na Gerência de Produção, Otávio realiza uma reunião com os gestores envolvidos na rotina, cujo objetivo é discutir os dados contidos no boletim diário de informações e as atividades realizadas durante a execução da rotina. A discussão tem como objetivo buscar maneiras de melhorar as práxis ligadas à rotina e o processo de produção.
Os setores de Vendas e Agrícola participam de forma indireta nessa rotina. O setor de Vendas recebe o boletim diário de informações, para poder ter conhecimento da quantidade de álcool que se encontra no estoque final, podendo vendê-lo no momento que seja mais adequado para a empresa. Já o setor Agrícola acompanha as informações para sincronizar as atividades da indústria com as demandas de matéria-prima.
Após descrever suscintamente a rotina, a pesquisadora buscou identificar quais são as atuais práxis dos gestores, no que se refere à execução da rotina estudada. Nesta direção, quatro práxis executadas pelos gestores foram identificadas, tais como: analisar situações, planejar, criar parâmetros e procedimentos de controle e gerenciar equipes, conforme mostrado no Quadro 7 (4).
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Relatório das atividades – contém as informações dos problemas ocorridos no controle do processo e descreve suas ações corretivas. Ex: número de vezes que a produção parou para manutenção ou limpeza, porque parou, o que foi feito para sanar o problema e o responsável pelo setor etc.
3 Boletim diário de informações – traz informações de toda produção do dia, da semana e da safra do
ano anterior. Contém informações da matéria-prima que foi processada (quantidade e teor de sacarose), o número de vezes que a produção parou, o tempo aproveitado, o tempo parado, o rendimento, média horaria de moagem, quantidade produzida, dentre outros.
Quadro 7 (4): Atuais práxis de estratégia ligadas à rotina de controle de qualidade do processo de produção do álcool
Rotina (prática) Práxis
Controle de qualidade do processo de produção do álcool Analisar situações Planejar Criar parâmetros e procedimentos de controle Gerenciar pessoas Fonte: A autora
Quando questionados, pela pesquisadora, por que estas práxis eram consideradas estratégicas na execução da rotina, todos os gestores foram unânimes em dizer que o objetivo da rotina é fazer com que a capacidade de processamento industrial atinja a produtividade esperada, dentro dos parâmetros exigidos pela ANP e satisfazendo aos consumidores finais. Para os gestores, a produtividade significa obter uma produção máxima, levando em conta a capacidade das máquinas e equipamentos disponíveis. Além disso, possibilita reduzir ao mínimo possível às horas de parada dos equipamentos, as perdas na produção e manutenção corretiva dos equipamentos, dentre outros. E explicaram que estas práxis são importantes para que esse objetivo seja atingido, controlando o processo e, assim, minimizando as falhas na produção. Conforme os gestores, uma falha em qualquer etapa do processo produtivo compromete a eficiência das etapas seguintes, e a produtividade da empresa.
A partir da identificação das atuais práxis dos gestores, o passo seguinte foi responder ao primeiro objetivo específico deste estudo: o que os gestores aprendem sobre suas práxis de estratégia relacionadas à rotina de controle de qualidade do processo de produção do álcool? A seção seguinte tem como finalidade expor o que os gestores precisaram aprender sobre cada uma dessas práxis.