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Moizeis Sobreira de Sousa 1

Dans le document "Agustina e o Fantasma de Harry Potter" (Page 31-49)

Como descrito anteriormente, Levinson constatou em seus estudos que o paciente infanto-juvenil, quando adentra em um espaço clínico, pode se sentir acuada e esperar os piores resultados ao encontrar o profissional da saúde, buscando evitar os comportamentos que a levaram naquele lugar. Ao entrar em contato com animal co-terapeuta, no entanto, tranquiliza-se, interage com ele e revela seus problemas (apud DELARISSA, 2003).

Em busca dessa expressão de sentimentos, não só os animais são influenciadores e facilitadores do processo, mas também o próprio ambiente que os

cerca. Segundo Oliveira (2012), a utilização de mecanismos arquitetônicos-espaciais nos ambientes pediátricos auxilia no processo de humanização sem perder a praticidade e função do espaço destinado à saúde. Sampaio et al (2010), citado por Oliveira (2012), afirma que estudos comprovam a relação direta do paciente com os espaços hospitalares agradáveis, resultando em diminuição de dor, ansiedade e evolução do quadro clínico.

Para Bergan et al (2009), crianças e adolescentes percebem uma hospitalização de forma bastante diferenciada dos adultos, necessitando de propostas arquitetônicas diferentes que se aproximem do universo que estão inseridos, a fim de que o tratamento seja encarado de forma mais positiva pelo paciente.

No caso dos adolescentes, o ambiente especializado torna-se muito importante, uma vez que a maioria das instituições médicas não possui infraestrutura pensada nesse público, encaixando-os em alas pediátrica ou adultas e dificultando o processo de aceitação e adaptação do paciente. Dessa forma, um local que atenda às necessidades de cada faixa etária permite-se “funcionar como uma ferramenta terapêutica, reduzindo a distância entre o paciente e o hospital, já que a criança e o adolescente tendem a associá-lo com o próprio lar” (OLIVEIRA, 2012, p. 52).

Segundo Ciaco (2010), a arquitetura e a humanização devem estar ligadas intimamente não apenas pelo seu conceito, mas também na sua prática. Um ambiente humanizado é capaz de atender as necessidades fisiológicas, psicológicas e morfológicas de cada indivíduo de forma agradável e benéfica ao usuário, além de promover “condições básicas de segurança, de saúde, de higiene, e de bem-estar” (CIACO, 2010, p. 68).

Quando o ambiente clínico é humanizado, apresentando espaços, cores, formas e a possibilidade de brincar, o paciente encontra-se em um local onde suas experiências e escolhas são valorizadas podendo coordenar suas atividades, criar, transformar, inventar, se expressar, e fortalecer vínculos com familiares e o corpo médico, tornando mais prazerosas as idas ao consultório (OLIVEIRA, 2012).

Um dos quesitos importantes em um local humanizado, segundo Ciaco (2010), diz respeito ao conforto ambiental. A arquitetura tem o papel de promover um ambiente confortável que proporcione bem-estar ao paciente, seja fisicamente ou mentalmente, e que auxilie no bom desenvolvimento das atividades do corpo clínico. Dessa forma, quanto ao conforto térmico, o autor ressalta a importância das sensações positivas em relação à temperatura, radiação solar e infravermelha,

umidade relativa e, principalmente, a ação da ventilação natural na melhora do paciente. Pontua, ainda, que as tecnologias de controle térmico, como peles de vidro e brise-soleil, devem ser aplicadas em harmonia com os recursos naturais para suprirem necessidades em conjunto, e não como solução de problemas arquitetônicos.

Já o conforto visual comtempla a luz e a cor como elementos importantes na recuperação do indivíduo. A luz natural proporciona a assepsia e as noções de tempo, de orientação e liberdade, uma vez que permite o contato com o mundo exterior. Em relação à luz artificial, apesar de auxiliar nos procedimentos médicos, deve ser aplicada complementarmente a natural, de forma que a aplicação combinada de ambas proporcione um projeto que valorize o ambiente e evite o consumo energético. Combinando o uso de ambas para um melhor controle de estímulos, Cruz, Abdalla e Antunes (2015) descrevem:

Salas de baixo estimulo sensorial, calmas e com distrações controláveis [...]. Assim, são importantes as salas com estímulos sensoriais específicos, utilizando-se de luz e som com técnicas interativas que podem ajudar as crianças com dificuldades de aprendizagem a melhorar sua coordenação, desenvolver a compreensão de causa e efeito ou promover o relaxamento (CRUZ; ABDALLA; ANTUNES, 2015, p. 10).

A cor é capaz de modificar a percepção do ambiente, tornando-o mais dinâmico e influenciando na orientação do paciente: por ser um estimulante psíquico, altera a sensibilidade e o humor, e produz emoções ou reflexos sensoriais, possibilitando até mesmo o complemento de tratamentos sob a forma de terapia9. A

combinação de várias cores tira a monotonia do ambiente, mas seu excesso também pode desagradar e confundir. Ciaco (2010) afirma que:

Cores neutras, como o branco e o cinza, têm aparência monótona, além de induzirem à ansiedade, tensão, medo e sofrimento, cores frias amenizam a sensação de calor; cores claras transmitem sensação de limpeza e amplitude e cores escuras transmitem sensação de sujeira e claustro (CIACO, 2010, p. 89).

Agregada ao conforto visual pode-se pensar, ainda, na importância da visualização da natureza. Segundo Sampaio (2004), a inclusão de áreas verdes em

9 Conhecida como cromoterapia, é uma terapia reconhecida pela Organização Mundial da Saúde que “usa a cor para estabelecer o equilíbrio das emoções e consequentemente, da mente e do corpo, uma vez que estes estão intimamente relacionados. ” (SOARES, 2014, p. 8)

clínicas, combinados também com a utilização da água, não só auxiliam no conforto térmico do local, mas também propiciam benefícios para todos os usuários da edificação, pois sua simples visualização é capaz, por exemplo, de reduzir o estresse e trazer a sensação de aconchego, frescor e tranquilidade (apud CIACO, 2010).

No mesmo entendimento, Cabral (2011) descreve a utilização de jardins como forma terapêutica, capazes de promover o bem-estar, a interação e a sociabilização. Classificados como jardins sensoriais, possibilitam explorar “a motricidade, a imaginação, a descontração, criando situações que induzem à emoções, extraindo da criança o máximo de seu potencial, permitindo que ela explore seus movimentos, seus cincos sentidos e também a intuição” (CABRAL, 2011, p. 20).

Para Ciaco (2010), o projeto paisagístico pode proporcionar a relação do interior da edificação com o exterior: através de aberturas, a área externa torna-se continuidade da interna, auxiliando na ventilação, na iluminação natural, e até mesmo no relaxamento físico, psicológico e na sensação de segurança temporal do paciente. Ao mesmo tempo, segundo o Manual de Conforto Ambiental em Estabelecimentos Assistenciais de Saúde, redigido pela ANVISA, as soluções paisagísticas podem auxiliar no conforto acústico da edificação, uma vez que funcionam como barreiras sonoras aos ruídos externos do terreno. O manual destaca a importância de preservar o contato auditivo com outros ambientes, permitindo ao usuário o reconhecimento de sinais sonoros desejados, porém salienta que o paciente não deve sofrer perturbações acústicas durante o exercício de suas atividades, sejam de natureza interna - de dentro da edificação -, sejam de natureza externa, como veículos ou obras vizinhas. Para tal, o órgão aconselha a utilização de revestimentos que auxiliem no controle desses fatores, como escolha específica de piso, forro e vedação dos ambientes (BRASIL, 2014b).

Somada todas as caraterísticas de uma arquitetura humanizada, esta torna-se, portanto, uma arquitetura inclusiva. Quando a criança e adolescente entendem o ambiente, sentem-se confortáveis e acolhidas. Sua segurança emocional se eleva e, por consequência, aumenta também sua sensação de controle (CRUZ; ABDALLA; ANTUNES, 2015). Para Faria (1998):

O espaço físico não se resume em sua metragem. Grande ou pequeno, o espaço físico de qualquer tipo de centro [...] precisa tornar-se um ambiente, isto é, ambientar os adultos e as crianças: viabilizando o agrupamento de poucas e/ou muitas crianças, misturando as idades, estendendo-se à rua, ao bairro e à cidade, melhorando as condições de vida de todos os envolvidos,

sempre atendendo a objetivos das atividades programadas individuais e coletivas, com ou sem a presença de adulto(s) e que permita emergir as múltiplas dimensões humanas, as diversas formas de expressão, o imprevisto, os saberes espontâneos infantis (FARIA, 1998, p.96).

Em vista disso, a arquitetura inclusiva permite, portanto, que a maior diversidade de pessoas, independente de graus de deficiência ou não, vivam os espaços criados sem barreiras criadas pela própria arquitetura (VÁZQUEZ, 2013).

4.3 ARQUITETURA E VETERINÁRIA: ESPAÇOS ADEQUADOS AOS ANIMAIS

Ao mesmo tempo que o local deve ser pensado para confortar e tranquilizar tanto os pacientes quanto o corpo clínico, funcionários e familiares que frequentam um centro terapêutico, este mesmo deve dar suporte e aconchego aos animais envolvidos nas terapias. Segundo Dotti (2014), em qualquer trabalho desenvolvido com a presença de co-terapeutas deve-se observar o comportamento afim de evitar que o cão se estresse, se machuque ou se canse demasiadamente.

O autor enfatiza a importância de evitar qualquer desconforto que venha a acometer ao cão, pois cada animal possui seu próprio temperamento e, mesmo que possua uma personalidade tolerante, deve-se assegurar que o relacionamento com o paciente não seja prejudicado. Além disso, é importante observar o limite de tempo de co-atuação nas sessões terapêuticas, variante para cada animal: seja quinze, vinte, quarenta minutos, a sessão dependerá do tipo de programa aplicado e da personalidade do animal, não se permitindo ultrapassar uma hora e meia. “O importante é que o trabalho seja feito com qualidade, preservando o animal” (DOTTI, 2014, e-book).

Em vista do bom condicionamento do animal terapeuta, seja voluntário por parte de seu tutor ou resgatado por ONGs e reabilitado, é necessário que a arquitetura promova espaços dedicados ao seu bem-estar. Para tal, é preciso conhecer suas demandas, relações e percepções para com o ambiente. Assim como as crianças e os adolescentes, os cães entendem o universo que os cerca de forma diferenciada, o que influencia em seu comportamento e não se limita apenas à alimentação, higiene e cuidados veterinários (MARTINS, 2015).

Dos sentidos básicos do cão, o olfato, a audição e a percepção tátil são aqueles que mais se destacam: seja para ouvir altas frequências na caça, procurar comida, distinguir outros indivíduos de si, perceber ameaças, reconhecer território ou procurar

parceiros. Além disso, é importante considerar sua comunicação corporal, a qual envolve naturalmente o abanar de cauda e a movimentação de patas e orelhas, bem como a sua vocalização, sendo utilizados latidos, uivos e rosnados para que ele consiga comunicar-se com outros seres e com o ambiente (MARTINS, 2015).

Segundo a Sociedade Mundial de Proteção aos Animais (WSPA-BRASIL), “os animais mamíferos são inteligentes e capazes de ter experiências emocionais, [...] se comunicam, são curiosos e criativos e principalmente conscientes ao mundo que os rodeia” (apud MARTINS, 2015, p. 77).

Em 2012, a entidade criou um documento que orienta a forma de abrigar cães e gatos de acordo com suas necessidades, categorizadas estas em cinco itens:

1. Fisiológicas e sensoriais: visa a ingestão de água e alimentação adequadas, o recebimento de estímulos aos sentidos básicos, e o tratamento veterinário a fim de prevenir doenças;

2. Físicas e ambientais: no que diz respeito aos espaços adequados para atividades, higiene, dormir e descansar;

3. Comportamentais: Estimular o animal a desempenhar seu comportamento natural, como demarcar território, brincar e socializar; 4. Sociais: permitindo a interação com outros animais, e;

5. Psicológicas e cognitivas, com o intuito prevenir tédio, ansiedade, frustação e o medo.

A WSPA recomenda que o confinamento de cães disponha de áreas cobertas e para banho de sol com metragem mínima de 2m² e 2,5m² à 3,5 m², respectivamente, quando se diz respeito às áreas individuais. É importante que a área coberta seja construída visando o conforto térmico do animal, protegendo de intempéries e proporcionando boa ventilação e iluminação que resulte em uma amplitude térmica de 10ºC até o máximo de 26ºC (WSPA, 2012).

Deve, ainda, contemplar um estrado elevado e confortável, bem como um espaço para fornecimento de alimento e água frescos e ligação direta para a área descoberta, a qual permita pequenos exercícios e uma boa visão para fora dos canis. A organização também indica a necessidade de áreas livres e coletivas para se evitar o estresse proporcionado por estes ambientes fechados (WSPA, 2012). Nas Figuras 32, 33 e 34 apresenta-se esquemas básicos de concepção de canis individuais.

Figura 32 - Planta esquemática de canil individual FONTE: TAUSZ (2015)

Figura 33 - Corte esquemático de canil individual FONTE: TAUSZ (2015)

Figura 34 - Fachada esquemática de canil individual

FONTE: TAUSZ (2015)

Segundo Oliveira (s.d.), o condicionamento de cães deve levar em consideração os fatores ambientais da área em questão. O conforto térmico deve ser

beneficiado pela circulação de ar constante, permitindo boas condições para animais de pelos densos e a eliminação dos odores, ao mesmo tempo que a direção dos ventos não ocasione problemas respiratórios ou dissemine doenças entre os cães.

É importante observar o trajeto solar para aproveitar a iluminação natural: sendo o melhor período o matutino, as baias devem ser construídas em direção ao sol nascente de inverno, permitindo que a luz entre até na área do estrado. Além de auxiliar no aquecimento, o calor pode ser aproveitado para a secagem das baias, evitando umidade e proliferação de micro-organismos (TAUSZ, 2015).

Quanto aos pisos, o ideal é que facilitem a higienização, impermeáveis e antiderrapantes, além de inclinados para favorecer a limpeza e o sistema de coleta de dejetos. Aconselha-se que o encontro com paredes seja abaulado para evitar o acúmulo de sujeira (Figura 35) ou ambos revestidos totalmente de cerâmica antiderrapante (OLIVERIA, s.d.).

Figura 35 - Detalhe de abaulamento de encontro entre parede e piso FONTE: JUNIOR (s.d.)

As paredes devem possuir altura entre 2,50m e 2,70m, totalmente revestidas de cerâmica ou, a partir da altura de 1,20m, ter pintura lavável semi-brilho. A cobertura dos ambientes deve ser concebida de forma a torná-los mais frescos, de fácil higienização e capazes de evitar a proliferação de zoonoses como pulgas e carrapatos, além de regular o aquecimento interno.

Para o cercamento, recomenda-se telas quadrilhadas ¾ até a altura de 1,80m ou barramento vertical de aço galvanizado ou inox, afim de evitar possíveis acidentes com o animal (OLIVEIRA, s.d.). É importante, também, a não colocação de cercas ou grades entre as baias, a fim de auxiliar o conforto térmico e acústico do ambiente, evitando assim o confronto entre cães e permitindo o dencanso silencioso de todos (TAUSZ, 2015).

Em relação às dependências e equipamentos para manutenção do bem-estar do animal, os depósitos de ração, preparo de alimentos e armazenamento de medicamentos devem impedir a absorção de umidade e serem arejados, impedindo a alteração das propriedades físico-químicas dos alimentos e medicamentos estocados (OLIVEIRA, s.d.).

No que tange a saúde dos envolvidos, a ANVISA (2010) delimita, a partir da Referência Técnica para o Funcionamento dos Serviços Veterinários, os estabelecimentos de saúde veterinária como espaços de realização de procedimentos de competência exclusiva dos médicos veterinários e classifica estes espaços em seis grupos de estabelecimentos e serviços, dos quais têm-se o ambulatório, consultório, clínica, hospital, laboratório e unidade de transporte veterinários. A partir disso, designa os parâmetros arquitetônicos necessários para a manutenção das condições sanitárias do local, dos quais:

- todas as áreas devem possuir teto, piso e paredes revestidas de material liso, impermeável, resistente à desinfecção, de cor clara e em bom estado de higiene e conservação (sem resíduos, sujeira e íntegros);

[...]

- um ambiente técnico não deve servir de corredor para acesso a outro; [...]

- não se deve fazer uso de ventiladores e similares em áreas técnicas; - ambientes providos de ar condicionado devem obedecer à legislação vigente (Portaria GB/MS Nº 3523/98; RDC Nº 50/02 e NBR 7256 da ABNT) quanto ao funcionamento, manutenção e limpeza;

- a iluminação e ventilação de cada ambiente deve estar de acordo com a dimensão e uso, respeitando-se as disposições legais vigentes (RDC Nº 50/02 e NBR 7256 da ABNT);

- os acessos aos ambientes e áreas técnicas devem ser cobertos [...]

- havendo concomitância das atividades de comércio e/ou banho e tosa e/ou pet shop, recomenda-se que seja garantido o acesso independente e exclusivo para a área de atendimento médico-veterinário;

- a acessibilidade da clientela deve ser garantida, atendendo-se as exigências da legislação específica em vigor para casos de prestação de serviços em sobreloja (ANVISA, 2010, p.16).

Analisando as necessidades de um Centro de Terapias Assistidas, como consultas, vacinações, curativos e primeiro socorros e eventuais tratamentos clínico- cirúrgicos como a castração e microchipagem, o núcleo veterinário da proposta enquadra-se na classificação de clínica veterinária. Esta, por sua vez, também é habilitada a ter ou não internações, desde que sob a presença e responsabilidade técnica do médico veterinário (ANVISA, 2010).

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