5.1 SISTEMAS DE PRODUÇÃO E RETRATISMO NOS SERTÕES BAIANOS A expressão que nomeia este capítulo foi inspirada em uma nota publicitária do fotógrafo Abílio Cardozo no jornal O ideal, em 1927, que em passagem pela cidade de Jacobina oferecia seus serviços à população local por uma curta temporada134. A exemplo de outros photographos no período, além de exercer o ofício com a fotografia, Abílio Cardozo deixou pistas na imprensa do interior de sua atuação como professor de música na cidade de Senhor do Bonfim135. As notas publicadas em jornais informando da passagem dos fotógrafos e os anúncios e notícias de ateliês profissionais indicam práticas de usos de retratos fotográficos nos sertões baianos no início do século passado.
O fotógrafo fez questão de destacar na nota seu domínio em qualquer sistema de produção de retratos fotográficos. Provavelmente, a maestria de um profissional da área fosse credenciada pela versatilidade em manipular tais diversidades de técnicas. Portanto, um diferencial frente à concorrência de outros photographos que habitavam ou passavam por aquelas cidades. Como atestado de competência técnica e artística, chegavam a divulgar seus trabalhos em exposições públicas ou através de ofertas de cópias de retratos para os jornais anunciantes136.
A propósito, quais teriam sido os sistemas de produção de retratos utilizados por Abílio Cardozo ou outros profissionais da área quando ofereciam seus serviços em Jacobina e outros municípios daqueles sertões?
Remontando aos primórdios da fotografia, ainda na primeira metade dos oitocentos, os dois sistemas de produção de retratos dividiam-se em daguerreotipia e calotipia.
134 “Photographo”. O Ideal, ano I, n. 12, 31 de julho de 1927, p. 2. 135 “Música”. Correio do Bomfim, Ano IX, n. 30, 24 de abril de 1921, p. 2.
136 “Photographo”. Correio do Sertão, ano II, n. 57, 11 de agosto 1918, p. 3; “Retratos Artísticos”.
Correio do Bomfim, ano XIII, n. 23, 07 de março de 1926, p. 2; “Sr. Joccas!”. Correio do Bomfim,
ano XIII, n. 43, 25 de julho de 1926, p. 2; “A Primeira Exposição Municipal”. Correio do Sertão, n 643, 15 de junho de 1930, p. 2; “Photographo Juventino Rodrigues”. O Lidador, ano II, n. 87, 12 de maio.de 1935, p. 1; “Exposição de retratos”. O Lidador, ano VII, n. 330, 19 de maio de 1940, p. 1.
O primeiro era produzido pelo instrumento robusto patenteado por Jacques-Louis Mandé Daguerre, em 1839. Em síntese, a câmera escura preparava uma imagem em cópia única impressa sobre fina camada de prata polida numa folha de cobre. Depois de pronta, eram normalmente adornadas em estojos luxuosos e não raro guardadas como joias da família, como apontado por Walter Benjamin (1985). O segundo sistema, desenvolvido e patenteado pelo inglês William Henry Fox Talbot, em 1841, propunha uma imagem produzida em papel sensibilizado com iodeto de potássio e nitrato de prata. Diferente do modelo de Daguerre, o talbótipo (como também chegou a ser chamado) tinha o formato de negativo e a partir dele eram impressas cópias de imagens em positivo. Dado o alto custo, os retratos produzidos pelos dois sistemas ficaram restritos às camadas abastadas das sociedades oitocentistas. Não à toa que muitos fotógrafos da época tinham formações artísticas como pintores. Surgiram na Europa diversos ateliês de retratista que ganharam fama com o crescente interesse pelo retrato fotográfico, a exemplo de Octavius Hill, Nadar ou Carjat.
Não demorou muito para que a onda do consumo de retratos em sistemas de daguerreótipo e calótipos tomasse conta dos brasileiros nas grandes cidades137. Em Salvador, já em 1844 um “artista” anônimo vindo de Paris oferecia daguerreótipos para os baianos. Posteriormente, C. L. Micolei, Carlos D. fredericks e Alexandre B. Week, também deixaram anúncios de oferta de serviços e ensino da técnica do daguerreótipo138. A partir da década de 1850, profissionais estrangeiros instalados na cidade, como João Goston, Francisco Napoleão Bautz e Francisco da Silva Romão, além de outros itinerantes, passaram a trabalhar com sistemas como ambrótipo139, ferrótipo140 e eletrótipo141. Nas microrregiões de Jacobina e Senhor do Bonfim, não encontrei exemplar algum desses modelos nos acervos públicos e privados consultados, embora isto não signifique necessariamente que não possam
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A respeito da presença da fotografia no Brasil durante o século XIX, ver a importante obra de VASQUEZ, Pedro Karp. O Brasil na fotografia oitocentista. São Paulo: Metalivros, 2003.
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A respeito da produção e sistemas da fotografia em Salvador no século XIX, ver as já citadas obras de SAMPAIO (2006) de VASCONCELLOS (2006).
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Imagem única produzida em negativo de vidro com colódio úmido. Era apresentada sobre um fundo negro para criar efeito de positivo. A partir de 1854, passou a ser vendido montado em estojo decorado, tal qual o daguerreótipo, com a vantagem de ser mais barato.
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Imagem única produzida em fina placa de ferro com colódio úmido. Surgida na década de 1850, era apresentado inicialmente em estojo e depois passou a ser montado em passe-partout de papel. Foi bastante usada por fotógrafos ambulantes.
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Imagem produzida sobre placa de metal com uso de uma liga ouro-prata. Podia ser usadas em medalhas, caixinhas, alfinete, botões de camisa.
ter existido. É preciso considerar que membros de suas elites mantinham constantes trânsitos pelas capitais brasileiras, a exemplo de Salvador, São Paulo e Rio de Janeiro 142.
Em 1854, o francês André Adolphe Eugène Disderi, um engenhoso inventor pouco conhecido na época, patenteou o seu formato cartão de visita, projeto que lhe rendeu por algum tempo fama e muito dinheiro. Homem de negócio, Disderi soube tirar grande proveito do crescente interesse social pela fotografia na época, promovendo uma revolução na produção de retratos. Através de seu equipamento composto de quatro objetivas, era possível produzir quatro imagens distintas processadas de uma só vez. O modelo cartão de visita possuía dimensão reduzida, em média 6 x 9,5 cm colada sobre cartão de 6,5 x 10,5 cm. Tinha a vantagem de ser mais barato do que os modelos anteriores, tornando-se responsável pela popularização do consumo de retratos em todo o mundo. A onda do cartão de visita foi responsável por formar uma legião de colecionadores de retratos pessoais e de personalidades do campo político e das artes. A fotografia, até então reservada à nobreza ou grande burguesia, ampliou seu espaço público na multiplicação e circulação também da imagem do pequeno trabalhador. Apesar da fama e sucesso financeiro inicial, Disderi morreu pobre e esquecido.
Como ocorreu em várias partes do mundo nas últimas décadas dos oitocentos, o cartão de visita tornou-se popular no Brasil. O aumento do público consumidor da fotografia promoveu a expansão do número de profissionais atendendo na arte do retrato fotográfico. Entre eles, muito estrangeiros em busca de fazer fortuna no país cujo imperador era um amante e incentivador da arte. Os versos dos cartões eram utilizados para divulgar título da casa imperial, premiações em exposições, etc. Salvador contava com diversos ateliês de fotógrafos que atendiam no modelo cartão de visita desde a década de 1860, responsáveis pela confecção de exemplares das elites e profissionais liberais da sociedade soteropolitana e também dos sertões. Nomes como Antônio Lopes Cardoso, Albert Henschel, Guilherme Gaensly, Rodolfo Lindemann, Generoso Portella, Pedro Gonsalves da Silva, Richard A. Read, Inácio Mendo e T. Dias destacam-se entre os retratos localizados em acervos de famílias nos sertões.
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Isso pôde ser notado nas colunas de chegadas e saídas de viajantes dos jornais consultados, anotações em cartões postais, fotografias e correspondências de membros das elites.
Figura 74 - Pedro Gonsalves. Casal, c. 1900. Cartão de visita. Acervo particular Régis Galvão, Campo Formoso.
Figura 75 - Alberto Henschel. Retrato de senhora, c. 1900. Cartão de visita. Acervo particular da família de Amado Barberino, Jacobina.
Figura 76 - Autor desconhecido. Criança, c. 1900. Cartão de visita. Acervo particular da família de José Gonçalves, Jagurari.
Figura 77 - Rodolfo Lindemann. Flodoaldo Souza Benta, c. 1900. Cópia digital. Acervo digital Pedro Bento, Morro do Chapéu.